quinta-feira, 14 de setembro de 2017



Gastronomia Brasileira – Na Linha do Tempo traz uma visão do movimento que começou, nos anos 80, como “Cozinha Bossa Nova” até os dias atuais, em três cenários: Presente (os chefs em seus restaurantes), História (mostrando como os chefs franceses usaram sua técnica para revalorizar ingredientes locais, acompanhados por chefs brasileiros como Alex Atala, Edinho Engel e Mara Salles – e seus seguidores) e Futuro: a luta de garimpeiros e produtores de ingredientes que hoje abastecem a pesquisa gastronômica e a nossa mesa.


O livro tem, como núcleo, um relato do primeiro evento promovido pelo Caderno Paladar, em 2006, reunindo Alex Atala, Edinho Engel e Mara Salles. O encontro gerou um documento conhecido como “Declaração de Independência da Cozinha Brasileira”. O relato é do jornalista Roberto Pinto, viciado em comida e fã do movimento, que inclui batalhadores como as marisqueiras, peixeiros, queijeiros e apicultores (“Quem vem lá”). “Também queria destacar a participação de Edinho Engel nessa história”, ele diz, “um chef talentoso, empreendedor e grande praça”.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Uruguay





Fotos: 21 de Abril com José Ellaui (Punta Carretas), loja de antiguidades na José Ellaui e uma boa parrilla: La Pulperia (boa carne, ótimo custo/benefício)

Montevideo deixou de ser aquela cidade meiga e melancólica que alguns brasileiros como eu costumavam invadir pelas sombras (das árvores), ignorando os sinais da nossa derrota cisplatínica, que, no entanto, sempre estiveram bem à vista. Os monumentos do General Artigas de agora trocaram a imponência pela impotência, inclusive diante do sono insalubre de de nóias como aqueles que inundam os nossos viadutos.

Mesmo esmagado pelo sono depois de uma daquelas sessões de aeroporto que começou com duas horas de ruas inundadas e um passaporte esquecido na gaveta, corri ao mercado do porto, na manhã seguinte. Em vez das duas grelhas onde turistas acidentais da república oriental costumavam saciar-se com a segunda melhor carne do mundo, encontrei uma praça de comércio idêntica ao Mercado Municipal de São Paulo. Inclusive nos preços, derivados da inundação de brasileiros. Diversos restaurantes anódinos, cercados por malandros antigos, travestidos de garçons lisonjeiros, a assediar senhoras e seus gentis, pachorrentos, cavalheiros. Do lado de fora, em lugar dos hippies de antigamente, artesãos e farejadores de antiguidades, sobrou meia dúzia de gatos pingados vendendo quinquilharias provincianas sem nenhuma poesia.

O país de Mujica ficou mais parecido com seu pai, em algumas coisas: há lixo nas ruas e o lago do Parque Rondó virou um lodaçal. Na Praça da Independência, havia roupa secando no último andar do Palácio Salvo (abandonado). No térreo do velho edifício art decô, em lugar do ancestral Café Sorocabana, funciona agora uma loja de telefonia celular.

A Peatonal Sarandi tornou-se uma estranha combinação de shopping paulista com 15 de março. A 18 de julho, do meu aniversário e da constituição deles, de 1830, um arremedo de Corrientes, sem milonga. Mas ambas se acham entupidas de gente, como os Champs Elysees, o Covent Garden e a Quinta Avenida. Os antigos sobrados de granito cinza, com recuo de alguns metros, que lembravam Sussex Gardens, em Londres, estão desmoronando. Alguns tem gente dormindo embaixo de folhas de compensado.

As lojas exibem letreiros confusos e desconexos, mesmo em Punta Carretas, o bairro rico. Pelo menos eles se livraram do marketing que atropelou nossos costumes, há alguns anos. Mas são muito poluídos. Não sei da fé dessa gente, mas, no fim da Avenida Brasil, existe um edifício austero encimado pela seguinte testeira: Igreja de Jesus Cristo Científico.  Não perguntei do que se trata. O cartaz parece excessivo, mas nada comparável ao monstrengo que o pastor e seus bispos em pele de carneiro ergueram na Avenida Suburbana, no Rio, que Deus tenha Dom Helder Câmara (nome atual do antigo coração Zona Norte carioca). Abençoe também o  seu dissidente, Dom Paulo Evaristo: os dois devem estar se encontrando, neste momento, lá para os lados da eternidade.

Para comer um assado com vista para o mar, você tem La Casa Violeta: carne perfeita, mas preço e pretensões de amante argentina. A melhor parrilla que encontrei, por enquanto, se chama La Pulperia (em Punta Carretas). Não tem frutos do mar no cardápio, mas o dono dirige uma grelha como nunca ví: assa carne para todos os clientes ao mesmo tempo – parece ter oito braços: talvez venha disso, o nome do restaurante. A linguagem e seus joguetes: mientras parece mais generosa que entretanto; manejar é mais abrangente que dirigir, mas presuntos jihadistas nos faz rir diante da tragédia. Broma tem uma cara austera (espanhola, alguns diriam) - piada é mais rasteiro. Cola, no lugar de fila, pega  (a cola deles) e sucia, como coisa que nos pertence, soa estranho. Mas nada pior do que achar Michelangelo pintava de um jeito exquisito.

Mas as senhoras entram nos ônibus com tranquilidade – tudo bem que é o único transporte público – e são respeitadas, como algumas tradições deles: você pode ver alguns garotos de vinte e poucos anos agarrados em suas garrafas térmicas e cuias de chimarrão, nos lugares menos esperados. Pode chamar de nostalgia, mas isso me faz bem. Ah, as meninas estão usando shorts cavadinhos, como as brasileiras. Coisas assim, a gente continua exportando. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

New poor: roteiro


Começo pelo seguinte: há algum tempo, se o dono daquelas concessionárias de veículos de marcas francesa e chinesa dissesse que foi obrigado a vender seus dois aviões por causa da crise, a gente chamaria esse cara de noveau riche, assim, na língua francesa, como nos tempos de Jay Gatsby, do grande Scott Fitzgerald. O mesmo adjetivo serviria para enquadrar a Xuxa, pela casa em Trancoso-BA, e, talvez a Fernandinha Torres, pelo condomínio em Itacaré-BA. Mas, principalmente, o Ricardo Teixeira, cuja mansão, em Sunset Island-FL, deve fazer inveja àquele dublê de celebridrade do SBT e cirurgião plástico, que atende pela marca de Doctor Ray.

Depois das administrações petistas, qualquer manifestação de apreço ao bom gosto virou coisa de elite, você sabe. Como parte dessa revolução cultural, passamos a identificar o mau gosto de quem tem dinheiro sobrando como coisa de novo rico, não mais de noveau riche: festa de casamento com desperdício de caviar e lagosta dos Sarney; palácio de cantor sertanejo ou de deputado mineiro; sultões seguidos pelos respectivos haréns e sacolas de grife pelos corredores da Harrod’s, em Londres, ou da  Vittorio Emanuelle II, em Milão, e toda uma lista que vai da pulseira de ouro do Raul Gil até a Mesquita Sheik Zayed, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, que custou para lá de US$ 1,5 bi.

Entre os que passaram a ter algum dinheiro, notamos um ligeiro incremento de maus hábitos, possivelmente herdados da galera aí de cima: jogar lixo no chão; dirigir falando ao celular (se possível, com os pés sobre o painel do veículo); ouvir música (qualquer) em alto volume; falar alto (inclusive no cinema), inclusive usando palavrões; furar fila; usar adesivo no carro alardeando a própria fé (mesmo quando o possante fica estacionado numa vaga para deficientes); soltar rojão e andar sem camisa, tudo isso passou a ser coisa normal. Criticar essas atitudes – cuidado – virou preconceito.

Na era do funk-ostentação, os tênis, carrões e farras dos jogadores de futebol em Ibiza-Espanha vieram misturar-se às correntes pesadonas, raybans estilo janelão e bolsas Luis Vuitton compradas à vista nos shoppings, como fez a MC Pocahontas, autora de “Mulher de Poder”. Isso, e aqueles fins de semana em Nova York para renovar o guarda-roupa (a pretexto de atualização cultural); óculos de grau coloridões, camarotes nas baladas e longnecks compradas por R$ 10,00, em qualquer boteco de esquina. O brega, enfim, caiu em desuso.

Hoje, por conta das últimas administrações petistas, a história se inverteu, pelo menos, no meu caso: embora nunca tenha sido novo rico, e, muito menos, classe média ascendente, nos últimos meses, tive que mudar alguns hábitos, estando, portanto, apto a aconselhar meus parceiros dessa nova categoria social. O termo “new poor” que dá título a esta crônica, por exemplo, serve para desencorajar qualquer esculhambação desse novo status quo: inspiro-me no falecido Jorge Loredo, que costumava praguejar em inglês e terminava suas esquetes com a famosa hipérbole: “If I had a thousand women... au...au”.

Se você vem pelo mesmo caminho, e está se tornando um new poor, aprenda:

Nada de se hospedar em hotéis, ao visitar amigos e parentes que moram em outras cidades. Fique nas casas deles. Afinal, será só por alguns dias. Ofereça-se para lavar a louça, agrade os bichinhos de estimação da família e prepare-se para discutir as últimas do futebol (agora, tem Dunga na Granja Comari). Pense bem: Quem precisa de liberdade?

Se você resolveu trocar o escritório de sua pequena ou média empresa pelo “home office”, a fim de economizar custos, lembre-se de anunciar seus móveis e utensílios naquele site de trocas frequentado pelas amigas da sua mulher. Esteja pronto para negociar toda aquela tralha com cada uma delas. 

Lembre-se de suas últimas visitas a Marrakesh e ao Grand Bazar, em Istambul: pechinchar está na ordem do dia. Vinte centavos economizados na compra do brócolis, mais cinquenta centavos das bananas, quarenta da cebola e trinta das abobrinhas, no fim do dia, podem somar quatro ou cinco reais.

Se for surpreendido andando a pé, na direção da CPTM, do Metrô ou do ponto de ônibus, tenha consigo o livrinho “Caminhando”, de Henry Thoreau, com apresentação do escritor Roberto Muggiati (maior que o texto do autor), repleta de bons ensinamentos. Tente convencer o seu interlocutor, ou interlocutora, a fazer o mesmo. São ótimos exercícios. Caminhar. Persuadir.

Escolha bem o par de meias ou a camisa (blusa?) que você precisa comprar. Grave a cor e o modelo, e depois, saia pesquisando: nada de shopping. Uma versão popular da peça que você procura, com certeza, o espera (a espera) numa loja do Brás. Ou do Bom Retiro. O único problema é que você terá que voltar lá, algumas vezes. Nas próximas visitas, porém, pode ser que o programa de recuperação de viciados da Cracolândia do Fernando Haddad tenha mudado de lugar.

Esqueça uísque ou a vodka que faz campanhas maravilhosas na TV. Bourbon é nome de príncipe: qualquer cachaça de Blumenau-Santa Catarina ou de Salinas-MG cumpre muito bem o papel de cachorrinho que, antes, você considerava privilégio de sua bebida importada.

Nada de passear pela Alameda Lorena-SP/Capital: isso só fará aumentar a sua frustração – e você não pode mais pagar a sua terapeuta. Além disso, você não é mais um shopper, nem um  foodie, e sim um hipster (foto). Acostume-se a fazer compras nas redes de supermercados populares, se possível, naqueles onde nunca se acha nada.Vai ser ótimo para o seu bolso.

Mesmo que o seu carro não esteja saindo muito da garagem, saiba que, um dia, ele vai ter que passar por um posto de combustíveis. Inscreva-se num daqueles programas de fidelidade: você não pode perder nem uma gota desses benefícios que não custam nada. Na hora de abastecer, esqueça a gasolina. O etanol vai encher o tanque muito mais rápido, dando aquela sensação de plenitude que você não experimentava há muito tempo. 

Quem precisa dos restaurantes de alta gastronomia para celebrar uma ocasião memorável? - Os bistrôs de classe média cumprem muito bem esse papel, mesmo você não estando em Paris: no Brasil, muitos oferecem quitutes igualmente aparatosos, além das hostesses e dos vallets, nossa marca registrada. O importante é a sensação de poder que esses penduricalhos oferecem.

Fique longe dos bares e das livrarias: nesses lugares de vício e depravação, a inflação costuma ser bem maior que aquela do Banco Central. Não aconselho as igrejas: se você escapar do dízimo do Edir Macedo, vai cair nas oferendas do Padre Marcelo. Esqueça as praças e calçadas, que estão em péssimo estado, aqui na Capital: se você tropeçar, pode ir parar num hospital. E com o seu novo plano de saúde, talvez não saia nunca mais. 

Aliás, não sair de casa também pode ser uma péssima ideia: o síndico vai achar que você morreu e espalhar essa notícia por aí. Pense naquele personagem do Will Eysner, Pincus Pleatnik, o sujeito da tinturaria que depois de ter o nome publicado, por engano, no obituário do jornal, nunca mais conseguiu provar que estava vivo. Misture-se às manifestações públicas: elas são muitas, e sempre sai um lanchinho e um trocado para a condução.

A lista pode ser interminável, mas você, certamente, já entendeu o sentido geral. Prometo colher outras dicas, ao longo de meus próximos aprendizados: reparos domésticos, permutas, escambo. O importante é não se deixar abater. Nossa colonização jesuítica nos afastou daquela ética que justifica a acumulação de capital como um agrado ao Senhor, mas, em compensação, nos legou um Deus genuinamente brasileiro, que deve nos ajudar a virar esse jogo. Se até o José Marin, finalmente, foi apanhado, por que a nossa sorte não pode mudar?

terça-feira, 28 de abril de 2015

Brinquedo educativo


No meu velho Houaiss, brinquedo se define como objeto com que as crianças brincam, mas, também, como jogo ou passatempo, coisa que não deve ser levada a sério. Será que a mamãe do MC Brinquedo, de 13 anos, encara dessa forma as letras do filho, funkeiro, que virou um fenômeno na Internet? Numa rápida entrevista à TV, ela disse que, dentro de casa, ele não passa do Vinícius, que lhe deve obediência e respeito. Qualquer semelhança com o autor de Boquinha de Aparelho deve ser coincidência.

E como será que os pais da funkeira MC Melody estão encarando a ameaça de interdição da menina, de oito anos, pelo Ministério Público de SP, por causa do forte conteúdo erótico e de apelo sexual de suas músicas e coreografias? Será que eles cresceram dançando a Na boquinha da Garrafa, da Carla Perez, essa heroína da cultura nacional, parceira do divertido Cumpadre Wahington?

Segundo o G1 de 24/4, MC Melody está sendo investigada pela Promotoria de Justiça de Defesa dos Interesses Difusos e Coletivos da Infância e da Juventude de SP-Capital. Uma das representações do inquérito informa que suas músicas são obscenas, com alto teor sexual, acompanhadas por poses extremamente sensuais. “A menina trabalha como vocalista, dirigida por seu genitor”, diz o documento. Além dela, videoclipes de outros funkeiros mirins, como as MC Princesa e Plebéia e os MC 2K, Bin Laden, Brinquedo e Pikachu, estão sendo investigados pelo MP.

A sociedade discute a redução da maioridade penal enquanto crianças não-delinquentes se divertem, dançando funk, indo ao shopping – programa predileto de pais e mães – e brincando com seus tablets. De vez em quando, comem um salgadinho carregado de sódio, um biscoito recheado de gordura trans e um “suco” de caixinha, temperado com os melhores conservantes e aromatizantes que a química pode produzir. Andam de elevador. Alguns vivem dentro de carros blindados, outros, saracoteando no esgoto e no lixo. Uns poucos, cada vez menos, tiram a sorte grande de serem educados pela avó. Os demais, cheiram cola na Praça da Sé.

Há os que estudam nas escolas bilíngues, onde tem quadra, livros, educadores e brinquedoteca.  Mas entretenimento de verdade, como andar na chuva, subir nas árvores,  caçar macaco e tomar banho de rio, só no Xingu. Isso, por enquanto. Pela Internet, essa criançada pode saber como se divertiam seus pais: Genius, Cubo Mágico, Pega-peixe, Senhor Batata, Varetas, Cai-não-cai. O Atari, avô do Playstation IV, também está lá. Mas o Sacy e o Curupira, só nos clipes do Sítio, aquele concorrente do Castelo Rá-tim-bum!, que passava na Globo.

O carrinho de rolimã não resistiu ao skate, mas as bikes atravessaram gerações.  As bonecas-bebês viraram Barbies e Kens. Tem até um Ken humano, Justin Jedlica, que fez 90 procedimentos estéticos para ficar parecido com o boneco famoso. O Playcenter foi expulso da cidade por mau comportamento, mas a Six Flags Magic Mountain está logo alí: afinal, agora, todo mundo pode viajar. Brinquedos, portanto, não faltam. Se o Vinicius prefere brincar de outra coisa, problema dele. 

Não sou retrógrado: entendo que não dá mais para jogar bola no campinho da esquina, sem que um olheiro como Betinho Santos, que descobriu o Robinho e o Neymar, fique rondando por perto. Verdade que, para cada jogador que ganha 20 salários-mínimos, 450 outros vivem com apenas um. Aprendi no Bom Dia, Brasil. O de hoje, aliás (28/4) mostrou a Arena Pantanal, aquela da Copa, cercada de lixo (R$ 600 milhões).

Também entendo que não dá mais para brincar de salva na rua, fazer trilha na Floresta da Tijuca e pular o muro para roubar jabuticaba. Balão, virou coisa de bandido. Bola de gude, enfeite em vaso de arquiteto. A gente fazia estilingue, pipa e cerol. E pintava camiseta. Sobrava tempo. Ia espiar as meninas na zona. Nadar clandestino, na Hípica. Fabricar cartuchos para caçar nhambu: pólvora, chumbo e jornal. Azucrinar a vida dos outros, com todo tipo de armadilha.

Claro que o tempo se acelerou: o cara tem seu automóvel e já não vivemos como os nossos pais, embora o Ivan Lins não consiga ver isso. Menos tempo não é mais, nem trouxe novas alternativas: rolezinho, videogame e baile funk. Mas, concurso de chef júnior na TV, fitness infantil e concurso de miss-Ensino Básico são um pouco demais, não sei se você concorda.

A adultização da infância virou tema de blogueiro e deu até tese de mestrado, da professora Cristhiane Ferreguett, da Universidade da Bahia. Segundo ela, a linguagem publicitária, camuflada, passou a inserir-se em diversos gêneros de discurso, especialmente nas reportagens das revistas infantis, com claros efeitos na adultização das meninas. “A inserção precoce da criança no mundo do adulto encurta a infância”, ela diz, “até no plano fisiológico. As meninas estão entrando mais cedo no período da puberdade. Na contramão da queda da fertilidade entre as mulheres adultas, aumenta o índice de gravidez na adolescência”, adverte. O comércio, adora:  roupa de grife, sandália de salto e baton, dos oito aos oitenta.

Além de cantar no Raul Gil, garotos e garotas estão virando chefs mirins, jogadores sub-qualquer coisa, modelos esqueléticas, atores de filmes publicitários, funkeiros e chefes de quadrilha (estes, desde o meu tempo). A maioria tem celular, frequenta baladas e usa cartão de débito. Começam a beber mais cedo e sabem muito bem quanto vale um AirMax novinho, como o exibido pelo MC Brinquedo em entrevista à repórter Isabela Talamini, do portal Noisey:

“Fui entrevistar Vinícius na KL Produtora, na Zona Sul de São Paulo. A KL, assim como outras produtoras, é uma espécie de coletivo ou selo que descobre novos MCs nas ruas, e leva eles para o estúdio. Ela também é responsável por fazer os vídeos, aqueles ostentando joias, carros zero, acessórios da Oakley e mulheres gostosas. Disso tudo Vinícius entende, mas, aos 13 anos de idade, seu tema preferido é mesmo sexo”. Vinícius de Moraes, o poeta, também era louco por mulher e ninguém reclamava.

Ao mesmo tempo, tenho um sobrinho, também de 13 anos (fala, Pedrão!), estudando Confissões, de Rousseau e comparando os pontos de vista do cara com os de seu contemporâneo, Voltaire, com quem tinha uma treta. Caso o Pedro venha a se informar, por alto, sobre Marx, de um lado, e Adam Smith, de outro, e der uma olhada em Thoreau, do meu amigo Enéas Macedo Filho, vai saber mais de cultura ocidental do que eu.

Talvez isso não mude nada, em relação ao tema desta crônica. Mas eu prefiro acreditar que o Pedro, assim como Leung Pak Yue, que acabo de ver e ouvir tocando Rapsody in Blue, de Gershwin, numa gaita, e o Luca, de sete anos, que sabe onde fica Katmandu desde antes do terremoto, vão fazer mais diferença, no mundo, do que os nossos MC, Brinquedo e Melody. Desejo boa sorte a todos.

terça-feira, 3 de março de 2015

Tigres não são precavidos


Apesar do narcisismo do gesto que, neste caso, peço emprestado ao poeta Manuel de Barros, o ato de se colocar na pele de um juiz ou de um simples avaliador de um objeto, trabalho ou concurso tem um alto grau de sedução. Este ano, passei ao largo das especulações, expectativas e programação do Oscar, que eles chamam de maior prêmio da indústria do cinema, mas não consigo deixar de dar pitacos sobre algumas fitas premiadas. Desta vez, o evento me pareceu um tanto esvaziado, mas a qualidade de algumas produções garantiu mais uma safra de boa diversão.

Antes do tapete vermelho, vi e gostei de The Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson (Melhor Figurino, Melhor Roteiro Original) – inspirado nos textos do suíço/brasileiro Stephan Zweig – e de Leviatã, de Andrey Zvyagintsev, que era minha aposta para a estatueta de melhor forasteiro, como comentei neste blog, há três meses; talvez por fazer piada de meus heróis antigos, leia-se Lênin, e de tiranos atuais, como o Putin e a corrupção na administração pública de vários países, digamos assim. Filme profético, em vista do genocídio dos ucranianos e o assassinato de Boris Nemtosov, no último sábado (28/2). Mas a estatueta de Filme Estrangeiro foi para o belo, cruel e delicado Ida, do polonês Pavel Pavlikowski, um oposto de Birdman, de Alejandro Iñarritu (Melhor Filme e Melhor Diretor), que estudou direção teatral com outro polonês, Ludwig Margules.

O mestre de Alejandro Iñarritu odiava as firulas hollywoodianas e se concentrava na verdade que o ator pode ser capaz de achar e transmitir. Os críticos disseram que o realizador seguiu um caminho oposto, mas, na minha opinião, a essência do filme está mantida no trabalho de ator, que vem do estômago, tanto de Michael Keaton, como de seu parceiro de set, Edward Norton. Teatro, sem deixar de ser cinema.

Keaton foi preterido como o Melhor Ator – os americanos adoram filmes de superação e Ed Redmayn, de Theory of Everything era o Jared Leto da vez (de Dallas Buyers Club) – mas o velho ator conseguiu extrair o máximo de seu personagem, uma quase paródia de si próprio, pensando no primeiro Batman da vida real, dirigido por Tim Burton, se me permitem o jogo de luz e sombras.

Iñarritu é o segundo mexican boy contemplado com o Oscar de Melhor Diretor. Sucede o compatriota Afonso Cuarón, de Gravity (Gravidade), vencedor do ano passado. Iñarritu conseguiu a proeza de rir de um arquétipo cuidadosamente renovado pelos sobrinhos do Tio Sam, desde a Guerra Fria: o super-herói de Birdman não passa de um alterego invertido do velho ator que não consegue se desvincular de seu antigo papel, o que não chega a ser uma novidade no cinema americano (Goodbye, Dr. Spock). Mas as situações ridículas de Birdman lembram mais a pantomima da luta livre mexicana do que os malabarismos dos X-men ou dos Guardiões da Galaxia.

Ironicamente, as estéticas de Ida e Birdman opõem, de um lado, uma câmera nervosa de planos profundos – inaugurada na telona por Fernando Meirelles em Cidade de Deus – e, de outro, um velho álbum da Rolleiflex de Pavlikowski, no branco e preto quadrado das telas antigas. Os dois filmes disputaram o Oscar de Melhor Fotografia. Deu Emmanuel Lubezki (de Gravity) outra vez. Mas os ângulos geniais de Luckas Zals e Riszard Lenckzewski, de Ida, ficaram na minha retina.
  
No fim, tanto o frenesi de Iñarritu – capaz de provocar náuseas nos desavisados – quanto a narrativa (modorrenta, para muitos) de Pavlikowski, levam o espectador ao mesmo velho e bom nihilismo que vai completando quase um século de vida tranquila e saudável.

Em outro filme de homens-pássaros, Whiplash (Chicote, na tradução literal, que também dá nome a um tema do Jazz), o ator principal, Miles Teller (bom), serve de escada ao seu “supporting actor”, J.K. Simmons – irretocável, no papel (Melhor Ator Coadjuvante). Numa conversa entre os dois, o personagem de Simmons, que é maestro e professor  do baterista Teller, tenta justificar seu rigor (violência) por empurrar as pessoas para além de seus próprios limites, em busca de outros pássaros, ou “Birds”, apelido de um monstro sagrado do gênero, o saxofonista Charlie Parker.

Charlie, que morreu aos 34 anos, de overdose (1955), só alcançou a sua melhor performance depois de praticar muito, para que ninguém risse dele, como aconteceu, numa seção do Kansas City Reno Club, em 1937, quando o baterista Jo Jones, da banda de Count Basie, atirou um prato de bateria a seus pés, por ele ter errado um acorde (Parker tinha 16 anos).

Assisti o trailler de Theory of Everything (A Teoria de Tudo), que levou o Oscar de Melhor Ator (principal), e fiquei satisfeito: por enquanto, a tocante história do herói da ciência vai para o final da minha fila, ao lado de Boyhood, que verei apenas como uma boa idéia. Lembrou-me o único concurso de fantasias de que participei, há quase meio século, no Bauru Tenis Clube, aos 15 anos, metido num robô de papelão revestido de papel prateado construído com a ajuda de uma tia, Maria de Lourdes, hábil costureira e responsável por minhas articulações de entretela sanfonada. Não riam: Star Trek (a série) estreou dois anos mais tarde e o primeiro Star Wars, em 1977. 

As luzes da cabeça eram alimentadas por uma bateria escondida na altura da nuca, e tive medo de levar um choque, ao mergulhar na piscina. A coragem veio com algumas doses de Cuba Libre. Levei o prêmio principal, mas queria mesmo era ser visto pelas meninas que estariam no baile da noite.

Também não vi American Sniper (Sniper Americano), dirigido pelo terceiro velho de direita mais invejado pelos intelectuais de esquerda, Clint Eastwood (o primeiro é Nelson Rodrigues e o segundo, Paulo Francis). Mas este, certamente, será um filme mais fácil de se ver, com um dilema moral mais tranquilo de se digerir. Virou blockbuster nos Estados Unidos, mas a Academia não daria mais um Oscar a um filme sobre a Guerra do Iraque como The Hart Locker (Guerra ao Terror), de Kathryn Bigelow – primeira mulher a vencer o prêmio de Melhor Direção e de Melhor Filme, em 2010. Naquele ano, o outro candidato era Avatar, de James Cameron. Até hoje me vejo na cozinha de Kathy e James enquanto eles discutem quem vai fazer o jantar.

Quando os fatos (execuções) que deram origem ao livro de Chris Kyle, American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Military History, ocorreram – de 1999 a 2006, no mesmo Iraque que, hoje, está parcialmente ocupado pelo ISIS – Jihad John era um pacato estudante da Escola Primária de Santa Maria Madalena, em Londres, a caminho da Universidade de Westminster, onde começaria a frequentar um curso de Tecnologia da Informação, em 2006. Chris Kyle lançou a sua autobiografia em 2012 e mesmo depois de seus 260 homicídios, dificilmente poderia imaginar o grau de atrocidades que uma de suas possíveis futuras vítimas  seria capaz de cometer, dez anos depois.

Essas duas faces pertencem à mesma moeda do mundo que estamos entregando aos nossos filhos e netos, e que alguns intelectuais e empresários-pensadores insistem em tentar encobrir, comparando as estatísticas atuais da violência às mortes da Primeira e da Segunda Guerra, ambas ocorridas no século passado.

“As pessoas”, eles dizem, “vivem mais”. Têm razão. Elas vão mais longe, quando não têm suas vidas interrompidas por tiros de fuzil e metralhadora, nas pacatas ruas de nossas grandes cidades, ou pelo Câncer, de cuja cura, a Ciência nem desconfia, ou pelo Alzheimer, que transforma as suas existências em pálidas sombras daquilo que elas foram um dia, desafiando as emoções de seus entes queridos. Enquanto isso, à nossa volta, vicejam o ódio, a intolerância, a miséria e a ignorância.

Talvez por isso, os nossos jovens venham prescindindo, cada vez mais, do seu próprio futuro, em troca de uns poucos momentos de glória ou de prazer. Mariposas, cantadas por Adoniran Barbosa. Rainhas de bateria afundando no lodo. Manuel de Barros queria que as borboletas governassem o mundo. Poderiam ser cavalos. Gatos são preguiçosos, elefantes, lentos e tigres, imprevidentes. Macacos pensam demais. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Fim de carnaval


De volta ao trabalho, hoje, quarta-feira, 18/2, depois de uma pausa revigorante em Aiuruoca-Minas, ao pé Serra da Mantiqueira – onde revisitei cachoeiras da era  pré-Isis Valverde e assisti a uma animada discussão sobre as contribuições de Ramsés II e Amenotep III à espiritualidade humana – ouço, pela Rádio Estadão, uma acalorada polêmica entre os jornalistas, Cesar Sacheto e Luís Antonio Prósperi, sobre o momento no qual o técnico Felipe Scolari, também conhecido como Felipão começou a se perder: se antes ou depois da queda do Palmeiras à segunda divisão, em 2012.

“Ele já tinha sido demitido do Chelsea”, disse um. “Mas tinha recuperado o prestígio da seleção brasileira ao ganhar a Copa das Confederações, em 2013”, rebateu o outro . A conversa teve muitas nuances e passou, claro, pelo retumbante fracasso dos 7 x 1 para a seleção alemã. Finalmente, ambos concordaram: sem jogadores, nenhum técnico consegue fazer milagres. “Nem o Anderson Silva, sem os anabolizantes”, teria arrematado o comentarista do programa, Roberto Godoy, em cuja opinião, o Anderson, além de tudo, foi burro: “Todo mundo sabe que a androsterona é um agente cancerígeno”.

A conversa do Vale do Matutu sobre os faraós foi mais produtiva: descobri que, ao enfrentar um leão, você não pode quebrar a sua harmonia. Senão, babau. Não por acaso, imagino, reza a cultura egípcia que Amenotep III foi um injustiçado: passou para a história como um déspota epicurista que vivia caçando leões só para quebrar o tédio, mas, em vez disso, foi um orientador do povo que seguia à risca a sua missão divina e matava leões apenas para ensinar  que a ordem deve prevalecer sobre o caos.

No Brasil de agora, o PT, que completa 35 anos, denuncia uma conspiração das elites para enlamear a sua reputação , responsável, segundo a imprensa burguesa, pelo mais alto índice de corrupção jamais visto neste país. O objetivo da intentona, além de comprometer a moral da agremiação, seria interromper as conquistas do povo e da democracia. Como o acesso à educação que, pelo visto, só não alcançou a população da capital paulista, cujo governo (petista) está sendo obrigado a substituir as lixeiras de plástico das ruas por outras, mais econômicas, feitas de saquinhos presos em aros de arame. Tudo por causa de uma parcela de vândalos que não aprendeu a conviver em sociedade.

Quem sabe essa providência sensibilize as pessoas que têm por hábito jogar lixo nas ruas, como no meu quarteirão – personagem frequente das coberturas das inundações – por onde a equipe de limpeza do Fernando Haddad só passa uma vez, a cada dois meses.

Enquanto a presidente Dilma reflete sobre a queda de sua popularidade numa base naval de Aratu, Bahia, especialistas em energia preveem um aumento no preço do insumo superior a 60% este ano – isso para as indústrias. O ex-presidente da Confederação que representa o setor e atual ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro Neto, por sua vez, luta para desfazer os embaraços criados pela diplomacia dos dois governos petistas que o antecederam nas relações comerciais do país, tentando não desprezar o maior mercado do mundo, que, ao contrário do que assessores informaram à chefa da Nação, não é o nosso.
  
Havia outras notícias, hoje, ao redor, além das inundações e da falta d’água, dos estupros vitimando adolescentes cada vez mais jovens e dos brutais acidentes nas estradas: a expectativa quanto ao resultado da campeã do carnaval carioca que, mais uma vez, refletiu fatos marcantes da nossa sociedade, como: a frequência da classe média aos motéis, os esportes radicais (paragliders, surf, cama elástica), a crise da Petrobras, o antagonismo entre a liberdade e racismo, e aqueles temas praticamente inéditos nos desfiles de escolas de samba, como a importância do negro na nossa história e a força da mulher brasileira.

Em sua crônica do dia, na FSP, o grande Rui Castro especula por que as atuais marchinhas dos blocos não “estouram” como na época de Lamartine Babo, Haroldo Lobo, Braguinha e João Roberto Kelly: “Garota Saint-Tropez”, “Eu agora sou feliz”, “Mulata Iê-iê-iê”. Afinal, milhões de jovens saíram às ruas para comemorar o carnaval. Seria – ele indaga – falta de percepção desse potencial, por parte da “indústria do carnaval”? – Estamos velhos, Rui, deve ser isso: nada gruda na geração dos tablets e do prazer instantâneo, exceto o band-aid. Provavelmente, a vencedora do carnaval carioca será a escola que fez o desfile mais técnico.

Mas o papo esotérico, este sim, faz sucesso entre os jovens. No meu tempo, eram os deuses astronautas. Sirianos, de acordo com a leitura atual da Confederação das Galaxias sobre o trabalho do Conselho Principal de Lira na Constelação Vega, em curso, desde os anos 1980, para integrar a terra aos 36 outros planetas do sistema solar, administrados pela organização. O objetivo é livrar o nosso planeta da barreira de frequência que obstrui a nossa comunicação com os demais planetas, por causa da carga negativa que nos foi imposta, há quatro milhões de anos, pelos alfa draconianos e pelos reptilianos  (esconjuro), em guerra com os seres da luz.

A seguir, no meu tempo, vieram: A Erva do Diabo, de Carlos Castaneda (1968), cujo título original era Teachings of Don Juan – A yaki way of knowlewge e O Despertar dos Mágicos, ou Le Matin des Magiciens, de Louis Pawels e Jacques Bergier (1969). Empolgados, mergulhamos no Mistério das Catedrais, de Fulcanelli, pseudônimo adotado pelo politécnico francês Paul Dacoeur (1839-1923), segundo o seu discípulo, Eugene Canseliet, em entrevista ao Le Figaro, em junho de 1965. E assim, viramos todos alquimistas, incluindo o Jorge Benjor e aquele amigo do Raul (Seixas).

Para os esotéricos do momento, aliás, as emanações de energia do mundo superior – das quais os faraós, Jesus, Buda, Maomé e outros profetas – foram apenas transmissores ou guias, esse caminho tem mais atrativos do que a Disney, a ciência de Stephen Hawkins e do Thomas Piketty, que a tecnologia de Jobs ou a arte de Tomie Otake, que acaba de ultrapassar a nossa fronteira.

Você pode se divertir lendo a entrevista de Ramsés II sobre a batalha de Qadesh (“Eu acreditava numa vitória fácil sobre os hititas”) e o segredo para viver 90 anos, numa época em que a maioria morria aos 35 anos, mas não tem porque dar risada dos passos que, segundo os mestres esotérios, nos faltam para ascender a uma escala mínima da evolução: acabar com as guerras e com a exploração indiscriminada dos recursos naturais e das pessoas; eliminar as drogas pesadas, a intoxicação e a fome; amarmos uns aos outros; aceitar, individualmente, a responsabilidade coletiva pelo planeta; acabar com a corrupção desenfreada, com a opressão religiosa e com empobrecimento das massas em benefício de alguns controladores da riqueza.


Nada mal, para começar, certo?

domingo, 30 de novembro de 2014

Questão de hábito - Acumule pontos e aproveite a viagem*


Na semana mais agitada de minha história recente, duas frustrações vieram juntar-se ao meu currículo, ambas relacionadas a mudanças: uma, de proporções homéricas – o resultado das eleições (eu torcia pelo outro lado); outra, doméstica – a patroa foi embora, cuidar da transferência da minha sogra para um apartamento, no interior. A gente briga o tempo todo, eu e a patroa (a sogra é uma santa) mas, sem ela, eu, que já fui um vira-lata, desses que correm atrás de qualquer coisa em movimento, viro um cérbero, aquele cachorrão do Hades, que acabou casado com uma Quimera.

A minha agenda lotada incluía uma análise de menções a uma grande empresa nas redes sociais. Era um trabalho pesado, mas que me trouxe alguma adrenalina. Depois dos sessenta, você não sente isso com frequência, assim como algumas outras sensações. As planilhas tinham links para os posts capturados pelo monitoramento das marcas na Internet. Vi coisas sensacionais, como a frase de um trabalhador numa das indústrias do cliente, “Bora fazer panetone” e outra, de um sujeito prestes a ser entrevistado para uma vaga de emprego: “Amanhã entrevista na empresa xis; c deus kse vai da tudo serto”. Claro que se eu fosse do RH da firma e lesse essa mensagem antes da entrevista, bye bye vaguinha.    

A Internet tem essas coisas. Quando eu saía para uma reportagem, nos anos setenta, passava pelo departamento de pesquisa da empresa e recolhia duas, às vezes cinco, ou até dez laudas de material de apoio (laudas era como se chamavam as folhas datilografadas e/ou xerocadas, na época). Ia estudando o assunto, no carro do jornal, da redação até o local da entrevista. 

Hoje, com dois clics, você está dentro do tema, da história do jazz – essa manifestação artístico-musical que nasceu em New Orleans, ou Chicago, ou New York, no início do século XX (segundo o site de busca) – até a culinária.

No último domingo, aliás, fui para a cozinha (restaurante, a toda hora, não dá) tentar a sorte numa carne de sol com queijo de coalho e mousseline de aipim. Que aipim e mandioca são a mesma coisa, eu já sabia, mas aprendi na Internet que a carne de sol tem que ser feita na sombra; que o charque era uma carne salgada transportada por tropeiros em baixo da sela de mulas, no século XVIII. E que mousse, em francês, não passa de espuma. Não importa, na minha opinião, desde que seja de chocolate. 

De quebra, fiquei sabendo que a carne de fumeiro, uma variação defumada da carne de sol, tem melhor sabor quando feita pelo método artesanal, mantida a uma distância mínima de 40 cm do braseiro (para não ser contaminada de alcatrão) e a uma temperatura máxima de 100 graus, para não se encher de hidrocarbonetos policíclicos (fumaça tóxica).

Tem o processo industrial, que usa hidrogênio e corante, mas isso não me interessa. Aprendi com o Michael Pollan, um americano maluco por cozinha que fez sucesso na última Flip (Feira Literária de Paarati), que nada se compara ao prazer de cozinhar a própria comida, cujos ingredientes você tem que saber de onde vêm. 

Quem também fez sucesso na Flip, há dois ou três anos, foi aquela moça, a Ana Paula Maia, que escreveu “De gados e homens”. A Folha caiu matando na coitada: o crítico usou Camões para dizer que ela falhou, no engenho e na arte. Essas coisas não se deve espalhar por toda a parte. O cara foi muito além da Tapobrana, que eu sempre me esqueço onde fica.

Não achei o livro assim tão ruim. Tem umas colagens de violência que o Quentin Tarantino trouxe até as pessoas da geração da autora. Mas quem gosta de carne, se impressiona: a história se passa num abatedouro, você sabe como é. Só que eu sempre achei o máximo aquela frase do Torquato Neto, espécie de tio do Caetano Veloso e padrasto do Raul Seixas (para você, que está chegando agora): “Leve um homem e um boi a um matadouro. Aquele que berrar é o homem, mesmo que seja o boi”. Com fome, aliás, eu como até o tutano do bicho.

Por falar nisso, você conhece aquela frase, dizendo que quem não foi comunista, antes dos trinta, não tem coração? – Concordo que depois dos trinta, a central de utilidades endurece um pouco, mas o cérebro continua alí: - Afinal, você deixou de ser comunista. Mas, para mim, quem continua jornalista depois dos sessenta, como eu, precisa de terapia.

Gasto o meu tempo livre lambendo as próprias feridas: um beethovenzinho aqui, um Randy Newman acolá, um sonzinho do Tommy Dorsey para curtir um livrinho, uma goiabinha em calda como a que acabo de preparar, a palestra sobre A Inveja no Café Filosófico da TV Cultura, uma espiada na mostra de Salvador Dali. Se dói? Nada. Gasto dinheiro? Tampouco. Depois dos sessenta, você pode não funcionar tão bem, mas entra de graça num monte de lugares.

Claro que poderia preferir um Zezé di Camargo e Luciano, com suas rimas fáceis e melodia suave, “primeira voz, segunda voz, tremidinha no final”, mas prefiro ver os dois no artigo do Gustavo Amendola que saiu no suplemento cultural do Estadão de sábado, falando da separação do Zezé e da Zilu: “Deu a louca no sertão”. Mais divertido. A frase de Zezé para justificar a separação: “Cavalo velho gosta de capim novo”. Reação da namorada jornalista (mulherão) à frase que definiu a ex como velha e feia e comparou a nova a um tipo de pasto: “Fiquei até emocionada”. 

Se você sugerir esses produtos daquilo que o filósofo Theodor Adorno definiu – pejorativamente – como indústria cultural, em oposição ao que o seu colega da Escola de Frankfurt, Herbert Marcuse, chamava de cultura de massa, vão achar que você pirou. Como? – Coisa de elite branca. Se o Lula ficar sabendo, você vai para a fogueira. Queimar livros, aliás, é a brincadeira que ditador adora: o Hitler, o Mao. Stalin fazia pior: queimava as pessoas e depois, mandava apagar das fotografias. Dois ou três caras, numa foto imensa, cercados por um monte de sombras. Tenebroso.

Mas, mesmo numa semana atribulada, cheia de problemas e frustrações, descobri que a Mostra de Cinema de SP estava quase no fim. Entrei na Internet – olha ela aí, de novo – e, pronto: troquei três horas de dois fins de tarde, um início de noite e um sábado por algum trabalho fora de hora e pude ver quatro filmezinhos supimpas, como se dizia no tempo do meu avô. Só vou falar sobre um deles, Leviatã, de Andrei Zviaguintsev, que ganhou a palma de Cannes de Melhor Roteiro e o prêmio da Crítica da Mostra paulista.

Se você puder, não deixe de ver: além do “melhor roteiro” (amizade, paixão, sedução, adultério) e da fotografia brilhante, o filme é um grito de socorro do povo russo mostrando como a corrupção pode corroer os costumes sociais a ponto de aniquilar seus indivíduos (seres humanos). Tudo isso, envolvido numa deliciosa calda de clichês: vodka, mulher bonita e um piquenique com tiro ao alvo, usando a arma-símbolo do país, o velho AK-47, que os nossos traficantes adoram. Foi uma catarse. Melhor que isso, só se na sala do prefeito corrupto, em vez do retrato do Putin, tivesse uma foto do nosso ex-presidente paz e amor.

Entender “a mensagem” desse filme foi como devorar um inimigo. Assim como dá trabalho ver a mostra do Salvador Dali, quando você também respeita o Picasso e o Goya, mas cultua Velazquez. Eu sempre gostei de Don Quixote, de Cervantes, mas o meu personagem espanhol preferido é o Marques de Carabás, do francês Charles Perrault, um macunaíma espanhol, se isso fosse possível. O melhor da história de Perrault é o momento em que o parceiro de Carabás, o famoso Gato de Botas, desafia o bandido, um leviatã em forma de leão, a transformar-se em ratinho, e logo depois o devora. Ambos são bichos, mas o final não podia ser mais antropofágico.

Não me diga que não dá para consumir cultura. Eu sei bem o que é acordar cedo, pegar condução lotada e trabalhar como um boi para pagar a faculdade. Mas se você conseguiu ver todos os filmes da série Crepúsculo, o novo Drácula e o Homem Aranha, também se pode achar um tempinho para ir ao museu; vez por outra, ao teatro, e arranjar um trocado para comprar um bom livro ou ler um jornal, de cabo a rabo. A internet pode muito bem, em vez de emburrecer, ajudar. É como aquela frase de anúncio de banco: “Tecnologia a serviço do homem”.

Aqui mesmo, neste artigo, se você usar todas as palavras grifadas em seu site de busca, como um videogame, ou um Jogo de Amarelinha (Cortazar), e entender o significado de cada uma, terá muito a ganhar. Recolha ponto por ponto e vá saltando as estações, de baixo para cima, passando do inferno ao purgatório e terminando lá em cima, no título, ou na conclusão que ele sugere e descubra que cultura, acima de tudo, é uma questão de hábito.

(*) Artigo feito para a revista Circuito Cultural, que serviu como Tese de Conclusão de Curso (TCC) de formandos da Faculdade de Comunicação Social da UNIP (2014).

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Notícias do lado de cá


Corro o risco desta mensagem se parecer com aqueles bilhetes de amantes do século XVIII, mas, sendo você, meu amigo/amiga esse/essa famoso/famosa âncora da TV, prefiro parecer ridículo a expor a sua identidade e o seu modo de pensar, neste espaço público. Isso poderia prejudica-lo/a nesta aldeia em que trabalhamos e vivemos (assim mesmo, nesta ordem), e que, nestas eleições, votou amplamente contra o governo - reeleito, embora chamuscado e, quem sabe, renovado - embora nisto, me custe acreditar.
  
Li, ontem (26/10), no intervalo entre dois dos poucos filmes desta 38ª Mostra de Cinema que consegui ver – Sangue Azul, de Lírio Ferreira, e Um pombo no galho refletindo sobre a existência, de Roy Andersson – o artigo do sociólogo Jessé de Souza, da UFF, no caderno Aliás do Estadão, também de ontem, que você me recomendou: “O caminho da inclusão”.  Seguem algumas observações.

A tese do sociólogo tem piada, como dizem os portugueses, o que deve ter chamado a sua atenção: de fato, nos últimos 12 anos, fomos governados pelas forças derrotadas em 1964, que representavam os nossos anseios por uma sociedade mais inclusiva, mas que não detinha o efetivo controle das práticas econômica e sociais vigentes no país.

“A fragilidade”, diz o articulista, “das conquistas obtidas por esse modelo de governo é explicada pela manutenção da força social e econômica do modelo anterior". Para o sociólogo, o mote do Estado ineficiente e corrupto, contraposto à suposta virtude e eficiência do mercado representa “a única bandeira de legitimação do modelo excludente de uma sociedade ainda detém o poder real”. Para ele, esse é “o único pretexto por meio dos quais os interesses privados do 1% mais rico podem ser travestidos do suposto interesse geral”.

Lembro aqui uma das frases típicas do comandante geral das referidas forças que nos governam, há 12 anos, ao discursar, enquanto presidente, na inauguração de um estabelecimento de conhecida rede varejista: "Quanto mais tempo a gente der de prestação e quanto mais barata a prestação, mais as pessoas vão poder comprar, porque no meio da parte mais pobre da população, eles não têm a preocupação se vai custar cinco ou seis vezes mais" (sic).

Ora, se o modelo que representa os anseios por uma sociedade mais inclusiva chegou ao poder pela via democrática, preconizando o reformismo, em vez da substituição do Estado burguês pela ditadura do proletariado, rumo à socialização dos meios de produção que nos conduziria à sonhada anarquia, por que razão o sociólogo quer atribuir os desvios do atual governo  – que ele chama de fragilidades – aos vícios de uma classe dominante que permanece no poder?

Os “progressistas”, que eu, a propósito, não reconheço como tal, costumam desdenhar das críticas aos notórios casos de desvios de patrimônio público cometidos pelo tal modelo inclusivo, nos últimos 12 anos. Para esses “progressistas”, como você sabe, as críticas não passam de “moralismo burguês”. 

Possivelmente, no inconsciente deles,todas as mazelas dos governos “populares” são justa vingança contra a opressão da classe dominante ou, no caso dos bem nascidos, como nosso ídolo, Ernesto Lynch, representam uma expropriação legítima da riqueza para redistribuição aos menos dotados: coisa de Saint Simon, ou de Guilherme Tell, dependendo do grau de escolaridade do interlocutor.

Não concordo com a simplificação de Jessé de Souza ao atribuir o caráter de ladroagem ao jogo especulativo do mercado de capitais. A Universidade Federal Fluminense não vem se comunicando com a Fundação Getúlio Vargas. Mas ouso cometer o mesmo erro ao afirmar que um líder das massas capaz de congratular-se com uma empresa privada que explora a boa fé e as carências do consumidor de baixa renda não tem “moral” para conduzir um projeto de poder voltado à redução das desigualdades.

Quem são, afinal, os parceiros e principais beneficiários da expropriação dos recursos que fluem para o Estado burguês, advindos dos impostos da “elite” que votou contra o atual modelo “inclusivo” de governo? (quase 50% dos brasileiros): – O povo? - Recursos destinados pelo atual governo ao Bolsa Família somaram R$ 24,5 bilhões, em 2013. Somente o orçamento da refinaria Abreu e Lima – apontado como um dos principais focos de desvios pela Operação Lava Jato – saltou R$ 2 bilhões para R$ 18 bilhões.

Talvez o nosso grande líder não importe com o fato de uma obra pública custar cinco, seis ou dez vezes o seu valor real (como não importa, para o pobre, segundo ele, o número de prestações que ele tem a pagar). Mas será que essa diferença vai parar no bolso dos 99% que, segundo o sociólogo Jessé de Souza, não têm acesso à riqueza? - Não é bem o que as investigações da Polícia Federal e da Justiça vêm indicando.

Que tipo de reformismo, afinal, vem a ser este, que, para manter-se no poder, permite o desvio de alimentos, remédios e recursos produzidos por milhões de cidadãos que pagam seus impostos em dia? - Será que a decisão de destinar bilhões do BNDES – um banco público – aos “campeões” do empresariado nacional pode ser considerada como parte dos “limites”  impostos ao modelo inclusivo pela sociedade conservadora? 

Segundo Jessé de Souza, “o mercado capitalista, aqui e em qualquer lugar, sempre foi uma forma de corrupção organizada, começando pelo controle dos mais ricos acerca da própria definição de crime: o funcionário do Estado corrupto e o batedor de carteira, enquanto o especulador de Wall Street (matriz da Avenida Paulista), que frauda balanços  e arruína o acionista minoritário da bolsa, ganha bônus milionários e sai na capa da revista Time”. Cândido. 


Jessé de Souza insiste em afirmar que, no Brasil, 1% detêm 70% do PIB e 30% referem-se aos salários dos outros 99%. Inverídico. E que, nas sociedades capitalistas mais dinâmicas, como França e Alemanha, essa relação é inversa. Esquece-se, convenientemente, de que as Leis contra a corrupção, nesses países, incluem, além de severas penas de prisão, multas de valor exorbitante e penhora de bens dos condenados. Que um deputado, na Suécia do cineasta citado acima (Roy Andersson), vive num apartamento funcional de 40 m2, servido por lavanderia comunitária, sem empregada. E com uma regra clara: “Deixe tudo limpo”. Nenhum parlamentar sueco tem direito a carro e muito menos, a motorista.

O sociólogo também diz que o brasileiro “é tolo por suportar uma transferência de renda incompatível com o que ocorre na Europa, por meio do superfaturamento de bens e serviços, além de juros muito altos”. Esquece-se, mais uma vez, convenientemente, que o principal lider do modelo inclusivo que governa o país há 12 anos sempre desprezou, publicamente, a educação formal, considerada, pelas sociedades avançadas, como a principal, senão a única, ferramenta de libertação da parcela mais pobre da sociedade. 

Esperto, esse líder do modelo inclusivo tem uma notória capacidade de transformar pequenos deslizes de seus opositores em chavões facilmente compreensíveis pelo “povão”, e que, depois de repetidos à exaustão, acabam ganhando uma dimensão real, posteriormente transformada em teses por seguidores apaixonados, mantidos pelas universidades públicas (como o autor do artigo recomendado por você).

Segundo o sociólogo Jessé de Souza, aliás, “o Estado é o único lugar onde a corrupção ainda é visível e, como tal, tem alguma possibilidade do controle real”. Isso, meu caro amigo, não é poesia, nem dialética.Trata-se do mais absoluto delírio. Assim como só pode ser insano afirmar que “os protestos de junho de 2013 foram promovidos pela classe média, sócia menor do 1% de endinheirados que defende os privilégios de uma pequena minoria”. 

Talvez você, proprietário de um carro confortável, conquistado com mérito e esforço próprios – não esteja habituado ao transporte público aqui da aldeia. Eu, sim. Posso garantir que as manifestações de junho não foram massa de manobra da elite branca.

Não parei de ler o artigo do Jessé de Souza nem quando ele disse que "a oposição reflete a raiva ancestral de uma sociedade escravocrata, acostumada a um exército de servidores cordatos e humilhados, o que explicaria a tolice dos que compram a idéia absurda de mais mercado no país mais injusto e concentrado do mundo”. Exemplos (meus) dessa “tolice”: obras públicas superfaturadas, beneficiando empreiteiras patrocinadoras de campanhas eleitorais; manutenção artificial do nível de emprego por meio de privilégios para um determinado setor da economia, em detrimento de outros; política fiscal desastrosa, mantendo o inchaço da máquina pública e o controle da inflação com o represamento de tarifas públicas. - Muito técnico, para um sociólogo?

Mas me diverti com a afirmação final do artigo, de que “foi com um mínimo de estímulo que as classes populares voluntariosas encheram de otimismo e vigor uma sociedade estagnada e decadente”. Provavelmente esse “mínimo de estímulo” a que ele se refere são os shows de axé, comícios animados por cantores de sertanejo universitário ou festas populares no interior da Bahia, promovidas com uma “mínima parcela” do patrimônio público expropriada da tal minoria escravista de 1% da sociedade brasileira. Tudo em nome da promoção da classe oprimida às benesses da sociedade moderna, certo?

Bem, agradeço a diversão, mas devo confessar que gostei mais dos filmes acima citados, produtos da “indústria cultural” criticada pelo colega de Jessé de Souza, o filósofo Theodor Adorno (1903-1969), que ambos já curtimos, e que tem uma frase boa para o momento que vivemos: “Ou a humanidade renuncia à violência da lei de talião, ou a pretendida práxis política radical renova o terror do passado”. 

Em retribuição, convido você a ver um outro filme da Mostra, Retorno a Ítaca (Laurent Cantet), baseado num conto do cubano Leonardo Padura Fuentes, que conta a história de um exilado  que volta à ilha e reencontra amigos que não vê há 15 anos. Afloram conflitos como os que perduram entre nós.  – Por que Cuba? – perguntaram a Cantet. – Porque ela foi mitificada no imaginário da esquerda – ele respondeu – mas permanece como um foco de resistência ao mundo globalizado. 

Foto: "Um pombo..." Trailler: https://www.youtube.com/watch?v=MhpedyLXevo#t=42

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Vamos erguer novos barracos e arranha-céus


A situação do povo das favelas, especialmente o da comunidade Sonia Ribeiro, no Campo Belo, SP/SP, que pegou fogo no dia da Independência (7/9), não permite piada. Portanto, a decisão do prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, de autorizar a reconstrução dos barracos destruídos pelo fogo, “desde que respeitadas as normas”, não pode ser brincadeira.  Tenho poucos amigos engenheiros (talvez o Gustavo Campos, meu sobrinho), mas vou buscar ajuda para tentar identificar os meios disponíveis para tentar viabilizar a decisão do prefeito.  

Normas – eu tive uma tia com esse nome, já falecida – caso ele esteja se referindo a pessoas, já não se encontram assim, facilmente: conheço Suelens, Tatianas, Verolanges, Edivânias e Suelis, mas Norma, nenhuma. Não deve ser isso. O prefeito deve ter se referido a regras, condições específicas, sem as quais, ele não vai permitir a reocupação da favela.

Devem estar previstos, portanto: projeto e execução de saneamento básico; eliminação de “gatos” de energia elétrica; medidores de água monitorados pela Sabesp por meio de “smart grid”; materiais de construção leves e inflamáveis, como kevlar e nomex; isolamento termoacústico (para evitar potenciais desentendimentos entre vizinhos) e Brigada de Incêndio, com reuniões semanais entre técnicos da prefeitura e bombeiros voluntários.

“Vista como uma exceção pela gestão”, diz a Folha de S.Paulo de 12/9, “a reconstrução dos barracos passou a ser cogitada diante da resistência de muitos desabrigados a aderir ao programa social da Prefeitura” (auxílio aluguel de R$ 1,2 mil, a cada três meses). "Nosso acordo é que, se houver reassentamento no local, em função de que o bolsa-aluguel não resolve o problema, será feito mediante orientação dos engenheiros da Secretaria de Habitação”, declarou o prefeito. "Para impedir riscos".

Os moradores da favela estão divididos entre aceitar o bolsa-aluguel ou reconstruir os barracos. "Eles só querem que a gente saia para cercar o terreno. Aí vai chegar o engenheiro e dizer que não é apropriado para a gente morar", afirma o auxiliar de servente Robson Dalmo, 37. "Por isso, o pessoal quer construir de novo os barracos", afirma.

"O prefeito veio aqui, tomou café e foi embora. Se fosse bom mesmo, dava bloco para todo mundo reconstruir", diz a diarista Neusa Joaquina de Santana, 40. Entre os moradores que pretendem optar pelo auxílio-aluguel, há o medo de perder mais um barraco. "Depois, eu gasto três mil em material e eles mandam derrubar", afirma o vigilante José Alcides da Gama, 55, que está na casa de parentes.

Ao reconstruir os barracos da comunidade Sonia Ribeiro, talvez o prefeito possa aconselhar-se com a presidente do país vizinho, Cristina Kirchner que, há poucos dias, anunciou a construção do prédio mais alto da América Latina, na confluência dos rios da Prata e o Riachuelo (considerada a via fluvial mais poluída do país). O prédio terá 67 andares e “a magnitude do Central Park, de Nova York”. Segundo Cristina, será "um símbolo de Buenos Aires". A decisão, de acordo com a presidente, foi tomada com base numa experiência esotérica durante a qual ela descobriu ter sido, em outra encarnação, um arquiteto egípcio (talvez o construtor da pirâmide de Keóps).

Eu também gostaria de ouvir o nosso colega, Washington Novaes, a respeito da ideia do Fernando Haddad. Além da competência profissional e das reconhecidas consciência e militância ambientais, o Washington navega, há anos, nos problemas da ocupação desordenada das cidades.  Em artigo publicado no Estadão da última sexta-feira (12/9), ele mostrou-se perplexo diante da completa ignorância, pelos candidatos à presidência, governos estaduais e parlamento, de questões verdadeiramente importantes para os habitantes das grandes cidades.

Washington lembrou que o déficit habitacional de 6 milhões de moradias no país foi mencionado nos programas dos candidatos à presidência enviados ao TSE, mas os problemas urbanos – como a mobilidade, que gerou os protestos de junho – foram apenas contornados. Não há, por exemplo, nas plataformas de campanha, nenhuma referência à expansão desordenada de megalópoles como Rio e São Paulo, que já tem, hoje, 85% de suas respectivas áreas totalmente ocupadas.

“Em 1960, tínhamos apenas 45% de urbanoides e 55% das pessoas no campo. Sem políticas adequadas”, alerta o jornalista, “chegamos onde estamos e caminhamos para uma concentração ainda maior - embora possa haver políticas adequadas, como a adotada em Portland, nos Estados Unidos, que conteve o seu crescimento horizontal, ou Guelph, no Canadá, que refreou a sua expansão vertical. Somos a quarta maior população urbana do mundo e não levamos em conta prioridades capazes de estimular ou inibir esse crescimento”.

“O que se deve pensar”, pergunta Novaes, “quando o próprio Conselho Municipal do Patrimônio Histórico está deixando de lado regras que dificultavam a construção de prédios e reformas vizinhas a bens tombados em São Paulo? Segundo as notícias, oito regiões da capital paulista que estavam congeladas por uma lei de 1992 já podem receber empreendimentos sem autorização prévia, inclusive a Praça da República e os corredores do Colégio Sion, em Higienópolis”.

"Não bastasse a explosão populacional, a preferência, em nossas cidades, é por apartamentos: 210 mil pessoas saíram de casas em São Paulo para edifícios residenciais, em cinco anos, e já são 37% do total de habitantes, que alegam como razão principal para isso a "segurança". Mas onde está a discussão entre segurança e formatos de viver? E onde foi parar o debate sobre a qualidade de vida, em cidades como São Paulo, onde são despejadas, a cada ano, 71,6 milhões de toneladas anuais de dióxido de carbono - dez vezes mais que há uma década?"

Novaes também fala do emaranhado de cabos que enfeia as cidades, dos bilhões gastos para conter as enchentes, do desperdício de água encanada, em plena “crise da água” (65%, em cidades como Cuiabá e Recife, 30% em São Paulo), problemas aos quais se poderia acrescentar o barulho, o alto custo de vida e o trânsito. Nenhum dos candidatos à presidência da República (2014) discute isso.

O tema da corrupção, por sua vez, levantado pelo William Waak no Globonews Painel do último sábado (13/9), parece não sensibilizar mais ninguém. Segundo o cientista político e filósofo Fernando Schuller, da UFRGS, mais de 70% dos brasileiros consideraria normal obter vantagens em pequenos ilícitos, como aceitar propina ou empregar um parente num cargo público, caso tivesse essa chance.

Os candidatos à presidência - que incluem um ex-governador e uma presidente “gerentona” - preferem duelar sobre falsos dilemas morais e indicadores macroeconômicos, deixando de lado a qualidade de vida dos cidadãos. Nesses momentos, aliás, todos prometem cuidar da Educação e da Saúde – as duas chagas mais sensíveis da sociedade brasileira – mas não  explicam com que recursos farão isso, e nem porque não o fizeram até hoje.

A grande discussão da campanha política – além do mal estar entre as duas principais candidatas em torno dos propinodutos de uma e das idiossincrasias de outra – está em quem é mais parecido com o Levy Fidelix, do Aerotrem: o Mr. Spacely Jetson, do desenho futurista, ou professor Dingle Dong, do malévolo Picapau, de Walter Lantz. Nessa linha, sempre achei o Paulo Skaf muito parecido com o Golias, o comediante – com a ressalva de que o Golias acreditava no que estava fazendo – e não me surpreenderia se o Paulo Roberto Costa saísse de Darth Vader no próximo desfile da Mangueira: “Together, we can rull the galaxy”.

Na verdade, consegui escapar da propaganda política até agora, mas  tenho me divertido com os boletins informativos sobre as promessas dos candidatos à esquerda do PT (ontem, 15/9, o partido fez manifestação em defesa do Pré-Sal, em frente à Petrobras), como: Luciana Genro, que vai aposentar todo mundo com o salário integral e o Zé Maria, que ficou de estatizar os bancos. Como diria o Zé Simão, a gente sofre, mas gosta.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Passagem


Nas últimas semanas, fui assombrado pelo fantasma da degenerescência. Durante muitas décadas, flertei com a prima adolescente dela, a decadência, que inspirou o Lobão (Decadence avec Elegance, ou ou ou ou ou ou ou ou ou); filósofos e poetas do século XIX: uma Scarlet Johansson, amoral, langorosa e sedutora. O fracasso da utopia humana ainda me parece a companhia ideal para um existencialista sessentão. "É preciso estudar volapuque (esperanto)/ é preciso estar sempre bêbedo,/ é preciso ler Baudelaire/ é preciso colher as flores/ de que falam os velhos autores", avisou Drummond (Sentimento do Mundo, 1940).

Sempre associei o fim da estrada de pedras rolando ao prazer do descanso: me via sendo empurrado num precipício pela cuidadora sueca com a qual eu teria passado os últimos dias – era a minha fantasia. Mas a Medicina me ludibriou, ao ultrapassar todas as nossas outras faculdades: a Gama Filho, a Anhembi Morumbi, a Uninove. Os médicos aprenderam a prolongar a vida, e há quem veja, nessa ética, além do encaixe perfeito no DNA das religiões, a mão sorrateira dos laboratórios, interessados em preservar não apenas a vida de pacientes terminais, mas, principalmente, as suas fontes de rendimentos, enquanto o debate entre a quantidade e a qualidade da vida perde fôlego.

Além da controvérsia e do preconceito acumulado no conceito de eutanásia (boa morte, segundo os radicais gregos), essa prática, no Brasil e em Portugal, continua proibida. O debate não prospera porque os nossos outros problemas não são poucos: a corrupção no poder público, as péssimas infraestruturas de Saúde e de Educação, as reformas política e tributária que não vêm, a escassa mobilidade urbana, a violência. Além, é claro, do pouco estímulo à reflexão. Uma velha amiga me disse, na semana passada, que pretende viver até os 100 anos, organizando seminários que ensinem as pessoas a pensar. “Boa sorte”, pensei, sem coragem de lhe dizer assim, na lata.

Por enquanto, filósofos trabalham como guardas de presídio e são enganados por empresárias de transportes em programas de auditório. Não é metáfora: aconteceu no Caldeirão do Hulk, neste fim de semana.

As religiões, além de confortar as almas, têm, todas elas, as suas próprias veredas para outros mares: bom para elas. Mas nós, pobres ateus, esses entes humildes, em nossa hora fatal, não teremos escapatória.

Há muitos anos, conheci um homem, grande e forte, que enxergava pessoas e conversava com pássaros e orquídeas. Não tinha medo de serviço: depois de perder a fazenda de café para as geadas dos anos 50, no norte do Paraná, virou mateiro do Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo. Ele me ensinou a amolar facas e a conhecer as plantas medicinais, isso nos anos 1960. Mas torcia pelo Palmeiras e a nossa prosa não prosperava. Éramos quase rivais. Eu e seu filho, um amigo tão rebelde quanto eu próprio, na época, nos achávamos à frente daquele homem rude e honrado, que formou os filhos com o seu próprio suor, e algumas chibatadas que, naquela época, nos ajudavam a distinguir o certo do errado.

Uma tora de jacarandá, o cidadão, Nelson Corá, abalado pelo tempo e pelos golpes da vida, mas sempre ereto. Doce como uma criança, teimoso como uma mula. Amado e odiado pelos filhos, como sói acontecer, nesses casos; querido e respeitado por parentes, amigos. Domou o rancor contra Deus, como Abraão do Genesis (capítulo 22), cuja disposição ao sacrifício garantiu a continuidade da espécie, a qual, de queda em queda, tinha sido praticamente condenada pelo Criador. Nelson nunca leu Temor e Tremor, de Kierkgaard, muito menos Mimesis, de Erich Auerbach. Tornou-se um dos cristãos mais fervorosos de sua comunidade, como se chamam, agora, essas paróquias católicas do interior do Brasil.


Nas últimas semanas, o jacarandá tombou. O sofrimento desse homem, no fim da vida, me pegou de jeito, embora eu já viesse pensando no meu próprio futuro, em face de situação análoga: - Quando virá o meu último lampejo de consciência? - Em que momento perderei a capacidade de decidir sobre o meu próprio ir e vir? – Como reagirão meus pares, diante de tamanho despreparo das instituições para enfrentar o desafio da medicalização da morte, operada por paradigmas tão distantes quanto a ciência, a ética da solidariedade e os interesses comerciais? - Tenebroso.

Poucos autores se debruçaram sobre esse tema (J. Gafo, Ross Kubler, L Pessini e os teólogos católicos), mas uma rápida passagem pelo texto do professor Leonard Martin, da Universidade do Ceará, me trouxe algum alento: além de distinguir a eutanásia de distanásia, ele criou dois novos termos, mistanásia e ortotanásia, que se pode traduzir por morte miserável e morte direita, reta.

A eutanásia, segundo ele, significa morte boa, suave, indolor. Na distanásia, a tecnologia médica é usada para prolongar penosa e inutilmente o processo de agonizar e morrer, encarando a morte como o grande e último inimigo. A mistanásia se resume em três situações: a grande massa de doentes e deficientes que não conseguem ingressar, efetivamente, no sistema de atendimento médico; os doentes que conseguem ser pacientes para, em seguida, se tornarem vítimas de erro médico, e os pacientes que acabam sendo vítimas de más-práticas, por motivos econômicos, científicos ou sociopolíticos. Qualquer semelhança...

A política nazista de purificação racial, baseada numa ciência ideologizada, é um bom exemplo da aliança entre a política e as ciências biomédicas, a serviço da mistanásia.

A ortotanásia procura respeitar o bem estar global do indivíduo, e abre pistas para as pessoas de boa vontade garantir, para todos, dignidade no seu viver e no seu morrer. Na opinião do professor, que, recentemente, foi convidado pela França e pela Alemanha para elaborar uma proposta de resolução da ONU sobre a clonagem humana, o referencial da medicina permanece predominantemente curativo. Enquanto isso perdurar, será difícil encontrar-se um caminho para a morte de pacientes crônicos e terminais que não pareça desumano, por um lado, ou descomprometido com o valor da vida humana, por outro.

“Uma luz importante advém da mudança de compreensão do que realmente significa saúde, impulsionada pela redefinição deste termo pela Organização Mundial da Saúde”, ele diz. “Em vez de ser entendida como a mera ausência de doença, propõe-se uma compreensão da saúde como bem-estar global da pessoa: físico, mental e social. Quando a estes três elementos se acrescenta, também, a preocupação com o bem-estar espiritual, cria-se uma estrutura de pensamento que permite uma revolução em termos da abordagem da morte dos pacientes terminais”.

“O ideal, neste caso, seria promover-se a integração do conhecimento científico, da habilidade técnica e da sensibilidade ética, numa única abordagem”, propõe. “Quando se entende que, no centro de tudo, está o ser humano, percebe-se, no doente crônico e terminal, um valor até então escondido ou esquecido: o respeito à sua autonomia. Ele tem o direito de saber e o direito de decidir; o direito de não ser abandonado; o direito a tratamento paliativo para amenizar seu sofrimento e dor; o direito de não ser tratado como mero objeto, cuja vida pode ser encurtada ou prolongada segundo as conveniências da família ou da equipe médica”.

A fé não livrou o velho jacarandá de sua agonia, nos dias finais, assistido por nossa impotência, por serviços hospitalares precários (de entidades privadas), pela dor e pela angústia, além do profundo desconforto diante da ansiedade de amigos e parentes próximos. Sofrimento prolongado por vários dias, equívocos e pesares. Exemplo: um médico decidiu sedá-lo para aliviar o sofrimento, mas outro não permitiu, porque o coração dele poderia não aguentar.

Perto do fim, quando a esperança de recuperação era nula, um dos médicos decidiu lançar mão de mais um procedimento ainda mais doloroso e invasivo para estender aquela agonia. Questionado, explicou seus motivos: “Vamos deixar a natureza seguir seu curso” (Fonte provável: Artigo 6º do Código de Ética Médica, de 1988, atualmente em vigor).

No dia seguinte a esse episódio, uma enfermeira desavisada entrou no quarto e, em vez de aplicar uma dose cavalar de cloridrato de tramadol no paciente vizinho, que teria uma perna amputada, injetou o medicamento naquele que não podia receber sequer uma leve sedação. Ele dormiu por 24 horas, e pouco depois de acordar, partiu em paz. Entre a revolta o cansaço do sofrimento psicológico de vários dias, a família sentiu-se consolada: Nelson Corá, o meu sogrão querido, tinha parado de sofrer.

Efeitos Colaterais do tramadol, segundo o fabricante: Transtornos cardíacos (incomuns), regulação cardiovascular (palpitação, taquicardia) – pode ocorrer em pacientes que estão fisicamente estressados. Rara: bradicardia. Transtornos vasculares (incomuns): regulação cardiovascular (hipotensão postural ou colapso cardiovascular). Essas reações adversas podem ocorrer especialmente no caso de administração intravenosa e em pacientes que estão fisicamente estressados.


Contei essa história a uma vizinha, que, ao final, comentou, simplesmente: “Deus sabe o que faz”.