terça-feira, 24 de setembro de 2013

Depois do festival

Chico Sexta-feira GraçasaDeus  Pinheiro teve, hoje (24/9), no Bom Dia, o seu momento de santa ira, ao narrar a história dos governadores e prefeitos que não querem aumentar o salário dos professores, no ano que vem, alegando falta de verba. “Eles têm dinheiro para trocar de carro”, vociferou. “Conseguem pagar assessor e aumentar o salário de vereadores, mas não podem pagar um ordenado decente aos professores”, insistiu, mas foi chamado à razão pela colega, Ana Luiza Guimarães: “Chico, vamos aos fatos”.

Carl Berstein, da dupla de Watergate - como alguém lembrou, ontem, durante a homenagem da Câmara de Vereadores de S. Paulo ao jornalista Eduardo Ribeiro, pelos 18 anos de “Jornalistas e Cia” – costumava dizer que o bom repórter “ilumina a cena”, enquanto que o mau repórter “constrói a notícia”. Pode ser. Num país onde as coisas funcionam razoavelmente bem, com uma Constituição sólida, simples e sem entulho autoritário, que protege os seus cidadãos, exceto em casos extremos, envolvendo assassinos malucos, faz sentido.
Para ficar dentro do tubo maldito (definição de Marcelo Tas), que completa 63 anos sem ter atingido a maturidade, como eu, o programa do William Waak do último domingo (22/9), com o diretor do IBMEC, Fernando Schuler (que não é o marido da Sheila Mello), o historiador, Marco Antonio Villa, e o cientista político, Marco Antonio Teixeira, da FGV, acabou num beco sem saída: a hegemonia gramsciniana da esquerda que está no poder – e que muitos nem sequer reconhecem como esquerda – não consegue fazer o país avançar por causa de sua aliança (histórica, no Brasil) com as oligarquias conservadoras.

Schuller acrescentou, ao caldo, a oligarquia sindical, que, segundo ele, também contribui fortemente para manter o país estagnado. O tema nuclear do programa era a aceitação dos embargos infringentes, seu reflexo nas eleições de 2014 e nas perspectivas do país, a médio prazo. Em pauta, a tipificação do crime praticado pelos engenheiros do Mensalão e que, corroborando a frase de Delúbio Soares, tornou-se “uma piada”: - Usurpação de poder, associada a uma causa nobre (erradicar a miséria) e encorajada por uma oposição “elegante demais” para derrubar o governo, em 2005, em nome da legalidade, ou banditismo (peculato, corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro), devidamente precificado por uma sociedade habituada à impunidade que vicejou à sombra do adhemarismo do “rouba, mas faz”?
A futurologia que viria a seguir, no debate, “em busca do crescimento sustentável que trará o tão sonhado desenvolvimento social”, esbarrou, justamente, no suposto desinteresse das oligarquias quanto às reformas institucionais que destravariam o país (principalmente a política e a trabalhista). “Há que ter paciência”, resumiu o moderador, “para que os implementos progressivos da nossa democracia (como esse julgamento?) surtam efeito”.

A premissa se baseia na suposição de que quem sobe de vida, enxerga melhor e logo exige mais. Será? Nossos colegas do Bric garantem isso? – A China consumista, a Rússia neofacista noveau riche e a Índia espiritualizada e tecnológica já conseguiram aperfeiçoar as suas respectivas democracias? – Com exceção da condenação de Bo Xilai à prisão perpétua, na China, seis meses depois do novo presidente, Xi Jingping, prometer um “combate inabalável à corrupção”, pouca coisa mudou, nesses países.
Em nossa vizinhança, os mais “civilizados”, cujos PIB crescem a taxas mais significativas, como a Colômbia (4% em 2012), o Peru (5,6% este ano) e o Chile (4,3%, no primeiro semestre) são, justamente, aqueles cujos governos amargam os maiores sinais de desaprovação, enquanto que os populistas, que menos crescem, desfrutam dos melhores índices de popularidade.

Tanto o círculo de ferro das oligarquias, quanto no a estagnação causada pelos que descobriram a poção mágica do populismo – distribuir pouco, para muitos – a única vara de condão capaz de quebrar os entraves ao crescimento estaria numa Educação capaz de inverter a frase de Moraes Moreira, “Lá vem o Brasil”. Em linguagem de Rock in Rio, não importa se os curadores do Palco Sunset estão mandando melhor que os do Palco Mundo: se eles se falassem, boa parte dos nossos problemas estaria resolvida .
No entanto,  informa O Globo, hoje (24/9), governadores e prefeitos se articulam para barrar o reajuste de 19% dos professores no próximo ano, razão pela qual o âncora do Bom Dia Brasil indignou-se, conforme relatei acima. Embora o piso nacional de R$ 1.567,00 por 40 aulas semanais seja, atualmente, respeitado por apenas 12 estados da federação,  segundo o porta-voz dos chefes de executivos municipais e estaduais, professor Jacy Braga, secretário de Educação Adjunto do Distrito Federal, o reajuste do ano passado (9,7%)  “já criou dificuldades para alguns estados”.

O MEC se dispôs a coordenar a negociação entre os representantes de governadores e prefeitos com a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação, mas já avisou que a decisão final será do Congresso. O governo pode aumentar o mínimo, mas o salário dos professores é responsabilidade do Congresso.
Por enquanto, o assunto está fora da agenda nacional, hoje tomada pelo discurso da presidente Dilma na ONU, pelo pior saldo na nossa balança comercial, pelo murro do deputado no senador, durante visita da Comissão da Verdade ao Doi-Cod, pelo casamento do pagodeiro – que o filho chama de “vagabundo” – com a mulher-fruta e pelo depoimento do filho do diretor do Friboi contra a mãe, acusada de mandar matar o marido. Amanhã, quem sabe, o tema da Educação volte à baila.
Meu projeto de migrar para o Canadá vai tomando corpo (não avisem o Consulado): os críticos da idéia não conseguem me convencer que outros temas da agenda nacional não guardam nenhuma relação entre si: as mancadas nos leilões das estradas e dos aeroportos, a deterioração fiscal, os equívocos na política energética, a queda da confiança da indústria – liderada por Paulo Skaf (a Fiesp) – os cartazes em inglês dos novos estádios mandando o sujeito ir para o sul em vez de apontar o norte, a sentença de morte ao José Júnior, do Afroreggae, as investigações do caso Siemens e o segundo lugar de Bruna Marquezine na Dança dos Famosos, enquanto o pobre Neymar vai sendo ofuscado por aquele argentino, lá no Barcelona.

Companheiro vereador José Américo, não pude ouvir o seu discurso, ontem, sobre "O papel do jornalismo e a transformação social"; em compensação, no trajeto de volta, ouvi, na rádio Estadão, parte da reportagem de Júlio Maria, sobre o Rock in Rio, cuja leitura, recomendo, no Estadão de hoje, 24/9: "Glórias e contradições de um festival".

Legenda: - Pues, donde estamos, exactamente?

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Abaixe a arma!


Como todo comentarista de botequim, costumo misturar ingredientes do que se passa à minha volta para tecer uma teia capaz de reter mosquitos de atenção de amigos que eu não consigo rever todos os dias. Hoje, por exemplo, tento relacionar a elevação da funkeira Anitta ao primeiro plano da música nacional (estrela do Prêmio Multishow) e o suicídio do baixista Champignon, do Charlie Brown Jr, – fatos lamentáveis, embora não equivalentes – cuja analogia explico a seguir. Também vejo relação entre a boa matéria do Alberto Bombig, na revista Época desta semana (Haddad no moedor de carne) e as elocubrações de analistas sobre o futuro político de Barak Obama, tendo a Síria como pano de fundo.

Os rapazes do Manhatan Connection (Globonews, 8/9) discordaram sobre as diferentes modalidades de genocídio, com ou sem leite, açúcar ou crianças espumando. Já o povo da Globonews/notícias discutiu, simplesmente, o transbordo do conflito para toda a região, sem preocupar muito com os 1.500 mortos pelas armas químicas de Assad: talvez isso não coubesse no formato programa. Prefiro as discussões do Legião Estrangeira, da TV Cultura, que reúne correspondentes no Brasil para falar de política internacional, apesar do péssimo título que, além de tudo, rima com o sobrenome da apresentadora, Mônica Teixeira. Lúcia Guimarães, do Estadão (9/9), comparou a situação de Obama à do capitão espanhol do século XV, obrigado pelos piratas a saltar da ponte de seu próprio navio.
A intellighentsia norte-americana, assim como a maior parte daquela população, repudiou/repudia o ataque à Síria, mas os estrategistas de plantão esperavam/esperam que a intervenção fosse/seja para valer. O papa Francisco perguntou qual o verdadeiro sentido da guerra, se resolver problemas ou ensejar bons negócios. Já presidente russo, Vladimir Putin, que apóia o ditador sírio, blefou descaradamente quanto à possibilidade de uma fiscalização da ONU no arsenal do aliado, enquanto Assad, em trajes ocidentais, garantia à CBS não ter assassinado civis com gases venenosos, banidos pela humanidade desde a primeira guerra mundial. Israel, por sua vez, montou o seu guarda-chuva no quintal (iron dome) e assistiu a tudo em silêncio: correr para onde?

Caberia a Obama tomar a decisão de desencorajar o agravamento do genocídio comandado por Assad, com ou sem armas químicas, tendo ou não jihadistas no grupo de rebeldes que se opõem ao ditador. Mas o presidente norte-americano, assim como o prefeito paulistano, mostrou hesitação, ao transferir ao Congresso a responsabilidade por uma decisão que lhe caberia tomar sozinho.  Como a Obama faltou coragem, o sofrimento da população síria tornou-se alvo fácil da propaganda, que dois especialistas norte-americanos em relações internacionais, Albert e Roberta Wohlstetter, definem como “barulho” (espontâneo ou calculado), que se distingue dos “sinais” que antecedem um conflito real.
Na sequência, a velha cena de comic books tomou conta o noticiário:

- Put the gun down – disse o sargento pacifista John Kerry, assessorado pelo selvagem da motocicleta, Vladimir Putin. Se o chefe dos Irmãos Dalton vai obedecer, ou sacar a arma, de surpresa, só vamos saber na próxima cena.
Enquanto isso, o nosso prefeito, Fernando Haddad, enfrenta uma situação financeira paralisante – que ele optou por não denunciar, no início do mandato, por disciplina política: se, no ato da posse, saísse atirando, poderia comprometer a aliança de seu antecessor, Gilberto Kassab, com a sucessão de sua chefe, a presidente Dilma Rousseff. Isso, no entanto, lhe teria dado um certo respiro:  – Perdeu, playboy – diria o punguista que assaltou o Paulinho da Força (e levou 300 reais).

O segundo grande desafio de Haddad também é de natureza política, como revela Bombig, em sua reportagem: em vez de nomear parceiros de partido para as 31 subprefeituras da capital, consideradas um “filé mignon” eleitoral, o menino-prodígio escolheu técnicos e engenheiros. Finalmente, no episódio das passagens do transporte público que acenderam o estopim das manifestações de junho, Haddad “foi engolido” pelos tucanos, na visão de seu padrinho político, o ex-presidente Lula.

A falta de habilidade ou a recusa do prefeito em sucumbir ao compadrio pode abreviar a sua carreira política, mas pode ter sido este, justamente, o fator que lhe permitiu conquistar 56% dos votos válidos da Capital paulista na disputa do segundo turno contra um adversário alquebrado, mas poderoso, como o tucano José Serra. No outro hemisfério, o bom-mocismo do democrata que alimentou a esperança dos amantes da liberdade contra a força do tea party pode decretar o desfecho melancólico de sua carreira. Afinal, a coragem não é um privilégio dos bravos e fortes, lá, como a cara de pau é aqui?
Na relação entre o acesso de Anitta ao trono da música brasileira e o mal-estar causado pela morte de Champignon, do Charlie Brown Jr, a questão é mais delicada. Assim como a morte do Chorão, o suicídio do baixista me comoveu, muitos anos depois de uma sensação parecida, relacionada às mortes de Hendrix, Morrison e Joplin. Tenho um amigo que gosta de comparar o genocídio da II Guerra (50 milhões de mortos) à barbárie atual, a fim de provar que a humanidade evoluiu. O objeto final do raciocínio é concluir que o Brasil, apesar de tudo, melhorou. Não concordo. Não dá para aceitar candidamente o vazio e a depressão em cabeças tão jovens, com tanto a oferecer, num país de saúde tão precária que precisa importar médicos e com uma Educação tão miserável que professorinhas são espancadas nas escolas.

Sempre me lembro de como aprendi Latim (isso mesmo) na escola pública: meu professor, Aníbal Campi, passava um texto onde a ética não era discutida em torno do suborno de um porteiro de garagem, como nas colagens aguadas de Walcyr Carrasco, e sim no meio de um temporal, em plena Odisséia. Alí também se passavam cenas de vingança, raiva, paixão, bravura, hesitação, encanto, contentamento. Era uma briga de gato e rato: eu separava um único parágrafo – mais do que isso, seria pedir muito – e o traduzia com a precisão de que era capaz. Sabia que mais cedo, mais tarde, seria convocado pelo mestre. Simples: era o marginal da galera. A questão era escolher o momento certo de provoca-lo – início, meio e fim da aula anterior corresponderiam a início, meio e fim  da aula seguinte da minha chamada oral.
Durante anos, dormi feliz, por ter ludibriado o professor mais encardido da minha escola. Demorei, mas aprendi – mais satisfeito ainda - que o logro tinha sido meu. Demorei um pouco mais para entender que essa pedagogia seria fundamental, nos dias de hoje, o ensino customizado. Parece uma exigência banal, mas está tão longe dos bancos escolares quanto a professora de uma das melhores escolas de São Paulo que pediu,  recentemente, a um garoto de seis anos, que separasse as dezenas dos avulsos contidos no número sessenta e sete, sem explicar, ao garoto, o significado de “avulsos”.

Não importa que Anitta seja a estrela do Multishow ou que a Ivete Sangallo tenha sido comparada às divas do jazz, numa reportagem de domingo do NYT, embora a sua música não diga nada. Há espaço para tudo na prateleira cultural, mas a entrevista do pianista Marcelo Bratke a Antonio Abujamra, num outro programinha da TV Cultura, Provocações, no último domingo, merecia o horário nobre de uma emissora de massa, para não dizer um telão em praça pública. O pianista ignorou o fato de ser cego, até os 40 anos, porque tentava esconder de si e do mundo essa condição. Bem sucedido, hoje, lidera o projeto Camerata Brasil, na ponta de um processo de formação musical de jovens talentos da periferia. Ah, ele também se apresenta em penitenciárias.
A história de Bratke vai ser contada pela biógrafa inglesa, Kate Snell, que se interessou pelo músico enquanto ele era um desconhecido, em seu próprio país.

Vão me taxar de elitista mas, para mim, a importância da rainha do funk, num país como o nosso, é relativa. Também acho que isso pesa mais na estética dos excluídos do que nas ruas da vila Madalena, em São Paulo, ou na zona sul carioca, que nos legaram Arnaldo, Nando, Erasmo, Roberto, Tim, Tom, Vinícius, Torquato Neto e o que veio depois. A propósito de Torquato, outro suicida que hoje me faz falta, nunca é demais repetir uma de suas belas frases:
Leve um homem e um boi ao matadouro: o que berrar é o homem, mesmo que seja o boi.

Para: Camila, Alexandre, Renata.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

BR-040, o videogame

 
A jovem (e bela) escritora argentina, Samanta Schweblin, tem um conto – que não vou estragar agora – “Pássaros na boca” (Ed. Benvirá), falando daquilo que pode se tornar defensável, ou, pelo menos, aceitável, por nossos habitualmente estreitos padrões de convivência, dependendo das circunstâncias. Isoladas, obviamente, as regiões abissais da alma humana. Ninguém pode aceitar que um menino de 13 anos seja capaz de matar a própria família, mas o dilema pode assegurar uma semana de audiência para o José Luiz Datena.  
À luz do dia, algumas doses de leniência são admitidas, como o papa Francisco acolher os diferentes no mesmo manto que abriga o celibato; a ministra Carmen Lúcia distrair-se ao assinar um convênio que transfere, à Serasa, o cadastro de 140 milhões de eleitores; o ministro do STF, Luis Roberto Barroso, lembrar que o mensalão não foi o único crime de corrupção na política brasileira, ou a 14ª. Câmara do TJ-SP permitir que a nutricionista, Gabriela Guerrero Pereira, volte a dirigir, dois anos depois de atropelar e matar o estudante Vitor Gurman, de 24 anos, ao conduzir a sua Land Rover pelas ruas da Vila Madalena, bairro aqui da Capital, aparentemente, embriagada.

Como podemos constatar, diariamente, ou na leitura do post anterior deste blog, a violência no trânsito ficou tão banal quanto as manifestações públicas pós-ressaca de junho. Ônibus despencando de viadutos e matando pessoas tornaram-se quase frequentes, assim como os acidentes com motociclistas que trafegam da cidade de São Paulo (438 morreram, em 2012). Das 326 vítimas socorridas pelo Instituto de Traumatologia do HC-USP, de fevereiro a maio deste ano, conforme pesquisa divulgada ontem (14/8), pelo órgão, 67% nunca tinham passado por motoescola.
A tolerância que as manifestações de junho indicavam ter se esgotado, por falta de um padrão FIFA de Educação e de Saúde e doses cavalares de corrupção na política, pode ter se renovado por medidas como o projeto de reforma eleitoral – que não vai discutir a proporcionalidade do voto, por exemplo; o programa Mais Médicos – que não prevê melhorias na infra-estrutura de Saúde (atendimento e serviços) e a aprovação do projeto de 75% dos royalties do Pré-Sal para a Educação – notícia obrigada a conviver com outra, sobre a prisão de uma quadrilha que desviou R$ 6,6 milhões do Instituto Federal de Ensino à Distância, no Paraná (8/8).

De todo modo, a moralidade pública, que comporta a possibilidade de uma grande empresa internacional ter o benefício da delação, num caso de desvio de milhões de reais numa concorrência para a compra de trens para o Metrô de SP ou para a CPTM (a corrupção está entranhada na administração pública, desde o Brasil Colônia, dirão alguns) não esgota a ética, esse conceito difuso, na opinião do senador Edison Lobão Filho, segundo o qual, o que é ético para um norte-americano (espionar em nome da segurança, por exemplo) pode não sê-lo para um brasileiro: usar aviões da FAB para comparecer ao casamento da filha do amigo. Isso, na opinião do parlamentar, justifica a retirada dessa palavra imprecisa do Regimento Interno do Senado Federal.
Ética, senador, um conceito “abstrato”, na sua opinião é, segundo a Wikipedia (enciclopédia da sua geração): “a parte da filosofia dedicada aos estudos dos valores morais e princípios ideais do comportamento humano. Derivada do grego ἠθικό, significa aquilo que pertence ao caráter. Diferencia-se da moral, que se fundamenta na obediência a costumes e hábitos recebidos, ao fundamentar as ações morais exclusivamente pela razão”. Não se trata, portanto, de respeitar aquilo que se aprendeu em casa, mas sim, o que se exige nas ruas.

Em relação ao trânsito (vamos encerrar este assunto?), os percalços pelos quais tenho passado me deram uma idéia, que, claro, passa por uma de nossas principais regras de leniência: - Pagando bem, que mal tem? (perdão, Darcy Ribeiro; desculpe, Mário de Andrade). Inspirado num trecho percorrido, há duas semanas, entre Tiradentes (o município, não o alferes da fiel maçonaria) e o aeroporto de Confins-MG, no cock pit de um carrinho de mil cilindradas, pensei em converter alguns desafios enfrentados nesse trajeto em videogame, que se vai se chamar BR-040 (atenção, Instituto Nacional da Propriedade Industrial - INPI!). O jogo deve oferecer, por meio de seus obstáculos ao desafiante, um retrato das complexidades de se viver no Brasil (ok, hoje e sempre).
As pistas da BR-040 são duplas, em todos os sentidos: tanto as duas de ida, como as duas de volta apresentam, entre elas, um desnível de pelo menos 20 centímetros. Talvez por isso, as ultrapassagens são feitas empregando-se a pista do sentido oposto, com luz alta na cara do parceiro  do outro lado, mesmo durante o dia. Claro, não há mureta entre mão e contra-mão (também conhecida como guard rail): adrenalina garantida. Não se preocupe com as placas de sinalização: elas estão muito bem escondidas, ou o pessoal da engenharia pensou  bem, e resolveu apagá-las, para não aumentar a confusão no local.
Sobre a polícia, só vislumbrei alguns representantes da classe no velório de uma senhora que morreu atropelada, perto do Aeroporto. O acesso a este importante complexo, aliás, está sendo reformado, mas vai continuar exigindo um percurso de aproximadamente 30 km, entre o terminal de passageiros e as garagens dos veículos de aluguel. E o estacionamento, no caso de quem chega. Ponte, ali, nem pensar: é preciso economizar recursos públicos.

A velocidade média, na maior parte do trecho citado, é de 120 km, inclusive, ou principalmente, por parte dos caminhões caçamba carregados de minério que, às vezes, atravessam a pista, de um lado para o outro, sem nenhuma cerimônia. Cuidado: os que trafegam descarregados são mais perigosos. Não se assuste com o cavalo que segue na carroçaria do caminhão que vai aparecer bem à sua frente. Ninguém pode ficar mais assustado do que o próprio cavalo, que vai sambando nas tábuas, mas está amarrado pela rédea, na cabine do veículo que o conduz. Talvez uma joqueta elegante caia de uma árvore, na próxima curva, e o conjunto pule a grade da carroceria e saia vencendo outros obstáculos, campo afora. Se começar a garoar um pouco, na serra do Rola Moça, a distração vai ficar ainda melhor. Mas não se anime: para mim, não rolou nada (se bem que, nesta idade...).
O GPS que você estará usando, como se diz, será um brasileiro nobre, nascido no bairro de Santa Ifigênia, um dos preferidos pelo Adoniran. Ele vai começar a dizer coisas desconexas, numa voz feminina, em português lusitano, no momento em que você mais precisar dele, isso, depois de um dos inúmeros desvios da BR. Você vai perceber que está no lugar errado, mas fique calmo, senão, os traficantes podem pensar que você é da polícia, até porque, eles não sabem muito bem como ela é (no videogame, claro).
 
Se você estiver atrasado para pegar um vôo em Confins, não se desespere: o vôo também vai atrasar. Acostume-se a dirigir contra o sol, na pequena confusão do tráfego de BH: siga aquela bandeirinha do Atlético mineiro, no alto de um edifício em construção, no caso do Atlético ter vencido a Copa Libertadores, mesmo jogando daquele jeito, com aquele time, dirigido por aquele técnico. É o que se pode fazer, em termos de orientação: a boa gente do lugar, embora mineira, não recomenda a tal avenida do Contorno (a marginal deles, lá).  

Vi três passageiros sendo transportados por uma única moto, mas não peguei nenhum cachorro atravessando a pista, nenhum andarilho na contramão, zero de bêbados e equilibristas nos semáforos; nada de ônibus, prédios e viadutos despencando. Mas vou botar tudo isso no meu videogame. Regra de leniência: o brazuca que vai comprar o jogo, lá no Canadá, depois de um ano longe do país, não vai saber distinguir entre a ficção e a realidade (acontece com a gente, que vive aqui...).

O jogo terá mensagens políticas naqueles sinalizadores bacanas de estrada privatizada, aludindo à campanha presidencial, em troca de passe livre nos pedágios, tanto para a nova quanto para a antiga classe média. O pessoal do PT, do PSB e do PSDB e até a turma do Eymael e do Enéas, vai poder pedir voto aos jogadores em troca daquele dinheirinho falso, que dá alguma energia. Os jogadores também vão poder inventar slogans baseados nas manifestações de junho último, com bônus extras para as mais criativas. Tente uma variação daquela frase do Deputado Federal: “Titica, por Titica, ande mais duas casas”.

Só tem um problema: quando você morrer, não vai dar para ganhar uma vida passando pelo Sírio Libanês: aquilo está sempre lotado de gente de Brasília. O jeito vai ser voltar ao Distrito Federal, entrar e sair do Hospital de Base, e depois, ganhar uma força, caso consiga passar pela ponte do Itamaraty; ou até três vidas, se chegar ao teto do Congresso Nacional. Quando o jogo for lançado, colabore: vida de jornalista não está fácil.

terça-feira, 23 de julho de 2013

A violência do erro


Há dois dias, quando nem o papa, nem os brasileirinhos registrados com o nome de Francisco, ontem (22/7), haviam chegado a este mundo, assim como o filho da Kate Middleton e a neve de meio centímetro, a São Joaquim (SC), as notícias diziam que o jovem ciclista, David Santos Souza, de 21 anos, que teve o braço arrancado e jogado no rio por seu parceiro de geração, Alex Siwek, de 22, tinha sido atropelado pela segunda vez.
 
Não entendo nada de trânsito e muito menos de gente, mas tenho me assustado com as consequências de alguns acidentes, como o que aconteceu na manhã de 9/5, quando pensei no assunto pela primeira vez: uma carreta havia pegado fogo, na rodovia Raposo Tavares, perto de São Paulo, “matando uma pessoa e atrapalhando completamente o trânsito”, como narrou o Francisco Mineiro, amigo do Francisco Buarque, no Bom Dia, Brasil daquela quinta-feira. Duas horas depois, vasculhando a Zero Hora (RS), por dever de ofício, fiquei impressionado com os restos da colisão frontal de um caminhão desgovernado contra seis outros veículos, na rua Amélia Teles, na região central de Porto Alegre.
Um mês antes, um ônibus despencara de um viaduto, na avenida Brasil, Rio de Janeiro (RJ), matando sete pessoas, enquanto o motorista altercava com um passageiro. Nessas horas, o vício da profissão me traz, instantaneamente, um arquivo de ocorrências semelhantes, como a morte de um jovem casal, em Curitiba, pelo então deputado, Fernando Ribas Carli Filho, que dirigia completamente embriagado (2009). Há poucas semanas, um empresário de Ribeirão Preto, Alexsandro Ishisato de Souza, atropelou sete pessoas e matou um jovem manifestante, Marcos Delefrate, com sua possante Land Rover, que ganhou fama com o secretário nacional do PT, Silvio Pereira, e vai ser fabricada no Brasil.
Lembro-me de ter conhecido o sistema ABS de freios (Anti-lock breaking system) há mais de 20 anos, quando escrevia para a Mercedes Benz (Sua Boa Estrela), assim como o airbag e outros avanços da tecnologia automotiva, sempre estimulados pela Fórmula 1. Os carros evoluíram, mas quem está no volante continua lá atrás (não é piada, Rubinho).

Sou do tempo em que os desastres bárbaros viravam histórias tenebrosas; ferragens distorcidas eram depositadas na beira da estrada pelo vigilante Carlos e seu amigo Lobo (foto), para servir de alerta a outros viajantes. Capotagens urbanas eram tão raras que a gente parava em volta delas, como formigas em torno de uma barata morta. As curvas da estrada de Santos curavam a solidão, e descer a rua Augusta a 120 por hora era inimaginável, mesmo que se botasse a turma toda do passeio para fora.
Dei meus cavalos-de-pau em estradas de pouco movimento, para impressionar as garotas (nos anos 70), mas a Porsche 550 que matou James Byron Dean, em setembro de 1955, andava a menos de 160 km/h. Hoje, 400 motociclistas morrem nas ruas de São Paulo, por ano, sem nunca ter visto The Wild One (O Selvagem), com Marlon Brando. Quatro ciclistas são atropelados, todos os meses, na grande cidade (um por semana). Os ineptos e os irresponsáveis se multiplicam mais depressa que os pardais espetados nas ruas.

Um velho Ford F600 (tio da Porsche 550 de James Dean) que um dia foi azul, me saúda no estacionamento do Ceagesp, num sábado ensolarado. “Estamos saindo”, me anuncia a senhorinha sansei que vai à boléia, acompanhada pelo ancião que conduz a relíquia, provavelmente seu pai, ou avô. Nenhum problema: ambos são (foram) perfeitamente educados. Essa é a diferença.
O mesmo clima, de educação e respeito, aliás, mantém esticada a rede que sustenta a grande feira do entreposto paulista, armada a menos de 500 metros da lona do Cirque du Soleil, na Vila Leopoldina. Para mim, o varejão é a principal atração de São Paulo. Acabo de me abastecer de quatro cenouras, cinco tomates verdes, uma berinjela, três chuchus, duas abobrinhas e um punhado de ervilha torta, só para manter viva a geladeira, da qual deveria me despedir, naquele dia, para férias de duas semanas. Separação difícil. Agarro um maxixe e pergunto se é jiló, para conferir o conhecimento do atendente. Uma betoneira enche de concreto novo o galpão ao lado, numa zoeira de obras, pregões e cores, das quais sempre tenho saudade.

Finjo confusão depois de pedir um pé de alface americana ao patriarca da banca, que nem me olha, enquanto observa a neta de prováveis cinco anos, a brincar com a filha de uma cliente. A moça da família, uma flor de lótus, me sorri, quando peço mais alguma coisa e finjo reclamar da falta de atenção. Barganho um pouco, e me despeço, enquanto penso na novidade trazida por meu filho, na noite em que ele vem nos comunicar a decisão de aceitar o convite da empresa para trabalhar em outro país: “O varejão do Ceagesp vai acabar”.  
Um erro administrativo, penso, motivado pelo fator trânsito, este imperador que preside todas as nossas demais decisões. O engenheiro de tráfego tornou-se o profissional mais respeitado pelas comunidades, mais que o antigo oráculo grego, que o engenheiro de produção do século passado, que o pastor evangélico da atualidade. Por causa do trânsito, a tecnologia de pagamento à distância evoluiu: entregadores de pizza já não precisam mais ter medo de morrer por causa de cem reais. 

A viagem do Renan Calheiros e do Henrique (Eduardo) Alves foi um erro político, assim como a estrutura que os elegeu, e que vai permanecer a mesma. Como repórter, fiz pelo menos duas reportagens sobre erros médicos, nos anos 80; como editor, tive que entender a definição de erro judiciário: "má subsunção do comportamento à norma em vigor à época do fato". Mas alguns tipos de erro são capazes de engolir o futuro de várias gerações.
Thorndike descobriu que os animais podiam ser ensinados (ou adestrados) pela técnica do ensaio e erro (leis do efeito e do exercício), mas nós, brasileiros, dificilmente associamos ideias como esforço e recompensa, e estamos custando a aprender que, para tirar 10 na prova de Matemática, temos que abrir mão de duas horas de futebol ou de videogame. Ou de um show da Anita, dependendo da nossa idade. Num tempo em que mamãe e o papai ralam o dia inteiro para pagar o tênis e as lanchonetes de marca, e que muitas famílias da suposta classe média continuam tendo mais de três filhos, a Educação nunca se encontra.

Outro dia, numa casa de praia, perguntei aos moços da empresa de energia que foram socorrer uma pane elétrica (e tiveram que voltar, porque o disjuntor bipolar de 50 ampères que eu comprara, a 5 km de distância, tinha defeito) quanto, mais ou menos, eles recebiam, para trabalhar a 70 km distância de suas residências, numa profissão arriscada, que exige adestramento, esforço físico e conhecimento técnico: “Mil e oitenta reais”, informou um deles, notando ter frequentado 17 cursos de especialização.  Já os técnicos da operadora de TV por assinatura que haviam estado na mesma casa, 24 horas antes, fazem jornadas de 12 horas, sem a chamada verba de refeição. E os cientistas sociais demoraram a entender por que o povo foi para as ruas, em junho último.
Esses meninos são colegas de geração da moça que trabalha com os pais, na feira de sábado, e que frequenta o mesmo Butantã do Paulo Vanzolini, ou a Medicina da USP, do Dráuzio Varella: conheci segundos fisioterapeutas, biólogos, dentistas, administradores de fundos bancários. Todos cordiais, brasileiros que acordam às três da manhã para ajudar suas famílias a se manter com dignidade, enquanto terminam seus estudos. Revendem flores, queijo holandês, maçãs argentinas e frangos esquartejados na cidade de Bastos, vizinha da Capital. Alguns se tornaram decasséguis – esses, acabei perdendo de vista.

O Bom Dia de hoje (23/7) informa que um manifestante atirou um coquetel molotov num PM e que a moça que foi atacada por um tubarão, em Boa Viagem, morreu. Tudo muito rápido, tem que sobrar mais tempo para o papa e para a neve de cinco milímetros. Havia uma placa na praia, como as que existem na Austrália. Lá, quando um bicho desses fura a rede, soa um alarme igual àqueles que instalaram em Teresópolis, depois daqueles deslizamentos que sucederam os deslizamentos do ano anterior, e todo mundo sai da água.
O telejornal avisa que os cortes no orçamento serão mais modestos, de apenas R$ 10 bilhões, sem mexer nos gastos sociais – R$ 4,4 bilhões virão das “despesas obrigatórias” (passagens, viagens como aquela do Renan Calheiros e do Henrique Eduardo Alves) – e que nenhum dos 39 ministérios será extinto, nem mesmo aquele das Cidades, cujo titular, Aguinaldo Ribeiro, do PP, está sendo investigado pela PF sob suspeita de superfaturamento na prefeitura de João Pessoa, PB.

 
Eles vão continuar se matando no trânsito depois de pequenos erros, como mudar de faixa sem olhar o retrovisor ou dirigir embriagado um veículo de 300 hp, equipado com câmera de estacionamento, central multimídia, limpador de para-brisa com sensor de chuva e rímel que também funciona como hidratante e bloqueador solar. O erro continuará sendo tão estúpido quanto uma redação do Enem, incompatível com a mente que inventou a lâmpada, o antibiótico e a vacina contra a febre amarela; que mapeou genoma humano e que, depois, criou o celular,  a guerra biológica, os alimentos transgênicos e os drones. Tem remédio para isso?

terça-feira, 18 de junho de 2013

Pula a fogueira, Iaiá!


Não tenho nada de profeta (além desta barba branca), mas viajei num trem da CPTM, no trecho da Linha 9-Esmeralda que vai da estação Morumbi à de Jurubatuba, na Zona Sul de S. Paulo, por volta de seis da tarde, na véspera da primeira manifestação convocada pelo Movimento Catraca Livre (5/6). Ficamos por 10 minutos, na estação Santo Amaro, esperando socorro para uma passageira desfalecida. A pressão era forte. Eu pensava naquela logística absurda, quando uma mulher corpulenta, aparentando uns 30 anos, sugeriu que todo mundo aderisse ao protesto do dia seguinte, lembrando que as nossas reclamações, naquele espaço e naquelas circunstâncias, só serviriam para aumentar o próprio desconforto e indignação.

Embora use o transporte público muito raramente, percebi, naquele momento, que alguma coisa havia mudado, em relação à atitude daquelas pessoas que costumo encontrar nas filas, ônibus, metrôs e corredores da cidade. Ninguém rechaçou o convite da passageira rebelde, ao contrário: ouvi, isto sim, murmúrios de aprovação (pena que você não ande mais de trem, Clóvis Carvalho).

O que aconteceu a seguir foi o que a imprensa cobriu (mal): uma sequência de protestos aparentemente descoordenados, quase sem controle, que pegaram de surpresa as autoridades e redações amortecidas pelos sucessivos golpes do dragão da cauda longa, e expuseram a falência da política tradicional (nenhuma liderança ofereceu-se para tentar negociar com os manifestantes), as deficiências de um aparato de segurança voltado quase que exclusivamente para o crime, e as entranhas de nossa maior vulnerabilidade: um povo sofrido, acuado, cansado de sua própria miserabilidade e que, como exibiram cartazes das manifestações, decidiu acordar, em seu “berço explêndido”, para assumir a condição de “um filho seu não foge à luta”.

Tardia e simultaneamente, hoje (18/6), doze dias depois da explosão de insatisfação pública, que acarretou desde mudanças nos horários de expediente das empresas até esquemas de vigilância autônomos nas lojas do comércio, artistas pintando a cara, insegurança nas ruas e adesão da(s) classe(s) média(s) aos protestos – com direito a expurgo público de bandeiras partidárias – governos municipal e federal deram a entender que começam a ouvir o eco das massas e se mostraram dispostos a negociar com os manifestantes.

“Queremos  viver”, disse um manifestante. “O Brasil é um país maravilhoso, mas aqui, estamos sempre acuados, com medo”, resumiu um outro. Ouvi pessoas comuns, ambulantes, trabalhadores de fábricas, vendedoras de lojas – como as que estavam no meu comboio, dias atrás – dizerem que o povo não aguenta mais: não reclamavam da falta de emprego ou do salário baixo, mas de viver num país onde nada funciona.

Não falavam da infraestrutura deficiente que afasta o investimento na produção, nem dos altos impostos, nem do dólar a R$ 2,20 e da volta da inflação, mas sim, da desfaçatez dos políticos profissionais e da corrupção (inclusive dos costumes). Sabiamente, todas essas mazelas estão sendo associadas, pelo povão (que, segundo o Lula, só quer saber de sua TV de tela plana das Casas Bahia) à mesma origem, e não necessariamente a este, ou àquele partido político.

“Estou cansada desse estado de coisas, moço”, me confidenciou uma  senhora, numa fila da Caixa. “Eles fazem muita propaganda”, ela disse. Não resisti e contei-lhe todo o trabalho que tive, nas últimas semanas, para portar o meu crédito imobiliário para essa mesma Caixa que, segundo minha gerente, “não pôde fechar o negócio porque a Lei 12.703/2012, não foi regulamentada”. Para fazer a portabilidade, hoje, a CEF exige uma aberração jurídica intitulada “Termo de Interveniente Quitante”, que os bancos privados não aceitam porque, se estão se vendo livres do antigo cliente, não têm mais nada a ver com o novo financiamento (o que está correto).

Foi, aliás, esse mesmo estado de coisas que impediu a grande empresa de comunicação do país de entender rapidamente o que se passava, no início das manifestações, como se exige de um telejornalismo que nunca desliga (exceto o som, durante alguma vaia endereçada à presidente da República). A emissora quer dar a impressão de estar logo alí,  atrás das grandes redes internacionais, mas acaba sendo vaiada nas ruas por uma vocação ancestral de adesismo e pela imobilidade característica dos grandes transatlânticos.

A Globo cobriu muito mal as primeiras manifestações, não por parti-pris, mas por falta de flexibilidade, o que, considerando a natureza de sua atividade, pode se resumir simplesmente no emprego de uma linguagem excessivamente conservadora, antiquada, enferrujada, pouco flexível. Enquanto a âncora da Globonews, Leilane Neubarth, atribuia a “meia dúzia de punks” a tentativa de ocupação do Congresso, ontem (17/6), em Brasília, cerca de 100 pessoas (pelo menos) invadia o teto do edifício e uma segunda multidão acessava a ponte sobre o espelho d’água que cerca o Legislativo.

No Bom Dia Brasil de hoje, a emissora vangloriou-se de ter conseguido infiltrar uma repórter na Assembléia do Rio, durante a última madrugada, como se isso fosse importante. Em seguida, um certo capitão Rodrigo – visivelmente deslocado – emitia opiniões sobre o comportamento policial mais ou menos adequado em passeatas. Matéria de serviço para quem, cara-pálida? 

Quem se deu bem e quem se deu mal, na cobertura das manifestações, aliás, foi a principal diversão dos jornalistas, nos últimos dias, e muitos se surpreenderam com a perspicácia do tradicional brucutu, José Luís Datena, que ficou ao lado do povo, desde o primeiro dia da mobilização: “Gandhi”, citou, em seu Brasil Urgente, “construiu uma revolução a partir de protestos pacíficos”. Enquanto isso, cardeais, como o Arnaldo Jabor, eram obrigados a se contradizer. Aquele sujeito da Veja, o Reinaldo Azevedo, naufragou na história toda, com o estardalhaço habitual.

Alguns temeram pela falta de rumos do movimento (esquecendo que a ocupação de Wall Street teve, sim, consequências), mas o Uol, onde, diariamente somos obrigados a atravessar um mar de baboseiras antes de chegar à via dos fatos, fez, na minha opinião, a melhor cobertura dos últimos dias, tendo conseguido resumir, inclusive, os principais objetivos da mobilização, fora o preço das passagens: “Somos contra a corrupção, contra a PEC 37 (Proposta de Emenda Constitucional) que tira poderes de investigação do Ministério Público e contra os gastos na Copa do Mundo", reproduziu. 

A verdade é que a tevê por assinatura, o celular, a fila e o financiamento da Caixa, o trem, o metrô, a polícia, o eletrodoméstico importado e as Casas Bahia, – tudo isso é muito bom – quando funciona. O pós-venda é que são elas, dona Maria Luísa, e tem mais gente aprendendo mais sobre tudo isso.

Possivelmente, os protestos não vão abalar as chances de reeleição da presidente Dilma, segundo a qual, a sua geração (nossa) “sabe o quanto custou mudar o país”. Talvez por isso, ela tenha declarado, hoje (18/6): “O meu governo está ouvindo essas vozes por mudanças”. No entanto, de acordo com o secretário Geral da Presidência - um dos 39 ministros da presidente Dilma, também hoje (18/6)  “o governo não entendeu o que está ocorrendo ainda. São novas formas de organização e mobilização que ainda não compreendemos”.

Coincidência ou não, há alguns dias, o empresário de jogo do bicho, Carlinhos Cachoeira, que se sentiu ofendido pela assessoria do governador Marconi Perillo, de Goiás, prometeu que a caixa de Pandora seria "brincadeira de criança" diante do que ele poderia perpetrar para defender a sua dignidade e a de sua família. Será que essa movimentação toda surgiu daí? Pelo sim, pelo não, Josef Blatter, da Fifa, já profetizou: “Quando a bola começar a rolar, isso tudo vai acabar, porque o futebol é maior que a insatisfação das pessoas”. A conferir.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Investigação filosófica


24 horas depois do atentado de Boston, a polícia norte-americana já havia identificado os irmãos chechenos, Tamerlan e Dzohkhar Tsarnaev. Aqui, a brutalidade do crime que vitimou a dentista Cinthya Magaly, no Jardim Anchieta, em São Bernardo, motivou a polícia paulista a prender três dos quatro principais suspeitos, 48 horas após o assassinato. Tecnologia e vontade. Mas a ciência continua longe de explicar a natureza desse padrão de violência, cada vez mais selvagem: frustração, crueldade, ódio racial, fanatismo religioso, ciúmes, distúrbios psíquicos, ignorância, desejo de vingança. Mesmo tudo isso junto não basta para se entender alguns crimes recentes.

Não se pode isolar, nem contextualizar, racionalizando, os vetores coletivos do fenômeno: a impunidade (que não se limita à maioridade penal), a morosidade e a ineficácia da Justiça (com seu Código Penal, eternamente caquético), o ôco da família e a falência da fé, uma Educação de péssima qualidade; o recheio sanguinolento da cultura pop – essa coisa que o Caetano Veloso tenta explicar, atônito, ao apresentador dos Festivais da Record, Randal Juliano (o William Bonner da época), no filme Uma noite em 67 (de Renato Terra e Ricardo Calil); o videogame, com suas vidas instantâneas, a intolerância – pobrezinha, diante de tantos gólgotas e nosferatus.

No revestimento de tudo, em poliéster aluminizado, de cores berrantes, o vale tudo que passou a dominar as nossas relações sociais; o salve-se quem puder, o tudo a qualquer preço, os juízos morais destroçados pelas guerras e pela luta de classes: - Nada me impede, nada me assombra, nada me detém. Eu vi, eu quero, eu posso. Fomos da Lei de Murici à Lei do Cão, sem escalas: quem não almoça é jantado. Um certificado de incumbência e autoridade para tudo, raso e de amplo alcance, como convém à pós-modernidade, esse império do espaço, sem tempo nenhum, para ninguém e para nada.

Shakespeare não conheceu a manicure Suzana Oliveira Figueiredo, de Barra do Piraí (RJ), que matou o filho do amante por vingança. Dostoievsky nunca pensou num Raskolnikov capaz de atear fogo em sua vítima indefesa, muito menos em alguém que tivesse por missão aliviar a dor. Robert Wiene seria incapaz de montar um gabinete do Dr Calegari com a atmosfera da Clínica Roger Abdelmassih ou da UTI do Hospital Evangélico de Curitiba. Fomos muito depressa, do Oliver Stone do Expresso da Meia Noite (corinthianos injustiçados permanecem sequestrados na Bolívia) ao realizador de Savages, passando pelo Joel Coen de Onde os Fracos Não Têm Vez.

Mas garotos “de menor” que apavoram suas vítimas a soldo dos criminosos profissionais, como o personagem do conto Irmão, de Ataíde Tartari (Contos Cruéis, organizados por Rinaldo Fernandes, Geração Editorial), não frequentam essas salas de cinema: vão direto ao Jason Voorhees (Sexta-feira 13), ao Micheel Mayers (Halloween), ao Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo), ao Leatherface (Serra Elétrica) e ao Mick Talor (Wolfcreek). Acabam acreditando naquilo - não têm idéia do que se passa por trás das vitrines e telas de cinema.

“Adquiri o hábito de pensar constantemente (e de dizer!), minha mãe é repulsiva, minhas irmãs também, e estúpidas, meu pai é fraco, meu irmão é um pobre idiota, todos eles são uns imbecis”, afirma o austríaco, Thomas Bernhard, em seu ótimo “Extinção”. Talvez os criminosos daqui pensem assim. Mas se os assassinos de Dudu de Jesus (filho do dançarino Carlinhos de Jesus) tivessem ouvido Schubert durante toda a vida, em vez de É o tchan, eles teriam sido mais complacentes?

Por certo, o nihilismo dos assaltantes do Jardim Anchieta e da Maratona de Boston não é profundo, e sim lateral. Eles nunca leram Nietzche, não sabem quem foi o casal Thénadier ou o avarento Scrooge. É possível que nunca tenham lido sobre Sauron e Voldemort, os vilões de J.R.R.Tolkien (Senhor dos Anéis) e de J.K. Rowling (Harry Potter), esses cândidos deuses do mal que povoam a imaginação da geração X.

Parlamentares e juízes que, hoje, armam tertúlias em torno do poder civil (PEC 33 versus impedimento aos novos partidos) são leitores de Mann e Proust, perdidos no tempo, assim como os infelizes repórteres que cobriram os eventos de Boston, enquanto milhões de pessoas, à sua volta, trocavam mensagens e tweets com seus smartphones. “A internet é desordenada, ruidosa, pontilhista e erra com frequência”, observa Maureen Dowd, colunista do NY Times que ficou famosa ao cobrir o escândalo de Monica Lewinsky, “mas se você tem necessidade da notícia instantânea, a TV não consegue competir com ela”.

O fato é que nem a Comunicação, nem a Sociologia, nem a Ciência Jurídica – e muito menos os parlamentos de nossas toscas democracias – conseguem entender e parametrizar a fenomenologia humana da pós-modernidade, a fim de iniciar um processo de revisão e substituição de seus estatutos de convivência, fundados na cultura clássica e apenas renovados pelo Iluminismo.

No caso dos assassinos, tanto os de Boston, como os do Jardim Anchieta, a combinação dos recursos da tecnologia com os da investigação policial – apoiados pela população – deram resultado. Mas a combinação desses três fatores, sem o elemento crucial da inteligência, pode causar grandes estragos, de linchamentos precipitados a erros judiciários, cada vez mais difíceis de serem corrigidos. É o que acontece, neste instante, com os 12 corinthianos presos injustamente em Oruro, na Bolívia, pela morte do garoto Kevin Espada, torcedor do San José. É preciso entender as relações de poder que estão por trás desses fenômenos, e nos aprofundar no conhecimento da alma humana, do ponto de vista dessa nova matriz contemporânea, a lógica do espaço, e não mais do tempo.

Mas eu não estou totalmente pessimista. Há três dias, vi, numa placa de trânsito da Capital paulista, controlada pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), o seguinte conselho: “Procure rotas alternativas”. Finalmente, um sinal de que a força do criticismo e da inovação estão conseguindo aflorar, em nossas velhas estruturas do pensar. Mal posso esperar por uma palestra do diretor daquele órgão na Casa do Saber, ou no programa da TV Cultura, o Café Filosófico. A minha curiosidade a esse respeito sempre foi grande. 


quinta-feira, 7 de março de 2013

Três notícias para se lidar com os mercados


             Paisagem carioca: o trágico e o sublime (obra na Lagoa, 25/2)
No meu tempo de redação, além do prazer de escrever alguns horóscopos (não, não é mito) e matérias inventadas, como a dos fantasmas do Joelma e algumas guerras indígenas, a minha alma atormentada adorava aquelas materiazinhas de serviço, com cara de Organização & Métodos: cinco dicas para se evitar o abismo da existência; sete conselhos para se fugir de enterros, congestionamentos e missas prolongadas; guia da reciclagem de sonhos perdidos; como tomar um café de padaria sem morrer intoxicado pelos comentários do entorno; seis passos para se acabar com as frustrações do casamento; como assistir aos melhores filmes da Mostra de Cinema de S. Paulo sem levar multas por tráfego irregular nos corredores de ônibus na Capital.

Faça o seu salário render, mini manual de qualidade de vida ou como enriquecer sem fazer força servem apenas como títulos de comédias ligeiras, se você tiver a coragem de se aventurar por esse mundo, o que não recomendo: a diversão é boa, mas a concorrência é braba (vide Miguel Falabela). Se renovar piadas na Internet rendesse algo, este sim, seria um ramo promissor: não aguento mais ler a mesma piada do árabe e do judeu e seus sutiãs pretos. Seria bem melhor do que escrever perguntas estúpidas para respostas inteligentes e postá-las no Quora, a nova mania da Internet, esperando que alguém se interesse pelos neurônios que lhe restam, quando – e se – a rede social estiver bombando.

Ontem mesmo, li, deliciosamente, numa revista especializada, a matéria “10 Tendências em Mobilidade”. A principal informação era de que os tablets vão perder espaço para os laptops, devendo, no entanto, permanecer ativos em nichos como: funcionários remotos, forças de vendas e indústrias específicas, como a saúde. Para quem não trabalha na área, informo que a boa e velha propaganda médica, depois de vários dribles nas regras e interdições da chamada ética do setor, proibiu os estandes e folhetos que animavam os congressos da indústria, há cerca de dois anos. Desde então, tablets e coquetéis tornaram-se uma combinação infalível para o marketing dos laboratórios.

A constatação de que os executivos vão continuar preferindo os laptops, embora pareça óbvia para você, leitor inteligente, sustentou-se em sólida pesquisa do Yankee Group. Uma outra pérola de presciência desse estudo: os aplicativos móveis terão que ser divertidos. Mais uma: o design thinking (a lógica do Design) será parte de uma nova metodologia de gerenciamento de produtos móveis. Na verdade, uma – e apenas uma – das 10 tendências anunciadas pela reportagem tinha algum sex appeal, embora não trouxesse nenhuma novidade: 80% das companhias mergulharão em algum tipo de “traga o seu próprio algo” (Bring your own device, conceito também conhecido pela sigla ByoD). Mas, atenção: a matéria não ouviu nem o Jack Nicholson, nem o presidente do STF, Joaquim Barbosa.

A propósito do destempero emocional do ministro do STF contra o colega do Estadão, Felipe Recondo, não achei simpática a reação do colunista Tutty Vasques, que atribuiu o dia de fúria de Joaquim Michael Douglas Barbosa a uma possível briga doméstica com a namorada de Rondônia, Handra Meire Amorim, de 23 anos (conflito de gerações?). Afinal, nunca vi o Tutty afirmar que a cara sempre fechada do vice-presidente, Michel Temer, seja consequência de seu desconforto em relação às faturas do cartão de crédito da jovem esposa, Michelle Araújo (43 anos mais nova), mesmo considerando o valor atribuído pelas fofocas a essas faturas: cerca de R$ 60 mil mensais. Tanto o ministro quanto o vice-presidente têm, a meu ver, bastante experiência para lidar com essas questões.

Uma briga entre o Gabriel Chalita e seu personal trainer, (acusado de uma nomeação indevida como assessor da Fundação para o Desenvolvimento da Educação, pelo então secretário de Educação de SP), esta sim, poderia degringolar em conflito: afinal, ambos são jovens. Mas nunca devemos negligenciar a frase do conselheiro Henry Kissinger: “O poder é o maior afrodisíaco”.

Já no caso da Igreja Católica, em busca de um novo papa, essa premissa deve ser afastada. Mesmo que o novo pontífice venha a ser D. Odillo Scherer, gaúcho de boa cepa, dificilmente a instituição vai aceitar o meu conselho de acabar com o celibato sacerdotal, para enterrar de vez todos os casos, suspeitas e processos de pedofilia que vem corroendo a reputação do apostolado romano. Não se trata de sucumbir ao Iluminismo, este senhor com mais de duzentos anos, mas de aproveitar a oportunidade para atualizar alguns cânones associados à evolução do Homo Sapiens que, afinal, permanece no centro das preocupações da Santa Madre, ainda que a sua a matriz ideológica advenha do próprio núcleo da criação.

Bem. Se o Elvis da Teoria Cultural (OESP, 5/3), Slavov Zizek – que chega ao Brasil a fim de promover o seu livro “Menos que nada” (8/3, Teatro Paulo Autran-SP) – consegue recuperar o velho Hegel (o pai da perspectiva histórica) para renovar a teoria do materialismo dialético simplesmente substituindo a hegemonia do capital de ontem pela autonomia do capital financeiro de hoje, tudo isso usando, como vitrine, a própria imprensa conservadora, então, de fato, tudo é possível. 

Psicanálise à parte, nós, parte dessa raça que se intitula humanidade, já aprendemos, com nossas perdas recentes – o papado de Joseph Ratzinger, a conspiração cancerígena que matou Hugo Chavez, a Rakelle (primeira personagem da atriz aiuruoquense, Isis Valverde), a morte de David Brubeck e do Chorão – que, na natureza, perde-se muito mais do que moedas de baixo valor e objetos esquecidos.

No entanto, o mesmo William Faulkner que definiu o homem como um somatório das próprias desgraças - “A gente acha que um dia as desgraças se cansam, mas aí, é o tempo que se torna a nossa desgraça” - também afirma: “O pai disse que ela adora a Caddy. Ela gosta das pessoas por causa dos defeitos delas” (O Som e a Fúria). Hoje, 7/3, 24 horas depois do luto moral que pairou sobre a morte do Chorão – esse espelho do Brasil – a mídia e os parceiros famosos, finalmente, iniciaram a sua catarse, em linha com a memória de Hegel (independentemente das idéias de Zizek). O filósofo sempre afirmou a identidade única do ser humano, em seus dois extremos: o sublime e o terror.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Três dias em Madrid


Meu projeto era postar aqui um roteiro desses que inundam a web dos turistas incidentais e que, às vezes, ajudam, numa viagem inesperada (apesar do vinco pessoal  geralmente impresso nas dicas do prestador do serviço): Madrid/Barcelona em sete dias. Se fosse esse o caso, eu recomendaria, de cara, a escolha de um genro com MBA em Singapura (Insead), poliglota e conhecedor dos aeroportos e empresas aéreas da Europa, tão tortuosas quanto as daqui. A espanhola Vueling, por exemplo, cobra apenas 60 euros por um trecho como Madrid-Barcelona, mas escora os bobalhões, como eu, na escadinha do check-in, onde cobra mais 50 euros por qualquer bagagem que exceda os 10 quilos por passageiro. Todo espanhol sabe disso: as malinhas de aeroporto, exibidas nas lojas com adesivos berrantes de peso e medida certos, são as mais vendidas no país, mas você não vê nada disso no Facebook.

Essa dependência das redes sociais, aliás, está acabando com a gente. A manchete do Uol, ontem (13/2), era a notícia de que a renúncia de Joseph Ratzinger não foi, afinal, fruto da indisposição que alimentou a cobertura da Globonews, na segunda-feira de Carnaval (11/2), dia seguinte ao anúncio do papa. O portal cozinhou a manchete do Estadão, que falava do vazamento de documentos secretos pelo mordomo (um tanto óbvio) e da pedofilia do clero – mas apenas no lead. O título foi sutil: “Fragilizado, Bento XVI surpreende e renuncia”.

Na mesma front page, o Uol trouxe a notícia daquela atriz da novela (esta, nem os noveleiros crônicos estão aguentando) que pediu um copinho para fazer xixi depois de desfilar na escola de samba. No Carnaval, a houseorganização da imprensa fica ainda mais evidente: a estrela da Globo ilustra a coluna social do jornal paulista, cuja rádio transmite ao vivo a apuração do desfile, que fornece um abre criativo ao programa de Economia e Negócios da emissora a cabo daquela primeira, detentora dos direitos de transmissão desfile (narrado como uma partida de futebol). O analista econômico, por sua vez, consegue justificar o uso da passarela do samba como outdoor do cavalo marchador, do carro coreano e do sol de Goiás. Tudo em família, como manda a tradição brasileira.

Num mundo que troca de personalidade real por personalidade de estamparia, a todo momento, a vedete Sabrina Sato é mais importante do que o compositor aquele, na foto que ilustra a reportagem do jornal serião sobre a vitória da Vila Isabel no Carnaval Carioca. A madrinha da bateria sabe onde fica o Morro do Macaco? – E isso importa?

Voltemos ao papa, que não renunciou para sair na Mangueira, a despeito da minha torcida. Deveria: aquela paradinha da(s) bateria(s) me fez esquecer o pouco que eu sabia de Jazz, de Amstrong a Stanley Jordan, passando pelo velho Miles, que você não curte.

Apesar das semelhanças entre a crise de Ratzinger e o badalado filme de Nanni Moretti, Habemus Papam, com o Michel Picoli (ator de Marco Ferreri e de Luis Buñuel, aquele amigo do Salvador Dali e do Garcia Lorca), em nenhum momento, naquela segunda-feira (11/2), a Globonews levantou a hipótese de uma crise de consciência, por parte do papa, diante dos dilemas da vida. Ou da religião católica, essa bola de neve que vem rolando, nas últimas décadas, do sermão de cobranças e advertências do domingo até a endorfina do padre Marcelo, passando pelo violão da Juventude Estudantil Católica, pela Opus Dei e pelos focolare, que ajudaram a eleger o antigo papa atual. Sempre em busca dos jovens que costumam celebrar, simplesmente, o fato de estar vivos, em suas baladas e academias.

A frustração me pareceu óbvia, no teorema de Ratzinger, por constituir-se no aspecto mais humano de sua renúncia (limitações físicas à parte, claro). Isso animou uma acalorada discussão nas areias de Cambury, no dia 11/2, mas escapou à atenção da mídia até a noite de anteontem, quarta-feira de cinzas (13/2). A dúvida, o cansaço e a sensação de fracasso do pontífice – essas coisas de humanóides – permaneceram à margem da cobertura do fato, durante três longos, intermináveis dias.

O que se pode fazer, em três dias? No meu primeiro dia em Madrid, por exemplo, consegui visitar todo o Museu do Prado. A cólica renal não ajudou, mas permitiu-me apreciar melhor o lado escuro de Goya.

O que mais curti, nesse dia (poxa, devia ter postado uma foto), foi um grupo de grumetes que podiam ter, no máximo, seis anos, sentados em torno do Jardim das Delícias, de Bosch, guiados por uma professorinha. Mesmo visto de dentro daqueles uniformes engomados de espanhóis, o quadro deve ter propiciado, a eles, uma experiência fantástica. A comparação com o que nossas crianças costumam receber, aqui, me doeu mais do que o maldito cristal de oxalato de cálcio que passeava por minhas entranhas.

Todo o questionamentos de fé e moralidade, ética e doutrina – que me perseguiram durante a visita ao museu, e que costumam perturbar até o papa – se dissiparam, no meu segundo dia em Madrid, quando o boticário de uma farmácia situada em frente à Estação Atocha, entre o Prado e o Museu de la Reina Sofia, concordou em me receitar um anti-inflamatório, depois de uma breve consulta. Imaginem se eu tivesse que recorrer ao serviço de saúde da seguradora, naquele país estranho: - E se fosse como aqui?

Naquele momento, eu já tinha entendido a lógica especial das placas de sinalização espanholas (outro alívio) e me livrado da visão aterradora do Cristo, de El Greco e da opressão mística das telas de Zubaran e Velazquez. Mas não conseguiria suportar o martírio da fome. O restaurante do Prado me pareceu tão bom quanto o do Masp. Entre os museus citados (o Prado e o Reina Sofia), que não ficam longe do Museu Thissen Bornemisza (coleção privada adquirida pelo governo, em 1993, e que vai do Quattrocento italiano ao Expressionismo alemão), você também encontra algumas tascas onde pode pedir um Magno (melhor que aquele outro brandy, famoso fora da Espanha) e uma Estrella, a cerveja melhorzinha deles, na linha das louras leves. E claro, tapas, jamón.

Na minha comparação maluca de timing, enquanto beberico no último andar d’El Corte Inglés (uma espécie de Mappin deles), vendo o sol deitar-se por trás do Palácio Real, minha primeira noite em Madrid, o JN, maior telejornal do Brasil, 24 horas depois da renúncia do papa, informa seus espectadores sobre o esforço feito pela emissora para levar o Marcos Lozekan, de Londres até Roma, para trazer os desdobramentos da renúncia aos brasileiros: o papa decidiu renunciar justo na folga da Ilze Scamparini, eplica o âncora.

É noite. Procuro um restaurante de cozido típico da cidade, a Taberna La Bola, que fica ao lado da Ópera, conhecida pelos madrilenos como tal, mas indicada em seus mapas e placas como Teatro Real, ou Plaza Isabel II. O restaurante parece ótimo, mas só aceita dinheiro como forma de pagamento, e prefiro não arriscar. Vamos jantar numa parrilla argentina, perto da Plaza del Sol, que fica na margem sul da Gran Via, a rua comercial da cidade. No lado oposto está a rua Fuencarral, uma espécie de Baixo Leblon madrilenho, onde você encontra tatuadores, lojas de grifes e botecos simpáticos, inclusive de cozinha vascaína (que não vende, necessariamente, bacalhau). Não fomos, nem ao Santiago Bernabeu, nem ao Vicente Calderón, com medo de encontrar o Galvão Bueno.

No segundo dia da cobertura da renúncia do papa (12/2), a manchete do JN foi a troca do marcapasso de Josef Ratzinger, uns meses antes. Foi uma extensa cobertura: falou-se da saúde do papa, dos possíveis sucessores, da residência de verão, da nova posição do ex-sumo pontífice na hierarquia da igreja, do Encontro da Juventude ao qual ele deveria comparecer, no Brasil, este ano. Nada de realpolitik, frustração ou crise de consciência. O G1, como descubro depois, publicou, à tarde, uma nota sobre a declaração de Nani Moretti de que seu filme previu a renúncia do papa. Exagero de italiano, claro, mas pista certa (que ninguém seguiu).

No meu segundo dia em Madrid, apesar da neve, passeamos um pouco pelo Parque del Buen Retiro, que margeia a avenida Alcalá, quase uma continuação da Gran Via (a cidade também respira pelo Parque del Oeste (perto da Plaza de Espana) e pelo de las Vistillas, que fica atrás da igreja de San Francisco, El Grande, que teria sido o seu próprio fundador. “Percorra, sem objetivo definido, as ruelas medievais do centro”: por mais idiota que pareça o conselho, caminhamos dessa igreja até a de San Isidro, e depois, até a Plaza Mayor, o que valeu a pena. Fizemos compras na Gran Via e na Fuencarral. Depois, jantamos no Corral de la Moreria, para ver e ouvir o flamenco, que, a exemplo do time carioca, custou caro, mas não convenceu.

Já falamos do terceiro dia da cobertura da renúncia do papa (13/2) quando os portais, finalmente, chegaram ao âmago da questão, baseados nas análises dos jornalões, que, afinal, haviam tido tempo de se recompor. Daí por diante, o assunto virou tema de suítes, e deixou de me interessar. Já na minha visita a Madrid, passei o terceiro dia nos já citados museus Thyssen e Reina Sofia (modernista), sentindo o peso real da cultura: cansa. Consolação, happy hour no Mercado de San Miguel.

Apesar do frio e da crise, a cidade me foi agradável. Muitos estrangeiros (inclusive da Espanha), respeito ao turista, equipamentos que funcionam (exceto pelo lixo de três dias em Barajas, na volta, por conta da greve dos funcionários de manutenção). Os preços foram justos (não sei se em consequência da crise) e o metrô que interliga toda a cidade (o passe de 10 viagens é muito mais barato), levando, inclusive, ao aeroporto de Barajas (ai de ti, presidenta Dilma).

Passamos por ruas batizadas de Lope de Vega, Tirso de Molina, José Ortega y Gasset, Cervantes, mas a sombra do generalíssimo me perseguiu (em 1972, muito jovem, fui preso no aeroporto de Madrid por saudar um gendarme com a frase “Viva Franco, arriba España”, em tom obviamente caricatural (apesar da minha condição de exilado do governo Garrastazu Médici). Também não aguentei ficar mais de cinco minutos na Plaza Mayor, onde, durante três séculos (de 1478 a 1834), o Santo Ofício mandou julgar e queimar vivos cristãos acometidos pelo que, na época, se definia como “crise de fé”.

Foto: Estudante de Arte no Prado: antropofagia chinesa

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Diário das Trevas


Em vez de desperdiçar o seu talento na tarefa de produzir uma campanha de contra-informação destinada a conter o desgaste de imagem do principal líder de seu partido, o ex-presidente Lula, o presidente do PT, Ruy Falcão, que dirigiu a revista Exame durante quatro anos, poderia usar a sua experiência política, como assessor de comunicação da ex-prefeita Martha Suplicy, para propor, no 5º. Congresso Nacional do Partido, previsto para fevereiro de 2014, um resgate do antigo arcabouço ideológico de seu partido, que incluía a ética e a transparência na administração pública. Falcão poderia articular a criação de uma nova ala da agremiação, que se chamaria, por exemplo, PT Autêntico.

A tarefa da intelectualidade petista, motivada pela condenação de alguns colaboradores do ex-presidente pelo Supremo Tribunal Federal, no processo do Mensalão, tornou-se mais delicada diante da intenção anunciada hoje (9/1/2013) pelo Ministério Público Federal de investigar o próprio Lula. Mas já não era fácil, considerando todos os escândalos de que se alastraram pelas administrações petistas, nos últimos anos, dos casos mais antigos e escabrosos – como os assassinatos dos ex-prefeitos Antonio da Costa Santos (Toninho do PT), de Campinas-SP, em 2001, e Celso Daniel, de Santo André-SP, em 2002 – aos mais recentes e rasteiros, como os do prefeito de Porto Velho (R0), Roberto Eduardo Sobrinho, o do prefeito de Senador Pompeu (CE), Lauriberto Braga, que fugiu de ônibus, e do prefeito de Palmas (TO), Raul de Jesus de Paiva Filho (todos em 2012).

A lista poderia incluir os episódios que envolveram medalhões do partido nos píncaros da República, como os ex-ministros Benedita Silva, Luís Gushiken, José Dirceu, Agnelo Queiroz (Operação Shaolin) e Antonio Palocci, seus aliados, os senadores José Sarney, Romero Jucá e Renan Calheiros, os ex-ministros, Mário Negromonte, Orlando Silva, Wagner Rossi, Pedro Novais, Silas Rondeau e Alfredo Nascimento, entre outros. Desses casos, eu me lembro bem (apesar da memória péssima), sem ter que consultar o (Ricardo) Noblat: afinal, este não é um blog de política.

Do ponto de vista do PT, João Goulart e Getúlio Vargas – que fundou a base da indústria nacional e se aliou aos nazistas, num certo período – foram combatidos por terem promovido a emancipação do proletariado, o mesmo extrato social que o PT, atualmente, denomina de “nova classe média” e que, segundo o ex-presidente Lula, na véspera das eleições municipais, não está interessado em política, e sim nas ofertas das Casas Bahia, coisa de país emergente. Nada demais, se isso não excluísse outros interesses, como o resgate da própria cidadania, que, por enquanto, o povo só consegue aprender com o Zeca Pagodinho.

Os inimigos de outrora, a “classe dominante”, secundada pelas “forças da reação” viraram mídia burguesa, a serviço das elites, ambas interessadas em desestabilizar o projeto de poder do Partido dos Trabalhadores. O mesmo projeto de poder que, não fosse a operação Porto Seguro, da PF, já teria instalado um “nosso porto” em Ilhabela-SP, projetado pela criativa prancheta dos irmãos Paulo e Rubens Vieira, da Agência Nacional de Águas e da Agência Nacional de Aviação Civil, respectivamente, em parceria com o senador Gilberto Miranda e com a ex-secretária da Presidência da República em SP, Rose Noronha. Afinal, se o companheiro Palocci pode ter um apê de 5 milhões nos Jardins, porque um dirigente da ANA não haveria de possuir oito imóveis, entre Brasília e São Paulo-Capital?

Se levarmos em conta que o patrimonialismo, o compadrio e a corrupção (esses vícios universais) sempre contaminaram o Estado brasileiro, como afirmam meus camaradas das antigas fileiras do PT, ficamos assim: quem não apóia o partido está contra ele, assim como, para o religioso fanático, quem não abraça a sua fé, seja ela cristã, judaica ou mulçumana, está possuído pelo demônio. E a incontável multidão de almas puras, bem intencionadas ou, simplesmente, desinformadas, continua servindo de massa de manobra aos vendedores de discursos populares, elixires milagrosos e terrenos no céu.

Enquanto isso (parte que eu adorava nas histórias que mamãe botava para ouvirmos, em sua vitrola de pés de palito, nos anos 50), num outro país emergente, hordas de selvagens atacam mulheres indefesas, como aconteceu em Nova Délhi, na Índia (Sonia Faleiros, do NYT, conta que até hoje não consegue se vestir de forma atraente, depois de ter morado na cidade por 24 anos). Lá, o líder do Partido do Congresso do Estado de Andhra Pradesh, Botsa Satyanarayana, afirmou: “Somente porque a Índia conseguiu a liberdade para as mulheres não significa que elas possam se aventurar a sair depois do anoitecer”. Reflexos de uma cultura patriarcal misógina? – Nada: sombras de uma sociedade arcaica, apodrecida na brutalidade e na ignorância que nós, turistas ocidentais, fingimos ignorar.

Não faz muito tempo, num outro  emergente, cujo grande líder desfila de Harley Davidson e casaco de couro, na véspera das eleições, como um Fernando Collor ou um Nelson Jobim, meninas de uma banda de rock, as Pussy Riot, foram para a cadeia por terem cantado, num altar da Igreja de Cristo Salvador, em Moscou (ao qual só aos homens é permitido o acesso) “Maria, mãe de Deus, tire o Putin do poder”. (“Os harleiros adentraram a cidade portuária de Novorossiysk, que comemorava sua libertação durante a Segunda Guerra Mundial. A multidão, consta, curtiu a cena animada pelo hino dos motoqueiros, os Night Wolves. No seu discurso, Putin chamou os bikers de “irmãos patriotas”. Só faltou cantar Born to be Wild “(Gianni Carta, Carta Capital, 21/12/2011).

Na China, o secretário geral do Partido Comunista, Xi Jinping, promete redesenhar a legitimidade de seu governo, baseado em três caminhos: o do pão, o da anticorrupção e o da renovação da nação chinesa, este baseado no apoio geral do povo ao governo e em recursos materiais abundantes. Nada diferente do lema de Mao Tsé Tung, “Se a água sobe até o grande rio, o pequeno rio estará cheio”, convertido, por Deng Xiao Ping, em “Se o país é forte, as pessoas serão felizes”. O problema é que, na atualidade, a nação forte corresponde a algumas pessoas privilegiadas estarem felizes.

A segunda fragilidade do projeto está na supressão dos direitos do povo: os protestos em massa, na China, aumentaram para cerca de 200 mil, nos últimos 12 anos. O regime não enfrentará o fato de que o PCC perdeu completamente a confiança do povo e que o sistema político é a causa desses conflitos. O outro elo frágil do projeto, segundo a oposição chinesa ao governo, está na dependência da China aos recursos externos: 50% do petróleo consumido no país vem de fora, assim como 56% da soja (90% dos alimentos). O país importou, em 2012, 90 milhões de toneladas de carvão e 40% da produção mundial de cobre.

No outro prato dessa balança, enquanto o presidente (reeleito) Barak Obama enfrentava a pressão republicana contra os impostos dos mais ricos, para evitar o colapso fiscal do país, um desmiolado assassinava 27 pessoas, na maioria crianças de uma escola elementar, (14/12/2013, Newtown, Connecticut). Os gênios da Associação Nacional do Rifle (NRA) propuseram, como contra-informação, que os professores americanos passassem a andar armados, como forma de proteger os alunos e suas próprias vidas (contra os milhões de malucos que conseguem comprar livremente armas e munição em qualquer loja de ferragens dos Estados Unidos). Dias depois, o diretor da Associação dos Donos de Armas, Larry Pratt, afirmou, em entrevista ao âncora Piers Morgan, da CNN, que nos países onde a venda de armas foi regulada, a violência aumentou. Desmarcarado ao vivo, o lobista articulou um movimento pela deportação do jornalista. Como se vê, a mentira e a manipulação não são privilégio dos países emergentes.

De volta ao nosso tijolinho, que Jorge Amado apelidou de País do Carnaval (já se comemora) vamos contornando os apagões e maquiando as continhas do Estado, para fechar 2012 com superávit fiscal, já que o PIB virou pibinho. Mas estou solidário com a nossa gerente, mulher de coragem, que enfrenta uma campanha de desestabilização dentro de seu próprio partido, o PT, que abriu a nossa conversa de hoje.

Coragem na vida pública, essa virtude masculina, aliás, platônica (ao lado da justiça, da temperança e da prudência), foi o tema da excelente Lúcia Guimarães em sua coluna desta segunda-feira, no Estadão (7/1), focada na campanha do doublé de empresário e político , Michael Bloomberg, depois que o presidente Barak Obama delegou ao seu parceiro, Joe Biden, a tarefa de se posicionar no debate quanto ao controle das armas nos Estados Unidos. Como se vê, Direita e Esquerda nunca estiveram tão perto, como neste horrível clichê.