sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

E se a Natura comprasse a Redbull?


Esqueça a sucessão presidencial, Chaves e Belomente: esta discussão você só encontra aqui


Enquanto os déficits publicos avançam, da Grécia aos EUA, passando pelo Bric, tumultuando pregões, mergers & acquisitions seguem fazendo a felicidade dos grandes escritórios de advocacia e consultorias organizacionais: Itaú/Unibanco, Perdigão/Sadia, Braskem/Quattor, Gutierrez/Cemig, Shell/Cosan, Votorantim/Cimpor.

A pergunta é: - Nos próximos dias/semanas, como é que um funcionário do Pão de Açúcar (ou, que seja, do Ponto-Frio) vai atender um cliente das Casas Bahia? – Já comprei em ambos, mas, para que ninguém pense tratar-se de elitismo de minha parte, informo que o Cafu, nosso tetra-campeão, acaba de trocar sua antiga mansão, na Riviera de São Lourenço, Litoral Norte de SP, por outra, em Peruíbe, Litoral Sul, em nome da liberdade – de construir uma mesa de alvenaria na calçada da praia em frente à casa e poder tocar pagode até o dia amanhecer, prazeres proibidos na antiga residência.

Mas quero falar de um outro tipo de cultura, a empresarial (também adoro futebol). Vamos imaginar que a Taurus, em vez de formar uma joint venture com a Israel Weapon Industries (IWI) para fabricar o fuzil de assalto Tavor 5.56 mm, resolvesse fundir-se com a Whirlpool/Brastemp, para produzir um lança-mísseis com acessórios na cor e no formato escolhidos pelo comprador: - Como seria a adaptação cultural entre os funcionários das duas empresas?

Será que as companhias, em geral – que levaram tanto tempo para construir pilares de marca, valores, missão e outros sinônimos de sua realpolitik – estão pensando nesse aspecto de seus processos de M&A, vencidas as etapas de due dilligences e reorganização de seus respectivos capital e participações?

No post que antecedeu este atribulado mês de janeiro, a respeito da discrepância de valores observada na campanha de fim de ano do Santander/Real, esta já era a questão. Se eu pudesse e o dinheiro desse, eu convidaria craques como o Fabio Steinberg, o Mário Ernesto Humberg, o Rodolfo Gutilla, o Walter Nori, o decano Nemércio Nogueira (que ainda está por aí) e até o professor Wilson Bueno - entre outros que não vou citar por serem meus concorrentes - para discutir este assunto que, convenhamos, promete.

Como isto é apenas um post, e não um artigo, com o objetivo de plantar e não de colher, devo admitir que, mesmo sem a devida acurácia e o tempo disponível, ja notei, desde o post do reveillon (e não, obviamente, em consequência dele), uma sensível mudança no tom da comunicação do Santander/Real. O que, guardadas as proporções, é inteiramente plausível, empregando-se, por exemplo, uma colher da inteligência insinuada na última campanha do pré-merger (o valor das idéias) numa generosa massa da consciência pública preconizada pelo segundo, nos últimos anos.

As saídas existem, mas nem sempre são visíveis para quem está envolvido na receita. É aí que entra o cheff, cuja experiência e o talento certamente balancearão os demais ingredientes de um e de outro agente. Simples? – Nem sempre. Paixões, medos e rancores estarão sempre rondando. Independentemente da eventual canibalização – ou não – da marca adquirida, é coisa para especialista.

Não sei se as empresas e seus consultores envolvidos nessas últimas fusões estão atentos a esse detalhe. Ilustração: The Upside downs, de Gustave Verbeek

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Santander real



Um mundo melhor para os nossos filhos, filhos melhores para o nosso mundo; poetas, idosos tratados com respeito: a nova campanha do Santander que estreou neste fim de ano absorveu o posicionamento de marca do Real (incorporado pelo banco espanhol no ano passado), o que deve ter exigido um esforço extra de seu country manager, Fábio Barbosa, para convencer os acionistas a se aproximar da índole, da cultura e, por consequência, do bolso do brasileiro com razoáveis níveis de renda e/ou informação.

Entre o sujeito cordial de Sérgio Buarque de Hollanda – percebido na nova campanha – e o temperamento sanguíneo da organização – espelhado na personalidade do presidente mundial do grupo, Emílio Botín – há uma distância oceânica. Pode ser apenas um detalhe, mas logo depois de assumir a presidência local do banco, Barbosa raspou a barba de uma semana que costumava usar, como complemento de uma bem cultivada reputação de banqueiro sustentável que continuou a seu lado na presidência da Febraban.

De perto ou de longe, tudo é banco, diria o Fado. O problema é que mesmo depois de passar 10 anos digerindo o Banespa, o Santander não parece ter absorvido a parte saudável de seu metabolismo. Experiências bem próximas indicam isso (não sou cliente, mas tenho amigos e parentes que o são): inflexibilidade da média gerência nas negociações, inconsistência entre as ações e as mensagens da empresa, serviços precários e sistemas de comunicação e atendimento ao consumidor/ouvidoria indefesos, diante da voracidade dos gestores de finanças.

Tomara que o Fábio consiga virar esse jogo, torcemos eu, boa parte da imprensa de Economia e Negócios e do empresariado brasileiro, que admiram o seu estilo. Por enquanto, o Santander real está longe de ser o que o banco holandês chegou a ser, mesmo que você não acredite naquelas cestinhas de lixo e talões de cheque recicláveis,promoções para a terceira idade etc.


Além dos sintomas descritos acima , uma espetada da revista Exame desta quinzena dá o tom da expectativa da platéia, ao constatar o empobrecimento da paisagem sócio-ambiental da Paulista depois que a sede do antigo Real mudou-se para a Vila Olímpia (que a revista, aliás, situa na zona oeste da Capital), na zona sul da cidade.

A minha torcida pessoal é de época: também pertenço à geração que se viu capaz de mudar o sistema por dentro, durante algum tempo. Também espero que a frase de Santo Agostinho, neste caso, se esgote em si mesma. Ganhariamos todos nós: consumidores, mercado e os especialistas em branding.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Dilma-Meirelles x Serra-Aécio


A grita da intellighenzia tucana foi discreta, mas intensa. A possibilidade de uma chapa sucessória formada por Dilma Roussef e Henrique Meirelles assusta: a resistência do eleitorado petista de classe média a Michel Temer – antigo quercista associado ao fisiologismo, com peculiaridades comportamentais que não me cabe comentar – será grande. A diferença em relação a uma chapa Serra/Aécio – o primeiro, rejeitado por boa parte do estabishment, o segundo, pela esquerda do PSDB – não seria grande.

Meirelles passaria batido (para usar uma linguagem petista) por sua sólida contribuição à gestão de Lula, no estilo galinha ruiva: é preciso fazer o bolo para repartir o bolo. O wallessa brasileiro não teria subido tão alto no pódio da cena internacional – podendo conversar Shimon Peres e Ahmajinejad, Chavez e Obama – se o bom demônio não lhe tivesse permitido driblar a crise, com seu keynesianismo operário, escorado pela estabilidade da moeda e em reservas cambiais de US$ 200 bi.

Não foi por acaso que o Jânio de Freitas (FSP,16, Meios Insucessos) desvendou a manobra de Lula (a lista tríplice do PMDB), transformada em denúncia pelo bordado barthreano de Fernando Barros e Silva na FSP de ontem (16), Imagem Envenenada. A foto de Alan Marques (FSP,15, pg A-4), diga-se, é ótima.

Não tive tempo de ver o editorial do Estadão, de assistir ao Merval Pereira na Globonews, nem de ouvir a Lúcia Hippolito na CBN ou navegar pelo blog do Noblat e ler Dora Kramer, nos últimos dois dias, mas certamente o episódio serviu para atiçar o desespero da oposição e da mídia que, por ideologia ou por respeito à vocação crítica, insistem, mas não conseguem, abalar o prestígio e a popularidade de Lula.

O meu interesse, no caso, é a indústria da comunicação, sem parti pris. Pela mesma razão - aparentemente contraditória - não tomei conhecimento da tal Conferência Nacional da atividade, que as entidades patronais qualificaram de manobra para censurar a imprensa, num flagrante exagero. A tal CNC foi muito chapa branca para o meu caminhão. Mas, voltando à nossa democracia. Talvez seja ingenuidade, mas acho que Lula - goste-se ou não do seu governo - embora amarrado por uma aliança indispensável à governabilidade, no Brasil (como todos sabem), tem o direito sonhar, sem causar todo esse escândalo.
Lembrei-me de uma frase de Zuenir Ventura (1968, O Ano Que Não Terminou), durante uma conferência na qual um aluno levantou-se para dizer que nada mudou na sociedade brasileira depois da ditadura. Óbvia, mas bem situada: - Na ditadura, se você dissesse isso, seria preso. Uma boa diferença. Imagem: www.baixaki.com.br

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Si vis pacem para bellum


A frase não me ocorreu por causa da sublimação de Barak Obama, ao receber o Nobel da Paz, nem por conta do meu antigo professor de Latim, Aníbal Campi – que a adorava – e que se parecia muito, fisicamente com o Berlusconi antes da agressão de ontem (13). Aliás, não pretendo incitar à violência, mas não resisto a imaginar se o Brasil seria o mesmo se o Maluf, nosso maior símbolo da corrupção, tivesse sido, um dia, alcançado por um projétil de média distância, como a estatueta que interrompeu o comício do premiê italiano ou os sapatos do jornalista iraquiano Al-Zadi. Será que os rorizes e arrudas continuariam se proliferando no Planalto, a ponto de ameaçar a nossa espécie, como atualmente?

Embora não tenha comprado e lido (ainda) Os Americanos, de Antonio Pedro Tota, recomendado pelo Mattew Shirts, não resisto a imaginar quem ou o que plantou o argumento naquela mente harvardiana: uma frase tão antiga e tão singela para uma ocasião tão solene. Meio metro abaixo, imagino a perplexidade de uma platéia que supostamente consegue perceber a complexidade de questões como a do Oriente Médio, o que acontece no Afeganistão/Paquistão e que já ouviu falar de traficantes russos de armas norte-coreanas, de guerrilheiros colombianos e favelas cariocas. Eu daria o meu discurso para o Roberto Godoy (competente especialista em Defesa) copidescar. À minha volta, até a CNN começa a discutir a ética dos Predator (foto), as deadly offensive weapon in america’s war against terrorism.

A Veja desta semana tentou explicar a gaffe intelectual do camarada Obama (considerado socialista nos EUA), mas eu não vejo a revista (seguindo o conselho do título) com esse fim, senão para me atualizar quanto ao novo código sexual dos adolescentes inscrito nas pulserinhas amarelas com glitter, roxas, vermelhas e pretas (as melhores) que o Serginho Groisman certamente vai comentar em suas madrugadas pop (página 87 da edição desta semana).
No mais, o Flamengo de Andrade foi campeão brasileiro, mas o CQC flagrou um africâner ofendendo os trabalhadores negros que correm para finalizar as obras que vão dizer ao mundo que a África do Sul não é mais aquela e o trânsito continua matando mais do que o crime organizado: no último sábado (12), um garoto de 14 anos dirigindo um caminhão, atropelou e matou um outro, de 4, em Cidade Tiradentes, São Paulo. Sugestão de pauta de fim de ano para a Veja.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Consequências do blecaute



Entenda a relação dos Medici com o blecaute da última terça-feira

O apagão do dia 10/11 teve pelo menos uma boa consequência: interrompeu minha fala na banca que examinava uma Tese de Conclusão de Curso de Jornalismo da PUC-SP (parabéns, Victor Esteves, aprovado com louvor), uma universidade que não tem gerador, mas que ensina os jovens profissionais que, num país miserável como o nosso, o jornalismo só tem sentido se for usado como ferramenta de transformação social. Você pode discordar.

Já no editorial do Estadão de ontem (16), o Antonio Carlos Pereira não puxou, quase arrancou as orelhas da oposição por não ter conseguido transformar o blecaute acima referido numa crise institucional que se preze, digna de um Lacerda x Getúlio. O editorial de hoje (17), por sua vez, “O Derretimento de Copenhage”, morreu às sete horas da manhã, quando Obama, ao lado de Hu Jintao, apareceu nos telejornais anunciando que não vai mais defender o adiamento das metas de redução das emissões em seu país, responsáveis, em boa parte, pelo aquecimento global.

A TTC na PUC-SP, para o cuja banca tive a honra de ser convidado, trata do futuro dos jornais impressos. Segundo o livro-reportagem de Victor Esteves, os grandes jornais – hoje usados pelas empresas como as lojas âncoras dos shoppings inaugurados há vinte anos – terminarão como delicatessen. A palavra escrita passará por outras superfícies e a sua produção, por outros meios, mas permanecerá, ele sustenta. O problema – penso eu – está nas perdas acarretadas por essas mudanças, que vão da apuração à qualidade do texto, da edição à hierarquização das notícias, da crítica à análise, do equilíbrio à credibilidade.

Um jornal de Santa Maria-RS publicou, no último dia 9, que a romaria medianeira de NS das Graças (uma espécie de círio de Nazaré gaúcho) foi prejudicada pela falta de energia para os barraqueiros que trabalham o ano inteiro para vender seus produtos na festa (7 e 8/11). A notícia dizia que pelo menos dois desses comerciantes tinham registrado a ocorrência na polícia, para processar a prefeitura e a concessionária de energia local. Um amigo interessado descobriu que apenas os disjuntores dos dois litigantes não funcionaram. As marcas da empresa e da prefeitura ficaram arranhadas, mas o jornal não se retratou.

O que eu dizia, antes de ser interrompido pelo blecaute na PUC, vinha em defesa do autor da Tese, talvez excessivamente apoiada numa pesquisa sobre a imprensa norte-americana: na imprensa em que eu nasci, na segunda metade do século passado, a influência da norte-americana – por sua vez fundada numa sólida base democrática – era muito maior do que a da imprensa européia, que, quando eu cheguei a Portugal, em 1971, a convite do Médici (Emílio, não o Lorenzo), ainda publicava polêmicas de página inteira, como no tempo de Pessoa e Sá Carneiro, enquanto nós, na rua Irineu Marinho, 30, suávamos bicas para compor um lead que o Agnaldo Silva ia acabar dilapidando (com o mesmo talento das novelas, diga-se).

O Gay Telese não tinha escrito O Reino e o Poder, o Michael Bloomberg vendia fundos de investimento, o Faulkner e o Hemminguay nem tinham passado a bola para Mailler, Wolf e Capote, e acima de tudo, o Murdock não chamava o Larry Page e o Sergy Brin, do Google, de piratas do conteúdo. O problema não está na escola (latu sensu), professora, nem na tecnologia, mas na filosofia (como dizia Noel). Na minha visão, o que pode esvaziar o bom jornalismo é a editorialização da notícia, o parti pris, a perda de credibilidade, que pode vazar de um lado ou do outro. Seja um ponto-de-vista conservador como o do Estado ou progressista como o da faculdade onde fui cobrir a pancadaria daquele coronel, em 1978. O importante é que a perspectiva seja honesta, clara, correta (coisa do meu tempo).

Felizmente, o jornalismo contemporâneo tem seus momentos, como a matéria da Globo mostrando o taxista que acudiu um amante cujo carro ficou preso pelo portão automático da casa da outra e o rapaz que consertava uma tomada e entrou em crise ao pensar que tinha causado uma pane geral no quarteirão. Quanto ao TCC, acabamos todos no bar da esquina, comemorando a esperança da informação que transforma, ainda que à luz de velas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pedágios

10 novas praças no roteiro das praias paulistas ainda este ano: sorte do Seu Bené, que só usa a Via Dutra.

Sir William Wack – em reportagem sociológica que foi ao ar há uma semana – e depois, o sheik Tonico Ferreira, nesta segunda, 9/10 (sutil como um Philip Glass), pagaram seus respectivos pedágios pela passagem dos 20 anos da queda do muro de Berlim, essa arenga insuportável à qual só o Estadão (além da minha antiga casa acima citada, as Organizações Globo) continuou se dedicando, nesta terça-feira ensolarada de supermercados lotados (dia 10), em que o perdão a Geyse Arruda foi anunciado pelo Uniban Victoria Institute: sim, a moça de minissaia apedrejada por um bando de jovens mal orientados sexualmente.

Como todas as efemérides, na sociedade da informação, o assunto do muro tornou-se banal e cansativo, além do óbvio chute no cachorro morto do stalinismo, quando o socialismo, de fato (de Allende a Bachelet, por exemplo), já se transformou tantas vezes, como, aliás, o próprio capitalismo, nisso incluídas todas as versões anteriores ao Windows 7, entre elas, a rapinagem dos súditos de Sua Majestade nos quatro continentes – sobretudo na Índia e na África – e o genocídio indígena que fundou a nação mais poderosa do universo.

E por falar em pedágio e em nação poderosa, o grande irmão foi saudado, na semana passada, com mais esta pérola do comediante mal-humorado, Arnaldo Al Jabor, segundo o qual, em terra de macho, até os crimes são pra valer, coisa de cowboy, nada de pouca porcaria. Ele se referia à chacina praticada pelo major palestino Malik Nadal Hassan, às claras, de peito aberto, em pleno Fort Hood, Texas (EUA), sem tergiversação ou rebolados, como Jabor referiu-se, creio, à criminalidade local, que segundo ele, só se manifesta por baixo dos panos, coisa de corte portuguesa, merecedora de nojo e desdém.

No caso do comentarista, aliás, o pedágio é recíproco: do enteado virtual de Nelson Rodrigues à Casa que serviu de abrigo ao original, e desta mesma casa ao referido enteado, que precisa depositar a sua frustração (de não ser o original), diariamente, no mesmo vaso. Que Alá dê vida longa ao velho garoto de Copacabana, mas, como entertainment, eu prefiro o brother judaico-brazuca Luciano Hulk, que no dia seguinte à descarga do jornalista-cineasta no Jornal da Globo (sexta à noite, 06/10), trouxe de volta ao seu programa, no sábado, o impagável Seu Bené do Laranjão cantando Only You e fazendo coro com Martinho da Vila em Deixa a Tristeza pra lá. Benedito Vitor Junior, 51 anos, fretista em Barra Mansa-RJ, não tem nada de cowboy, mas cantou Only You como um dos Platters (http://www.youtube.com/watch?v=qivEZLjeAlg&feature=related)

Ainda sobre pedágios, achei bacana a entrevista do Caetano ao Estadão, por acaso, na véspera de seu show em São Paulo, tirando o fato de que o abre da capa o deixou parecido com o Dr. Júlio Mesquita. E por falar em Estado de São Paulo, aqui vai um pedido ao governador José Serra: no ano passado e este ano, tive que ir várias vezes a Bauru, perto de Botucatu, onde, nesta semana, começa a funcionar um novo posto de pedágio, alí explorado pela Rodovias Tietê, controlada pela Caio, do Felipe Massa, que já tem uma Ferrari. O valor dos pedágios dessa viagem (São Paulo-Bauru) é R$ 42,10. A passagem de ônibus custa R$ 60,65.

Fora isso, a F. de São Paulo publicou, no dia 19/08/2009, a seguinte notícia: Rota do Litoral Paulista deve ganhar ao menos 10 pedágios
(
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u611763.shtml).
Pergunto: - Governador, como é que o senhor pretende chegar a Presidente, com todos esses pedágios? – Pense nos fretes do Seu Bené.

Foto de Seu Bené: Felipe Vieira, Diário do Vale, 31/10.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Violência e Democracia


Se você visita este blog de vez em quando, tem razão de reclamar da escassez de posts neste mês de outubro. Mas em vez de comentar táticas de guerra como o corte da água dos palestinos ou a morte de inocentes no Paquistão, prefiro me indignar e chamar atenção para a importância política da morte violenta de Evandro João da Silva, do Afroreggae, ONG que tem feito diferença em Vigário Geral, RJ, desde 1993. Os matadores chegaram a comprar dois PM com um par de tênis e um blusão, num escambo de embrulhar o estômago de quem viu as imagens captadas por uma câmera de vigilância.
Essa é a nossa guerra: - Quem tem a coragem de encarar a realidade para tentar mudá-la, leva esse tipo de troco. Vamos continuar gramisciando.
E para amenizar a batalha, recomendo a leitura da Folha de S.Paulo de hoje, embora a de ontem tenha apanhado tanto da Record e seus bispos, na última sexta-feira, 23. Como o Edir Macedo não foi nenhum guerrilheiro, na ditadura, recomendo a leitura de artigo do mestre Gaspari, na Folha de hoje (28), sobre Dilma, que o foi. É a democracia, moçada. Também da edição de hoje, a charge de Jean, lenitivo para a violência. É por isso que ainda vale a pena ler jornal.

Élio Gaspari
De Frances.Perkins@org para D.Rousseff@gov
Não vacile, ministra, comecei minha militância com os larápios e eles nunca me decepcionaram
PREZADA MINISTRA Dilma Rousseff,
Quase certamente a senhora nunca ouviu falar de mim. Chamei-me Frances Perkins e fui a primeira mulher a ocupar um ministério no governo americano. Fui secretária do Trabalho de 1933 a 1945, entrei com Franklin Roosevelt e saí quando ele morreu.
Escrevo-lhe porque meu chefe pediu. Ele tem muito interesse pelo trabalho do seu presidente e soube que vocês trabalham numa Consolidação das Leis Sociais. Também acredito que posso lhe dar algumas sugestões.
Vá fundo ministra. Faça logo tudo o que se quer fazer. Quando eu cheguei à Casa Branca, as vendedoras do Bloomingdale's cumpriam jornadas de 14 a 16 horas. Os Estados Unidos não tinham salário mínimo, Previdência pública, seguro-desemprego nem plano de saúde universal. Quando saí, a jornada era de oito horas, os trabalhadores tinham aposentadoria e proteção no desemprego. Deixamos o plano de saúde para depois e deu no que deu.
Essas coisas não saíram a preço de custo. A Corte Suprema se tornara um estábulo do patronato. A Previdência era coisa de socialista e o vice-presidente quis mandar o Exército acabar com uma greve a bala. Diziam que não era Frances Perkins, mas Mathilda Watsky, nem seria americana e protestante, mas judia e russa.
Dona Dilma, minha militância social começou na tarde de 25 de março de 1911. Eu estava tomando chá no palacete de uma amiga e ouvimos a sirene dos bombeiros. Fomos ver incêndio e presenciamos a tragédia da Fábrica Triângulo. Morreram 146 operárias, quase todas italianas ou judias. As moças se atiravam do nono andar. Eu vi.
Passei a vida negociando com empresários e líderes sindicais. Sempre tive um fraco por gente rica. Minhas amigas progressistas eram chamadas de "Brigada do Vison". Nesse sentido, acho que a senhora circula pouco na área atapetada. Erro. Eu consegui que o empresariado aceitasse a sindicalização dos trabalhadores e quem me ajudou foi o presidente da US Steel. Depois ele foi nomeado embaixador no Vaticano. Quero lhe confessar que nunca gostei de sindicalistas, mas negociei umas 200 greves, algumas das quais com mortos, e uma delas com dinamite.
Sei que acusam a senhora de mal-humorada. É coisa de homem. Pegue mais pesado. Quando fui assumir a secretaria, o meu antecessor disse que eu deveria esperar, pois ele tinha um compromisso para o almoço. Respondi que estava muito bem, pois assim teríamos tempo para tirar as coisas dele da sala. Tenho horror a jornalistas e acho que vivi melhor assim. Eu adorava mentir para eles. (Aliás, meu nome não era Frances, mas Fannie.)
Faça a Consolidação das Leis Sociais ampliando os programas que já existem e crie outros. O Getúlio Vargas, que é amigo do meu chefe e detesta o seu, diz que o Bolsa Família é demagogia, mas gosta do ProUni. Eu gosto de todos.
Sei que a senhora é candidata a presidente da República e que está sendo acusada de buscar alianças com larápios. Faz muito bem. Quando o corrupto vem para o nosso lado, podemos confiar na sua lealdade. Eles nunca me decepcionaram.
Finalmente, um conselho: procure economizar. Eu conheço o seu patrimônio. É menor que o meu quando fui para o governo. Pois até vir para cá, em 1965, aos 85 anos, eu morava de favor na Universidade de Cornell. Muito cordialmente, Frances Perkins.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mídia Impressa

Nesta semana de Futurecom, o Estadão publicou matéria de capa sobre a Feira do Livro de Frankfurt e sobre o e-book, que chegou rasgando no Brasil, como diria o Galvão Bueno. Mais de 5 mil títulos e preços que, nos EUA, variam de US$ 1,50 a US$ 10, em média. Você pode consultar o dicionário e assinalar frases sem deixar a sua marca indelével na história, como diria Fiori Giglioti. Infelizmente, não vi o produto nos varejões dos jornais desta sexta-feira, como não os verei neste fim de semana. A minha fantasia sempre foi abrir jornal e achar encartes vendendo motor de barco, rolex e champagne francês, em vez de liquidificadores. Não vai rolar.

Também não vou entrar naquela discussão antiquada (mesmo para o Roberto Faith) de quem veio depois e irá antes, o “suporte” papel ou o “meio” eletrônico, pergunta com a qual os jornalistas de vídeo sempre se deparam, ao serem entrevistados por seus colegas dos canais universitários: “O rádio não acabou com a televisão”, eles respondem, complacentes. Mas uma dúvida permanece: o jornal impresso está perdendo o seu poder de influência?

Há poucas semanas, coordenei uma pesquisa junto a um grupo de gestores de Comunicação para aprimorar o monitoramento de imagem que fazemos para empresas e instituições com presença constante na mídia. Algumas opiniões surpreenderam. Em relação ao último termômetro que acompanhei de perto, o rádio, nos grandes centros – onde o trânsito é sempre difícil – subiu de patamar (de 2 pontos para 2,5, numa escala de 0 a 10), assim como a TV (de 3,5 para 4), e a Internet (de 1 para 1,5), enquanto que a mídia impressa, com toda a consideração dos jornais gratuitos ou semigratuitos, caiu de 6 para 5.

Sempre lemos muito menos que os vizinhos argentinos, por exemplo – e não por acaso, apesar da relação complicada dos jornais de lá com o(s) governo(s), que não vem de hoje – mas estaríamos lendo menos ainda? – Parece que sim, Infelizmente. Mas, então, por que o jornal impresso influi mais, na formação da opinião pública, do que os outros meios? – Certamente, a credibilidade (que as empresas deveriam fortalecer, fugindo dos partidarismos); sem dúvida, a durabilidade (apesar da ilustração acima, uma brincadeira minha com o José Paulo Kupffer); a qualidade, muito fácil de se aferir, até numa simples comparação de edições concorrentes, mas, acima de tudo, a capacidade de pautar a sociedade, influenciando a cabeça dos fazedores do jornalismo, que, felizmente (ainda) estão por aí e (ainda) pensam.

Todo esse arrazoado aí acima, na verdade, não tem outro propósito senão saudar os ventos de Lisboa e dos grotões do Interior que vêm inflar a imprensa diária dos grandes centros, trazendo novo ânimo ao nosso sovado pensar: o Brasil Econômico (força, Costábile, força, Ricardo) e o Diário de São Paulo, no qual o Jota Ávido (salve, companheiro) deve preservar, não apenas o enfoque, mas uma redação de 380 pessoas. Benvindos! – E se você preferir uma análise mais séria e otimista (!) do fenômeno, é só ler o artigo do meu concorrente Matias Molina (ex-Gazeta Mercantil) no Estadão de hoje. Molina, desculpe a pretensão.

sábado, 3 de outubro de 2009

Aproveita, Rio

Deu Rio. Vamos torcer para que também ganhem: a infra-estrutura de transportes da cidade, a lisura nas obras, licenças e fiscalizações (com celeridade e sem ingerências políticas), eficiência na execução desses trabalhos, projetos para o uso - eficaz e efetivo - do equipamento a ser criado ou aperfeiçoado para os jogos, a injeção dos recursos na redução das desigualdades e da violência via Educação e cultura e tudo o mais que me faz sentir-me como um personagem de cartum do Jaguar. Este aí acima foi extraído do site colunistas.com.br.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Rio ou Chicago?

Joana Calmon, da Globonews (sem preconceito contra o sobrenome associado) foi a primeira repórter que vi transmitir uma notícia dando risada, como se fosse do CQC - hoje, 30/09/2009. Era sobre a chegada dos lobistas das cidades candidatas às Olimpíadas 2016 a Copenhagen, na Dinamarca, onde o Comitê Olímpico escolheria a cidade-sede dos jogos. Às gargalhadas, ela disse que Michelle Obama acabava de chegar, para antecipar o lobby que o marido faria pela eleição de Chicago no dia seguinte (a mulher do presidente norte-americano NÃO tropeçou na escada do avião) e que o Lula (provavelmente amigo de infância do avô da repórter, dada a intimidade) chegaria em seguida, com o mesmo objetivo, não de antecipar o lobby de Obama, claro, mas o de fortalecer a candidatura do Rio, ao lado de Pelé - que confundiria Michael Jordan com Michael Jackson, logo depois (isso ela não sabia).

Repórteres mal humorados são mais comuns, assim como as notícias pesadas sobre governantes como Lula e Obama ao lado de seus colegas Ahmadinejad, Micheletti, Kadafi, Bibi Netanyahu etc. Talvez isso desculpe a bela e jovem repórter. Afinal, aquela era a notícia descontraída (hoje obrigatória) do dia.

Mas o que me preocupou nessa história foi o silêncio sepulcral (é o termo) sobre o assassinato de golfinhos por jovens dinamarqueses das ilhas Feroe, numa espécie de bar-mitzvah macabro que tem sido tão divulgado nas redes sociais, nas últimas semanas, quanto ignorado pela mídia formal. Talvez por isso, a velha senhora venha perdendo tanto espaço e respeito, dos grandes salões às lanhouses da periferia, ultimamente.

Pode ser que o assassinato de jovens golfinhos por jovens dinamarqueses (que não têm mais nada de esquimós) não passe de uma grande conspiração do Greenpeace ou do WWF na Internet, mas não custava à mídia investigar. Afinal, o país Dinamarca vai abrigar, em dois meses, a Cop 15 - Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima - conferência histórica que deve definir o futuro da humanidade baseada ética da nossa convivência com os recursos naturais. Se as correntes marinhas do deputado Gabeira chegarem a Ipanema manchadas de sangue, vai ser um deus-nos-acuda.

A imagem acima foi extraída do site http://www.do1thing.org/tag/homeless ,para você adivinhar se a foto foi feita no porão da Igreja da Candelária ou num home shelter da sweet home Chicago.

Pano rápido: Hugo, meu caro. Não pretendo me deslocar até Las Vegas para ver o espetáculo sensorial não-itinerante do Cirque du Soleil onde as poltronas conversam com você e tudo o mais. Não é assim que eu vejo circo. Mas o palhaço sideral que acaba de chegar aos telejornais me chamou a atenção. Cabe a você me convencer de que palhaço não merece respeito (não vale os doutores da alegria).