terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Casa Vogue contra TV Brasil e Veja



A semana na TV começou com uma boa entrevista de Júlio Medaglia, na Cultura. Ele gravou a data, 5 de março de 1956, em que decidiu comunicar ao pai que seria músico: esse foi o desfecho do programa, chamado Ponto de Virada, depois de ter marcado o início de uma bela carreira. O maestro recomendou aos jovens com talento que se aferrem às suas metas profissionais como fanáticos, porque a felicidade, ou boa parte dela, se esconde no fazer aquilo que se gosta. Foi bom lembrar como se davam as relações entre pais e filhos, na época, o dele querendo vê-lo como herdeiro da Comercial Peças Automotivas, que ficava na Pompéia, engenheiro ou dentista.



Medaglia ensinou aos técnicos das Secretarias de Cultura como programar concertos públicos usando peças mais curtas, já que as sinfonias, por demorarem a desenvolver uma idéia, não combinam com o ambiente caótico das cidades; arrasou, numa frase, o hip hop que eu sempre temi criticar, com meu esquerdismo, lembrando a vasta e profunda cultura musical do negro brasileiro (desde Carlos Gomes), que está sendo jogada no lixo em troca de uma cultura importada de um negro “perdedor” norte-americano (em detrimento do jazz). Constatou, como aqui tenho feito, timidamente, a decadência da cultura “ocidental”, na ponta oposta do avanço tecnológico: ipods não tocam Keith Jarret.


Agradeço a entrevista de Medaglia aos dias de amenidades no primeiro mundo, como as eleições norte-americanas e a crise na Europa, que me permitiram assistir, sem problemas, aos noticiários da BBC e da CNN, com seus divertidos comentaristas ingleses tentando falar como norte-americanos (na CNN) e norte-americanos com sotaque de Boston (na BBC). As notícias de esporte não são como as daqui: existem, é claro, as transferências milionárias de jogadores de futebol, e a cobertura do campeonato inglês (como aqui), mas também se ouve falar do aberto de tênis na Austrália. Nos últimos dias, eu não podia mais com a linguagem paroquial do JN e sua cobertura emocionada das enchentes. A Globo podia contratar o Gugu.

Na semana anterior, o que mais me chamou a atenção não foi o desmoronamento da fachada da Justiça, liderada pelo augusto ministro do STJ, Marco Aurélio Mello, nem a empáfia daquele outro cidadão que atravessou a cidade tomado por um surto e depois jogou suas tentativas de homicídio nas costas das vítimas; nem as implosões frustradas da Favela do Moinho e da Cracolândia, ou a história da mulher que dizem ter matado 39 animais domésticos, entre cães e gatos. O que mais me impressionou, na semana passada, na TV brasileira, foi uma reportagem sobre a casa da Malu Mader e do Tony Bellotto.

Não era um desses programas de celebridades ofertados à nova classe média, nas tardes de domingo. Era uma produção voltada à nova classe alta: refinada, com belas imagens, sequências e planos, travelings perfeitos e entrevistas inteligentes, tudo costurado pelo trabalho de dois arquitetos talentosos: um escritório, uma casa na montanha, um apartamentão na cidade; depois, a casa de um deles, num pequeno e velho edifício de três andares, no Rio, cuja intimidade foi protegida por uma parede de orquídeas, na varanda, e a luz, roubada do céu por meio de um teto de vidro, num trecho do living. Deve ter dado uma boa briga com o condomínio.

Programas de arquitetura e decoração estão em voga, como os cadernos de culinária e os espaços gourmet, as novas pragas modernas. Com mais alguns naufrágios de transatlânticos conduzidos por italianos amigos e caos aeroportuários, temo que as pessoas nunca mais saiam de suas tocas e carros blindados.

Malu Mader confessou, na entrevista, que não gosta de apartamentos e sonhava reconstruir o paraíso perdido de sua infância: a casa de avó, no interior, onde sempre havia alguma coisa cheirosa saindo do forno (madeleines inesquecíveis, diria George Pérec), árvores para se brincar, vizinhos e uma parentada saudável reunida para as refeições.

Tirando o excesso de prateleiras, carregadas de livros, arquivos sonoros e uma pretensão sentimental da proprietária acerca de suas próprias referências – sempre disponíveis à sobrinhada, filhos de amigos e agregados (Malú, você já é um ícone) – o lugar é quase um casarão de interior com um daqueles amplos quintais. Os filhos cresceram. Enquanto o casal pensava na mudança, e no transtorno adicional nos deslocamentos diários, a cobertura vizinha foi posta à venda. O velho titã e sua metade ideal (culta e bela) somaram dois mais dois e mais um filho veio ao mundo, em forma de apartamentão.

Além de proteger a intimidade da família com plantas, como fez em sua própria casa, o arquiteto dispôs os espaços usando o bom senso em lugar de paredes; exceto, talvez, pelo escritório do patrão, que ficou situado em frente à mesa de pingue-pongue da molecada: imagino Belini, concentrado antes de um crime, tendo que ouvir o barulhinho irritante daquela bolinha de celulose entre raquetes. A mesa de jantar, como se diz, tem 14 lugares; a segunda mesa, na varanda, mais uma dúzia: almoço dos adultos longe da algazarra das crianças?

O que me veio à mente, refletindo naquela invejável rusticidade doméstica, foi o que nenhum de nós ignora, nem o meu síndico, que acaba de me mandar um e-mail informando que, graças aos nossos recentes investimentos em infra-estrutura de segurança, o roubo de uma câmera externa ao nosso edifício pôde ser evitado: por não abrirem mão de suas escassas conquistas, as pessoas tentam protegê-las, a qualquer custo, do caos ambiente, tendo desistido das tentativas concretas de solução, como fazíamos, na década de sessenta, da qual eu me sinto um sobrevivente meio ridículo, e da qual emergiram as malús maders e os tonys bellottos. Que são gente respeitável, como todos nós.

Não há uma crítica nessas caraminholas, minha cara senhora, meu caro senhor. Nem mesmo ao meu prezado síndico, trazido a esta crônica sem consentimento prévio, e que comentou, provavelmente inspirado na análise antropológica do PM que atendeu à ocorrência do nosso prédio: com a possível migração de satélites da Cracolândia para a Zona Sul (uma espécie de centrifugação da problemática social), temos que ficar mais atentos, redobrar nosssos cuidados.


Eu entendo tudo isso: o recolhimento, a conveniência, o distúrbio, o cuidado, o medo. O que não me impede de lamentar a completa evanescência dos nossos sonhos de juventude, dispersos numa desordem de pedras que rolam até chegar à beira de algum mar ou rio, polidas e inertes, como um poema de João Cabral: "inenfáticas, com sua resistência fria ao que flui e a fluir".

Um comentário:

  1. Olá, Roberto, ler os seus posts no blog é um prazer. É um “banho” de cultura aliado a uma fina ironia e talento com as “pretinhas”. Você mereceria ser cronista em uma destas folhas diárias repletas de notícias irrelevantes (boas ou ruins, dependendo do gosto do freguês) que o caminhão barulhento entrega na porta do prédio ao alvorecer.. Sério, eu acho que você deveria reunir essas crônicas em um livro eletrônico, para ser lido em tablets, como determinam os modos atuais. Tenho até uma sugestão de título um pouco ousada: Reflexões de um pinto erudito.
    Esse seu post me fez lembrar um livro que acabei de ler – A lebre com olhos de âmbar – em que através de objetos de decoração o autor, Edmund de Waal, descreve o mundo da alta cultura, sofisticação e dos novos ricos da Paris dos tempos em que o urbanista Haussmann planejava e construía os boulevards parisienses.
    Mas eu prefiro o pedaço da rua des Martyrs, naquela subidinha que leva até ao Pigalle e um pouco mais acima e à direita à Sacre Coeur e à esquerda, mais atrás, ao mítico Monmartre --- aliás, caminho feito segundo a tradição por Saint Denis, carregando em suas mãos a própria cabeça decepada a mando do imperador Justiniano ou Diocleciano. Consta que a figura, que depois virou santo, só foi parar no local onde mais tarde se ergueu a igreja de Saint Denis, já no banlieu a noroeste da cidade, próximo atualmente do estádio onde em 1998 a seleção brasileira foi encaçapada pelos franceses, no dia em que o Ronaldo Fenômeno teve um piripiri. Ah! se o Zagallo tivesse escalado desde o início do jogo o Edmundo, o nosso Animal --- nem Asterix seria páreo.
    Aqui, na Vila Sônia, perto do panetone sãopaulino, de onde escrevo neste momento, temos a nossa rue des Martyrs --- é a Manoel Jacinto (que nome mais prosaico), uma subida tão charmeuse quanto a parisiense. Há várias oficinas mecânicas, um predinho da secretaria de Educação, uma pizzaria e outros botecos muito mal ajambrados. Mas, no final da tarde abafada de verão, lá de baixo dá para se ver a casa em estilo japonês clássico, com seu jardim e vasos bem feitos e bem cuidados --- um pedaço cheiroso antes de a gente pegar a principal avenida do bairro e chegar lá na frente à Igreja de São Benedito --- é, meu caro, temos nossos heróis e mártires descendentes de portugueses. Você sabia que um presidiário, há umas cinco décadas, fez uma canção chamada Luar da Vila Sônia? Melodia fraca e versos simples, mas os franceses da des Martyrs não têm música falando do pedaço deles. É nóis, mano!
    Um abraço.

    ResponderExcluir