quarta-feira, 14 de abril de 2010

A cobertura da tragédia


Foto: protesto dos ex-moradores no dia 14/4 contra prefeito de Niterói-RJ (G1)

Se você, telespectador amigo, também sentiu-se incomodado(a) com a imagem do Tonico Ferreira, naquele terno virtual que ele não consegue tirar, nem falando da floresta amazônica, ou com a perplexidade do Ernesto Paglia, diante da sanguinolenta pesca de filés precoces de atum, uma realidade que ele – pilotando sua própria série – precisa mostrar para a sua amada Ribeirão Preto, deve, como eu, pagar um tributo à competência do coringa da emissora, Marcos Uchoa, que consegue entregar uma crônica irretocável de 30 segundos (na melhor tradição de Carlinhos de Oliveira ou Drummond) para descrever como estão vivendo os sobreviventes do morro do Bumba (dia 12/4, link abaixo).

Do ponto de vista de imprensa, essa foi uma tragédia da TV, ou da TV Globo, que andou pelo Bumba um pouco antes do deslizamento. Por isso mesmo, um bom texto, nesse meio e nessas circunstâncias, faz diferença. Não foi o que mais me sensibilizou, mas precisa ser reconhecido.

A tragédia do Bumba foi um raro exemplo da TV pautando a mídia impressa, além do rádio e da internet. Mesmo assim – ou talvez por isso – a cobertura obrigou os agentes da administração pública a se mexerem, o que é fundamental, em tempos de rorizes, arrudas e de campanha eleitoral para a presidência da República (por mais evoluída que essa disputa venha a ser).

Com toda a violência que nos cerca, ninguém conseguiu ficar indiferente à calamidade fluminense, com a qual estabeleci dois pontos opostos de contato, além, é claro, da constatação da enorme fratura exposta em nossa sociedade:

1) a frase do rapaz que se salvou porque tinha saído para entregar um pedido da pizzaria da família, enquanto pai, mãe e irmã eram soterrados pela avalanche: “Eles fizeram tanto por mim, não posso fazer nada por eles”;
2) a comparação do multiprefeito de Niterói, José Roberto Silveira, entre a tragédia de sua administração e as tsunami na Indonésia (Eduardo Paes, que é de outra época, foi mais digno).

A capa da Veja – o Cristo chorando – mostrou que o photoshop não serve só para corrigir imperfeições das coelhinhas da Playboy, mas pode ir para a mesma prateleira na qual eu arquivaria o especial do Fantástico com as sobras de gravações e o link de Fátima Bernardes na suíte (dia seguinte) da catástrofe. Mas a História deve provar que todas aquelas vidas não foram perdidas em vão.

Vínhamos de uma escalada de boas notícias, a começar pela aprovação do plano de Obama para a saúde (a prova de que os bons ventos poderiam chegar até aqui está no artigo publicado hoje, 14, na página 2 do Estadão, mistificando a reforma), seguida pelo acordo para a redução do arsenal nuclear, pela notícia da recuperação do nível de emprego no Brasil, pela inauguração do rodoanel do Serra (moro ao lado da av dos Bandeirantes) e pela a queda do preço do álcool, lembrando algumas.

Nesse ponto, o desastre fluminense nos atinge com um soco no estômago: revela a fragilidade patética da infra-estrutura em nossas cidades – futuras sedes da Copa do Mundo e da Olimpíada – dissolvem o otimismo inconseqüente, a hipocrisia, as falsas promessas, a conversa fiada e a iniqüidade social que nos esmaga e obriga irmãos ou vizinhos a construir moradias nas encostas do sofrimento, da ignorância e da ilusão. Alguma coisa tem que mudar.


sexta-feira, 26 de março de 2010

Mídia e Justiça



Fernando Sarney quer cobrar os seus U$ 13 milhões bloqueados do tesouro, por vazamento de investigação da PF

A censura ao Estado de S. Paulo é abominável. No Brasil, um sujeito que é apanhado com a boca na botija posa de vítima, como observou recentemente o antropólogo Roberto Da Matta, referindo-se à roubalheira em Brasília (mensalão, para mim, é reducionismo). Isso quando não ameaça recorrer á Justiça para ressarcir-se de bens não declarados – como no caso do Sarney empresário – e processar o FBI – como no caso do Maluf.

As reforma gráfica e editorial do Estadão melhorou muito a qualidade do bom jornal que ele sempre foi. As mudanças da Folha, lideradas por Sérgio Dávila, prometem. Ambos os processos refletem a crise da informação remunerada. Que pode se complicar muito se, associadas à evidente editorialização desses meios, a ela somarmos outras restrições como essa absurda censura imposta ao jornal.

O presidente Lula tem todo o direito de reclamar do viés que a grande imprensa, muitas vezes expõe, na cobertura a seu governo, por mais equívocos verbais e políticos que ele possa cometer. A editorialização da grande imprensa vem se acentuando, nos últimos anos, parte em consequência da crise acima referida, parte pela customização (pesquisas, didatismo, prestação de serviços), justificada pela necessidade de reter o público-alvo. Mas muito, ainda, infelizmente, pela defesa de idéias próprias que, queiram ou não, sempre permearam a atividade jornalística (o quarto poder).

Mas sempre que um veículo identificado com o atual governo – como a Carta Capital – publica uma critica a esse mesmo governo, que uma revista Veja consegue defender uma questão social, ainda que de um ponto-de-vista conservador, ou que uma Folha de S.Paulo dedica a metade de sua capa (25/3) ao protesto dos professores contra o governo Serra, virtual candidato da classe média e alta que estão no centro de seu target, eu comemoro.

Porque, não tem jeito: sem uma imprensa livre, os desmandos, as mazelas, os Arrudas, os Rorizes, os Malufes e os Fernandos Sarneys continuarão desviando da sociedade os recursos de que ela necessita para fazer-se representar num governo voltado às suas reais necessidades, interesses e utopias: como a utopia de uma imprensa livre, justa e soberana.

terça-feira, 23 de março de 2010

Os planos de saúde de lá e daqui


Parabéns à Folha de S.Paulo e ao Estadão, que perceberam a importância da aprovação do plano de saúde de Barak Obama, dedicando suas respectivas manchetes de ontem (22) ao fato. Não pude ver O Globo. O Estado, que talvez odeie os bancos mais do que o próprio Obama pós-subprime, comemorou o fato hoje (23), em editorial. Nos telejornais da manhã de ontem (22), o julgamento dos Nardoni inundou a programação. Minhas primeiras informações sobre a vitória do presidente norte-americano sobre as seguradoras e a indústria da medicina foram obtidas via TVE, CNN, Bloomberg e BBC.

Não gosto do tom confessional de alguns blogs, mas a pressão do trabalho me impede de ir muito além disso, neste post. Só queria registrar uma ponta de inveja em relação à democracia deles, na qual um governante que enfrenta uma crise de popularidade consegue um avanço social tão importante, enfrentando os poderosos interesses dos setores financeiro e hospitalar, em benefício do povo: simples assim. A ira dos republicanos ficou patente no trechinho de seção da Câmara mostrado pelos telejornais da noite, que, no entanto, não deram muita importância ao fato. Aqui, interesses mesquinhos entravam a aprovação de um projeto importante como o Pré-Sal.
A notícia do projeto de Obama poderia/deveria ter alcançado os meios de comunicação de hoje com suítes sobre a nossa situação nos âmbitos da saúde pública e privada, inversamente proporcional à conquista dos 32 milhões de norte-americanos beneficados pelo projeto de um presidente que está longe de desfrutar da popularidade do nosso. O único reflexo que presenciei na mídia local, além da breve observação do Guto Abranches (Conta-Corrente) quanto ao impacto positivo da aprovação do plano de saúde norte-americano no desempenho das bolsas, ontem, foi no programa Compras, Muito Mais, de Ariane Freitas, na CBN de hoje (23) - e todas as terças - sugerindo uma pressão maior da nossa agência reguladora sobre os planos de saúde.

Os planos de saúde, no Brasil, lideram as estatísticas do Instituto de Defesa do Consumidor, IDEC, pelo décimo ano consecutivo, com 22,3% das reclamações transmitidas ao órgão.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Fórmula o quê?



O tudo ou nada da Globo e da Bandeirantes

Reflexões-relâmpago podem ter espaço na Internet, mas não são do meu feitio. Tentei saber um pouco mais do que moveu aquele cidadão a matar o Glauco e seu filho – a raiz da violência, o misticismo, a desinformação, a drogalhada ou o hedonismo que grassa por aí – mas não pude. Imerso em meu próprio tráfego, tentei: primeiro o Uol e o Terra – livres do viés integral do G1, mas sem a força do rádio e da tv. Depois, fui aos talk shows travestidos de jornalismo da Globo e, finalmente, à Bandeirantes (Bandnews TV, rádio Bandnews, rádio Bandeirantes, TV Bandeirantes). Novamente, não consegui.

Condicionado, voltei várias vezes aos canais da família Saad, até perceber que o mundo havia parado, nos altos do Morumbi, para dar passagem ao grande evento da emissora, em toda a sua vasta programação. Nos poucos segundos de minhas vãs tentativas de ver e ouvir algo que não tivesse relação com o autorama da emissora, fiquei sabendo que o treino do sábado tinha sido cancelado por falta de aderência da pista do sambódromo, que, no entanto, seria raspada, durante a noite, para não frustrar o grande espetáculo.

Na Globo, o evento que tomou conta da grade da Bandeirantes, simplesmente inexistiu. Claro. Quem viu as corridas, diz que na Globo, o Galvão conseguiu queimar a bandeirada final com uma volta de antecedência e, na concorrência, o Luciano do Valle confundiu o carro da musa da prova, amarelo e azul (23) com outro, azul e amarelo (24) no acidente causado pela poeira que sobrou da reforma da pista na madrugada de domingo (14).

Na imprensa diária (Folha e Estadão) desta segunda-feira (15), nenhuma contestação, nem ao fato, nem à cobertura (reforçada, o tempo todo, pela política municipal): solidariedade, conveniência ou conspiração? – A propósito: agora há pouco (dia 15, 19 horas), ouvi um trecho do intenso debate entre os jornalistas Milton Jung, Marisa Tavares e Marlon Brum, do Extra (todos das Organizações Globo) no programa Notícia em Foco, da CBN (19 horas): estavam todos indignados com o viés impresso pelos assessores de imprensa dos políticos às informações transmitidas à mídia que, neste caso, precisa depurar tudo e correr atrás de outras fontes para entregar uma informação isenta à sociedade.

“O papel deles”, definiu o gremista Milton Jung, “é intermediar a informação passada aos jornalistas, com transparência total, e não dourar a pílula para garantir seus respectivos empregos, como estão fazendo”. Corretíssimo. Mas... e o papel da imprensa que ignora um grande evento da empresa concorrente, ou daquela que finge não ver o que vai pelo mundo, para engordar um pouquinho o seu caixa?
Foto: autorama, Folia e Fantasia

quinta-feira, 4 de março de 2010

Terremoto


Foto de Danny Alveal (EFE): Caixas de comida sendo preparadas para serem enviadas a Concepción no 4.0 dia do terremoto (2/3).
O rigor editorial (possivelmente atrelado à política comercial) e o showrnalismo estão matando a tradição jornalística do nosso companheiro, Roberto Marinho, não obstante a diligente formação por ele proporcionada a pelo menos dois filhos, João Roberto e José Roberto – que foi nosso colega na saudosa redação da rua Irineu Marinho, 30. Mas problemas de sucessão familiar são recorrentes na imprensa brasileira. Dona Lilly foi mais sábia na decisão de leiloar seus pancettis e dicavalcantis. Embora o Arnaldo Jabor goste de dizer que comunista pensa pedra, os do Dr. Roberto, como ele próprio os definia, eram disciplinados. Talvez por isso, o jornalismo da Casa, nos anos 70, fosse modelo no, apesar e acima da ideologia patronal – que incluía os irmãos Ricardo e Rogério.

Tenho me sentido uma espécie de ombudsman gratuito da Rede Globo, ultimamente. Para cortar esse prazer deletério, prometo interromper, depois deste post, as observações à atuação da velha Casa no exercício da honrosa profissão. Mas não consegui ficar inerte diante do nítido envergamento da cobertura do Jornal Nacional ao terremoto do Chile, que denunciou seguidamente o vandalismo do povo de Concepción enquanto o proscrito Luiz Carlos Azenha (meu foca, no Diário de Bauru-SP, com orgulho), na arquirrival Record colocava no ar, desde o seu primeiro dia de Chile (1/3), depoimentos sincopados pela emoção de pessoas desesperadas com a sede, a forme e o desamparo. Azenha nunca foi de engolir versões oficiais e, talvez por isso, tenha sido banido da Globo. Melhor destino teve o Bial – colega de época – que virou apresentador de BBB.

Marcos Uchoa talvez seja o melhor, dentre os bons repórteres da casa, mas sucumbiu à pirotecnia, também levado pelo hábito: timing, informação abrangente, passeios de câmera, boas imagens, parábolas perfeitas. Mas, para todos os efeitos, o sofrimento daquela população que já padece de tantos males sociais e de uma ansiedade derivada de um sentido de urgência imposto pela própria mídia (que nos atinge a todos, sobretudo nos momentos de angústia) desapareceu de cena. Para os telespectadores da Globo, o povo chileno, de civilizado, virou um bando de selvagens que na primeira oportunidade sai matando, incendiando e roubando como se fossem de outro país.

Só no terceiro dia (ontem, 3/3) o nosso editor-âncora, com a sua habitual expressão de vocês-sabem-o-peso- que-eu-carrego comandou a mudança de tom da emissora, justificando o desespero da população diante da demora no socorro às vítimas e da presença do exército em Concepción. Bonner levantou, finalmente, o sombrolho franzido diante da suposta baderna dos chilenos. Não era sem tempo, pensei, mastigando, como todos nós, a tragédia seguinte, que nos impediu de digerir a primeira: na Cidade de Deus, 13 passageiros de uma lata de sardinhas foram queimados por um bando de selvagens autênticos, apagando a glória do coronel da véspera que, tão supostamente quanto o deputado da meia, barganhou um carro roubado com traficantes e perdeu um soldado valoroso.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Cruzada Global



Não é segredo que a Globo elegeu o Islã como o nosso principal inimigo (a emissora nunca entendeu os limites entre a sua linha editorial e a consciência da nação) depois de enterrar, com uma pompa ritual, em novembro último (20.0 aniversário da queda do muro de Berlim), a internacional socialista, considerada, durante muito tempo, a maior ameaça ao conforto e aos privilégios da elite dominante, envelopados nos valores intocáveis como o empreendedorismo e a liberdade de expressão.

Além da ambição, considerada saudável pela civilização que a Globo julga proteger e por uma juventude que não vê problema em distribuir rasteiras no trabalho e gastar o que ganha com gadgets e outros prazeres fúteis, os colunáveis de Limeira (Oliveira e Ambruster, os reis do combustível adulterado) mostraram que, ao contrário do que propunham Marx e Engels, a manipulação e a fraude são mais interessantes do que a solidariedade e as oportunidades iguais para se alcançar os carrões, as lanchas e os helicópteros.

Você pode observar (infelizmente, a maioria não pode): sempre que alguma notícia desagradável para o mundo ocidental precisa ser divulgada – como o recente massacre de 27 civis no Afeganistão – a emissora providencia um lenitivo para antecipar a nota constrangedora.

No letreiro da Globonews de ontem à tarde (22/02), durante o simpático Via Brasil, a anestesia foi a declaração de culpa do afegão Najibullah Zazi, 25, sobre o ataque planejado para o metrô de Nova York, em outubro do ano passado. Logo depois, veio a nota sobre o massacre de civís afegãos. Perguntar por que o tal suspeito decidiu confessar justamente ontem, seria esperar demais dos meus antigos coleguinhas globais.

No JN, a escolha foi outra: o Irã anunciou a construção de mais duas usinas nucleares, sob severo protesto de Israel, que considera leves demais quaisquer sanções econômicas ao país inimigo. Para meu espanto, o jornal também mostrou imagens de predators recentemente adquiridos pelos israelenses, sem explicar, obviamente, tratarem-se de bombardeiros não-tripulados que têm sido alvo de sérios questionamentos éticos nos próprios EUA, fabricantes dessa peça de artilharia. A emissora nem de longe mencionou a condenação da União Européia à operação que matou Mahmoud Abdel Raouf em Dubai, no dia 19 de janeiro último.

Ao contrário do que os amigos de ambos os lados propugnam – que é impossível não tomar um partido nessa disputa – eu me recuso a fazê-lo. Mas não consigo ficar indiferente à manipulação da opinião pública, o que é muito diferente de se defender um ponto de vista, analisando opiniões equidistantes, como eu aprendi naquela casa (O Globo), nos meus primeiros anos de jornalismo, de chefes como o Evandro Carlos de Andrade, em plena ditadura militar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

E se a Natura comprasse a Redbull?


Esqueça a sucessão presidencial, Chaves e Belomonte: esta discussão você só encontra aqui


Enquanto os déficits publicos avançam, da Grécia aos EUA, passando pelo Bric, tumultuando pregões, mergers & acquisitions seguem fazendo a felicidade dos grandes escritórios de advocacia e consultorias organizacionais: Itaú/Unibanco, Perdigão/Sadia, Braskem/Quattor, Gutierrez/Cemig, Shell/Cosan, Votorantim/Cimpor.

A pergunta é: - Nos próximos dias/semanas, como é que um funcionário do Pão de Açúcar (ou, que seja, do Ponto-Frio) vai atender um cliente das Casas Bahia? – Já comprei em ambos, mas, para que ninguém pense tratar-se de elitismo de minha parte, informo que o Cafu, nosso tetra-campeão, acaba de trocar sua antiga mansão, na Riviera de São Lourenço, Litoral Norte de SP, por outra, em Peruíbe, Litoral Sul, em nome da liberdade – de construir uma mesa de alvenaria na calçada da praia em frente à casa e poder tocar pagode até o dia amanhecer, prazeres proibidos na antiga residência.

Mas quero falar de um outro tipo de cultura, a empresarial (também adoro futebol). Vamos imaginar que a Taurus, em vez de formar uma joint venture com a Israel Weapon Industries (IWI) para fabricar o fuzil de assalto Tavor 5.56 mm, resolvesse fundir-se com a Whirlpool/Brastemp, para produzir um lança-mísseis com acessórios na cor e no formato escolhidos pelo comprador: - Como seria a adaptação cultural entre os funcionários das duas empresas?

Será que as companhias, em geral – que levaram tanto tempo para construir pilares de marca, valores, missão e outros sinônimos de sua realpolitik – estão pensando nesse aspecto de seus processos de M&A, vencidas as etapas de due dilligences e reorganização de seus respectivos capital e participações?

No post que antecedeu este atribulado mês de janeiro, a respeito da discrepância de valores observada na campanha de fim de ano do Santander/Real, esta já era a questão. Se eu pudesse e o dinheiro desse, eu convidaria craques como o Fabio Steinberg, o Mário Ernesto Humberg, o Rodolfo Gutilla, o Walter Nori, o decano Nemércio Nogueira (que ainda está por aí) e até o professor Wilson Bueno - entre outros que não vou citar por serem meus concorrentes - para discutir este assunto que, convenhamos, promete.

Como isto é apenas um post, e não um artigo, com o objetivo de plantar e não de colher, devo admitir que, mesmo sem a devida acurácia e o tempo disponível, ja notei, desde o post do reveillon (e não, obviamente, em consequência dele), uma sensível mudança no tom da comunicação do Santander/Real. O que, guardadas as proporções, é inteiramente plausível, empregando-se, por exemplo, uma colher da inteligência insinuada na última campanha do pré-merger (o valor das idéias) numa generosa massa da consciência pública preconizada pelo segundo, nos últimos anos.

As saídas existem, mas nem sempre são visíveis para quem está envolvido na receita. É aí que entra o cheff, cuja experiência e o talento certamente balancearão os demais ingredientes de um e de outro agente. Simples? – Nem sempre. Paixões, medos e rancores estarão sempre rondando. Independentemente da eventual canibalização – ou não – da marca adquirida, é coisa para especialista.

Não sei se as empresas e seus consultores envolvidos nessas últimas fusões estão atentos a esse detalhe. Ilustração: The Upside downs, de Gustave Verbeek

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Santander real



Um mundo melhor para os nossos filhos, filhos melhores para o nosso mundo; poetas, idosos tratados com respeito: a nova campanha do Santander que estreou neste fim de ano absorveu o posicionamento de marca do Real (incorporado pelo banco espanhol no ano passado), o que deve ter exigido um esforço extra de seu country manager, Fábio Barbosa, para convencer os acionistas a se aproximar da índole, da cultura e, por consequência, do bolso do brasileiro com razoáveis níveis de renda e/ou informação.

Entre o sujeito cordial de Sérgio Buarque de Hollanda – percebido na nova campanha – e o temperamento sanguíneo da organização – espelhado na personalidade do presidente mundial do grupo, Emílio Botín – há uma distância oceânica. Pode ser apenas um detalhe, mas logo depois de assumir a presidência local do banco, Barbosa raspou a barba de uma semana que costumava usar, como complemento de uma bem cultivada reputação de banqueiro sustentável que continuou a seu lado na presidência da Febraban.

De perto ou de longe, tudo é banco, diria o Fado. O problema é que mesmo depois de passar 10 anos digerindo o Banespa, o Santander não parece ter absorvido a parte saudável de seu metabolismo. Experiências bem próximas indicam isso (não sou cliente, mas tenho amigos e parentes que o são): inflexibilidade da média gerência nas negociações, inconsistência entre as ações e as mensagens da empresa, serviços precários e sistemas de comunicação e atendimento ao consumidor/ouvidoria indefesos, diante da voracidade dos gestores de finanças.

Tomara que o Fábio consiga virar esse jogo, torcemos eu, boa parte da imprensa de Economia e Negócios e do empresariado brasileiro, que admiram o seu estilo. Por enquanto, o Santander real está longe de ser o que o banco holandês chegou a ser, mesmo que você não acredite naquelas cestinhas de lixo e talões de cheque recicláveis,promoções para a terceira idade etc.


Além dos sintomas descritos acima , uma espetada da revista Exame desta quinzena dá o tom da expectativa da platéia, ao constatar o empobrecimento da paisagem sócio-ambiental da Paulista depois que a sede do antigo Real mudou-se para a Vila Olímpia (que a revista, aliás, situa na zona oeste da Capital), na zona sul da cidade.

A minha torcida pessoal é de época: também pertenço à geração que se viu capaz de mudar o sistema por dentro, durante algum tempo. Também espero que a frase de Santo Agostinho, neste caso, se esgote em si mesma. Ganhariamos todos nós: consumidores, mercado e os especialistas em branding.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Dilma-Meirelles x Serra-Aécio


A grita da intellighenzia tucana foi discreta, mas intensa. A possibilidade de uma chapa sucessória formada por Dilma Roussef e Henrique Meirelles assusta: a resistência do eleitorado petista de classe média a Michel Temer – antigo quercista associado ao fisiologismo, com peculiaridades comportamentais que não me cabe comentar – será grande. A diferença em relação a uma chapa Serra/Aécio – o primeiro, rejeitado por boa parte do estabishment, o segundo, pela esquerda do PSDB – não seria grande.

Meirelles passaria batido (para usar uma linguagem petista) por sua sólida contribuição à gestão de Lula, no estilo galinha ruiva: é preciso fazer o bolo para repartir o bolo. O wallessa brasileiro não teria subido tão alto no pódio da cena internacional – podendo conversar Shimon Peres e Ahmajinejad, Chavez e Obama – se o bom demônio não lhe tivesse permitido driblar a crise, com seu keynesianismo operário, escorado pela estabilidade da moeda e em reservas cambiais de US$ 200 bi.

Não foi por acaso que o Jânio de Freitas (FSP,16, Meios Insucessos) desvendou a manobra de Lula (a lista tríplice do PMDB), transformada em denúncia pelo bordado barthreano de Fernando Barros e Silva na FSP de ontem (16), Imagem Envenenada. A foto de Alan Marques (FSP,15, pg A-4), diga-se, é ótima.

Não tive tempo de ver o editorial do Estadão, de assistir ao Merval Pereira na Globonews, nem de ouvir a Lúcia Hippolito na CBN ou navegar pelo blog do Noblat e ler Dora Kramer, nos últimos dois dias, mas certamente o episódio serviu para atiçar o desespero da oposição e da mídia que, por ideologia ou por respeito à vocação crítica, insistem, mas não conseguem, abalar o prestígio e a popularidade de Lula.

O meu interesse, no caso, é a indústria da comunicação, sem parti pris. Pela mesma razão - aparentemente contraditória - não tomei conhecimento da tal Conferência Nacional da atividade, que as entidades patronais qualificaram de manobra para censurar a imprensa, num flagrante exagero. A tal CNC foi muito chapa branca para o meu caminhão. Mas, voltando à nossa democracia. Talvez seja ingenuidade, mas acho que Lula - goste-se ou não do seu governo - embora amarrado por uma aliança indispensável à governabilidade, no Brasil (como todos sabem), tem o direito sonhar, sem causar todo esse escândalo.
Lembrei-me de uma frase de Zuenir Ventura (1968, O Ano Que Não Terminou), durante uma conferência na qual um aluno levantou-se para dizer que nada mudou na sociedade brasileira depois da ditadura. Óbvia, mas bem situada: - Na ditadura, se você dissesse isso, seria preso. Uma boa diferença. Imagem: www.baixaki.com.br

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Si vis pacem para bellum


A frase não me ocorreu por causa da sublimação de Barak Obama, ao receber o Nobel da Paz, nem por conta do meu antigo professor de Latim, Aníbal Campi – que a adorava – e que se parecia muito, fisicamente com o Berlusconi antes da agressão de ontem (13). Aliás, não pretendo incitar à violência, mas não resisto a imaginar se o Brasil seria o mesmo se o Maluf, nosso maior símbolo da corrupção, tivesse sido, um dia, alcançado por um projétil de média distância, como a estatueta que interrompeu o comício do premiê italiano ou os sapatos do jornalista iraquiano Al-Zadi. Será que os rorizes e arrudas continuariam se proliferando no Planalto, a ponto de ameaçar a nossa espécie, como atualmente?

Embora não tenha comprado e lido (ainda) Os Americanos, de Antonio Pedro Tota, recomendado pelo Mattew Shirts, não resisto a imaginar quem ou o que plantou o argumento naquela mente harvardiana: uma frase tão antiga e tão singela para uma ocasião tão solene. Meio metro abaixo, imagino a perplexidade de uma platéia que supostamente consegue perceber a complexidade de questões como a do Oriente Médio, o que acontece no Afeganistão/Paquistão e que já ouviu falar de traficantes russos de armas norte-coreanas, de guerrilheiros colombianos e favelas cariocas. Eu daria o meu discurso para o Roberto Godoy (competente especialista em Defesa) copidescar. À minha volta, até a CNN começa a discutir a ética dos Predator (foto), as deadly offensive weapon in america’s war against terrorism.

A Veja desta semana tentou explicar a gaffe intelectual do camarada Obama (considerado socialista nos EUA), mas eu não vejo a revista (seguindo o conselho do título) com esse fim, senão para me atualizar quanto ao novo código sexual dos adolescentes inscrito nas pulserinhas amarelas com glitter, roxas, vermelhas e pretas (as melhores) que o Serginho Groisman certamente vai comentar em suas madrugadas pop (página 87 da edição desta semana).
No mais, o Flamengo de Andrade foi campeão brasileiro, mas o CQC flagrou um africâner ofendendo os trabalhadores negros que correm para finalizar as obras que vão dizer ao mundo que a África do Sul não é mais aquela e o trânsito continua matando mais do que o crime organizado: no último sábado (12), um garoto de 14 anos dirigindo um caminhão, atropelou e matou um outro, de 4, em Cidade Tiradentes, São Paulo. Sugestão de pauta de fim de ano para a Veja.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Consequências do blecaute



Entenda a relação dos Medici com o blecaute da última terça-feira

O apagão do dia 10/11 teve pelo menos uma boa consequência: interrompeu minha fala na banca que examinava uma Tese de Conclusão de Curso de Jornalismo da PUC-SP (parabéns, Victor Esteves, aprovado com louvor), uma universidade que não tem gerador, mas que ensina os jovens profissionais que, num país miserável como o nosso, o jornalismo só tem sentido se for usado como ferramenta de transformação social. Você pode discordar.

Já no editorial do Estadão de ontem (16), o Antonio Carlos Pereira não puxou, quase arrancou as orelhas da oposição por não ter conseguido transformar o blecaute acima referido numa crise institucional que se preze, digna de um Lacerda x Getúlio. O editorial de hoje (17), por sua vez, “O Derretimento de Copenhage”, morreu às sete horas da manhã, quando Obama, ao lado de Hu Jintao, apareceu nos telejornais anunciando que não vai mais defender o adiamento das metas de redução das emissões em seu país, responsáveis, em boa parte, pelo aquecimento global.

A TTC na PUC-SP, para o cuja banca tive a honra de ser convidado, trata do futuro dos jornais impressos. Segundo o livro-reportagem de Victor Esteves, os grandes jornais – hoje usados pelas empresas como as lojas âncoras dos shoppings inaugurados há vinte anos – terminarão como delicatessen. A palavra escrita passará por outras superfícies e a sua produção, por outros meios, mas permanecerá, ele sustenta. O problema – penso eu – está nas perdas acarretadas por essas mudanças, que vão da apuração à qualidade do texto, da edição à hierarquização das notícias, da crítica à análise, do equilíbrio à credibilidade.

Um jornal de Santa Maria-RS publicou, no último dia 9, que a romaria medianeira de NS das Graças (uma espécie de círio de Nazaré gaúcho) foi prejudicada pela falta de energia para os barraqueiros que trabalham o ano inteiro para vender seus produtos na festa (7 e 8/11). A notícia dizia que pelo menos dois desses comerciantes tinham registrado a ocorrência na polícia, para processar a prefeitura e a concessionária de energia local. Um amigo interessado descobriu que apenas os disjuntores dos dois litigantes não funcionaram. As marcas da empresa e da prefeitura ficaram arranhadas, mas o jornal não se retratou.

O que eu dizia, antes de ser interrompido pelo blecaute na PUC, vinha em defesa do autor da Tese, talvez excessivamente apoiada numa pesquisa sobre a imprensa norte-americana: na imprensa em que eu nasci, na segunda metade do século passado, a influência da norte-americana – por sua vez fundada numa sólida base democrática – era muito maior do que a da imprensa européia, que, quando eu cheguei a Portugal, em 1971, a convite do Médici (Emílio, não o Lorenzo), ainda publicava polêmicas de página inteira, como no tempo de Pessoa e Sá Carneiro, enquanto nós, na rua Irineu Marinho, 30, suávamos bicas para compor um lead que o Agnaldo Silva ia acabar dilapidando (com o mesmo talento das novelas, diga-se).

O Gay Telese não tinha escrito O Reino e o Poder, o Michael Bloomberg vendia fundos de investimento, o Faulkner e o Hemminguay nem tinham passado a bola para Mailler, Wolf e Capote, e acima de tudo, o Murdock não chamava o Larry Page e o Sergy Brin, do Google, de piratas do conteúdo. O problema não está na escola (latu sensu), professora, nem na tecnologia, mas na filosofia (como dizia Noel). Na minha visão, o que pode esvaziar o bom jornalismo é a editorialização da notícia, o parti pris, a perda de credibilidade, que pode vazar de um lado ou do outro. Seja um ponto-de-vista conservador como o do Estado ou progressista como o da faculdade onde fui cobrir a pancadaria daquele coronel, em 1978. O importante é que a perspectiva seja honesta, clara, correta (coisa do meu tempo).

Felizmente, o jornalismo contemporâneo tem seus momentos, como a matéria da Globo mostrando o taxista que acudiu um amante cujo carro ficou preso pelo portão automático da casa da outra e o rapaz que consertava uma tomada e entrou em crise ao pensar que tinha causado uma pane geral no quarteirão. Quanto ao TCC, acabamos todos no bar da esquina, comemorando a esperança da informação que transforma, ainda que à luz de velas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pedágios

10 novas praças no roteiro das praias paulistas ainda este ano: sorte do Seu Bené, que só usa a Via Dutra.

Sir William Wack – em reportagem sociológica que foi ao ar há uma semana – e depois, o sheik Tonico Ferreira, nesta segunda, 9/10 (sutil como um Philip Glass), pagaram seus respectivos pedágios pela passagem dos 20 anos da queda do muro de Berlim, essa arenga insuportável à qual só o Estadão (além da minha antiga casa acima citada, as Organizações Globo) continuou se dedicando, nesta terça-feira ensolarada de supermercados lotados (dia 10), em que o perdão a Geyse Arruda foi anunciado pelo Uniban Victoria Institute: sim, a moça de minissaia apedrejada por um bando de jovens mal orientados sexualmente.

Como todas as efemérides, na sociedade da informação, o assunto do muro tornou-se banal e cansativo, além do óbvio chute no cachorro morto do stalinismo, quando o socialismo, de fato (de Allende a Bachelet, por exemplo), já se transformou tantas vezes, como, aliás, o próprio capitalismo, nisso incluídas todas as versões anteriores ao Windows 7, entre elas, a rapinagem dos súditos de Sua Majestade nos quatro continentes – sobretudo na Índia e na África – e o genocídio indígena que fundou a nação mais poderosa do universo.

E por falar em pedágio e em nação poderosa, o grande irmão foi saudado, na semana passada, com mais esta pérola do comediante mal-humorado, Arnaldo Al Jabor, segundo o qual, em terra de macho, até os crimes são pra valer, coisa de cowboy, nada de pouca porcaria. Ele se referia à chacina praticada pelo major palestino Malik Nadal Hassan, às claras, de peito aberto, em pleno Fort Hood, Texas (EUA), sem tergiversação ou rebolados, como Jabor referiu-se, creio, à criminalidade local, que segundo ele, só se manifesta por baixo dos panos, coisa de corte portuguesa, merecedora de nojo e desdém.

No caso do comentarista, aliás, o pedágio é recíproco: do enteado virtual de Nelson Rodrigues à Casa que serviu de abrigo ao original, e desta mesma casa ao referido enteado, que precisa depositar a sua frustração (de não ser o original), diariamente, no mesmo vaso. Que Alá dê vida longa ao velho garoto de Copacabana, mas, como entertainment, eu prefiro o brother judaico-brazuca Luciano Hulk, que no dia seguinte à descarga do jornalista-cineasta no Jornal da Globo (sexta à noite, 06/10), trouxe de volta ao seu programa, no sábado, o impagável Seu Bené do Laranjão cantando Only You e fazendo coro com Martinho da Vila em Deixa a Tristeza pra lá. Benedito Vitor Junior, 51 anos, fretista em Barra Mansa-RJ, não tem nada de cowboy, mas cantou Only You como um dos Platters (http://www.youtube.com/watch?v=qivEZLjeAlg&feature=related)

Ainda sobre pedágios, achei bacana a entrevista do Caetano ao Estadão, por acaso, na véspera de seu show em São Paulo, tirando o fato de que o abre da capa o deixou parecido com o Dr. Júlio Mesquita. E por falar em Estado de São Paulo, aqui vai um pedido ao governador José Serra: no ano passado e este ano, tive que ir várias vezes a Bauru, perto de Botucatu, onde, nesta semana, começa a funcionar um novo posto de pedágio, alí explorado pela Rodovias Tietê, controlada pela Caio, do Felipe Massa, que já tem uma Ferrari. O valor dos pedágios dessa viagem (São Paulo-Bauru) é R$ 42,10. A passagem de ônibus custa R$ 60,65.

Fora isso, a F. de São Paulo publicou, no dia 19/08/2009, a seguinte notícia: Rota do Litoral Paulista deve ganhar ao menos 10 pedágios
(
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u611763.shtml).
Pergunto: - Governador, como é que o senhor pretende chegar a Presidente, com todos esses pedágios? – Pense nos fretes do Seu Bené.

Foto de Seu Bené: Felipe Vieira, Diário do Vale, 31/10.