quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Atualidades Atlântida


Ontem, 24/08/2010, há 56 anos, morria Getúlio Vargas

Tirando o noticiário policial - a quadrilha que José Roberto Arruda diz ter herdado de Joaquim Roriz, a condenação de Anthony Garotinho e a invasão do Intercontinental pelo bonde do Nem - confesso não estar acompanhando as notícias da atualidade, como fazia, quando era garoto, uma vez por semana, no cinejornal acima citado: a baboseira das celebridades candidatas, a briga dos esclarecidos contra o tom pastel da campanha do Serra (claro, vi que o Estadão de ontem, 24, comparou o PT ao PRI mexicano), o ensaio da polícia no Maracanã para a Copa dos sem-estádio, a queda do avião da Embraer na China, a estupidez da polícia Indonésia, fatos tão próximos.

Se continuarem morrendo chineses – perguntam-me os meus vizinhos de condomínio – quem vai construir os estádios para a Copa e para a Olimpíada? – Segundo eles, os nordestinos desistiram de reconstruir São Paulo depois que o Bolsa-Família foi inventado pelo Jacob Bittar, alçado à condição de resposta social pelo Cristóvam Buarque e federalizado pelo FHC, embora nunca antes, neste país etc. Segundo os meus vizinhos, teremos que importar um caminhão, não, um navio de chineses para a Copa e para a Olimpíada.

Às notícias: temos as queimadas, responsabilidade do tempo seco. Segundo o JN, a candidata Dilma faria um comício, ontem à noite (24/8), justamente em Cuiabá, MT, onde Código Florestal é palavrão. Se as queimadas não passam do bloco das notícias sobre o tempo – e um servicinho para mães alvoroçadas pela própria televisão – imaginem onde ficam as pautas sobre a qualidade da Educação, sobre a fiscalização das famílias do Bolsa Família, sobre os planos de Saúde, sobre o peso da máquina administrativa, as reformas, a existência divina ou o consumismo exacerbado da nova classe média. Nem a fome do PMDB – que pode vir a governar o país, já pensaram nisso? – chega a preocupar. O que dizer da moralidade na política, da segurança, do transporte e da saúde públicas?

Não tenho ouvido falar desses temas tratados seriamente no debate eleitoral. Do pouco que vi, não sei o que é pior: se o pobre do Serra, arrastando o senhor Pedregulho numa visita ao metrô de São Paulo, ou a coitada da Dilma, vergada ao peso do nosso líder, que já admite saudades do poder e uma imensa disposição para ajudar.

Ainda sobre essas eleições, ignoro – e me envergonho disso – qualquer candidato ao(s) parlamento(s) e tive pena do Aloysio Nunes Ferreira – nada pessoal – último colocado numa lista com todos aqueles candidatos ao Senado por São Paulo – a jóia da coroa – da Martha Suplicy ao pagodeiro Netinho. Diverti-me, data venia, como todo mundo, com as propostas do Plínio, que já disputa com a Marina Silva aquele espaço no camafeu que as pessoas de bem costumavam carregar sobre o peito, no tempo do Machadão.

A seleção terminou, o Galvão já até deu entrevista à Mônica Bérgamo dizendo que mora em Mônaco por conveniência (a Educação do filho mais novo, nada a ver com o Imposto de Renda), o Neymar resolveu permanecer no Santos e o novo telejornal que a Globonews criou para preencher aquele espaço do horário político nas casas brasileiras com tinta e reboco – chamado Em Pauta – entrevistou, no primeiro programa, o correspondente da BBC, Tim Vickery, no segundo, o ex-jogador Leonardo e no terceiro, a ginasta-bailarina Debora Kolker. Respeito o Sérgio Aguiar e seus convidados, mas, em matéria de globais, sou mais a Maria Beltrão, a Astrid Fontenelle e o Tiago Leifert.

Resta-me, portanto, acompanhar as impressões trazidas por minha companheira, bacharel em Matemática, que sempre foi responsável, lá em casa, pelo senso, e hoje responde por uma parcelinha do censo, aqui nas imediações da Rede Globo e do shopping Morumbi. Nesse local, velhinhos que criam galinhas em seus quintais disputam paixões, aromas, sabores e recheios com velhinhas que criam cachorros nas casas ao lado, onde, ao mesmo tempo, derrubam-se centros de cirurgia plástica e erguem-se novos condomínios. Pelo menos, essas informações são verdadeiras e atuais.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Presciência


O caminhão carregado de aparas de grama, às sete horas da manhã, numa rua e num dia comuns (indicando que a manutenção das praças voltou); a neve que alegrou os turistas em São Joaquim, na semana passada; o bom humor dos entrevistados do CQC; os corredores de ônibus recém-pintados entre a periferia e os grandes escritórios, os pássaros calados, as árvores peladas, tremendo de frio, o ar assustado das pessoas: não há mais dúvidas, entramos na temporada das eleições. O carroceiro diz, no cartaz “gostaria de reciclar os políticos” - exagera, mas, coincidência ou não, no último domingo, cartazetes do Paulo Skaf foram espalhados nos bairros de São Paulo, por cujas calçadas tento andar.

O esquenta do Fernando Mitre e o pós-venda do CQC, na TV Bandeirantes, ontem (9/8) valeram mais do que o debate dos candidatos à Presidência da República – morno demais, apesar do jeitão do Boechat –, mas a sala da minha casa anda animada: - Quem estaria à esquerda do Netinho de Paula, do PC do B? – Sou do tempo do João Amazonas! – Mesmo assim, nossas discussões estão mais empolgantes do que a bancada do Jornal Nacional, diante da qual, Dilma e Fátima só faltaram trocar uma receita de cuca gaúcha por uma de sopa Leão Veloso, sob o olhar cada vez menos circunspecto do William Bonner.

Você, que não está no mailing dos assessores de imprensa, como eu, que um dia editei algumas publicações e nunca mais pude sair dessas listas, não perde por esperar: vêm aí os levisfidelis, emayels e toda aquela plêiade de candidatos – nanicos e pesadões – dos quais, como Caronte, nunca haveremos de nos livrar. Tudo por esses cargos e algumas funções que nos recusamos a assumir, mesmo quando precisamos fazer umas comprichas no Paraguai, mandar a sogra para a Europa ou um brother para os EUA, com a cueca recheada de dólares. A ficha limpa vai depurar um pouco o processo? – Esperemos que sim, mas vai depender daqueles senhores de capas pretas, que já foram mais dos holofotes.

Pense que, pelo menos, dentro de alguns dias, você vai poder trocar as bobagens dos anúncios de carros e cervejas por outras, políticas, prometendo consertar as calçadas, enquadrar prestadoras de serviços e planos de saúde, fomentar a Educação, criar empregos que ninguém vai preencher por falta de qualificação, construir novas pontes, rodoanéis e viadutos para desafogar o trânsito (é mais barato do que o metrô), polícias pacificadoras, saneamento nas favelas, acabar com o desmatamento e com a praga do crack no campo, hidrelétricas que não incomodem sapos e quilombolas e tudo o mais que você está acostumado a ouvir nessas ocasiões. Mudam as moscas.

No mais, a democracia vai se consolidando e as coisas vão se ajeitando por conta própria, como os passageiros dos ônibus lotados. Afinal não carecemos de intermediários: os programas humorísticos da tevê não podem mais mexer com os políticos, mas quem precisa de humorista, nesta estação? - Para os amigos poetas, que me consideram meio ácido, às vezes, segue a versão de Presciência do Rilke:

Ich bin wie eine Fahne von Ferne umgeben.
Ich ahne die Winde, die kommen, und muss sie leben,
Wahrend die Dinge unten sich noch nicht rühren:
Die Türen schliessen noch sanft, und un den Kaminen ist Stille;
Die Fenster zittern noch nicht, und det Staub ist noch schwer
Da weiss ich die Stürme schon und bin erregt wie das Meer.
Und breite mich aus und falle in mich hinein
Und werfe mich ab und bin ganz allein
In dem grossen Sturm.

Sou como uma bandeira trazida de longe
Pressinto os ventos que vêm, devo vivê-los
Enquanto as coisas, lá embaixo, ainda não se movem:
As portas fecham-se sem ruído e as chaminés se aquietam;
As vidraças não tremem, ainda, e a poeira está pesada.
Mas eu já sei a tempestade e me agito como o mar.
Inflo-me e desfaleço e me lanço, completamente só,
Na grande tormenta.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Dia de Sorte


Raramente eu me felicito por estar afastado do jornalismo, mas ontem (28/7) foi um desses dias. Imaginem se eu trabalhasse no Uol e tivesse que entrevistar o Russomano ou o Paulo Skaf! – E se a minha pauta fosse repercutir o vexame da Ferrari junto ao Barrichello (Fellini gostava mais da Maserati, mas Nino Rotta musicou o Poderoso Chefão 3 –seria este um argumento?). E que tal escrever sobre a morte do Rafael Mascarenhas, no Rio – como me cobraram – sabendo, de antemão, tudo o que aconteceu nos bastidores, desde o momento em que a primeira notícia foi transmitida, e por quanto tempo essas ocorrências terão que se repetir, nesses trópicos?

Que me perdoem os doutores Nize Iamaguti e Artur Katz, oncologistas de peso, Michael Christensen e Wellington Nogueira (clows care’s), soldados norte-coreanos, iogues indianos, meninas balinesas, modelos famintas, marronzinhos de São Paulo, professores (as) de alemão e de matemática, bóias-frias das queimadas da palha de cana, polícias montadas canadenses, cocheiros em contos russos – vida de jornalista também não é fácil. Dirigir um Roda-Viva sobre o fim da palmada, falando reservadamente com todos, como o meu amigo HB, na última segunda-feira (26/7), ou cobrir o fim do matrimônio do Celulari (alô, Bauru!) com a Cláudia Raia, convenhamos, não são tarefas desafiadoras.

Se eu fosse da imprensa esportiva, não poderia ter comentado, como comentei, no sábado (24), que o Mano já ia tarde, por ser teimoso e não apostar no Jucilei, que ele acabou escalando, no domingo (25), quando o Corínthians voltou à liderança do brasileirão e, em seguida, convocando para a seleção. Já se trabalhasse num caderno de Cotidiano (ou de Cultura), teria que registrar o sucesso de vendas do DVD pornô-pirata da Elisa Samudio na feira do último domingo, no Brooklin (bairro de classe média alta), pau a pau com as cópias do filme sobre o Chico Xavier.

Em NY, não sei se teria alcançado a Newyorker ou estaria trabalhando na emissora do prefeito, como dezenas de coleguinhas daqui – Pior: em vez de discutir a soberania do Afeganistão, conseguiria repercutir o vazamento (the lick) dos informes do Pentágono sobre a guerra, como o coitado do Paquinha? (perdão, Luiz Fernando Silva Pinto): - A senhora aí, do cachorro-quente, acha justo informar ao cidadão comum quantos civís foram sacrificados nas montanhas de Hindu Kush, em nome da teoria de poder norte-americana de expansão igual à segurança? - Consultem Surprise, security and the american experience, de John Lewis Gaddis.

Ok, se fosse espanhol, poderia estar comentando a proibição da corrida de touros na Catalunha – tema capital, hoje, no país mais antigo da Europa – e, se fosse da TV5 Monde, talvez estivesse escrevendo mais um capítulo de um desenho animado explicando aos garotos canadenses como funciona um congresso, ou ainda, quem sabe, o roteiro de um documentário sobre a opressão da mulher através dos séculos nos contos de fada.

Tudo isso passou pela tevê por assinatura, entre ontem e hoje. Por isso, posso me considerar um cara de sorte. Infelizmente, essa alegria não vai durar: hoje, a seqüência de reportagens sobre os programas sócio-educativos do Criança Esperança, deve me devolver a nostalgia das grandes redações, embora o ideal seria que esses projetos virassem regra, em vez de exceção. Esta sim, seria uma sorte para ninguém botar defeito.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Futebol é coisa séria



Lula avisou ao parceirão: não vai admitir São Paulo fora da Copa do Mundo – sinal de que o Piritubão deve mesmo sair, para alegria dos cariocas, que se divertem com esses aumentativos paulistanos. O presidente mais envolvido com o esporte bretão desde Garrastazu Médici tem seus motivos: “Nada está pronto para 2014”, esperneou Josef Blatter, amigo e correligionário suíço do centenário João Havelange, dono da Cometa e sogro de Ricardo Teixeira.

Um bilhão de outros motivos – equivalentes ao orçamento do estádio – explicaria o entusiasmo dos envolvidos no projeto, que tem apoio até do Juca Kfouri, tradicional opositor do presidente da CBF. Nessa novela, aliás, Teixeira finge-se de morto. E lembra que a renovação total do futebol brasileiro – argumento que lhe serviu de açoite da própria cria – precisa de mais estádios e novos talentos, razão pela qual a CBF decidiu antecipar a “janela” pela qual entram em cena, desde agora, as novas esperanças do Brasileirão: Beletti, Keirrison, Tinga, Rafael Sobis.

Mas por que o espanto? - Muitos de nós vivemos do esporte mais fascinante do globo, da Globo e não só dela, não é verdade? – Há, nesse bandejão, espaço para tudo, da salada do Roberto Avallone à carne de braço do Zé Trajano, passando pelo picadinho de Luciano do Valle, o ossobuco da TV Gazeta, a limonada da CBN e o feijão com arroz da da Eldorado com a ESPN, do estudioso PVC.

Pelo menos, as estatísticas do PVC têm um alcance mais amplo e mais profundo: ele é capaz de lembrar que a escola dos centroavantes rompedores iniciada por Vavá só prosperou porque Orlando, e não Bellini, o mentor intelectual de Brito, Moisés e Abelão, aquele que quebrou o Zico – garantia tudo lá atrás, exceto quando o zagueiro insistia em jogar com a unha do dedo grande inflamada. Bem melhor do que os números do Mauro Naves, que, às vezes, não fecham: “Eu quero lembrar que o São Paulo, em 29 anos, nunca venceu o Corinthians jogando de meias azuis. O detalhe, Galvão, é que o São Paulo nunca jogou de meias azuis”.

Futebol é coisa séria, como pontificou o filósofo contemporâneo, Caio Decousseau Ribeiro, ao simpático Serginho Groissman, um dos raros ex-estudantes do Equipe que não faz média com ninguém. Ok, mas e o jogo de bola, que a gente gosta (gostava, no meu caso) de praticar e de assistir, desde tempo em que o samba não se aprendia no colégio (ninguém jogava no Andaraí) e que US$ 100 mil eram uma soma inimaginável de dinheiro, e não apenas o salário de goleiros descompensados como o Fábio Costa (hoje no Atlético) ou o Felipe, do Timão?

Bem, por enquanto, as novidades são essas, já que, depois do primeiro CQC, eu nunca mais assisti aos teoremas de Arnaldo César Coelho no barzinho do Galvão. Levantem as mãos para o céu. A Copa não passou de um traque, a tragédia de BrunoSheakespeareé outro departamento, como diria o presidente Lula, e o show precisa continuar.
Tudo isso prova que as mulheres nos ultrapassaram, de fato: para elas, a única razão do torcer são as pernas do Júlio César e a carinha do Kaká que, com o perdão da bispa Sônia, de santo, não tem nada. Talvez por isso o mundo feminino venha sofrendo tanta violência, como Dr. Sigismundo, certamente, explicaria.

A nós, homens, restou a saudade de um futebol do qual a atual campeã do mundo não passa de uma pálida lembrança – capaz de fazer corar Diego, Francisco, Domenikos, Salvador, Pablo e Juan (daria um time de futsal) e curtir imagens reveladoras da pin up paraguaia Larissa Riquelme no Twitter em seu aperitivo de ensaio fotográfico para uma revista masculina, algo que o kindle jamais alcançará. Foto: Jogando no Quintal (divulgação)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Zico, multiplique-se!


Quem sou eu para julgar um profissional que ganha R$ 200 mil por mês, que faz tanto sucesso com as mulheres e que tornou-se ídolo de homens, jovens e crianças? – Não farei isso. No entanto, gostaria de recomendar ao goleiro Bruno, em vez de prece, arrependimento ou contrição - sentimentos que possivelmente o assaltarão - a leitura dos versos que se seguem, quando ele tiver esquecido a esperança de ser convocado para a Copa de quatorze, como deixou escapar, na ante-sala da delegacia à qual entregou-se, na última terça-feira (7).

São versos de uma peça cuja leitura completa eu recomendo, fragmentos emprestados a um respeitável senhor medieval e a uma respeitabilíssima senhora do século passado que, talvez, se tivessem chegado a conhecimento do jogador no tempo certo, teriam, quem sabe, evitado a sua própria tragédia. Imagens de anúncios descoloridos pela derrota do nosso time na Copa desfilam pela tevê enquanto escrevo, garotos pobres batendo bola tristemente, por um tênis ou por uma cola, tão frágeis quanto a fera abatida que ilustra a cena principal, igualmente alheios à própria arte.

Você, Bruno, não matou apenas aquela garota, tão desamparada quanto você, inclusive pela ambição que os aproximou: você deixou uma nação perplexa, manchou uma reputação que não ajudou a construir, ao contrário dos homens que tentou humilhar, como o ex-técnico Andrade, e o atual, Zico (a quem peço multiplicar-se, no título acima) – meninos pobres como você, mas que cresceram e iluminaram os seus iguais; que abriram, com passes de mágica, brechas incríveis entre o sórdido e o sublime, entre variadas dimensões da vida. Vida que você, Bruno, tocado pelo ódio, ou pelo desespero, desprezou. Veja que triste, para um artista da bola: nem isso você inventou.

Apaga, estrela, para a luz não ver meus desígnios negros,
Fique o olho cego à mão, porém insisto
Que o que ele teme, feito, seja visto.

Vinde, espíritos das idéias mortais, tirai-me o sexo,
Inundai-me, dos pés até a coroa,
De vil crueldade. Dai-me o sangue grosso
Que impede e corta o acesso do remorso,
Não me visitem culpas naturais
Para abalar meu sórdido propósito;

Espreita e serve o mal. Vem, negra noite!
Apaga-te na bruma dos infernos,
Para não ver minha faca o próprio golpe;
Nem o céu poder varar o escuro para gritar-me: Pára! Pára!

Ficasse feito o feito, então seria
Melhor fazê-lo logo: se o matar
Trancasse as conseqüências e alcançasse
Com seu cessar, sucesso; se este golpe
Pudesse ter um fim de tudo aqui,
E só aqui, nesta margem do tempo,
Riscava-se o futuro.

Que fera, então
Levou-te a sugerir-me tal empresa?
Quando o ousaste é que foste um homem.
E para vir a ser mais do que foste
Devias ser mais homem. Eu já amamentei
E sei quanto é doce o sugar do neném;
Mas poderia, enquanto me sorria,
Roubar-lhe o seio da gengiva mole
E arrebentar-lhe o cérebro, se houvesse
Jurado que o faria.

Quando o rei dormir
Ao que a dura viagem deste dia
Há de chamá-lo – seus dois camareiros
Hei de embalar com tanta e tal bebida
Que a guardiã do cérebro, a memória,
Fará, com seus vapores, da razão,
Mero alambique.

Não hão de julgar todos,
Se cobrirmos com sangue os camareiros,
Dormindo junto às armas que usaremos,
Que foram eles?

Fiz o feito. Não ouviste os barulhos?
(Olhando as mãos) É uma visão triste
Que tolice dizer que é visão triste.

Dá-me os punhais. Os que dormem e os mortos
São só quadros. Só quem é criança
Vê o que temer em diabo pintado.

Quem bateu?
Por que todo ruído me apavora?
Quem mãos são essas que me arrancam os olhos?
Será que o vasto oceano de Netuno
Pode lavar o sangue destas mãos?
(trechos escolhidos de Macbeth, Sheakespeare, 1606, traduzidos por Bárbara Heliodora)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cardápio do povo



Uma cerimônia austera marcou a 37ª. Edição de Melhores e Maiores de Exame, na última segunda-feira (5): nenhuma gota de álcool, um caldo quente no final e um discurso comedido do presidente do grupo Abril, Roberto Civita, na linha do vamos melhorar o que está bom. Henrique Meirelles, do BC, foi o único representante do governo, que as publicações da Casa costumam surrar à vontade.
Doutor Roberto não deixou de mencionar a complexidade tributária e a infra-estrutura deficiente do país, além de “uma classe política pouco sensível às reformas de que necessitamos”.
No entanto, vez de criticar as mazelas políticas, atribuiu à elite, as responsabilidades da elite, seja lá o que isso for. A minha, por exemplo, enquanto elite, poderia ser simplesmente testar os pratos do Manacá, em Camburi-SP, que o dono da festa também aprecia.

Melhores e Maiores 2010 foi a publicação de maior peso na história da Abril, segundo seu próprio editor: 1,114 kg de estatísticas, boas reportagens e pesquisas. Um empresário com negócios na Ásia justificou-me, à boca pequena, estar ali apenas para colher a revista, cujas informações começariam a ser digeridas na mesma noite, para gerar indicadores em seus prospects no Sol Nascente. Páginas e páginas de publicidade rechearam o prato de resistência do evento. A Hering, que eu preferia basic em vez fashion (como a cidade pediu), foi eleita a Melhor Empresa do Ano.

Tudo certo, tudo previsível. Só faltou o Caio Decousseau como mestre de cerimônias, em vez da Mônica Waldvogel. Ele teria dito: “Se o país está crescendo, Galvão, é sinal de que as empresas estão ganhando dinheiro!”.

Tanta obviedade me deixou, como dizia minha avó, com a pulga atrás da orelha: -Quanto tempo vão durar as grandes promoções e mega-eventos das publicações impressas de prestígio, como Exame, Valor, Isto É e Carta Capital, considerando-se as atuais perspectivas da informação remunerada, no Brasil e no mundo? – Qual a importância comercial e política desses encontros, hoje, no budget de seus patrocinadores, ou na cauda longa de seus grandes títulos? – Notei, melancólico, a ausência daqueles velhinhos que costumavam penetrar nesses coquetéis: traços de um cotidiano mais complexo ou sombras de um passado de fausto?

A única notícia que a revista me trouxe – respeitando os colegas que batalharam na sua elaboração – foi a mudança de perfil da chamada produção nacional, algo que já vem se desenhando há algum tempo, na própria Exame e publicações concorrentes: empresários novos e mais ricos, não necessariamente nesta ordem, numa nação que, afinal, dobrou de tamanho nas últimas décadas, mas que, na contramão da propaganda oficial, embora esteja comendo pouco mais, continua carente de Educação e de oportunidades à altura de suas necessidades.

Eu, por exemplo, paguei um mico ontem, na oficina de manutenção do meu notebook, por desconhecer um simples comando que restaura as funções do mouse acoplado ao teclado do equipamento. A oficina, a propósito, fica em frente a uma igreja Universal. Fui até lá para sacar dinheiro: no pátio interno, há uma lanchonete de uma dessas redes famosas e dois caixas automáticos: um do Bradesco e um do BB. O prédio - situado na avenida João Dias, em São Paulo, capital que não é nenhum Fauburg Saint Honoré – como diria o Caio Decousseau, tem o mesmo porte de uma Notre Dame de Paris.

Será que se acrescentasse um pouco de Educação (formal) às propostas de governo dos candidatos que ontem foram para as ruas (como a av. João Dias), ou às responsabilidades da elite que compareceu ao Monte Líbano-SP, anteontem, melhoraríamos o nosso cardápio? - Cartas para o meu novo ídolo filosófico, acima citado.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Notícias de ontem



Além da brincadeira infeliz de Sandra Anemberg no jornal Hoje (TV Globo) de que São Pedro estragou o São João, no nordeste (45 mortos, 600 desaparecidos, 150 mil desalojados), a principal notícia de ontem (23) virou manchete dos jornais de hoje: Dilma lidera as pesquisas. Mas os fatos novos vieram da crítica de Serra à política econômica (debate Uol, comentários de Elio Gáspari na Folha de SP) – e na frase de Marina Silva em entrevista à Globonews de Míriam Leitão (O Globo), afirmando ser ela a melhor opção dos produtores rurais nas próximas eleições – opção sustentável, ela esqueceu-se de dizer.

Na mesma entrevista, Marina lembrou bem: o governo decidiu promover o etanol em vez de certificá-lo junto aos interessados, os mesmos que acabaram banhando o golfo do México de petróleo, essa commodity fora de moda que, segundo o editorial do Estadão também de ontem, tem sido o maior cabo eleitoral da candidata governista. Já em Belo Monte, nem Lula, com toda a sua popularidade, conseguiu evitar os protestos.

A crítica de Serra: “O Brasil tem três ou quatro recordes dos quais eu me envergonho: as altas taxas de juros e impostos, a "lanterninha" nos investimentos governamentais e a maior hipervalorização da moeda no mundo. Tem um certo arranjo aí que não funciona, e que eu me proponho a consertar". Enunciado desse jeito – observou Gaspari – move poucos votos, mas significa o seguinte: com a taxa de juros a 10,25% ao ano, o Brasil continua a ser o país do mundo onde mais se ganha dinheiro sem precisar trabalhar, emprestando-o ao governo. Finalmente, o real sobrevalorizado barateia as compras em Miami, mas dificulta as exportações.

Correto, mas e o vice do candidato, que não sai? – A militância do PSDB, esse paradoxo, acusa o seu candidato de improvisação e voluntarismo, mas não seriam estas, justamente, as suas principais qualidades, considerando as opções disponíveis no cenário nacional? – Se vivermos, veremos. A propósito da morte, esse medo já não me aflige. Do jeito que andam os meios de comunicação, tenho mais medo da fama: no outro dia, a apresentadora do Metrópolis, da TV Cultura, chamou o Tomzé de cantor baiano e o Ziraldo de autor infanto-juvenil. No TV Fama, a esposa do Kaká disse que a crise de 2008 foi providencial, para que todo o dinheiro do mundo fosse para o no Real Madrid, a fim de que este contratasse o seu marido. Ela não estava brincando: justificou o fato como intervenção divina. Não sei se está no Youtube, mas se estiver, vale a pena.

Finalmente, além da tristeza do Bonner e da Fátima – diariamente, antes da novela – o dia de ontem trouxe, também, a notícia da abobrinha verde e amarela (foto) desenvolvida pelo Embrapa para a Copa do Mundo (Bandnews, 23/6). O que os pesquisadores do órgão não imaginavam era que o Dunga e a Rede Globo resolveriam brigar, bem nessa hora. Competição mais dura do que o jogo desta sexta-feira (25/6), entre Brasil e Portugal.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Chegou a hora


Marina Silva perdeu a chance de antecipar o discurso de Barak Obama, ontem (15), sinalizando uma nova era na matriz energética mundial, em face do desastre no Golfo do México. Na audiência do Congresso norte-americano, hoje, 16, só faltou José Sérgio Gabrielli, da Petrobras. CEO’s da Exxon, Shell e Chevron – que já investem em fontes renováveis de energia há alguns anos – fingiram jogar a toalha, admitindo a mudança de paradigmas proposta por Obama, depois, é claro, de circunscrever a responsabilidade pelo acidente e suas conseqüências à petroleira britânica.

Pode ser que a Petrobras, líder mundial na exploração de óleo em águas profundas, esteja imune a uma ocorrência semelhante. Mas imprensa brasileira repercutiu timidamente a questão, ao contrário do espaço dedicado à briga pelos royalties do Pré-Sal. Também é possível que as previsões de Obama estejam exageradas, em face do petróleo que o mundo deve consumir, nos próximos 50 anos. Mas não se pode ignorar as transformações que as pessoas vêm operando em seus próprios hábitos – independentemente de ideologia – nem os reflexos da consciência ambiental na educação, na cultura, na produção e na própria esfera política: Marina Silva é uma prova disso.

Na euforia de Copa do Mundo (a justificativa do momento é que o brasileiro gosta muito de futebol), os meios de comunicação formais não têm dado atenção ao debate da energia, assim como a outros temas deixados ao relento: o reajuste dos aposentados (sem o fator previdenciário), a greve do judiciário paulista (lembro-me da surpresa de uma amiga, há poucos dias, ao constatar a existência de um curso de Administração Judiciária nos EUA), os fantasmas do Senado e, sobretudo, o debate político, que continua longe das reformas de que o país necessita de fato (hoje tem Marina no Uol, sábado às 15 horas, Serra no Roda Viva pela web).

Sobre a Copa, recomendo o artigo de Fernando Barros e Silva, na FSP de hoje (16): “Medíocre, sem brilho, apático, previsível. O Brasil fez uma estréia sofrível na Copa do Mundo. Tostão e Paulo Vinícius Coelho saberão explicar mais e melhor as deficiências dessa seleção de gladiadores. Mas mesmo aí, nessa identidade de guerreiros da pátria que foi forjada, com a mão de Dunga, para fins de mercado, há um abismo entre o que a propaganda vende e a mercadoria que foi entregue em campo”.

Enquanto isso, fiz questão de assistir ao noticiário da TVE, neste dia de estréia da Fúria (lembrando o último post deste blog, Cuenta Atrás). O principal tema de Ana Pastor foi o debate do aumento de 4% que Zapatero está propondo na tarifa de energia elétrica; o segundo, a reforma trabalhista, enquanto o país vive a ameaça de uma greve geral; o terceiro, o ajuste de E 19 bi que Bruxelas exige da Espanha. A Fúria, que no momento em que escrevo, joga contra a Suíça, não ganhou mais de 30 segundos na TVE, sob a seguinte palavra de ordem: prudência. Além, é claro das manchetes esportivas dos jornais da península, um dos quais dedicou sua manchete de hoje ao Bloody Sunday (Londonderry, 30/01/1972), pelo qual o premier britânico, ontem, pediu desculpas à nação.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Cuenta atrás


Ana Pastor, da TVE (Los Desayunos): experimente
A entrevista de Juan Luis Cebrian, fundador do El País – jornal que redescobriu a democracia na Espanha pré-Almodóvar, no fim dos anos 70 – a Elizabeth Magalhães, da Globonews (31/5, link abaixo) tinha o propósito de discutir o papel do jornalismo clássico diante das novas mídias. A conversa desviou-se (felizmente) para a ética da comunicação. Na opinião do autor de O pianista no bordel, o jornalismo sempre serviu aos interesses da elite e do poder, com raros intervalos de um anarquismo saudável que, eventualmente, produziu mudanças como a imprensa nanica, no Brasil dos mesmos anos 70.

Naquela segunda-feira (31/5), a TV aberta exibiu um Roda Viva com Fanny Ardent – artista que interpretou Maria Callas no teatro e no cinema, e que odeia ser conhecida como a ex de François Truffaut – e o primeiro CQC pós-polêmica do jornalista-humorista Danilo Gentile contra as ONGs que o acusaram de racismo (a polêmica comeu solta no Twitter). Nesse dia, somente as produções do Superpop e do Todo Seu dão deram bola para as transições da informação e da cultura contemporâneas.

Ainda no dia 31/5, Lúcia Guimarães, a vida inteligente que havia na conexão Manhanttan, comemorou a compra do seu iPad em sua coluna no Estadão, mas o assunto em pauta continuou sendo a produção de conteúdo que corre por fora da pipeline da mídia oficial.

No domingo, 1/06 (Dia da Imprensa, para o Correio Braziliense), passei os olhos pela revista Veja que se pode folhear gratuitamente na biblioteca do parque do Ibirapuera e descobri que uma salsicha tem as mesmas 400 calorias que duas colheres grandes de feijão, meio prato de salada em 120 gramas de filé de frango grelhado. Mudou a minha vida, mas, logo depois, no feriado de Corpus Christi (3/6), depois de perder a carteira e de me achar com dez reais no bolso, descobri uma farmácia do Litoral que vende Omeprazol no varejo.

No último fim de semana, tive que me render, finalmente, à histeria da Copa: a Época trouxe matéria de capa sobre pesquisas científicas provando que os jogadores de futebol não apenas têm cérebro, como dele se valem para destacar-se na sua prática profissional. Comentando a notícia com outro passante que pescava as manchetes na banca de jornais (hábito relaxante, depois de anos de internet), chegamos à conclusão de os nossos convocados são milagres ambulantes, considerando a sua origem humilde e demais obstáculos de um país como o nosso.


A divina Fanny Ardent, por exemplo, nasceu na França e cresceu no principado de Mônaco; ingressou na faculdade de Ciências Sociais (Ais-en-Provence) aos 16, curso que trocaria pelo de Arte Dramática, aos 18. Aos 21, estreou no teatro e aos 26, no cinema (Marie Poupée, 1976). Aos 30 anos, conheceu Truffaut. Um ano depois, recebeu sua primeira indicação ao Cesar – prêmio anual do cinema francês.

Frases da atriz (atual diretora), que nasceu e viveu na elite européia: “Eu admiro mais as mulheres livres, mas posso compreender que uma mulher ame a um só homem em sua vida. Tive o exemplo de minha mãe e de minhas avós, que foram livres ao amar seus homens"; "Eu amo as pessoas que ajudam os outros. Odeio fanatismo, detesto disciplina, ordem, hierarquia"; "O mundo está cada vez menos livre, cada vez com mais medo. E prefere segurança, em vez de liberdade”.

Como nas velhas rodas-gigantes e nos contos de Pirandello, às vezes, o que está em cima vai para baixo, as aparências enganam e o que parece muito importante, vira circunstância. Que o espírito da atriz ilumine os nossos jogadores já que, de hoje em diante, a nação entra na contagem regressiva daquilo que a minha musa jornalística, Ana Pastor (Los Desayunos, TVE, na foto acima) chamou hoje (9/5) de aventura africana, em sua nota sobre a Copa: Cuenta Atrás.

http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1597101-17665,00-JORNALISTA+JUAN+LUIS+CEBRIAN+FALA+SOBRE+A+SOBREVIVENCIA+DOS+JORNAIS+DE+PAPE.html

sexta-feira, 28 de maio de 2010

São João


(Se beber, não dirija)

Por que razão uma quadrilha vestindo rosa-choque e uma bandinha com cara de fome batucam e dançam para uma câmera da Globonews, às sete horas da manhã? – Para ilustrar matéria sobre a abertura oficial das festas juninas em Caruaru-PE, com aquele texto-padrão que deveria exalar euforia, como recomendava a Leilane Neubarth, em seus media training: “Vai ter isso e aquilo, prêmios, diversão para toda a família, talvez o próprio São João reencarnado gritando: - Olha a cobra! –É mentira”.

Mas o texto que acompanha as imagens é um amontoado de mesmices burocraticamente expelidas sem nenhum entusiasmo. Reflexo do que se transformaram as próprias festas juninas no Nordeste, atacadas sem piedade pela indústria de bebidas, nos últimos anos como, aliás, a maioria das outras comemorações populares do país.

E por que as emissoras de TV cumprem, sem questionar, esse ritual, ano após ano? – Primeiro, porque os fabricantes de bebidas estão entre os seus maiores anunciantes, claro. Depois, porque a falsa alegria evita que as pessoas pensem na descaracterização de seus costumes, na educação precária, na violência e nas drogas, na poluição, nos descaminhos das religiões, nas desigualdades e em todas essas outras chatices que não enchem barriga. Nem os olhos.

Mas as novas festas juninas, se é que cabe a classificação, também interessam ao comércio, à indústria do turismo e, em ano eleitoral, àquela politiquinha de cabresto que sempre dá um jeito de aparecer nos eventos populares, nem que seja para sair numa fotinho, ao lado de um famoso, numa Caras local.

O texto da notícia de hoje (28/5), na Globonews, não deixou de informar a presença de nossos grandes artistas em Pernambuco. Todos devidamente patrocinados pelas marcas de bebidas e de cartões de crédito, também presentes nos outros carnavais. E, mais uma vez, milhares de pessoas vão lotar as praças e avenidas com a sua boa vontade, barulho, lixo e embriaguez, para realimentar a sua própria frustração, até o próximo ano, quando as lembranças já se terão esvaído, deixando um gostinho de saudade.

Pois é. A minha saudade é outra, mas não me envergonho dela. Independentemente da colheita, do solstício e das bruxas do norte, que não voltam mais, continuo preferindo o pé-de-moleque e a batata doce da fogueira, o som da sanfona caipira e, principalmente, o quentão de pinga e gengibre, em vez de Cuba Libre e Capeta.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dunga, Mestre e Zangado



Não conheço os detalhes – não sou religioso, nem no futebol – mas agradeci aos deuses o relativo silêncio das emissoras (principalmente), sites e jornais (relativamente) em torno da seleção brasileira, neste fim de semana. Com o perdão dos amigos fanáticos – dois deles, seguidores deste blog, para minha honra e gáudio – estou na contramão da contagem da Globo: por mim, a Copa começaria às 11 horas do dia 11 de junho, a contar do apito inicial de México x África do Sul, em Johannesburgo.

Achei engraçada, a matéria da Sports Ilustrated (O samba está morto), associando a rigidez do nosso treinador ao novo perfil sócioeconômico do país (eu, se pudesse, iria à Brodway uma vez por ano); percebo as necessidades da mídia-negócio e entendo a afirmação do comentarista Edmundo (que se tornou conhecido como o Animal, enquanto jogador), ao rechaçar o mito de que a seleção entregou o jogo à França em troca de sediar o mundial de 2010: “O Brasil não tem educação nem cultura, só o futebol - por isso, somos obrigados a conviver com essas coisas”. Eu não iria tão longe.

No entanto, gostei da trava imposta pelo Dunga ao treino da seleção brasileira (OG, 22/05) porque, afinal, foram menos 48 horas de Mesa Redonda, Futebol Debate, em todos os canais de informação do país. Imaginem se a Veja resolvesse repercutir o fato, entrevistando a Sabrina Sato, do Pânico, em suas páginas amarelas, Ou se a Marília Gabriela tivesse que inquirir o Augusto Nunes e o Paulinho Moreira Leite sobre a ausência de meias na seleção, ontem (23/05) no GNT. O Augusto batia uma bolinha de vez em quando, mas o Paulinho acharia que os chineses estão boicotando a entrega de material esportivo à seleção. E montaria uma tese instantânea a respeito.

E o Manhatan Conection? – Será que o Obama, depois de solapar o Lula na questão do Irã, teria armado uma conspiração para tirar o Ganso (já nem se fala do Neimar) do escrete canarinho? – O que diriam o Caio Blinder e o Diogo Mainardi? – E o Matinas Suzuki, que anda sumido, mas prefaciou a terceira edição brasileira de Hiroshima, de John Hersey? (livro essencial). Bela salada, concordam?

– Enfim, graças ao Dunga, tivemos um fim de semana mais reflexivo, com tempo para sopesar as análises da crise européia, o equilíbrio de forças na campanha eleitoral, o veto presidencial ao fator previdenciário, a habilidade do secretário Nacional de Justiça no Nintendo iiiiiih, a vitória daquele tailandês no Festival de Cannes (encomenda do Tim Burton aos jornalistas brasileiros, que jamais conseguiram pronunciar o nome do vulcão islandês, o Eyjafjallajoekull).
Isso, entre outras questões relevantes, como o próprio bloqueio do Dunga à seleção (que não durou dois dias): - Afinal, o técnico está certo ou errado de evitar o assédio capaz de comprometer a performance do nosso time nessa competição sui generis que é a Copa do Mundo?

terça-feira, 18 de maio de 2010

As lentes de Miguilim


Cena do filme Mutum - Divulgação

Os casos de violência contra crianças, nas últimas semanas, meses, me assustam. De todos os tipos: do maníaco de Luziânia, no DF e Isabela Nardoni, em SP, ao menino assassinado por roubar um cavalo para dar um passeio, ontem (17/05), num subúrbio carioca (Emerson Pontes, 13 anos). Sem falar na pro-espancadora e na festa do netinho do vereador Luiz Gallo, de Niterói (RJ), que acabou em pancadaria. Ou na pesquisa do bullying, que desfilou pela grande imprensa, no mês passado, sem deixar rastro quase nenhum.

A doença social é um clichê, mas lembrei-me de Pai, “ralhando com Nhanina por querer empobrecer a gente ligeiro, com tanto açúcar gasto com porcaria de doces e comidas de luxo só porque os meninos e Miguilim gostavam”. E da surra no filho que levou o Pai a endoidecer e se enforcar com um cipó, com medo de haver matado o menino. Bons tempos do Rosa, dos livros. O que temos que rever? – A educação das crianças, a escola ou a qualidade dos pais?

Meus filhos não me dão netos, os filhos de quatro anos do meu vizinho de baixo brincam na academia de ginástica, os garotos do Serginho Groismann passam altas horas na Internet, o videogame já desbancou a Band e o SBT em tempo de audiência (Uol, 11/05) e temos os garotos da cracolândia, os mortos na caixa d’água, os que cheiram cola, os que dançam com malabares e toda essa ladainha que estamos cansados de ver e ouvir desde o tempo em que o disco se podia virar.

Alguns dirão que a resposta está na (ausência) da fé – pelo jeito, até dentro da Igreja – outros na matriz social, os psicanalíticos, na solidão, os economistas, na hipermodernidade de Lipovetsky (a cultura do excesso), a Palmirinha (TV Gazeta-SP, das 13 às 14 h), na falta do amor, o Hugo Possolo, no pouco incentivo à cultura – uma única virada por ano –, o presidente do Jockey, no azar de quem não apostou no Sal Grosso, no último domingo, nem ouviu o coral da Rede Globo cantando o Hino Nacional.

Eu – e, tenho certeza, uma legião de outros fãs – recomendaria uma releitura do mundo pelos óculos que Rosa emprestou a Miguilim, no desfecho de Campo Grande, lembrado acima e na bonificação que se segue, de amostra grátis: “O dia estava quente, o Grivo esbarrou para escutar a gaitinha do Liovaldo – nunca tinha avistado aquilo – e aproveitou, punha os patos para beber água num pocinho sobrado da chuva...”.