terça-feira, 18 de maio de 2010

As lentes de Miguilim


Cena do filme Mutum - Divulgação

Os casos de violência contra crianças, nas últimas semanas, meses, me assustam. De todos os tipos: do maníaco de Luziânia, no DF e Isabela Nardoni, em SP, ao menino assassinado por roubar um cavalo para dar um passeio, ontem (17/05), num subúrbio carioca (Emerson Pontes, 13 anos). Sem falar na pro-espancadora e na festa do netinho do vereador Luiz Gallo, de Niterói (RJ), que acabou em pancadaria. Ou na pesquisa do bullying, que desfilou pela grande imprensa, no mês passado, sem deixar rastro quase nenhum.

A doença social é um clichê, mas lembrei-me de Pai, “ralhando com Nhanina por querer empobrecer a gente ligeiro, com tanto açúcar gasto com porcaria de doces e comidas de luxo só porque os meninos e Miguilim gostavam”. E da surra no filho que levou o Pai a endoidecer e se enforcar com um cipó, com medo de haver matado o menino. Bons tempos do Rosa, dos livros. O que temos que rever? – A educação das crianças, a escola ou a qualidade dos pais?

Meus filhos não me dão netos, os filhos de quatro anos do meu vizinho de baixo brincam na academia de ginástica, os garotos do Serginho Groismann passam altas horas na Internet, o videogame já desbancou a Band e o SBT em tempo de audiência (Uol, 11/05) e temos os garotos da cracolândia, os mortos na caixa d’água, os que cheiram cola, os que dançam com malabares e toda essa ladainha que estamos cansados de ver e ouvir desde o tempo em que o disco se podia virar.

Alguns dirão que a resposta está na (ausência) da fé – pelo jeito, até dentro da Igreja – outros na matriz social, os psicanalíticos, na solidão, os economistas, na hipermodernidade de Lipovetsky (a cultura do excesso), a Palmirinha (TV Gazeta-SP, das 13 às 14 h), na falta do amor, o Hugo Possolo, no pouco incentivo à cultura – uma única virada por ano –, o presidente do Jockey, no azar de quem não apostou no Sal Grosso, no último domingo, nem ouviu o coral da Rede Globo cantando o Hino Nacional.

Eu – e, tenho certeza, uma legião de outros fãs – recomendaria uma releitura do mundo pelos óculos que Rosa emprestou a Miguilim, no desfecho de Campo Grande, lembrado acima e na bonificação que se segue, de amostra grátis: “O dia estava quente, o Grivo esbarrou para escutar a gaitinha do Liovaldo – nunca tinha avistado aquilo – e aproveitou, punha os patos para beber água num pocinho sobrado da chuva...”.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O possível e o provável


Se você não tem 24 horas para voar à Xangai que resistiu ao massacre de prostitutas da revolução cultural, nem as míseras 12 horas que o separam da mostra do sul-africano William Kentdrige, no Moma-NY (foto) - uma excêntrica exibição de arte engajada, em plena era pós-moderna - ouso recomendar, baseado na frase colhida de um caminhão, há pouco ("Todos me perseguem, Deus me acompanha"), o seguinte roteiro: o lado B do meu amigo Robinson Machado, na galeria Mali Villas Boas, no Itaim Bibi -Tabapuã, 838; os óleos das duas bicicletas e três cadeiras de praia da exposição organizada por Andre Peticov, no espaço cultural do Empório Michelângelo (Fradique Coutinho, 798 -V. Madalena) e, diretamente do Guia da Folha, as colagens de Max Ernst no Masp e o Flávio de Carvalho do Mam-Ibirapuera. Essas duas últimas dicas dão direito, respectivamente, a uma esticada impressionista ao segundo andar do Masp e à mostra paralela do Mam, O homem nu. Entre o Masp e o Mam-Ibirapuera, você pode passar pelo mural de Eduardo Kobra, na 23 de maio. Sobre o lado B do meu amigo Robinson, no vértice da pop com a optical art, tenho observado que a atividade principal das pessoas, por mais que se aproxime do seu sentido da vida, já não basta para acomodar todas as suas inquietações, nessa era da sustentabilidade, que nos exige uma dose maior de autenticidade. Seja como for, a ilusão do eco -fornecida por este meio - reconforta e a expressão vira adrenalina. É provável que você me condene, mas é possível que aproveite um roteiro que para mim, neste fim de semana, tornou-se inviável.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Web-dia



Palavra que eu não recebi nenhum jabá da companhia aérea, até porque não sou um blogger famoso. Aliás, essa história de blogger-jabá é lenda urbana. Mas vamos à história: só no fim do dia entendi porque o Mano Menezes não quis responder às minhas três perguntas extra-futebol no vôo SP-Rio pela econômica Webjet, hoje (27/04), véspera do badalado confronto com o Flamengo. A entrevista poderia me transformar num blogger famoso, com acesso a todas aquelas vantagens-lendas inerentes a essa destacada posição nas mídias sociais.

Vejam as perguntas:

1) Você maneja bem as palavras, em suas entrevistas. É treino ou jeito para a coisa? - Muito Fernando Veríssimo? - Que jornais e revistas você lê, ou não lê? - Que rádios jornalísticas e telejornais vê/escuta? - E os sites e blogs? Quem ensinou você a manejar o twitter?

2) Os programas de Responsabilidade Social dos quais você participa (hospitais em SP e no RS) vêm de uma tradição familiar religiosa ou de uma formação política? - Existe, na sua opinião, vida inteligente (no sentido ético/estético) dentro do planeta futebol? - Quem são seus ídolos?

3) Vantagens e desvantagens de enfrentar, logo de cara, o Flamengo, depois de tanto esforço para chegar a esta fase, em primeiro lugar?

Obviamente, eu não perguntaria ao Mano Menezes se ele levaria o Neymar à África do Sul porque esta é uma prerrogativa do Dunga, como a imprensa esportiva já concluiu. O clima, no vôo, foi ameno, apesar da ameaça de cancelamento, na cabeceira da pista, por uma alegada pane geral nas telecomunicações do Santos Dumont e do assédio sonolento dos fãs - principalmente ao lateral Roberto Carlos - na econômica viagem que começou às 7h40, em Guarulhos.

Perto da aterrisagem, a tiração de sarro de praxe tomou conta do ambiente, depois das web-boasvindas e web-bomdias das comissárias: a web-pista que não chegava, a web-água da baía de Guanabara, o web-Cristo, o web-Pão de Açúcar. A razão pela qual a entrevista foi negada, portanto, não foi a TPM do jogo, nem o marketing (esse tormento contemporâneo) do mau humor, até porque essa marca já foi encampada pelo Muricy.

Mano Menezes já se autodenominara o porta-voz do dia, como me revelariam os radiojornalistas esportivos no final da tarde. "Não é hora de falar", decretou o comandante, em sua coletiva, com o objetivo explícito de "evitar a pressão da torcida carioca contra o Ronaldo". Segundo o primeiro ministro do Timão, o fenômeno tentaria aproveitar a oportunidade única de marcar, pela primeira vez, no Maracanã, lacuna imperdoável na carreira de alguém que já se consagrou como um dos maiores craques do país, em todos os tempos.

A imprensa teve que se contentar com essas duas frases de efeito. Nada de discutir a falta de heróis da nação brasileira ou a indisciplina que levou o Flamengo à situação atual e, muito menos, a impronunciável exegese dessa triste condição. Tampouco se pode discutir o penoso resgate do craque – hoje pesado e trôpego - que tanto nos deu e tanto levou de patrocinadores obesos e jovens talentos da equipe, passando pela heróica defesa da qual, o corinthiano, hoje, ousa duvidar.

Chegando ao Rio, o meu web-dia prosseguiu: o mouse do meu notebook resolveu me deixar na mão no início da apresentação para a qual eu me preparara durante um mês. Depois, fiquei sabendo por meu futuro ex-cliente que o meu concorrente vem oferecendo um produto tecnologicamente mais avançado. Em seguida, a reunião foi interrompida porque encontraram contrabando num dos navios da empresa.

Para me recompor, decidi almoçar no Sentai - um sujinho da Central do Brasil especializado em lagosta - e passei pela casa do Marechal Deodoro, pichada com 120 anos de atraso, mas não consegui atravessar a Presidente Vargas por causa de um incêndio no camelódromo local. Vaguei pelo Santo Cristo sob 36 graus e almocei correndo, mas não consegui pegar o vôo das 13h45. Enquanto esperava pelo próximo vôo, presenciei um pequeno tumulto causado por um sujeito que furou a fila do chek-in, administrado pela web-funcionária de terra com a pitoresca frase: "Vocês que se entendam".

Fui para a sala Vip tentar trabalhar um pouco, mas o cabo de internet deles não funcionava e não havia pendrive disponível. Fui a um quiosque comprar a memoriazinha, mas o web-vendedor, solidário, emprestou-me o dele por entender que os seus preços estavam muito salgados: cinqüenta reais por 2 GB. A prostituta que se apaixona, o traficante que usa a droga, os bancos que não aceitam cheques.

Não consegui transferir o arquivo do meu computador para o da sala Vip porque entre as facilities disponibilizadas aos portadores do cartão ficam escondidos por trás de uma parede de madeira para evitar roubos, fraudes, panes e demais riscos. Tentei minha web-conexão Vivo, mas o celular não funcionou, tampouco o callcenter da dita operadora, em três exaustivas tentativas.

Depois de matar todo esse tempo, tomei o web-vôo das 16h20, cuja turbulência causada por ventos de 160 km/h foram saudados pelo web-comandante como capaz de balançar um pouquinho o gelo de nossos copos ou embalar o nosso sono. Depois de nos tranqüilizar quanto ao horário da chegada, o moço informou que atingíramos nove mil metros de altura, a 760 quilômetros por hora, com uma temperatura externa de quarenta graus negativos, "razão pela qual", como assinalou, "eu recomendo aos senhores que permaneçam do lado de dentro da aeronave".

Uma web-viagem, enfim, divertida, mas que teria sido de pouca serventia, não fosse pela expressão carioca que ouvi numa banca de jornal da rua Santa Luzia, lembrando um espírito que - creio - não morrerá jamais naquela cidade: "Estou mais enrolado do que bacalhau de cobra".

Foto OESP na coletiva de hoje, 27/4/2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Tchaikovsky na Cracolândia



Cheguei atrasado à estação Júlio Prestes, depois de pegar uma José Paulino recém-anestesiada pelo sábado à tarde (17/4); passei pelo fantasma da velha rodoviária, contornei o finalzinho da Duque de Caxias, mas esperei como um novaiorquino por quatro angustiantes minutos, das 16h10 até o primeiro sinal do concerto, quando finalmente transpus a cancela do estacionamento que serve, tanto à Sala São Paulo, como à Estação Pinacoteca. Retirei o par de ingressos que me aguardava na recepção em tempo de ouvir o maldito Descartes berrar nos meus ouvidos:

- Você ficou de ver as serigrafias do Andy Warhool, antes!

Pensei “deve ser por isso que os franceses adoram o Brasil”, atravessei o espaço entre os dois edifícios com passada de agrimensor, subi as escadas como um macaco e varri com os olhos os retratos das rainhas daquela década – Marilyn, ele, Jackie Kennedy – e corri de volta ao concerto que inexistiu, do momento em que botei os olhos na velha estação da Sorocabana transformada em monumento à cultura e os primeiros acordes daqueles músicos magníficos assoando seus instrumentos antes do show.

Senti o peso de olhares pouco elogiosos a meus trajes inadequados - jeans e camiseta - e acomodei-me nas dobras da poltrona, antegozando o que viria.

A abertura da Clemência de Tito, de Mozart pela OSESP, foi inatacável, assim como o regente convidado, Louis Langrée. O concerto para trompete de Hummel – apresentando o solista norueguês, Ole Antonsen – levou-me à fanfarra de Ochelsis Laureano, meu professor de Música do ginásio, em Bauru-SP, onde conheci brevemente as agruras do trompete, e de lá, ao grande Miles. O concertino de Regis Jolivet, por sua vez, foi um quadro de Picasso.

Depois do intervalo, veio a 6ª. Sinfonia, cujo primeiro movimento você não vai sossegar enquanto não ouvir de novo, e que, depois, vai lhe parecer familiar, mesmo que você nunca o tenha ouvido, como tudo o que esse russo escreveu.

Pyotr Ilich Tchaikovsky (1840-1893) tentou o suicídio depois de um casamento frustrado que durou poucos meses; foi humilhado pelo mestre que entrou para a história por definir o seu concerto em Si bemol como “impraticável” e, segundo o crítico Robert Cummins (All Music Guide), não morreu de cólera, mas da ingestão de um veneno imposto pela Escola de Jurisprudência de Moscou, que se sentiu envergonhada com um episódio que expôs a homossexualidade do compositor.

Júlio Prestes concluiu a ferrovia que trouxe o café à praça onde hoje se distribui sopa a uma centena de moradores de rua da Cracolândia. Foi primeiro paulista eleito presidente da República Federativa do Brasil, mas nunca assumiu o cargo, impedido pela Revolução de 30, de Getúlio Vargas, nosso primeiro ditador. Impossível escapar das analogias, ou da idéia do que Tchaikovsky poderia fazer pelas pessoas do lado de fora, se elas tivessem a chance de ouvi-lo.

Fernando Henrique Cardoso, primeiro presidente oriundo de São Paulo depois de Júlio Prestes, embora tenha nascido no Rio, onde Vargas cometeu o suicídio, preside o conselho da Orquestra. Agradeci a ele em silêncio, ao entrar na Sala São Paulo, ao entender a orquestra. Não concordo com muitas das idéias do ex-presidente. A primeira frase que li, aliás, no verso do programa do concerto, dizia: “A música de concerto valoriza os detalhes e sons muito suaves – assim, manter o silêncio na platéia é muito importante”. Mas a frase, ou a coincidência, não passa de detalhe, numa obra respeitável. Que alimenta muitas almas do lado de dentro da estação.

A Patética me arrancou duas lágrimas e uma vontade danada de abraçar cada um daqueles músicos, mas não me impediu de comentar, antes do início do concerto, com uma vizinha de poltrona:

- Aquela garota do cello, de blusa branca, é muito boa.
- Como é que você sabe? – ela provocou.
- Estou vendo daqui – sussurrei, como um fradinho. Ela franziu o cenho e não me dirigiu mais palavra, no que fez muito bem.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A cobertura da tragédia


Foto: protesto dos ex-moradores no dia 14/4 contra prefeito de Niterói-RJ (G1)

Se você, telespectador amigo, também sentiu-se incomodado(a) com a imagem do Tonico Ferreira, naquele terno virtual que ele não consegue tirar, nem falando da floresta amazônica, ou com a perplexidade do Ernesto Paglia, diante da sanguinolenta pesca de filés precoces de atum, uma realidade que ele – pilotando sua própria série – precisa mostrar para a sua amada Ribeirão Preto, deve, como eu, pagar um tributo à competência do coringa da emissora, Marcos Uchoa, que consegue entregar uma crônica irretocável de 30 segundos (na melhor tradição de Carlinhos de Oliveira ou Drummond) para descrever como estão vivendo os sobreviventes do morro do Bumba (dia 12/4, link abaixo).

Do ponto de vista de imprensa, essa foi uma tragédia da TV, ou da TV Globo, que andou pelo Bumba um pouco antes do deslizamento. Por isso mesmo, um bom texto, nesse meio e nessas circunstâncias, faz diferença. Não foi o que mais me sensibilizou, mas precisa ser reconhecido.

A tragédia do Bumba foi um raro exemplo da TV pautando a mídia impressa, além do rádio e da internet. Mesmo assim – ou talvez por isso – a cobertura obrigou os agentes da administração pública a se mexerem, o que é fundamental, em tempos de rorizes, arrudas e de campanha eleitoral para a presidência da República (por mais evoluída que essa disputa venha a ser).

Com toda a violência que nos cerca, ninguém conseguiu ficar indiferente à calamidade fluminense, com a qual estabeleci dois pontos opostos de contato, além, é claro, da constatação da enorme fratura exposta em nossa sociedade:

1) a frase do rapaz que se salvou porque tinha saído para entregar um pedido da pizzaria da família, enquanto pai, mãe e irmã eram soterrados pela avalanche: “Eles fizeram tanto por mim, não posso fazer nada por eles”;
2) a comparação do multiprefeito de Niterói, José Roberto Silveira, entre a tragédia de sua administração e as tsunami na Indonésia (Eduardo Paes, que é de outra época, foi mais digno).

A capa da Veja – o Cristo chorando – mostrou que o photoshop não serve só para corrigir imperfeições das coelhinhas da Playboy, mas pode ir para a mesma prateleira na qual eu arquivaria o especial do Fantástico com as sobras de gravações e o link de Fátima Bernardes na suíte (dia seguinte) da catástrofe. Mas a História deve provar que todas aquelas vidas não foram perdidas em vão.

Vínhamos de uma escalada de boas notícias, a começar pela aprovação do plano de Obama para a saúde (a prova de que os bons ventos poderiam chegar até aqui está no artigo publicado hoje, 14, na página 2 do Estadão, mistificando a reforma), seguida pelo acordo para a redução do arsenal nuclear, pela notícia da recuperação do nível de emprego no Brasil, pela inauguração do rodoanel do Serra (moro ao lado da av dos Bandeirantes) e pela a queda do preço do álcool, lembrando algumas.

Nesse ponto, o desastre fluminense nos atinge com um soco no estômago: revela a fragilidade patética da infra-estrutura em nossas cidades – futuras sedes da Copa do Mundo e da Olimpíada – dissolvem o otimismo inconseqüente, a hipocrisia, as falsas promessas, a conversa fiada e a iniqüidade social que nos esmaga e obriga irmãos ou vizinhos a construir moradias nas encostas do sofrimento, da ignorância e da ilusão. Alguma coisa tem que mudar.


sexta-feira, 26 de março de 2010

Mídia e Justiça



Fernando Sarney quer cobrar os seus U$ 13 milhões bloqueados do tesouro, por vazamento de investigação da PF

A censura ao Estado de S. Paulo é abominável. No Brasil, um sujeito que é apanhado com a boca na botija posa de vítima, como observou recentemente o antropólogo Roberto Da Matta, referindo-se à roubalheira em Brasília (mensalão, para mim, é reducionismo). Isso quando não ameaça recorrer á Justiça para ressarcir-se de bens não declarados – como no caso do Sarney empresário – e processar o FBI – como no caso do Maluf.

As reforma gráfica e editorial do Estadão melhorou muito a qualidade do bom jornal que ele sempre foi. As mudanças da Folha, lideradas por Sérgio Dávila, prometem. Ambos os processos refletem a crise da informação remunerada. Que pode se complicar muito se, associadas à evidente editorialização desses meios, a ela somarmos outras restrições como essa absurda censura imposta ao jornal.

O presidente Lula tem todo o direito de reclamar do viés que a grande imprensa, muitas vezes expõe, na cobertura a seu governo, por mais equívocos verbais e políticos que ele possa cometer. A editorialização da grande imprensa vem se acentuando, nos últimos anos, parte em consequência da crise acima referida, parte pela customização (pesquisas, didatismo, prestação de serviços), justificada pela necessidade de reter o público-alvo. Mas muito, ainda, infelizmente, pela defesa de idéias próprias que, queiram ou não, sempre permearam a atividade jornalística (o quarto poder).

Mas sempre que um veículo identificado com o atual governo – como a Carta Capital – publica uma critica a esse mesmo governo, que uma revista Veja consegue defender uma questão social, ainda que de um ponto-de-vista conservador, ou que uma Folha de S.Paulo dedica a metade de sua capa (25/3) ao protesto dos professores contra o governo Serra, virtual candidato da classe média e alta que estão no centro de seu target, eu comemoro.

Porque, não tem jeito: sem uma imprensa livre, os desmandos, as mazelas, os Arrudas, os Rorizes, os Malufes e os Fernandos Sarneys continuarão desviando da sociedade os recursos de que ela necessita para fazer-se representar num governo voltado às suas reais necessidades, interesses e utopias: como a utopia de uma imprensa livre, justa e soberana.

terça-feira, 23 de março de 2010

Os planos de saúde de lá e daqui


Parabéns à Folha de S.Paulo e ao Estadão, que perceberam a importância da aprovação do plano de saúde de Barak Obama, dedicando suas respectivas manchetes de ontem (22) ao fato. Não pude ver O Globo. O Estado, que talvez odeie os bancos mais do que o próprio Obama pós-subprime, comemorou o fato hoje (23), em editorial. Nos telejornais da manhã de ontem (22), o julgamento dos Nardoni inundou a programação. Minhas primeiras informações sobre a vitória do presidente norte-americano sobre as seguradoras e a indústria da medicina foram obtidas via TVE, CNN, Bloomberg e BBC.

Não gosto do tom confessional de alguns blogs, mas a pressão do trabalho me impede de ir muito além disso, neste post. Só queria registrar uma ponta de inveja em relação à democracia deles, na qual um governante que enfrenta uma crise de popularidade consegue um avanço social tão importante, enfrentando os poderosos interesses dos setores financeiro e hospitalar, em benefício do povo: simples assim. A ira dos republicanos ficou patente no trechinho de seção da Câmara mostrado pelos telejornais da noite, que, no entanto, não deram muita importância ao fato. Aqui, interesses mesquinhos entravam a aprovação de um projeto importante como o Pré-Sal.
A notícia do projeto de Obama poderia/deveria ter alcançado os meios de comunicação de hoje com suítes sobre a nossa situação nos âmbitos da saúde pública e privada, inversamente proporcional à conquista dos 32 milhões de norte-americanos beneficados pelo projeto de um presidente que está longe de desfrutar da popularidade do nosso. O único reflexo que presenciei na mídia local, além da breve observação do Guto Abranches (Conta-Corrente) quanto ao impacto positivo da aprovação do plano de saúde norte-americano no desempenho das bolsas, ontem, foi no programa Compras, Muito Mais, de Ariane Freitas, na CBN de hoje (23) - e todas as terças - sugerindo uma pressão maior da nossa agência reguladora sobre os planos de saúde.

Os planos de saúde, no Brasil, lideram as estatísticas do Instituto de Defesa do Consumidor, IDEC, pelo décimo ano consecutivo, com 22,3% das reclamações transmitidas ao órgão.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Fórmula o quê?



O tudo ou nada da Globo e da Bandeirantes

Reflexões-relâmpago podem ter espaço na Internet, mas não são do meu feitio. Tentei saber um pouco mais do que moveu aquele cidadão a matar o Glauco e seu filho – a raiz da violência, o misticismo, a desinformação, a drogalhada ou o hedonismo que grassa por aí – mas não pude. Imerso em meu próprio tráfego, tentei: primeiro o Uol e o Terra – livres do viés integral do G1, mas sem a força do rádio e da tv. Depois, fui aos talk shows travestidos de jornalismo da Globo e, finalmente, à Bandeirantes (Bandnews TV, rádio Bandnews, rádio Bandeirantes, TV Bandeirantes). Novamente, não consegui.

Condicionado, voltei várias vezes aos canais da família Saad, até perceber que o mundo havia parado, nos altos do Morumbi, para dar passagem ao grande evento da emissora, em toda a sua vasta programação. Nos poucos segundos de minhas vãs tentativas de ver e ouvir algo que não tivesse relação com o autorama da emissora, fiquei sabendo que o treino do sábado tinha sido cancelado por falta de aderência da pista do sambódromo, que, no entanto, seria raspada, durante a noite, para não frustrar o grande espetáculo.

Na Globo, o evento que tomou conta da grade da Bandeirantes, simplesmente inexistiu. Claro. Quem viu as corridas, diz que na Globo, o Galvão conseguiu queimar a bandeirada final com uma volta de antecedência e, na concorrência, o Luciano do Valle confundiu o carro da musa da prova, amarelo e azul (23) com outro, azul e amarelo (24) no acidente causado pela poeira que sobrou da reforma da pista na madrugada de domingo (14).

Na imprensa diária (Folha e Estadão) desta segunda-feira (15), nenhuma contestação, nem ao fato, nem à cobertura (reforçada, o tempo todo, pela política municipal): solidariedade, conveniência ou conspiração? – A propósito: agora há pouco (dia 15, 19 horas), ouvi um trecho do intenso debate entre os jornalistas Milton Jung, Marisa Tavares e Marlon Brum, do Extra (todos das Organizações Globo) no programa Notícia em Foco, da CBN (19 horas): estavam todos indignados com o viés impresso pelos assessores de imprensa dos políticos às informações transmitidas à mídia que, neste caso, precisa depurar tudo e correr atrás de outras fontes para entregar uma informação isenta à sociedade.

“O papel deles”, definiu o gremista Milton Jung, “é intermediar a informação passada aos jornalistas, com transparência total, e não dourar a pílula para garantir seus respectivos empregos, como estão fazendo”. Corretíssimo. Mas... e o papel da imprensa que ignora um grande evento da empresa concorrente, ou daquela que finge não ver o que vai pelo mundo, para engordar um pouquinho o seu caixa?
Foto: autorama, Folia e Fantasia

quinta-feira, 4 de março de 2010

Terremoto


Foto de Danny Alveal (EFE): Caixas de comida sendo preparadas para serem enviadas a Concepción no 4.0 dia do terremoto (2/3).
O rigor editorial (possivelmente atrelado à política comercial) e o showrnalismo estão matando a tradição jornalística do nosso companheiro, Roberto Marinho, não obstante a diligente formação por ele proporcionada a pelo menos dois filhos, João Roberto e José Roberto – que foi nosso colega na saudosa redação da rua Irineu Marinho, 30. Mas problemas de sucessão familiar são recorrentes na imprensa brasileira. Dona Lilly foi mais sábia na decisão de leiloar seus pancettis e dicavalcantis. Embora o Arnaldo Jabor goste de dizer que comunista pensa pedra, os do Dr. Roberto, como ele próprio os definia, eram disciplinados. Talvez por isso, o jornalismo da Casa, nos anos 70, fosse modelo no, apesar e acima da ideologia patronal – que incluía os irmãos Ricardo e Rogério.

Tenho me sentido uma espécie de ombudsman gratuito da Rede Globo, ultimamente. Para cortar esse prazer deletério, prometo interromper, depois deste post, as observações à atuação da velha Casa no exercício da honrosa profissão. Mas não consegui ficar inerte diante do nítido envergamento da cobertura do Jornal Nacional ao terremoto do Chile, que denunciou seguidamente o vandalismo do povo de Concepción enquanto o proscrito Luiz Carlos Azenha (meu foca, no Diário de Bauru-SP, com orgulho), na arquirrival Record colocava no ar, desde o seu primeiro dia de Chile (1/3), depoimentos sincopados pela emoção de pessoas desesperadas com a sede, a forme e o desamparo. Azenha nunca foi de engolir versões oficiais e, talvez por isso, tenha sido banido da Globo. Melhor destino teve o Bial – colega de época – que virou apresentador de BBB.

Marcos Uchoa talvez seja o melhor, dentre os bons repórteres da casa, mas sucumbiu à pirotecnia, também levado pelo hábito: timing, informação abrangente, passeios de câmera, boas imagens, parábolas perfeitas. Mas, para todos os efeitos, o sofrimento daquela população que já padece de tantos males sociais e de uma ansiedade derivada de um sentido de urgência imposto pela própria mídia (que nos atinge a todos, sobretudo nos momentos de angústia) desapareceu de cena. Para os telespectadores da Globo, o povo chileno, de civilizado, virou um bando de selvagens que na primeira oportunidade sai matando, incendiando e roubando como se fossem de outro país.

Só no terceiro dia (ontem, 3/3) o nosso editor-âncora, com a sua habitual expressão de vocês-sabem-o-peso- que-eu-carrego comandou a mudança de tom da emissora, justificando o desespero da população diante da demora no socorro às vítimas e da presença do exército em Concepción. Bonner levantou, finalmente, o sombrolho franzido diante da suposta baderna dos chilenos. Não era sem tempo, pensei, mastigando, como todos nós, a tragédia seguinte, que nos impediu de digerir a primeira: na Cidade de Deus, 13 passageiros de uma lata de sardinhas foram queimados por um bando de selvagens autênticos, apagando a glória do coronel da véspera que, tão supostamente quanto o deputado da meia, barganhou um carro roubado com traficantes e perdeu um soldado valoroso.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Cruzada Global



Não é segredo que a Globo elegeu o Islã como o nosso principal inimigo (a emissora nunca entendeu os limites entre a sua linha editorial e a consciência da nação) depois de enterrar, com uma pompa ritual, em novembro último (20.0 aniversário da queda do muro de Berlim), a internacional socialista, considerada, durante muito tempo, a maior ameaça ao conforto e aos privilégios da elite dominante, envelopados nos valores intocáveis como o empreendedorismo e a liberdade de expressão.

Além da ambição, considerada saudável pela civilização que a Globo julga proteger e por uma juventude que não vê problema em distribuir rasteiras no trabalho e gastar o que ganha com gadgets e outros prazeres fúteis, os colunáveis de Limeira (Oliveira e Ambruster, os reis do combustível adulterado) mostraram que, ao contrário do que propunham Marx e Engels, a manipulação e a fraude são mais interessantes do que a solidariedade e as oportunidades iguais para se alcançar os carrões, as lanchas e os helicópteros.

Você pode observar (infelizmente, a maioria não pode): sempre que alguma notícia desagradável para o mundo ocidental precisa ser divulgada – como o recente massacre de 27 civis no Afeganistão – a emissora providencia um lenitivo para antecipar a nota constrangedora.

No letreiro da Globonews de ontem à tarde (22/02), durante o simpático Via Brasil, a anestesia foi a declaração de culpa do afegão Najibullah Zazi, 25, sobre o ataque planejado para o metrô de Nova York, em outubro do ano passado. Logo depois, veio a nota sobre o massacre de civís afegãos. Perguntar por que o tal suspeito decidiu confessar justamente ontem, seria esperar demais dos meus antigos coleguinhas globais.

No JN, a escolha foi outra: o Irã anunciou a construção de mais duas usinas nucleares, sob severo protesto de Israel, que considera leves demais quaisquer sanções econômicas ao país inimigo. Para meu espanto, o jornal também mostrou imagens de predators recentemente adquiridos pelos israelenses, sem explicar, obviamente, tratarem-se de bombardeiros não-tripulados que têm sido alvo de sérios questionamentos éticos nos próprios EUA, fabricantes dessa peça de artilharia. A emissora nem de longe mencionou a condenação da União Européia à operação que matou Mahmoud Abdel Raouf em Dubai, no dia 19 de janeiro último.

Ao contrário do que os amigos de ambos os lados propugnam – que é impossível não tomar um partido nessa disputa – eu me recuso a fazê-lo. Mas não consigo ficar indiferente à manipulação da opinião pública, o que é muito diferente de se defender um ponto de vista, analisando opiniões equidistantes, como eu aprendi naquela casa (O Globo), nos meus primeiros anos de jornalismo, de chefes como o Evandro Carlos de Andrade, em plena ditadura militar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

E se a Natura comprasse a Redbull?


Esqueça a sucessão presidencial, Chaves e Belomonte: esta discussão você só encontra aqui


Enquanto os déficits publicos avançam, da Grécia aos EUA, passando pelo Bric, tumultuando pregões, mergers & acquisitions seguem fazendo a felicidade dos grandes escritórios de advocacia e consultorias organizacionais: Itaú/Unibanco, Perdigão/Sadia, Braskem/Quattor, Gutierrez/Cemig, Shell/Cosan, Votorantim/Cimpor.

A pergunta é: - Nos próximos dias/semanas, como é que um funcionário do Pão de Açúcar (ou, que seja, do Ponto-Frio) vai atender um cliente das Casas Bahia? – Já comprei em ambos, mas, para que ninguém pense tratar-se de elitismo de minha parte, informo que o Cafu, nosso tetra-campeão, acaba de trocar sua antiga mansão, na Riviera de São Lourenço, Litoral Norte de SP, por outra, em Peruíbe, Litoral Sul, em nome da liberdade – de construir uma mesa de alvenaria na calçada da praia em frente à casa e poder tocar pagode até o dia amanhecer, prazeres proibidos na antiga residência.

Mas quero falar de um outro tipo de cultura, a empresarial (também adoro futebol). Vamos imaginar que a Taurus, em vez de formar uma joint venture com a Israel Weapon Industries (IWI) para fabricar o fuzil de assalto Tavor 5.56 mm, resolvesse fundir-se com a Whirlpool/Brastemp, para produzir um lança-mísseis com acessórios na cor e no formato escolhidos pelo comprador: - Como seria a adaptação cultural entre os funcionários das duas empresas?

Será que as companhias, em geral – que levaram tanto tempo para construir pilares de marca, valores, missão e outros sinônimos de sua realpolitik – estão pensando nesse aspecto de seus processos de M&A, vencidas as etapas de due dilligences e reorganização de seus respectivos capital e participações?

No post que antecedeu este atribulado mês de janeiro, a respeito da discrepância de valores observada na campanha de fim de ano do Santander/Real, esta já era a questão. Se eu pudesse e o dinheiro desse, eu convidaria craques como o Fabio Steinberg, o Mário Ernesto Humberg, o Rodolfo Gutilla, o Walter Nori, o decano Nemércio Nogueira (que ainda está por aí) e até o professor Wilson Bueno - entre outros que não vou citar por serem meus concorrentes - para discutir este assunto que, convenhamos, promete.

Como isto é apenas um post, e não um artigo, com o objetivo de plantar e não de colher, devo admitir que, mesmo sem a devida acurácia e o tempo disponível, ja notei, desde o post do reveillon (e não, obviamente, em consequência dele), uma sensível mudança no tom da comunicação do Santander/Real. O que, guardadas as proporções, é inteiramente plausível, empregando-se, por exemplo, uma colher da inteligência insinuada na última campanha do pré-merger (o valor das idéias) numa generosa massa da consciência pública preconizada pelo segundo, nos últimos anos.

As saídas existem, mas nem sempre são visíveis para quem está envolvido na receita. É aí que entra o cheff, cuja experiência e o talento certamente balancearão os demais ingredientes de um e de outro agente. Simples? – Nem sempre. Paixões, medos e rancores estarão sempre rondando. Independentemente da eventual canibalização – ou não – da marca adquirida, é coisa para especialista.

Não sei se as empresas e seus consultores envolvidos nessas últimas fusões estão atentos a esse detalhe. Ilustração: The Upside downs, de Gustave Verbeek

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Santander real



Um mundo melhor para os nossos filhos, filhos melhores para o nosso mundo; poetas, idosos tratados com respeito: a nova campanha do Santander que estreou neste fim de ano absorveu o posicionamento de marca do Real (incorporado pelo banco espanhol no ano passado), o que deve ter exigido um esforço extra de seu country manager, Fábio Barbosa, para convencer os acionistas a se aproximar da índole, da cultura e, por consequência, do bolso do brasileiro com razoáveis níveis de renda e/ou informação.

Entre o sujeito cordial de Sérgio Buarque de Hollanda – percebido na nova campanha – e o temperamento sanguíneo da organização – espelhado na personalidade do presidente mundial do grupo, Emílio Botín – há uma distância oceânica. Pode ser apenas um detalhe, mas logo depois de assumir a presidência local do banco, Barbosa raspou a barba de uma semana que costumava usar, como complemento de uma bem cultivada reputação de banqueiro sustentável que continuou a seu lado na presidência da Febraban.

De perto ou de longe, tudo é banco, diria o Fado. O problema é que mesmo depois de passar 10 anos digerindo o Banespa, o Santander não parece ter absorvido a parte saudável de seu metabolismo. Experiências bem próximas indicam isso (não sou cliente, mas tenho amigos e parentes que o são): inflexibilidade da média gerência nas negociações, inconsistência entre as ações e as mensagens da empresa, serviços precários e sistemas de comunicação e atendimento ao consumidor/ouvidoria indefesos, diante da voracidade dos gestores de finanças.

Tomara que o Fábio consiga virar esse jogo, torcemos eu, boa parte da imprensa de Economia e Negócios e do empresariado brasileiro, que admiram o seu estilo. Por enquanto, o Santander real está longe de ser o que o banco holandês chegou a ser, mesmo que você não acredite naquelas cestinhas de lixo e talões de cheque recicláveis,promoções para a terceira idade etc.


Além dos sintomas descritos acima , uma espetada da revista Exame desta quinzena dá o tom da expectativa da platéia, ao constatar o empobrecimento da paisagem sócio-ambiental da Paulista depois que a sede do antigo Real mudou-se para a Vila Olímpia (que a revista, aliás, situa na zona oeste da Capital), na zona sul da cidade.

A minha torcida pessoal é de época: também pertenço à geração que se viu capaz de mudar o sistema por dentro, durante algum tempo. Também espero que a frase de Santo Agostinho, neste caso, se esgote em si mesma. Ganhariamos todos nós: consumidores, mercado e os especialistas em branding.