terça-feira, 18 de junho de 2013
Pula a fogueira, Iaiá!
Não tenho nada de profeta (além desta barba branca), mas viajei num trem da CPTM, no trecho da Linha 9-Esmeralda que vai da estação Morumbi à de Jurubatuba, na Zona Sul de S. Paulo, por volta de seis da tarde, na véspera da primeira manifestação convocada pelo Movimento Catraca Livre (5/6). Ficamos por 10 minutos, na estação Santo Amaro, esperando socorro para uma passageira desfalecida. A pressão era forte. Eu pensava naquela logística absurda, quando uma mulher corpulenta, aparentando uns 30 anos, sugeriu que todo mundo aderisse ao protesto do dia seguinte, lembrando que as nossas reclamações, naquele espaço e naquelas circunstâncias, só serviriam para aumentar o próprio desconforto e indignação.
Embora use o transporte público muito raramente, percebi, naquele momento, que alguma coisa havia mudado, em relação à atitude daquelas pessoas que costumo encontrar nas filas, ônibus, metrôs e corredores da cidade. Ninguém rechaçou o convite da passageira rebelde, ao contrário: ouvi, isto sim, murmúrios de aprovação (pena que você não ande mais de trem, Clóvis Carvalho).
O que aconteceu a seguir foi o que a imprensa cobriu (mal): uma sequência de protestos aparentemente descoordenados, quase sem controle, que pegaram de surpresa as autoridades e redações amortecidas pelos sucessivos golpes do dragão da cauda longa, e expuseram a falência da política tradicional (nenhuma liderança ofereceu-se para tentar negociar com os manifestantes), as deficiências de um aparato de segurança voltado quase que exclusivamente para o crime, e as entranhas de nossa maior vulnerabilidade: um povo sofrido, acuado, cansado de sua própria miserabilidade e que, como exibiram cartazes das manifestações, decidiu acordar, em seu “berço explêndido”, para assumir a condição de “um filho seu não foge à luta”.
Tardia e simultaneamente, hoje (18/6), doze dias depois da explosão de insatisfação pública, que acarretou desde mudanças nos horários de expediente das empresas até esquemas de vigilância autônomos nas lojas do comércio, artistas pintando a cara, insegurança nas ruas e adesão da(s) classe(s) média(s) aos protestos – com direito a expurgo público de bandeiras partidárias – governos municipal e federal deram a entender que começam a ouvir o eco das massas e se mostraram dispostos a negociar com os manifestantes.
“Queremos viver”, disse um manifestante. “O Brasil é um país maravilhoso, mas aqui, estamos sempre acuados, com medo”, resumiu um outro. Ouvi pessoas comuns, ambulantes, trabalhadores de fábricas, vendedoras de lojas – como as que estavam no meu comboio, dias atrás – dizerem que o povo não aguenta mais: não reclamavam da falta de emprego ou do salário baixo, mas de viver num país onde nada funciona.
Não falavam da infraestrutura deficiente que afasta o investimento na produção, nem dos altos impostos, nem do dólar a R$ 2,20 e da volta da inflação, mas sim, da desfaçatez dos políticos profissionais e da corrupção (inclusive dos costumes). Sabiamente, todas essas mazelas estão sendo associadas, pelo povão (que, segundo o Lula, só quer saber de sua TV de tela plana das Casas Bahia) à mesma origem, e não necessariamente a este, ou àquele partido político.
“Estou cansada desse estado de coisas, moço”, me confidenciou uma senhora, numa fila da Caixa. “Eles fazem muita propaganda”, ela disse. Não resisti e contei-lhe todo o trabalho que tive, nas últimas semanas, para portar o meu crédito imobiliário para essa mesma Caixa que, segundo minha gerente, “não pôde fechar o negócio porque a Lei 12.703/2012, não foi regulamentada”. Para fazer a portabilidade, hoje, a CEF exige uma aberração jurídica intitulada “Termo de Interveniente Quitante”, que os bancos privados não aceitam porque, se estão se vendo livres do antigo cliente, não têm mais nada a ver com o novo financiamento (o que está correto).
Foi, aliás, esse mesmo estado de coisas que impediu a grande empresa de comunicação do país de entender rapidamente o que se passava, no início das manifestações, como se exige de um telejornalismo que nunca desliga (exceto o som, durante alguma vaia endereçada à presidente da República). A emissora quer dar a impressão de estar logo alí, atrás das grandes redes internacionais, mas acaba sendo vaiada nas ruas por uma vocação ancestral de adesismo e pela imobilidade característica dos grandes transatlânticos.
A Globo cobriu muito mal as primeiras manifestações, não por parti-pris, mas por falta de flexibilidade, o que, considerando a natureza de sua atividade, pode se resumir simplesmente no emprego de uma linguagem excessivamente conservadora, antiquada, enferrujada, pouco flexível. Enquanto a âncora da Globonews, Leilane Neubarth, atribuia a “meia dúzia de punks” a tentativa de ocupação do Congresso, ontem (17/6), em Brasília, cerca de 100 pessoas (pelo menos) invadia o teto do edifício e uma segunda multidão acessava a ponte sobre o espelho d’água que cerca o Legislativo.
No Bom Dia Brasil de hoje, a emissora vangloriou-se de ter conseguido infiltrar uma repórter na Assembléia do Rio, durante a última madrugada, como se isso fosse importante. Em seguida, um certo capitão Rodrigo – visivelmente deslocado – emitia opiniões sobre o comportamento policial mais ou menos adequado em passeatas. Matéria de serviço para quem, cara-pálida?
Quem se deu bem e quem se deu mal, na cobertura das manifestações, aliás, foi a principal diversão dos jornalistas, nos últimos dias, e muitos se surpreenderam com a perspicácia do tradicional brucutu, José Luís Datena, que ficou ao lado do povo, desde o primeiro dia da mobilização: “Gandhi”, citou, em seu Brasil Urgente, “construiu uma revolução a partir de protestos pacíficos”. Enquanto isso, cardeais, como o Arnaldo Jabor, eram obrigados a se contradizer. Aquele sujeito da Veja, o Reinaldo Azevedo, naufragou na história toda, com o estardalhaço habitual.
Alguns temeram pela falta de rumos do movimento (esquecendo que a ocupação de Wall Street teve, sim, consequências), mas o Uol, onde, diariamente somos obrigados a atravessar um mar de baboseiras antes de chegar à via dos fatos, fez, na minha opinião, a melhor cobertura dos últimos dias, tendo conseguido resumir, inclusive, os principais objetivos da mobilização, fora o preço das passagens: “Somos contra a corrupção, contra a PEC 37 (Proposta de Emenda Constitucional) que tira poderes de investigação do Ministério Público e contra os gastos na Copa do Mundo", reproduziu.
A verdade é que a tevê por assinatura, o celular, a fila e o financiamento da Caixa, o trem, o metrô, a polícia, o eletrodoméstico importado e as Casas Bahia, – tudo isso é muito bom – quando funciona. O pós-venda é que são elas, dona Maria Luísa, e tem mais gente aprendendo mais sobre tudo isso.
Possivelmente, os protestos não vão abalar as chances de reeleição da presidente Dilma, segundo a qual, a sua geração (nossa) “sabe o quanto custou mudar o país”. Talvez por isso, ela tenha declarado, hoje (18/6): “O meu governo está ouvindo essas vozes por mudanças”. No entanto, de acordo com o secretário Geral da Presidência - um dos 39 ministros da presidente Dilma, também hoje (18/6) “o governo não entendeu o que está ocorrendo ainda. São novas formas de organização e mobilização que ainda não compreendemos”.
Coincidência ou não, há alguns dias, o empresário de jogo do bicho, Carlinhos Cachoeira, que se sentiu ofendido pela assessoria do governador Marconi Perillo, de Goiás, prometeu que a caixa de Pandora seria "brincadeira de criança" diante do que ele poderia perpetrar para defender a sua dignidade e a de sua família. Será que essa movimentação toda surgiu daí? Pelo sim, pelo não, Josef Blatter, da Fifa, já profetizou: “Quando a bola começar a rolar, isso tudo vai acabar, porque o futebol é maior que a insatisfação das pessoas”. A conferir.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Investigação filosófica
24 horas depois do atentado de Boston, a polícia norte-americana já havia identificado os irmãos chechenos, Tamerlan e Dzohkhar Tsarnaev. Aqui, a brutalidade do crime que vitimou a dentista Cinthya Magaly, no Jardim Anchieta, em São Bernardo, motivou a polícia paulista a prender três dos quatro principais suspeitos, 48 horas após o assassinato. Tecnologia e vontade. Mas a ciência continua longe de explicar a natureza desse padrão de violência, cada vez mais selvagem: frustração, crueldade, ódio racial, fanatismo religioso, ciúmes, distúrbios psíquicos, ignorância, desejo de vingança. Mesmo tudo isso junto não basta para se entender alguns crimes recentes.
Não se pode isolar, nem contextualizar, racionalizando, os vetores coletivos do fenômeno: a impunidade (que não se limita à maioridade penal), a morosidade e a ineficácia da Justiça (com seu Código Penal, eternamente caquético), o ôco da família e a falência da fé, uma Educação de péssima qualidade; o recheio sanguinolento da cultura pop – essa coisa que o Caetano Veloso tenta explicar, atônito, ao apresentador dos Festivais da Record, Randal Juliano (o William Bonner da época), no filme Uma noite em 67 (de Renato Terra e Ricardo Calil); o videogame, com suas vidas instantâneas, a intolerância – pobrezinha, diante de tantos gólgotas e nosferatus.
No revestimento de tudo, em poliéster aluminizado, de cores berrantes, o vale tudo que passou a dominar as nossas relações sociais; o salve-se quem puder, o tudo a qualquer preço, os juízos morais destroçados pelas guerras e pela luta de classes: - Nada me impede, nada me assombra, nada me detém. Eu vi, eu quero, eu posso. Fomos da Lei de Murici à Lei do Cão, sem escalas: quem não almoça é jantado. Um certificado de incumbência e autoridade para tudo, raso e de amplo alcance, como convém à pós-modernidade, esse império do espaço, sem tempo nenhum, para ninguém e para nada.
Shakespeare não conheceu a manicure Suzana Oliveira Figueiredo, de Barra do Piraí (RJ), que matou o filho do amante por vingança. Dostoievsky nunca pensou num Raskolnikov capaz de atear fogo em sua vítima indefesa, muito menos em alguém que tivesse por missão aliviar a dor. Robert Wiene seria incapaz de montar um gabinete do Dr Calegari com a atmosfera da Clínica Roger Abdelmassih ou da UTI do Hospital Evangélico de Curitiba. Fomos muito depressa, do Oliver Stone do Expresso da Meia Noite (corinthianos injustiçados permanecem sequestrados na Bolívia) ao realizador de Savages, passando pelo Joel Coen de Onde os Fracos Não Têm Vez.
Mas garotos “de menor” que apavoram suas vítimas a soldo dos criminosos profissionais, como o personagem do conto Irmão, de Ataíde Tartari (Contos Cruéis, organizados por Rinaldo Fernandes, Geração Editorial), não frequentam essas salas de cinema: vão direto ao Jason Voorhees (Sexta-feira 13), ao Micheel Mayers (Halloween), ao Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo), ao Leatherface (Serra Elétrica) e ao Mick Talor (Wolfcreek). Acabam acreditando naquilo - não têm idéia do que se passa por trás das vitrines e telas de cinema.
“Adquiri o hábito de pensar constantemente (e de dizer!), minha mãe é repulsiva, minhas irmãs também, e estúpidas, meu pai é fraco, meu irmão é um pobre idiota, todos eles são uns imbecis”, afirma o austríaco, Thomas Bernhard, em seu ótimo “Extinção”. Talvez os criminosos daqui pensem assim. Mas se os assassinos de Dudu de Jesus (filho do dançarino Carlinhos de Jesus) tivessem ouvido Schubert durante toda a vida, em vez de É o tchan, eles teriam sido mais complacentes?
Por certo, o nihilismo dos assaltantes do Jardim Anchieta e da Maratona de Boston não é profundo, e sim lateral. Eles nunca leram Nietzche, não sabem quem foi o casal Thénadier ou o avarento Scrooge. É possível que nunca tenham lido sobre Sauron e Voldemort, os vilões de J.R.R.Tolkien (Senhor dos Anéis) e de J.K. Rowling (Harry Potter), esses cândidos deuses do mal que povoam a imaginação da geração X.
Parlamentares e juízes que, hoje, armam tertúlias em torno do poder civil (PEC 33 versus impedimento aos novos partidos) são leitores de Mann e Proust, perdidos no tempo, assim como os infelizes repórteres que cobriram os eventos de Boston, enquanto milhões de pessoas, à sua volta, trocavam mensagens e tweets com seus smartphones. “A internet é desordenada, ruidosa, pontilhista e erra com frequência”, observa Maureen Dowd, colunista do NY Times que ficou famosa ao cobrir o escândalo de Monica Lewinsky, “mas se você tem necessidade da notícia instantânea, a TV não consegue competir com ela”.
O fato é que nem a Comunicação, nem a Sociologia, nem a Ciência Jurídica – e muito menos os parlamentos de nossas toscas democracias – conseguem entender e parametrizar a fenomenologia humana da pós-modernidade, a fim de iniciar um processo de revisão e substituição de seus estatutos de convivência, fundados na cultura clássica e apenas renovados pelo Iluminismo.
No caso dos assassinos, tanto os de Boston, como os do Jardim Anchieta, a combinação dos recursos da tecnologia com os da investigação policial – apoiados pela população – deram resultado. Mas a combinação desses três fatores, sem o elemento crucial da inteligência, pode causar grandes estragos, de linchamentos precipitados a erros judiciários, cada vez mais difíceis de serem corrigidos. É o que acontece, neste instante, com os 12 corinthianos presos injustamente em Oruro, na Bolívia, pela morte do garoto Kevin Espada, torcedor do San José. É preciso entender as relações de poder que estão por trás desses fenômenos, e nos aprofundar no conhecimento da alma humana, do ponto de vista dessa nova matriz contemporânea, a lógica do espaço, e não mais do tempo.
Mas eu não estou totalmente pessimista. Há três dias, vi, numa placa de trânsito da Capital paulista, controlada pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), o seguinte conselho: “Procure rotas alternativas”. Finalmente, um sinal de que a força do criticismo e da inovação estão conseguindo aflorar, em nossas velhas estruturas do pensar. Mal posso esperar por uma palestra do diretor daquele órgão na Casa do Saber, ou no programa da TV Cultura, o Café Filosófico. A minha curiosidade a esse respeito sempre foi grande.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Três notícias para se lidar com os mercados
Paisagem carioca: o trágico e o sublime (obra na Lagoa, 25/2)
No meu tempo de redação, além do prazer de escrever alguns horóscopos (não, não é mito) e matérias inventadas, como a dos fantasmas do Joelma e algumas guerras indígenas, a minha alma atormentada adorava aquelas materiazinhas de serviço, com cara de Organização & Métodos: cinco dicas para se evitar o abismo da existência; sete conselhos para se fugir de enterros, congestionamentos e missas prolongadas; guia da reciclagem de sonhos perdidos; como tomar um café de padaria sem morrer intoxicado pelos comentários do entorno; seis passos para se acabar com as frustrações do casamento; como assistir aos melhores filmes da Mostra de Cinema de S. Paulo sem levar multas por tráfego irregular nos corredores de ônibus na Capital.
Faça o seu salário render, mini manual de qualidade de vida ou como enriquecer sem fazer força servem apenas como títulos de comédias ligeiras, se você tiver a coragem de se aventurar por esse mundo, o que não recomendo: a diversão é boa, mas a concorrência é braba (vide Miguel Falabela). Se renovar piadas na Internet rendesse algo, este sim, seria um ramo promissor: não aguento mais ler a mesma piada do árabe e do judeu e seus sutiãs pretos. Seria bem melhor do que escrever perguntas estúpidas para respostas inteligentes e postá-las no Quora, a nova mania da Internet, esperando que alguém se interesse pelos neurônios que lhe restam, quando – e se – a rede social estiver bombando.
Ontem mesmo, li, deliciosamente, numa revista especializada, a matéria “10 Tendências em Mobilidade”. A principal informação era de que os tablets vão perder espaço para os laptops, devendo, no entanto, permanecer ativos em nichos como: funcionários remotos, forças de vendas e indústrias específicas, como a saúde. Para quem não trabalha na área, informo que a boa e velha propaganda médica, depois de vários dribles nas regras e interdições da chamada ética do setor, proibiu os estandes e folhetos que animavam os congressos da indústria, há cerca de dois anos. Desde então, tablets e coquetéis tornaram-se uma combinação infalível para o marketing dos laboratórios.
A constatação de que os executivos vão continuar preferindo os laptops, embora pareça óbvia para você, leitor inteligente, sustentou-se em sólida pesquisa do Yankee Group. Uma outra pérola de presciência desse estudo: os aplicativos móveis terão que ser divertidos. Mais uma: o design thinking (a lógica do Design) será parte de uma nova metodologia de gerenciamento de produtos móveis. Na verdade, uma – e apenas uma – das 10 tendências anunciadas pela reportagem tinha algum sex appeal, embora não trouxesse nenhuma novidade: 80% das companhias mergulharão em algum tipo de “traga o seu próprio algo” (Bring your own device, conceito também conhecido pela sigla ByoD). Mas, atenção: a matéria não ouviu nem o Jack Nicholson, nem o presidente do STF, Joaquim Barbosa.
A propósito do destempero emocional do ministro do STF contra o colega do Estadão, Felipe Recondo, não achei simpática a reação do colunista Tutty Vasques, que atribuiu o dia de fúria de Joaquim Michael Douglas Barbosa a uma possível briga doméstica com a namorada de Rondônia, Handra Meire Amorim, de 23 anos (conflito de gerações?). Afinal, nunca vi o Tutty afirmar que a cara sempre fechada do vice-presidente, Michel Temer, seja consequência de seu desconforto em relação às faturas do cartão de crédito da jovem esposa, Michelle Araújo (43 anos mais nova), mesmo considerando o valor atribuído pelas fofocas a essas faturas: cerca de R$ 60 mil mensais. Tanto o ministro quanto o vice-presidente têm, a meu ver, bastante experiência para lidar com essas questões.
Uma briga entre o Gabriel Chalita e seu personal trainer, (acusado de uma nomeação indevida como assessor da Fundação para o Desenvolvimento da Educação, pelo então secretário de Educação de SP), esta sim, poderia degringolar em conflito: afinal, ambos são jovens. Mas nunca devemos negligenciar a frase do conselheiro Henry Kissinger: “O poder é o maior afrodisíaco”.
Já no caso da Igreja Católica, em busca de um novo papa, essa premissa deve ser afastada. Mesmo que o novo pontífice venha a ser D. Odillo Scherer, gaúcho de boa cepa, dificilmente a instituição vai aceitar o meu conselho de acabar com o celibato sacerdotal, para enterrar de vez todos os casos, suspeitas e processos de pedofilia que vem corroendo a reputação do apostolado romano. Não se trata de sucumbir ao Iluminismo, este senhor com mais de duzentos anos, mas de aproveitar a oportunidade para atualizar alguns cânones associados à evolução do Homo Sapiens que, afinal, permanece no centro das preocupações da Santa Madre, ainda que a sua a matriz ideológica advenha do próprio núcleo da criação.
Bem. Se o Elvis da Teoria Cultural (OESP, 5/3), Slavov Zizek – que chega ao Brasil a fim de promover o seu livro “Menos que nada” (8/3, Teatro Paulo Autran-SP) – consegue recuperar o velho Hegel (o pai da perspectiva histórica) para renovar a teoria do materialismo dialético simplesmente substituindo a hegemonia do capital de ontem pela autonomia do capital financeiro de hoje, tudo isso usando, como vitrine, a própria imprensa conservadora, então, de fato, tudo é possível.
Psicanálise à parte, nós, parte dessa raça que se intitula humanidade, já aprendemos, com nossas perdas recentes – o papado de Joseph Ratzinger, a conspiração cancerígena que matou Hugo Chavez, a Rakelle (primeira personagem da atriz aiuruoquense, Isis Valverde), a morte de David Brubeck e do Chorão – que, na natureza, perde-se muito mais do que moedas de baixo valor e objetos esquecidos.
No entanto, o mesmo William Faulkner que definiu o homem como um somatório das próprias desgraças - “A gente acha que um dia as desgraças se cansam, mas aí, é o tempo que se torna a nossa desgraça” - também afirma: “O pai disse que ela adora a Caddy. Ela gosta das pessoas por causa dos defeitos delas” (O Som e a Fúria). Hoje, 7/3, 24 horas depois do luto moral que pairou sobre a morte do Chorão – esse espelho do Brasil – a mídia e os parceiros famosos, finalmente, iniciaram a sua catarse, em linha com a memória de Hegel (independentemente das idéias de Zizek). O filósofo sempre afirmou a identidade única do ser humano, em seus dois extremos: o sublime e o terror.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Três dias em Madrid
Meu projeto era postar aqui um roteiro desses que inundam a web dos turistas incidentais e que, às vezes, ajudam, numa viagem inesperada (apesar do vinco pessoal geralmente impresso nas dicas do prestador do serviço): Madrid/Barcelona em sete dias. Se fosse esse o caso, eu recomendaria, de cara, a escolha de um genro com MBA em Singapura (Insead), poliglota e conhecedor dos aeroportos e empresas aéreas da Europa, tão tortuosas quanto as daqui. A espanhola Vueling, por exemplo, cobra apenas 60 euros por um trecho como Madrid-Barcelona, mas escora os bobalhões, como eu, na escadinha do check-in, onde cobra mais 50 euros por qualquer bagagem que exceda os 10 quilos por passageiro. Todo espanhol sabe disso: as malinhas de aeroporto, exibidas nas lojas com adesivos berrantes de peso e medida certos, são as mais vendidas no país, mas você não vê nada disso no Facebook.
Essa dependência das redes sociais, aliás, está acabando com a gente. A manchete do Uol, ontem (13/2), era a notícia de que a renúncia de Joseph Ratzinger não foi, afinal, fruto da indisposição que alimentou a cobertura da Globonews, na segunda-feira de Carnaval (11/2), dia seguinte ao anúncio do papa. O portal cozinhou a manchete do Estadão, que falava do vazamento de documentos secretos pelo mordomo (um tanto óbvio) e da pedofilia do clero – mas apenas no lead. O título foi sutil: “Fragilizado, Bento XVI surpreende e renuncia”.
Na mesma front page, o Uol trouxe a notícia daquela atriz da novela (esta, nem os noveleiros crônicos estão aguentando) que pediu um copinho para fazer xixi depois de desfilar na escola de samba. No Carnaval, a houseorganização da imprensa fica ainda mais evidente: a estrela da Globo ilustra a coluna social do jornal paulista, cuja rádio transmite ao vivo a apuração do desfile, que fornece um abre criativo ao programa de Economia e Negócios da emissora a cabo daquela primeira, detentora dos direitos de transmissão desfile (narrado como uma partida de futebol). O analista econômico, por sua vez, consegue justificar o uso da passarela do samba como outdoor do cavalo marchador, do carro coreano e do sol de Goiás. Tudo em família, como manda a tradição brasileira.
Num mundo que troca de personalidade real por personalidade de estamparia, a todo momento, a vedete Sabrina Sato é mais importante do que o compositor aquele, na foto que ilustra a reportagem do jornal serião sobre a vitória da Vila Isabel no Carnaval Carioca. A madrinha da bateria sabe onde fica o Morro do Macaco? – E isso importa?
Voltemos ao papa, que não renunciou para sair na Mangueira, a despeito da minha torcida. Deveria: aquela paradinha da(s) bateria(s) me fez esquecer o pouco que eu sabia de Jazz, de Amstrong a Stanley Jordan, passando pelo velho Miles, que você não curte.
Apesar das semelhanças entre a crise de Ratzinger e o badalado filme de Nanni Moretti, Habemus Papam, com o Michel Picoli (ator de Marco Ferreri e de Luis Buñuel, aquele amigo do Salvador Dali e do Garcia Lorca), em nenhum momento, naquela segunda-feira (11/2), a Globonews levantou a hipótese de uma crise de consciência, por parte do papa, diante dos dilemas da vida. Ou da religião católica, essa bola de neve que vem rolando, nas últimas décadas, do sermão de cobranças e advertências do domingo até a endorfina do padre Marcelo, passando pelo violão da Juventude Estudantil Católica, pela Opus Dei e pelos focolare, que ajudaram a eleger o antigo papa atual. Sempre em busca dos jovens que costumam celebrar, simplesmente, o fato de estar vivos, em suas baladas e academias.
A frustração me pareceu óbvia, no teorema de Ratzinger, por constituir-se no aspecto mais humano de sua renúncia (limitações físicas à parte, claro). Isso animou uma acalorada discussão nas areias de Cambury, no dia 11/2, mas escapou à atenção da mídia até a noite de anteontem, quarta-feira de cinzas (13/2). A dúvida, o cansaço e a sensação de fracasso do pontífice – essas coisas de humanóides – permaneceram à margem da cobertura do fato, durante três longos, intermináveis dias.
O que se pode fazer, em três dias? No meu primeiro dia em Madrid, por exemplo, consegui visitar todo o Museu do Prado. A cólica renal não ajudou, mas permitiu-me apreciar melhor o lado escuro de Goya.
O que mais curti, nesse dia (poxa, devia ter postado uma foto), foi um grupo de grumetes que podiam ter, no máximo, seis anos, sentados em torno do Jardim das Delícias, de Bosch, guiados por uma professorinha. Mesmo visto de dentro daqueles uniformes engomados de espanhóis, o quadro deve ter propiciado, a eles, uma experiência fantástica. A comparação com o que nossas crianças costumam receber, aqui, me doeu mais do que o maldito cristal de oxalato de cálcio que passeava por minhas entranhas.
Todo o questionamentos de fé e moralidade, ética e doutrina – que me perseguiram durante a visita ao museu, e que costumam perturbar até o papa – se dissiparam, no meu segundo dia em Madrid, quando o boticário de uma farmácia situada em frente à Estação Atocha, entre o Prado e o Museu de la Reina Sofia, concordou em me receitar um anti-inflamatório, depois de uma breve consulta. Imaginem se eu tivesse que recorrer ao serviço de saúde da seguradora, naquele país estranho: - E se fosse como aqui?
Naquele momento, eu já tinha entendido a lógica especial das placas de sinalização espanholas (outro alívio) e me livrado da visão aterradora do Cristo, de El Greco e da opressão mística das telas de Zubaran e Velazquez. Mas não conseguiria suportar o martírio da fome. O restaurante do Prado me pareceu tão bom quanto o do Masp. Entre os museus citados (o Prado e o Reina Sofia), que não ficam longe do Museu Thissen Bornemisza (coleção privada adquirida pelo governo, em 1993, e que vai do Quattrocento italiano ao Expressionismo alemão), você também encontra algumas tascas onde pode pedir um Magno (melhor que aquele outro brandy, famoso fora da Espanha) e uma Estrella, a cerveja melhorzinha deles, na linha das louras leves. E claro, tapas, jamón.
Na minha comparação maluca de timing, enquanto beberico no último andar d’El Corte Inglés (uma espécie de Mappin deles), vendo o sol deitar-se por trás do Palácio Real, minha primeira noite em Madrid, o JN, maior telejornal do Brasil, 24 horas depois da renúncia do papa, informa seus espectadores sobre o esforço feito pela emissora para levar o Marcos Lozekan, de Londres até Roma, para trazer os desdobramentos da renúncia aos brasileiros: o papa decidiu renunciar justo na folga da Ilze Scamparini, eplica o âncora.
É noite. Procuro um restaurante de cozido típico da cidade, a Taberna La Bola, que fica ao lado da Ópera, conhecida pelos madrilenos como tal, mas indicada em seus mapas e placas como Teatro Real, ou Plaza Isabel II. O restaurante parece ótimo, mas só aceita dinheiro como forma de pagamento, e prefiro não arriscar. Vamos jantar numa parrilla argentina, perto da Plaza del Sol, que fica na margem sul da Gran Via, a rua comercial da cidade. No lado oposto está a rua Fuencarral, uma espécie de Baixo Leblon madrilenho, onde você encontra tatuadores, lojas de grifes e botecos simpáticos, inclusive de cozinha vascaína (que não vende, necessariamente, bacalhau). Não fomos, nem ao Santiago Bernabeu, nem ao Vicente Calderón, com medo de encontrar o Galvão Bueno.
No segundo dia da cobertura da renúncia do papa (12/2), a manchete do JN foi a troca do marcapasso de Josef Ratzinger, uns meses antes. Foi uma extensa cobertura: falou-se da saúde do papa, dos possíveis sucessores, da residência de verão, da nova posição do ex-sumo pontífice na hierarquia da igreja, do Encontro da Juventude ao qual ele deveria comparecer, no Brasil, este ano. Nada de realpolitik, frustração ou crise de consciência. O G1, como descubro depois, publicou, à tarde, uma nota sobre a declaração de Nani Moretti de que seu filme previu a renúncia do papa. Exagero de italiano, claro, mas pista certa (que ninguém seguiu).
No meu segundo dia em Madrid, apesar da neve, passeamos um pouco pelo Parque del Buen Retiro, que margeia a avenida Alcalá, quase uma continuação da Gran Via (a cidade também respira pelo Parque del Oeste (perto da Plaza de Espana) e pelo de las Vistillas, que fica atrás da igreja de San Francisco, El Grande, que teria sido o seu próprio fundador. “Percorra, sem objetivo definido, as ruelas medievais do centro”: por mais idiota que pareça o conselho, caminhamos dessa igreja até a de San Isidro, e depois, até a Plaza Mayor, o que valeu a pena. Fizemos compras na Gran Via e na Fuencarral. Depois, jantamos no Corral de la Moreria, para ver e ouvir o flamenco, que, a exemplo do time carioca, custou caro, mas não convenceu.
Já falamos do terceiro dia da cobertura da renúncia do papa (13/2) quando os portais, finalmente, chegaram ao âmago da questão, baseados nas análises dos jornalões, que, afinal, haviam tido tempo de se recompor. Daí por diante, o assunto virou tema de suítes, e deixou de me interessar. Já na minha visita a Madrid, passei o terceiro dia nos já citados museus Thyssen e Reina Sofia (modernista), sentindo o peso real da cultura: cansa. Consolação, happy hour no Mercado de San Miguel.
Apesar do frio e da crise, a cidade me foi agradável. Muitos estrangeiros (inclusive da Espanha), respeito ao turista, equipamentos que funcionam (exceto pelo lixo de três dias em Barajas, na volta, por conta da greve dos funcionários de manutenção). Os preços foram justos (não sei se em consequência da crise) e o metrô que interliga toda a cidade (o passe de 10 viagens é muito mais barato), levando, inclusive, ao aeroporto de Barajas (ai de ti, presidenta Dilma).
Passamos por ruas batizadas de Lope de Vega, Tirso de Molina, José Ortega y Gasset, Cervantes, mas a sombra do generalíssimo me perseguiu (em 1972, muito jovem, fui preso no aeroporto de Madrid por saudar um gendarme com a frase “Viva Franco, arriba España”, em tom obviamente caricatural (apesar da minha condição de exilado do governo Garrastazu Médici). Também não aguentei ficar mais de cinco minutos na Plaza Mayor, onde, durante três séculos (de 1478 a 1834), o Santo Ofício mandou julgar e queimar vivos cristãos acometidos pelo que, na época, se definia como “crise de fé”.
Foto: Estudante de Arte no Prado: antropofagia chinesa
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Diário das Trevas
Em vez de desperdiçar o seu talento na tarefa de produzir uma campanha de contra-informação destinada a conter o desgaste de imagem do principal líder de seu partido, o ex-presidente Lula, o presidente do PT, Ruy Falcão, que dirigiu a revista Exame durante quatro anos, poderia usar a sua experiência política, como assessor de comunicação da ex-prefeita Martha Suplicy, para propor, no 5º. Congresso Nacional do Partido, previsto para fevereiro de 2014, um resgate do antigo arcabouço ideológico de seu partido, que incluía a ética e a transparência na administração pública. Falcão poderia articular a criação de uma nova ala da agremiação, que se chamaria, por exemplo, PT Autêntico.
A tarefa da intelectualidade petista, motivada pela condenação de alguns colaboradores do ex-presidente pelo Supremo Tribunal Federal, no processo do Mensalão, tornou-se mais delicada diante da intenção anunciada hoje (9/1/2013) pelo Ministério Público Federal de investigar o próprio Lula. Mas já não era fácil, considerando todos os escândalos de que se alastraram pelas administrações petistas, nos últimos anos, dos casos mais antigos e escabrosos – como os assassinatos dos ex-prefeitos Antonio da Costa Santos (Toninho do PT), de Campinas-SP, em 2001, e Celso Daniel, de Santo André-SP, em 2002 – aos mais recentes e rasteiros, como os do prefeito de Porto Velho (R0), Roberto Eduardo Sobrinho, o do prefeito de Senador Pompeu (CE), Lauriberto Braga, que fugiu de ônibus, e do prefeito de Palmas (TO), Raul de Jesus de Paiva Filho (todos em 2012).
A lista poderia incluir os episódios que envolveram medalhões do partido nos píncaros da República, como os ex-ministros Benedita Silva, Luís Gushiken, José Dirceu, Agnelo Queiroz (Operação Shaolin) e Antonio Palocci, seus aliados, os senadores José Sarney, Romero Jucá e Renan Calheiros, os ex-ministros, Mário Negromonte, Orlando Silva, Wagner Rossi, Pedro Novais, Silas Rondeau e Alfredo Nascimento, entre outros. Desses casos, eu me lembro bem (apesar da memória péssima), sem ter que consultar o (Ricardo) Noblat: afinal, este não é um blog de política.
Do ponto de vista do PT, João Goulart e Getúlio Vargas – que fundou a base da indústria nacional e se aliou aos nazistas, num certo período – foram combatidos por terem promovido a emancipação do proletariado, o mesmo extrato social que o PT, atualmente, denomina de “nova classe média” e que, segundo o ex-presidente Lula, na véspera das eleições municipais, não está interessado em política, e sim nas ofertas das Casas Bahia, coisa de país emergente. Nada demais, se isso não excluísse outros interesses, como o resgate da própria cidadania, que, por enquanto, o povo só consegue aprender com o Zeca Pagodinho.
Os inimigos de outrora, a “classe dominante”, secundada pelas “forças da reação” viraram mídia burguesa, a serviço das elites, ambas interessadas em desestabilizar o projeto de poder do Partido dos Trabalhadores. O mesmo projeto de poder que, não fosse a operação Porto Seguro, da PF, já teria instalado um “nosso porto” em Ilhabela-SP, projetado pela criativa prancheta dos irmãos Paulo e Rubens Vieira, da Agência Nacional de Águas e da Agência Nacional de Aviação Civil, respectivamente, em parceria com o senador Gilberto Miranda e com a ex-secretária da Presidência da República em SP, Rose Noronha. Afinal, se o companheiro Palocci pode ter um apê de 5 milhões nos Jardins, porque um dirigente da ANA não haveria de possuir oito imóveis, entre Brasília e São Paulo-Capital?
Se levarmos em conta que o patrimonialismo, o compadrio e a corrupção (esses vícios universais) sempre contaminaram o Estado brasileiro, como afirmam meus camaradas das antigas fileiras do PT, ficamos assim: quem não apóia o partido está contra ele, assim como, para o religioso fanático, quem não abraça a sua fé, seja ela cristã, judaica ou mulçumana, está possuído pelo demônio. E a incontável multidão de almas puras, bem intencionadas ou, simplesmente, desinformadas, continua servindo de massa de manobra aos vendedores de discursos populares, elixires milagrosos e terrenos no céu.
Enquanto isso (parte que eu adorava nas histórias que mamãe botava para ouvirmos, em sua vitrola de pés de palito, nos anos 50), num outro país emergente, hordas de selvagens atacam mulheres indefesas, como aconteceu em Nova Délhi, na Índia (Sonia Faleiros, do NYT, conta que até hoje não consegue se vestir de forma atraente, depois de ter morado na cidade por 24 anos). Lá, o líder do Partido do Congresso do Estado de Andhra Pradesh, Botsa Satyanarayana, afirmou: “Somente porque a Índia conseguiu a liberdade para as mulheres não significa que elas possam se aventurar a sair depois do anoitecer”. Reflexos de uma cultura patriarcal misógina? – Nada: sombras de uma sociedade arcaica, apodrecida na brutalidade e na ignorância que nós, turistas ocidentais, fingimos ignorar.
Não faz muito tempo, num outro emergente, cujo grande líder desfila de Harley Davidson e casaco de couro, na véspera das eleições, como um Fernando Collor ou um Nelson Jobim, meninas de uma banda de rock, as Pussy Riot, foram para a cadeia por terem cantado, num altar da Igreja de Cristo Salvador, em Moscou (ao qual só aos homens é permitido o acesso) “Maria, mãe de Deus, tire o Putin do poder”. (“Os harleiros adentraram a cidade portuária de Novorossiysk, que comemorava sua libertação durante a Segunda Guerra Mundial. A multidão, consta, curtiu a cena animada pelo hino dos motoqueiros, os Night Wolves. No seu discurso, Putin chamou os bikers de “irmãos patriotas”. Só faltou cantar Born to be Wild “(Gianni Carta, Carta Capital, 21/12/2011).
Na China, o secretário geral do Partido Comunista, Xi Jinping, promete redesenhar a legitimidade de seu governo, baseado em três caminhos: o do pão, o da anticorrupção e o da renovação da nação chinesa, este baseado no apoio geral do povo ao governo e em recursos materiais abundantes. Nada diferente do lema de Mao Tsé Tung, “Se a água sobe até o grande rio, o pequeno rio estará cheio”, convertido, por Deng Xiao Ping, em “Se o país é forte, as pessoas serão felizes”. O problema é que, na atualidade, a nação forte corresponde a algumas pessoas privilegiadas estarem felizes.
A segunda fragilidade do projeto está na supressão dos direitos do povo: os protestos em massa, na China, aumentaram para cerca de 200 mil, nos últimos 12 anos. O regime não enfrentará o fato de que o PCC perdeu completamente a confiança do povo e que o sistema político é a causa desses conflitos. O outro elo frágil do projeto, segundo a oposição chinesa ao governo, está na dependência da China aos recursos externos: 50% do petróleo consumido no país vem de fora, assim como 56% da soja (90% dos alimentos). O país importou, em 2012, 90 milhões de toneladas de carvão e 40% da produção mundial de cobre.
No outro prato dessa balança, enquanto o presidente (reeleito) Barak Obama enfrentava a pressão republicana contra os impostos dos mais ricos, para evitar o colapso fiscal do país, um desmiolado assassinava 27 pessoas, na maioria crianças de uma escola elementar, (14/12/2013, Newtown, Connecticut). Os gênios da Associação Nacional do Rifle (NRA) propuseram, como contra-informação, que os professores americanos passassem a andar armados, como forma de proteger os alunos e suas próprias vidas (contra os milhões de malucos que conseguem comprar livremente armas e munição em qualquer loja de ferragens dos Estados Unidos). Dias depois, o diretor da Associação dos Donos de Armas, Larry Pratt, afirmou, em entrevista ao âncora Piers Morgan, da CNN, que nos países onde a venda de armas foi regulada, a violência aumentou. Desmarcarado ao vivo, o lobista articulou um movimento pela deportação do jornalista. Como se vê, a mentira e a manipulação não são privilégio dos países emergentes.
De volta ao nosso tijolinho, que Jorge Amado apelidou de País do Carnaval (já se comemora) vamos contornando os apagões e maquiando as continhas do Estado, para fechar 2012 com superávit fiscal, já que o PIB virou pibinho. Mas estou solidário com a nossa gerente, mulher de coragem, que enfrenta uma campanha de desestabilização dentro de seu próprio partido, o PT, que abriu a nossa conversa de hoje.
Coragem na vida pública, essa virtude masculina, aliás, platônica (ao lado da justiça, da temperança e da prudência), foi o tema da excelente Lúcia Guimarães em sua coluna desta segunda-feira, no Estadão (7/1), focada na campanha do doublé de empresário e político , Michael Bloomberg, depois que o presidente Barak Obama delegou ao seu parceiro, Joe Biden, a tarefa de se posicionar no debate quanto ao controle das armas nos Estados Unidos. Como se vê, Direita e Esquerda nunca estiveram tão perto, como neste horrível clichê.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Maurício Shogun x Winnie Mandela

E a elite que comprou aquele monte ações das estatais com o Fundo de Garantia? – Essa gente não entende que abrir mão de uma parte do lucro, às vezes, pode ajudar num projeto mais amplo, como o palácio de um deputado, numerário para a campanha de uma governadora maranhense que precise, ou uma viagem a Paris de um governador fluminense (ou sogra de um governador cearense). Essas coisas também significam um Brasil sem pobreza, estão pensando o quê? – Eu digo: deixem o povo reclamar, se eles podem comprar o carrinho básico deles por módicos trinta mil reais, sem pagar o IPI, por que nós não podemos ter o nosso Land Rover Evoque (ou Mitsubishi Pajero) na garagem? - Pedem uma Educação de qualidade: tem um monte de faculdade de Medicina por aí, formando profissionais cada vez mais competentes para prestar um serviço de saúde que melhora a cada dia: - Isso não conta?
Sim, mas Tina Brown (que dirigiu a Vanity Fair), autora da frase lá em cima, organiza a conferência Women in the World (Mulheres no Mundo), realizada pela primeira vez fora dos Estados Unidos, no último dia 4/12, em São Paulo, só para falar mal da homarada. Participaram Xuxa e a Condoleezza Rice, mas, ainda assim, foi melhor do que aquela convenção de peludos que o João Dória Jr promove, anualmente, em Águas de São Pedro, para garantir o leite maltado das crianças, e que agora tem transmissão ao vivo pelo SBT (a audiência do Sílvio Santos, no dia 11/12, deve ter adorado). Só tem um problema, dona Tina: com o seu viés jornalístico, a senhora tende a exagerar um a situação da mulher contemporânea que, em sua opinião, tornou-se complacente e passiva. “Nossas mulheres não marcham mais”, reclamou, numa péssima tradução da Folha, referindo-se a suas compatriotas.
Mrs Brown ficou decepcionada com a falta de mobilização de suas patrícias (não é trocadilho, moçada) em torno das políticas contraceptivas ameaçadas por uma eventual vitória republicana nas eleições presidenciais de seu país. “Havia um grande risco de um salto atrás na nossa política reprodutiva”, disse. E reclamou que, hoje, a consciência das mulheres norte-americanas (devidamente instaladas no pleno exercício de sua própria cidadania) limita-se a repudiar a proibição de dirigir às mulheres da Arábia Saudita, e a obrigatoriedade do xador, no Irã (burca é outra coisa: é o que a gente jogava em Bauru). “Hillary foi atirada no lixo pela mídia, e ninguém fez nada”, afirmou à FSP.
Na mesma edição, aliás, a Folha trouxe uma entrevista com a contra-almirante Dalva Mendes, a primeira a alcançar essa patente, em nosso país. Na opinião dela, a inclusão das mulheres na linha bélica demanda um estudo mais cuidadoso: “A gravidez é um problema”, assinalou. “Você já entrou num navio de guerra, com aquele cheiro de óleo?”, indagou à repórter, Damaris Giuliana. “Já pensou quem está grávida? E quem estiver amamentando?”. Ao que parece, a comandada discorda da comandante suprema, que, em agosto, assinou uma Lei obrigando o Exército a incluir mulheres na linha de frente, dentro de cinco anos. Mas o melhor trecho da entrevista foi a explicação (mantida pelo jornal) de que as primeiras fardas da Marinha tiveram que ser adaptadas, por terem sido feitas para manequins, não para mulheres “normais”.
Talvez, afinal, a contra-almirante Dalva Mendes se encaixasse na definição de “mulher forte” de Tina Brown, embora se mantenha casada, até hoje, com o sujeito que a tirou para dançar quando ela tinha apenas 14 anos. “Meu pai é cearense”, avisou ao pretendente, “e tem aquela mentalidade de filha minha, é no cabresto”. Mas o moço não teve medo. “Meu pai ficou tão desconcertado que o mandou ir lá em casa, no dia seguinte”.
Seria deselegante usar a frase de um célebre machista, para desqualificar a opinião da ativista norte-americana em relação aos homens que se defrontam com mulheres fortes, como ela disse (toda unanimidade é burra). Mas eu me permito discordar da frase dela, começando pela raiz: será que para ela, a sua xará, Tina Turner, não caberia na classificação de mulher forte? - E Hillary Clinton, sim? Marisa Monte seria frágil e Cassia Eller, forte? Irmã Dulce, Dilma Roussef ou Maitê Proença: – quem venceria essa disputa? - Lota de Macedo Soares, que projetou o Parque do Flamengo e suicidou-se por amor (como vai contar Bruno Barreto, em A Arte de Perder, com estréia prevista para fevereiro próximo, no Festival de Berlim), era forte ou frágil?
E quanto aos homens? O lateral direito Alessandro, do Corínthians, que acabo de ver, em partida contra o Al Alhy (time do qual ninguém mais vai se lembrar, daqui a meia hora) é mais forte ou mais fraco que, por exemplo, o Raí, que fala francês e dirige uma fundação de amparo à juventude? Quem você classificaria como o mais forte: Gandhi ou Churchill? – Oswaldo Cruz ou Anderson Silva? Mandela, Bill Clinton ou John Wayne? Machado ou Joaquim Nabuco? Jobim ou Vinícius?
E como seriam as relações entre esses homens e mulheres? Gandhi teria se casado com a Irmã Dulce ou teria preferido a Maitê Proença? E se Mandella tivesse se encontrado Dilma Roussef, antes de conhecer a Winnie? – Lota e Cassia Eller dariam liga? E a Marisa Monte, teria preferido o Alessandro ao Raí? Como Hillary reagiria a uma cantada do Vinícius, que Elizabeth Bishop adorou? Aliás, será que a poderosa secretária de Estado dos EUA, finalmente, perdoou Bill, depois da vitória dos democratas nas últimas eleições?
Todas essas combinações e conjecturas ficam boas demais no papel. Na vida "real", dou razão a quem coloca o feminismo dos sutiãs queimados na gaveta da história, e se preocupa mais com o crescimento desproporcional das religiões na sociedade contemporânea, inclusive do ponto de vista da mulher - no Islã, sim, mas também em Utah, em Nagoya (onde rolou o citado jogo do Corínthians) ou no Mississipi. E quanto o câncer, o que me dizem sobre o câncer? – E da violência doméstica contra a mulher? E da mão de obra infantil? (vi dezenas de meninos-flexas neste último fim de semana, nas esquinas do Brooklin, em São Paulo). – E que tal a falta de saneamento básico, na oitava economia do mundo, que, aliás, promete derrubar mais uma centena de casas penduradas em nossas encostas, neste verão?
Podem me criticar, mas é isso o que penso. As mulheres merecem todas as suas conquistas, mas precisam nos ajudar a combater mistificações como essas, de que continuam oprimidas, ou de que fazer oposição ao governo é ser de direita; temos que lutar conta a injustiça, contra a corrupção, as desigualdades, a nossa mania de confundir o público com o privado, de jogar lixo na rua, de dirigir bêbado e de desrespeitar a natureza: temos muito mais o que fazer juntos, mulheres e homens. Essa disputazinha de poder é coisa de novela, e, mesmo assim, requentada. Vale o talento da Irene Ravache e do Toni Ramos, no máximo. E, talvez, a barriguinha da irritadiça Luana Piovani.
Legenda: O "afiche" (Maio de 68) é uma beleza, mas eu trocaria pelo texto do Newton Moreno para Maria do Caritó
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
O crânio de Yorick
Se a Globo pôde chamar o recente bombardeio à faixa de Gaza de conflito entre Israel e o Hamas, como se os palestinos não tivessem sofrido as consequências da escalada de violência conduzida pelo primeiro ministro Benjamin Netanyahu, com vista na eleição de janeiro próximo para o Knesset (parlamento israelense), então eu posso definir a guerra entre o PCC e a polícia de São Paulo como um transtorno de personalidade por parte dos marginais ligados à organização, que têm uma notória dificuldade em lidar com a autoridade, num processo que os psicólogos costumam classificar como fenômeno disruptivo.
Dependendo da cognição, juízo crítico, conhecimento e disposição ao entendimento, tais estados supostamente pétreos podem seguir por caminhos mais favoráveis e de menor sofrimento, tanto para a pessoa deles portadora, quanto dos demais à sua volta. Sabendo lidar com essa questão, o indivíduo poderá se adaptar perfeitamente à sua maneira de ser, disciplinar pulsões, esquemas de pensamentos, impulsos específicos desses transtornos, e tal manejo poderá ser de tal forma eficiente que a qualidade da vida emocional será muito melhorada (CID.10 – Classificação Internacional de Doenças - OMS).
No país da piada pronta, o delegado geral da Polícia Civil, Marcos Carneiro de Lima, encontrou outra explicação para essa guerra, conforme declarou ontem, 22/11, data da posse do novo secretário de Segurança do Estado, Fernando Grella Vieira. Lima encontrou indícios da volta de grupos de extermínio na onda de violência que atinge a Capital. Provavelmente o delegado acha que a execução de marginais suspeitos de fenômenos disruptivos, no passado, se restringiu à ação do ex-pm Florisvaldo de Oliveira, o cabo Bruno, na década de 80, ou ao Esquadrão da Morte que atuou em São Paulo de 1968 a 1971.
A ele recomendo a leitura de O Matador, de Patrícia Melo, adaptado para o cinema por Rubem Fonseca, no filme O homem do ano, dirigido por José Henrique Fonseca e interpretado por Murilo Benício, numa atuação bem diferente daquela do Tufão que acabou garfando a Débora Falabella (melhor do que ganhar a Copa do Mundo, que o Corínthians disputa, em dezembro).
Quanto ao Oriente Médio, numa chamada para o programa Sem Fronteiras, de Monica Valdwogel, na Globonews, anteontem (21/11), a emissora chamou a guerra na Faixa de Gaza de conflito entre Israel e Palestina. Das duas, uma: ou a empresa pensa que o público de sua TV a cabo é mais adulto e melhor informado do que o público que assiste à Xuxa, Faustão e JN, ou a ordem de atender aos interesses (imaginados) do lobby israelense-norte-americano foi suspensa temporariamente, em homenagem ao Dia de Ação de Graças nos EUA (22/11) que, também imaginariamente, pode ter ensejado a anunciada trégua entre Israel e a Palestina, nessa mesma data.
Ao entrar na Faixa de Gaza durante a transmissão do Bom Dia Brasil, também de ontem, o repórter, Carlos de Lanoy, disse que o clima, entre os palestinos, era de comemoração e alívio. Só não se sabe por quanto tempo. Gostaria de entender um pouco mais da política interna de Israel, para avaliar se existe alguma chance de se derrotar, nas urnas, a coligação de extrema direita entre o Likud de Netanyahu e o Yisrael Beiteinu, de Avigdor Lieberman. Duvido que, mesmo pensando, acima de tudo, em sua própria segurança, um judeu norte-americano como Phillip Roth, de quem leio, neste momento, Patrimony, ou os brasileiros de origem ou de religião judaica que conheço, optassem pela violência como única forma de proteção.
A melancolia (russa) que reconheço no livro de Roth sobre o declínio e a morte – temas recorrentes, em sua Literatura – não me autoriza a pensar de outro jeito. Da mesma forma, a ternura ácida e bem humorada de Portnoy’s Complaint, outro texto autobiográfico do autor, que trata de infância num bairro judeu de Nova Jersey, onde ele cresceu, protegido da Guerra e do preconceito. A figura do pai, abordada nos dois livros, mereceria outro extenso comentário, se não estivéssemos tratando aqui, simplesmente, da universalidade da arte e como forma de combate à hipocrisia e à violência.
Voltei a pensar no assunto ontem à noite, durante um breve recital de Schumann, igualmente melancólico (Quinteto para Piano Op.44), na Bienal de SP (30ª), para o qual fui convidado por um dos patrocinadores da mostra, cuja organização teve a boa idéia de promover uma visita exclusiva de convidados de seus principais patrocinadores, como contrapartida ao mecenato. Neste caso, tanto o patrocinador quanto o patrocinado mantinham, fora da Bienal, programas socioeducativos que, graças à sua convergência, tornaram-se correspondentes ou colaborativos, como diriam meus amigos de TI.
A peça de Schumann foi interpretada, a quatro mãos, pelos irmãos Heloísa e Amilcar Zanin, envolvidos por uma cortina circular que mostrou uma projeção multifacetada de cenas urbanas, outros recitais e paisagens, exceto numa tela lateral de 16 mm situada numa das paredes de fundo, que exibiu tiros de artilharia inspirados (imagino) nas Guerras Napoleônicas que minaram o império austro-hungaro na época do compositor. O espetáculo em si foi outra boa idéia, mas eu teria inserido imagens de flores e valsas entre os disparos de canhões: considerado o maior compositor do Romantismo alemão, Schumann conseguia aliar frescor e uma profunda melancolia em suas obras, na maioria, canções líricas baseadas nos poemas de Heine, como as de Schubert, que o antecedeu nesse gênero musical.
Nos dois anos em que se escondeu do serviço militar, lecionando na escola do pai, de 1813 a 1815, Schubert compôs mais de 150 lieder, gênero que o consagraria (universalmente), igualmente inspiradas em Heine, em Goethe e em Sheakespeare. O mesmo Sheakespeare citado por Roth em Patrimony, numa passagem em que o autor examina a tomografia do cérebro do pai doente, e lembra uma frase de Hamlet sobre o crânio de Yorik: “Ele me carregou nos ombros, mil vezes”.
Boas idéias, melancolia e a saudade antecipada do filho do rugby, que parte para a América, dentro de um mês, para uma longa temporada, me levam a citar uma frase recente dele próprio, depois de uma discussão acerca de uma expressão inadequada* que eu censurei mas, que, arbitrada pelo avô, meu eterno professor, ganhou uma conotação de possível. Eu, obviamente, protestei contra o engodo:
- Você deveria ser advogado - disse, referindo-me a uma piada interna, sobre a relação dele com a irmã mais velha.
- Publicitário é um advogado que não deu certo, você devia saber – ele devolveu, lembrando a própria profissão, que ele considera ser a minha grande frustração de velho jornalista.
- Que nada, garoto. Idéias como as que vocês desperdiçam, vendendo sabonete, poderiam salvar o mundo.
Imagem: mais uma do impagável Sempé: "Eu disse para você tirar a máscara antes de brigar com eles".
(*) O Correio impeliu o Consulado a não encaminhar passaportes pelas empresas de Courrier.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Amor, vou até o salão
Ouvi essa despedida muitas vezes, em Bauru-SP, onde passei parte da minha infância e juventude. No interior, qualquer sala com mais de cinco metros quadrados tende a virar salão de beleza, inclusive na casa da pessoa que for capaz de duvidar disso. Não é incomum o cliente ajudar na mise en place ou a varrer o chão enquanto aguarda a vez, como aconteceu comigo, durante um surto de boa vizinhança que me levou a acompanhar uma sogra a um desses estabelecimentos: eu tinha pressa.
Faz tempo que isso aconteceu, mas como, a esta altura da vida, toda a minha memória se resume ao disco rígido deste computador, achei que era disso que se tratava, quando a mulher de um amigo o saudou dessa forma, no último fim de semana, enquanto nos debruçávamos sobre nossas cervejinhas, a falar de futebol e política, já que o nosso principal assunto (filosofia), nos dias de hoje, exige cautela. O pessoal do Edir Macedo não armou um boicote contra a novela da Globo, só porque um ator é cavalo de Ogum?
Bem, se a mulher da pessoa está dizendo que vai ao salão, por que duvidar? - Melhor que receber um massagista no jardim de inverno, ou avisar que vai ao shopping com a mãe, o que, por sua vez, é bem melhor ouvir: “Vou visitar uma amiga”. Este último comunicado costuma disparar um alerta vermelho em qualquer marido. Geralmente, vem precedido por avisos de indisposição e dor de cabeça na véspera.
Mulheres fazem reuniões de Recrutamento e Seleção em mesinhas do Starbucks, onde me encontro agora. A mulher chegou à Presidência da República (óbvio). E às funções adjacentes da Presidência da República (não tão óbvio). Primeiro e segundo escalões. Chegou ao topo das grandes corporações, às Olimpíadas e à Magistratura (as ministras Rosa Weber e Carmen Lúcia aí estão, em companhia de Joaquim Barbosa); à Ciência (Mayana Zatz), às Artes e à Literatura (Clarisse, Lígia, Nélida, Cecília, Rachel). As mulheres têm até um programa de debates na TV a Cabo, o Saia Justa, para fazer contraponto com o antigo Mulheres, da TV Gazeta, que só falava de perfumaria, como o Jornal Nacional.
Para melhorar os índices de audiência da novela das sete, a Globo deu-se ao luxo de reunir, numa única cena: Maitê Proença, Letícia Sabatella, Giulia Gam, Cláudia Ohana e Regiane Alves, que não aparece em negrito no Google, mas já deu muito trabalho a pais e maridos.
Mulheres, com toda a justiça, não são mais figuras acessórias, como deixou claro, num anúncio de TV, a poderosa secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. Hillary, aliás, poderia ter imposto um tom mais incisivo à administração democrata, se naquela casa não houvesse uma outra figura excepcional, Michelle Obama, que inverteu a frase de David (o sujeito que matou Golias, mas apanhava da parceira): “Por trás de uma grande mulher, há sempre um grande homem”.
Segundo Paul McCartney, de quem o novo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, é fã (será que o Serra gosta dos Stones?), a humanidade jamais teria conhecido a canção “Imagine”, se Lennon não tivesse abandonado os Beatles para se casar com Yoko Ono. E olhe que Mrs. Ono não pode ser considerada, assim, um colírio para os olhos. Já o goleiro italiano Buffon, que agarrou tudo, na última Copa, tem tudo para justificar uma obediência irrestrita dentro de casa. Por causa deste comentário, serei crucificado como sexista, dentro de algumas horas. Não ouso criticar as escorregadelas filosóficas da professora Marilena Chauy, para não ser chamado de tucano, o que já seria demais. Mas que as mulheres tomaram conta do mundo, não tenho dúvidas.
Nem reclamo. Nós, seres masculinos, transportamos, hoje, um peso bem menor do que a escoliose moral carregada ao longo de séculos. Em lugar de cafajestes incorrigíveis, viramos “seres racionais”, bons de orçamento doméstico, consumidores contidos; somos mais decididos no restaurante e "mais cooperativos" nas tarefas domésticas; aprendemos a dividir a conta de luz e a discutir a relação, o que nos deixou “mais sensíveis”, e alguns de nós aprenderam a tocar instrumentos, a cozinhar e trocar fraldas, não exatamente nesta ordem.
Mas não perdemos nossas antigas habilidades de abrir coisas (portas, latas, garrafas), de construir balanços de corda e edifícios, além de trocar pneus. Por tudo isso, já somos considerados toleráveis e até admitidos em rodas feministas, como o sacana do Xico Sá, que sempre tem uma tirada maldosa para alfinetar o próprio gênero (ele precisa mais do que a maioria de nós, vamos entender assim).
O tiro de misericórdia no meu orgulho masculino foi desferido pela jornalista amiga, Lúcia Guimarães, que só por ter abandonado o Manhattan Conection já mereceria o nosso respeito. Em sua coluna no Estadão da última segunda-feira (8/10), “Mística Masculina”, ela decreta, de cara: “O homem está ameaçado de extinção”. E diz, reproduzindo o zeigest norte-americano atual: “Somos mais educadas, competentes, adaptáveis e podemos ser engravidadas num laboratório”.
Um sentimento de independência ambígua, como ela admite, interpretando “The end of the man”, de Hanna Rosin, a crônica da obsolescência masculina. Lucia bate duro, ao endossar a premissa de que o homem norte-americano perdeu a sua importância social. No fim do artigo, tenta apaziguar os ânimos, dando a entender que a guerra social, nos EUA, não é de gênero, e sim de classes. Não me iludo: foi apenas um desvio da formação gauche.
O fato é que, depois de passar duas horas tentando chegar ao quarto maior evento mundial da indústria automotiva, na última sexta-feira (26/10), driblando o trânsito na ponte da Casa Verde, os marronzinhos da CET, um batalhão de cambistas que ignoram a sua credencial de jornalista e insistem para que você lhes venda o ingresso usado pela metade do preço, para que eles possam revendê-lo “ganhando alguma coisa”, além de vários quilômetros de pais de quarenta anos com seus filhos de dez e jovens desocupados com suas latas de cerveja e anedotas estúpidas, cheguei, enfim, ao interior parque de exposições do Anhembi.
As máquinas que os italianos, com a sua habilidade ancestral, sempre associaram ao sexo feminino, estavam lá: as Mercedes, as Porshe, as Chrisler, as BM, as Renault, as Audi, modelos japoneses, coreanos; fuscas, suvs, carros-conceito, carros elétricos, Fórmula 1. Porém, as outras máquinas, que, ao longo das últimas décadas, atrairam hordas masculinas interessadas em conferir formas perfeitas, design de última geração e desempenho impecável, não estavam mais lá.
Em vez disso, havia: workshop para mulheres, estúdio de maquiagem, lounge feminino, manicures e cabelereiros como atrações dos estandes das grandes marcas. Meninos, eu vi. Não ousem me perguntar as razões, os motivos, mas, certamente, não faltariam argumentos para justificar o fenômeno: ascensão social, poder e decisão de compra, segmentação do setor, redistribuição de tarefas, mudança no modelo tradicional de família, conspiração das elites (este, certamente, um exagero petista).
O vício de jornalista não me foi suficiente para motivar uma volta ao Anhembi, a fim de catalogar e classificar todos esses atrativos às novas consumidoras, com suas promoções e serviços. Mesmo considerando que o fenômeno passou desapercebido pela grande mídia. Num lugar que, até ontem, era um dos poucos redutos masculinos que restavam intocados no mundo.
No fim, talvez as mulheres tenham razão: foi preciso a mulher daquele meu amigo voltar o passeio, no último sábado, carregada de chaveirinhos e comentários sobre as últimas versões xis-ípisilon-zê do modelo XPTO do fabricante Delta, para que eu entendesse: ela tinha ido ao Salão do Automóvel que, afinal, virou coisa de mulher.
(Foto) Cockpit de um B-52: adivinhe quem está no comando: homem ou mulher?
Faz tempo que isso aconteceu, mas como, a esta altura da vida, toda a minha memória se resume ao disco rígido deste computador, achei que era disso que se tratava, quando a mulher de um amigo o saudou dessa forma, no último fim de semana, enquanto nos debruçávamos sobre nossas cervejinhas, a falar de futebol e política, já que o nosso principal assunto (filosofia), nos dias de hoje, exige cautela. O pessoal do Edir Macedo não armou um boicote contra a novela da Globo, só porque um ator é cavalo de Ogum?
Bem, se a mulher da pessoa está dizendo que vai ao salão, por que duvidar? - Melhor que receber um massagista no jardim de inverno, ou avisar que vai ao shopping com a mãe, o que, por sua vez, é bem melhor ouvir: “Vou visitar uma amiga”. Este último comunicado costuma disparar um alerta vermelho em qualquer marido. Geralmente, vem precedido por avisos de indisposição e dor de cabeça na véspera.
Mulheres fazem reuniões de Recrutamento e Seleção em mesinhas do Starbucks, onde me encontro agora. A mulher chegou à Presidência da República (óbvio). E às funções adjacentes da Presidência da República (não tão óbvio). Primeiro e segundo escalões. Chegou ao topo das grandes corporações, às Olimpíadas e à Magistratura (as ministras Rosa Weber e Carmen Lúcia aí estão, em companhia de Joaquim Barbosa); à Ciência (Mayana Zatz), às Artes e à Literatura (Clarisse, Lígia, Nélida, Cecília, Rachel). As mulheres têm até um programa de debates na TV a Cabo, o Saia Justa, para fazer contraponto com o antigo Mulheres, da TV Gazeta, que só falava de perfumaria, como o Jornal Nacional.
Para melhorar os índices de audiência da novela das sete, a Globo deu-se ao luxo de reunir, numa única cena: Maitê Proença, Letícia Sabatella, Giulia Gam, Cláudia Ohana e Regiane Alves, que não aparece em negrito no Google, mas já deu muito trabalho a pais e maridos.
Mulheres, com toda a justiça, não são mais figuras acessórias, como deixou claro, num anúncio de TV, a poderosa secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. Hillary, aliás, poderia ter imposto um tom mais incisivo à administração democrata, se naquela casa não houvesse uma outra figura excepcional, Michelle Obama, que inverteu a frase de David (o sujeito que matou Golias, mas apanhava da parceira): “Por trás de uma grande mulher, há sempre um grande homem”.
Segundo Paul McCartney, de quem o novo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, é fã (será que o Serra gosta dos Stones?), a humanidade jamais teria conhecido a canção “Imagine”, se Lennon não tivesse abandonado os Beatles para se casar com Yoko Ono. E olhe que Mrs. Ono não pode ser considerada, assim, um colírio para os olhos. Já o goleiro italiano Buffon, que agarrou tudo, na última Copa, tem tudo para justificar uma obediência irrestrita dentro de casa. Por causa deste comentário, serei crucificado como sexista, dentro de algumas horas. Não ouso criticar as escorregadelas filosóficas da professora Marilena Chauy, para não ser chamado de tucano, o que já seria demais. Mas que as mulheres tomaram conta do mundo, não tenho dúvidas.
Nem reclamo. Nós, seres masculinos, transportamos, hoje, um peso bem menor do que a escoliose moral carregada ao longo de séculos. Em lugar de cafajestes incorrigíveis, viramos “seres racionais”, bons de orçamento doméstico, consumidores contidos; somos mais decididos no restaurante e "mais cooperativos" nas tarefas domésticas; aprendemos a dividir a conta de luz e a discutir a relação, o que nos deixou “mais sensíveis”, e alguns de nós aprenderam a tocar instrumentos, a cozinhar e trocar fraldas, não exatamente nesta ordem.
Mas não perdemos nossas antigas habilidades de abrir coisas (portas, latas, garrafas), de construir balanços de corda e edifícios, além de trocar pneus. Por tudo isso, já somos considerados toleráveis e até admitidos em rodas feministas, como o sacana do Xico Sá, que sempre tem uma tirada maldosa para alfinetar o próprio gênero (ele precisa mais do que a maioria de nós, vamos entender assim).
O tiro de misericórdia no meu orgulho masculino foi desferido pela jornalista amiga, Lúcia Guimarães, que só por ter abandonado o Manhattan Conection já mereceria o nosso respeito. Em sua coluna no Estadão da última segunda-feira (8/10), “Mística Masculina”, ela decreta, de cara: “O homem está ameaçado de extinção”. E diz, reproduzindo o zeigest norte-americano atual: “Somos mais educadas, competentes, adaptáveis e podemos ser engravidadas num laboratório”.
Um sentimento de independência ambígua, como ela admite, interpretando “The end of the man”, de Hanna Rosin, a crônica da obsolescência masculina. Lucia bate duro, ao endossar a premissa de que o homem norte-americano perdeu a sua importância social. No fim do artigo, tenta apaziguar os ânimos, dando a entender que a guerra social, nos EUA, não é de gênero, e sim de classes. Não me iludo: foi apenas um desvio da formação gauche.
O fato é que, depois de passar duas horas tentando chegar ao quarto maior evento mundial da indústria automotiva, na última sexta-feira (26/10), driblando o trânsito na ponte da Casa Verde, os marronzinhos da CET, um batalhão de cambistas que ignoram a sua credencial de jornalista e insistem para que você lhes venda o ingresso usado pela metade do preço, para que eles possam revendê-lo “ganhando alguma coisa”, além de vários quilômetros de pais de quarenta anos com seus filhos de dez e jovens desocupados com suas latas de cerveja e anedotas estúpidas, cheguei, enfim, ao interior parque de exposições do Anhembi.
As máquinas que os italianos, com a sua habilidade ancestral, sempre associaram ao sexo feminino, estavam lá: as Mercedes, as Porshe, as Chrisler, as BM, as Renault, as Audi, modelos japoneses, coreanos; fuscas, suvs, carros-conceito, carros elétricos, Fórmula 1. Porém, as outras máquinas, que, ao longo das últimas décadas, atrairam hordas masculinas interessadas em conferir formas perfeitas, design de última geração e desempenho impecável, não estavam mais lá.
Em vez disso, havia: workshop para mulheres, estúdio de maquiagem, lounge feminino, manicures e cabelereiros como atrações dos estandes das grandes marcas. Meninos, eu vi. Não ousem me perguntar as razões, os motivos, mas, certamente, não faltariam argumentos para justificar o fenômeno: ascensão social, poder e decisão de compra, segmentação do setor, redistribuição de tarefas, mudança no modelo tradicional de família, conspiração das elites (este, certamente, um exagero petista).
O vício de jornalista não me foi suficiente para motivar uma volta ao Anhembi, a fim de catalogar e classificar todos esses atrativos às novas consumidoras, com suas promoções e serviços. Mesmo considerando que o fenômeno passou desapercebido pela grande mídia. Num lugar que, até ontem, era um dos poucos redutos masculinos que restavam intocados no mundo.
No fim, talvez as mulheres tenham razão: foi preciso a mulher daquele meu amigo voltar o passeio, no último sábado, carregada de chaveirinhos e comentários sobre as últimas versões xis-ípisilon-zê do modelo XPTO do fabricante Delta, para que eu entendesse: ela tinha ido ao Salão do Automóvel que, afinal, virou coisa de mulher.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
O Sistema
Entro na loja bem decorada da operadora de celular (fica a uma quadra de minha casa). Por cortesia, pergunto ao guardião que tenta organizar o atendimento, distribuindo senhas iguais a pessoas com demandas muito parecidas:
- A Josiane?
Ele me responde varrendo o salão com um olhar de jogador de basquete: – Está atendendo.
- Onde? – pergunto, com uma falsa intimidade. Ele perde a concentração e olha para a porta do cubículo onde eles, de fato, trabalham. Não resisto:
- Lá dentro? – Não, ele esclarece, esboçando um sorriso. Sabe que foi apanhado. Quebrei a primeira resistência do Sistema. Mudo de direção enquanto outra atendente vem chamá-lo: tem mais gente chegando (não pára nunca).
- Fábio? – pergunto ao garoto precocemente amadurecido que passa a meu lado, depois de uma espiadela no crachá que ele carrega. Já o vi outras vezes, sempre correndo, sempre assustado, provando que o avanço tecnológico pode encurtar as distâncias, mas só faz aumentar a nossa produtividade.
Digo:
- Você me conhece, eu tenho vindo aqui várias vezes (recebo um olhar de reconhecimento). É que a Josiane está sempre muito pressionada, sempre com muito trabalho, e é a única que entende deste aparelho. Eu só preciso transferir a minha agenda, do antigo telefone para o novo.
- Só isso? – ele desconfia. Respondo que sim, buscando o aparelho antigo dentro da pasta. O novo já está nas mãos dele.
– Isso, eu consigo resolver – admite. Boa pessoa, pergunta o que aconteceu com a tela do meu aparelho antigo, rasgada ao meio por uma feia cicatriz. Digo que escorregou da minha mão e explico que só a tela me custaria o dobro de um aparelho novo, já que eu não tenho a nota fiscal do antigo.
- Não era um genérico – me escuso. – Mas você sabe, eles ficam tentando evitar que as pessoas tragam lá de fora, pela metade do preço. Ele não pode concordar. Mas abre o notebook que está na bancada à nossa frente, enquanto aciona a tela principal do meu aparelho, que exibe instantaneamente a marca de outra operadora.
- Eu tenho duas outras linhas no concorrente – justifico. – Renovei o contrato por mais um ano, numa delas, e o telefone saiu um pouco mais barato do que aqui. Quem usa é o meu filho. A minha, continua sendo a daqui. Ontem, fiz a transferência das minhas contas de e-mail com o Marcos, seu colega do Atendimento Vip – acrescento, desnecessariamente. Fui atendido com toda a delicadeza que costuma ser dispensada a um heterossexual quase ancião, como eu (penso).
Amanhã (continuo pensando) virei novamente, para instalar os aplicativos do Facebook, Twitter e algum portal de conteúdo. Depois de amanhã, virei para entender se vale a pena baixar música neste aparelho, como enviar foto e vídeo por e-mail. Mas posso fazer isso na loja da outra operadora, que me vendeu o aparelho, para distribuir um pouco as tarefas entre as duas empresas.
Lembro-me de como foi bom ser tão mal atendido nas duas outras lojas dessa outra operadora onde estive algumas vezes, antes de comprar, finalmente, o novo aparelho. Funcionários com péssimo treinamento me ensinaram, ao longo de uma cadeia impressionante de erros:
1) A escolher os planos mais adequados aos meus interesses (exige pelo menos três visitas);
2) A encontrar um aparelho tecnicamente avançado, dentro da menor faixa de preço (duas visitas, dependendo do atendente), e
3) Como desencavar o melhor desconto contido na estreita margem de negociação franqueada aos atendentes (quatro a cinco visitas).
Nunca perdi meu tempo. Todas essas visitas foram encaixadas em passagens obrigatórias em frente às lojas, em horários de pouco movimento, encaixados entre minhas reuniões. Salvo exceções como a de hoje, sexta-feira, oito da noite, num shopping que se parece com uma rua de Mumbai, em dia de festa.
Penso na expressão da dona do quiosque desse mesmo shopping center onde, inicialmente levei o meu celular quebrado (para um orçamento que levaria, no mínimo, 24 horas), quando lhe comunico que o meu aparelho novo custou a metade do que ela me pediu pelo conserto do antigo.
- Eu respeito muito o seu trabalho – digo – e sei que você paga um aluguel muito caro. Mas como, agora, posso esperar, vou consertá-lo quando tiver que passar pela Santa Ifigênia (Centro de São Paulo-SP). É nesse local (penso) que você, provavelmente, compra suas peças de reposição e as horas de trabalho de um bando de brasileirinhos espertos, empregados por contrabandistas com sotaques estranhos.
Percebo, pela primeira vez, porque gosto tanto da Santa Ifigênia, talvez mais até do que o Ceagesp, onde o que me atrai, além da bagunça e das cores, é a livre negociação de preços, peixes e piadas. Um mar de anarquia que se entende sem nenhuma dificuldade, desdenhando de castigos bíblicos.
Aqueles cubículos e galerias escuras de Santa Ifigênia (filha de Hirtacus, noiva de Mateus) e suas minúsculas oficinas de desbloqueio de videogames estão povoados por meus antigos fantasmas do subúrbio e por colegas da velha escola que nos ensinou a romper as barreiras do Sistema, depois a mudar as coisas por dentro de Sistema, e finalmente, a me desviar do Sistema, como faço até hoje, muitas vezes sem perceber.
Aprendi a passar pelo pronto-socorro e retirar uma senha antes de cumprir outras tarefas, para voltar duas horas depois, quando, de fato, serei atendido; a migrar do banco mais caro para o mais barato (ou vice-versa, no caso de shows de blues); a usar as brechas das companhias aéreas para viajar com milhas que, hoje, não valem mais nada; a jogar uma operadora de telefonia contra a outra, entre outros pequenos malabarismos, na medida de um possível, a cada dia mais estreito, cada vez menos provável e menos verossímil, um ponto microscópico, que, do fundo do meu Alzheimer, já mal consigo enxergar.
Foto: Adoniran Barbosa, autor de Viaduto Santa Ifigênia, no próprio (Quero ficar ausente, o que os olhos não vê, o coração não sente)
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Vexame astronômico
Com a guerra religiosa invadindo o espaço das ideologias, seja nas eleições municipais de SP-capital, seja nas presidenciais norte-americanas (ver análise do ex-ministro da Cultura, Sérgio Rouanet), temo pelo pior, inclusive na condição de ex-leitor do Charlie Hebdo, que escolheu justo este momento para ironizar a fé, tanto mulçumana quanto judaica. Em São Paulo, executivos de grandes empresas estariam planejando, à revelia do João Doria Jr, um movimento para a construção de templo de vidro e aço, sobre a Marginal do Pinheiros, em honra e adoração à Sexta-Feira. Não deve ser por acaso que o âncora do Bom Dia Brasil, Chico Pinheiro, despediu-se de seu público, hoje (21/09) com a saudação: “Graças a Deus, é Sexta-Feira!”.
É bem verdade que um amigo, conhecedor das minhas esquisitices, me ligou na quinta-feira à noite (19/9), para comentar as mudanças organizacionais do Jornal Nacional, anunciadas pelo mesmo Jornal Nacional, enquanto eu viajava de São Paulo ao Rio: algo que nem eu nem ele poderíamos supor, quando éramos obrigados produzir jornais internos de empresas, chamados house organs ou órgãos da casa: “A informação renderia, no máximo, um e-mail corporativo”, observou ele gravemente. "Não vi, não posso criticar", reclamei.
Mas admito que a exaltação (nada mineira) do Chico Pinheiro pode ter sido apenas mais um reflexo da perda de qualidade do nosso telejornalismo, em busca do próprio rabo, nesses tempos de grandes audiências pentecostais e pressões da internet, o que não assustaria tanto quanto o surgimento de uma nova doutrina capaz de transformar a Sexta-Feira numa espécie de entidade, a exemplo da matéria escura, que a ciência conhece pouco. Basta de fanatismo e conspirações das elites golpistas, vocês não acham?
Uma explicação mais simples para a empolgação do Chico Pinheiro poderia estar nessa mudança de ambiente a que ele foi submetido, ao se transferir para a Cidade Maravilhosa, depois de uma longa adaptação à Paulicéia, algo que lhe rendeu uma sisudez incompatível com o seu estágio no Clube da Esquina, embora apropriada à musculatura exigida de um jornalista de Cidade,obrigado a enfrentar destemperos de autoridades do porte da ex-prefeita e atual ministra da Cultura, Marta Suplicy.
A gravata rosa choque usada pelo âncora, nesta manhã, denunciava um estado de alma de quem seria capaz de beijar a Ana Maria Braga, se isso garantisse um fim de expediente antecipado no Jardim Botânico.
Ok, Chico, é difícil resistir à pressão de um fim de semana carioca. O Rio tem seus problemas: a comida em alguns restaurantes, a poluição da baía de Guanabara, a diretoria de Flamengo, o trânsito e a falta d'água na “Região dos Lagos”, as ultrapassagens de ciclistas na contramão de quem corre a pé pela pista de Cooper da Lagoa e o cheiro de ralo na curva do túnel Rebouças, nessa mesma Lagoa que o Eike Baptista prontificou-se a despoluir, se lhe descontassem o valor correspondente no Imposto de Renda.
Tem, ainda, o mausoléu do César Maia (que é a cara dele), e a presença do ex-governador na campanha eleitoral gratuita, obrigando as pessoas a retirar rapidamente as crianças da sala; os engarrafamentos da avenida Sernambetiba, as UPP competindo com a falta de oportunidades nas favelas, o calor, o Carnaval, xixi nas ruas e carros sobre as calçadas ((vão dizer que em São Paulo, não se pode nem praticar uma chacina sem sofrer uma chacina).
Mas a Cidade Maravilhosa tem muitos apelos, como os fins de semana esperados ardentemente pelo apresentador-amante-da-MPB, a graciosa paisagem humana observada até nas janelas de um ônibus que cruza a praia de Botafogo enquanto atravesso a rua, as montanhas, a confeitaria Colombo, os royalties do petróleo que oxigenam a cidade, as vitrines de Ipanema, o Baixo Leblon, o chopinho bem tirado em qualquer esquina, o mate gelado, o biscoito Globo, a empada praiana e as atrizes flagradas na praia com suas dobrinhas pelos paparazzi que alimentam os portais na internet, nos intervalos do Big Brother de Pedro Bial.
E, claro, as novidades cariocas. Ontem, por exemplo, descobri que o Meia Hora (R$ 0,50) tem uma circulação de 260 mil exemplares, a uma curta distância da tiragem do Extra, muito além das vendas dos jornais populares de São Paulo, que não chegam perto de 100 mil de exemplares. Os 7,5 milhões de publicações impressas que circulam no país estão abaixo dos Asahi Shimbun vendidos diariamente no Japão (segundo jornal mais importante daquele país). Em compensação, não temos os chineses querendo nos pegar para Cristo (desculpem) para aliviar a nossa incapacidade de espernear contra o nosso próprio governo. Aqui, tem julgamento do Mensalão!
O Rio tem outras qualidades: ontem, ao me deslocar do aeroporto Santos Dumont até o local de um compromisso e me desculpar com o taxista pela curta corrida, ouvi, como resposta, que em prato raso se come várias vezes, ao passo que num prato fundo, só se come uma vez. Na volta, fui informado, por outro taxista, que a escassez desse tipo de condução, quando chove, no Rio (portanto, raramente) é causada não pelo aumento da procura, mas, sim, pela redução da oferta, provocada pela súbita elevação do risco de acidentes: “Ninguém quer levar prejuízo, meu parceiro”, informou o cidadão, “todo mundo encosta e espera a chuva passar”.
Em outro encontro de trabalho, fui informado por uma conhecida que, ao negar um aumento a um funcionário pouco produtivo, este acabou pedindo transferência, depois de ver frustrada a sua reclamação ao chefe dela, uma vez contrariada a sua expectativa por um tradicional aumento anual, por tempo de serviço. Achei melhor não comentar nada sobre a greve dos Correios, que têm o monopólio da remessa de contas de luz, por exemplo, algo que poderia ter sido eliminado desde que as concessionárias de energia passaram a utilizar dispositivos móveis na leitura de seus medidores de consumo.
Os tablets, aliás, já substituíram os laptops nos vôos da Ponte Aérea, embora não tenham resolvido o problema da infra-estrutura dos aeroportos, nem os atrasos das companhias. Muito menos a deseducação de passageiros que costumam se sentar em poltronas de outras pessoas, tossir sobre os seus vizinhos e falar em altos brados, com expressões com longo tempo de serviço, como as do carioca que viajou comigo anteontem: sinergia, off-shore, banner, promo, petshop, startup e “setar” (no sentido de lançar, ajeitar ou arrumar - não tenho o contexto).
Na volta, foi a vez de uma paulista explicar à sua vizinha de bordo uma espécie de happening que ela foi encarregada de promover, num espaço situado no coração dos Jardins, com música chill out, espaço performático, decoração vintage no lounge, welcome drink e araras com roupas de marca para umas comprinhas. É por isso que os jornais, dentro ou fora dos tablets, continuam sendo importantes, apesar de seus vieses, pregas e bordados.
Desta vez, estou preparado: mergulho numa explicação da natureza da matéria escura citada acima, assim chamada (atenção, fundamentalistas) por não absorver nem emitir luz, e cujo efeito gravitacional impede a matéria das galáxias que se movem no espaço de se desmantelar e se dispersar, considerando a velocidade em que elas se deslocam:
“A única força capaz de segurar as coisas nos seus devidos lugares”, leio, “é a gravidade, e a gravidade depende da massa de um objeto. O problema é que a quantidade de matéria visível nas galáxias e aglomerados não é suficiente para gerar a atração gravitacional necessária para evitar que elas saiam voando por aí. Algum cabo invisível está segurando o carro na pista, e esse cabo é a matéria escura. Todas as pesquisas indicam que há cinco vezes mais matéria escura do que matéria visível, ou seja: todo o que a gente enxerga corresponde a 20% do que existe no universo, como se não soubéssemos da existência do ar. Este, no entanto, é feito de matéria comum. No caso da matéria escura, os cientistas não têm a menor idéia do que ela é feita”, algo que eles consideram "um vexame astronômico".
Vexame astronômico, então, é isso?
Ilustração: Hakujaden, primeiro filme de animação colorido produzido no Japão (1958) sobre uma lenda da mitologia chinesa, A Serpente Branca, que fala de amor x intolerância.
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