terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pedágios

10 novas praças no roteiro das praias paulistas ainda este ano: sorte do Seu Bené, que só usa a Via Dutra.

Sir William Wack – em reportagem sociológica que foi ao ar há uma semana – e depois, o sheik Tonico Ferreira, nesta segunda, 9/10 (sutil como um Philip Glass), pagaram seus respectivos pedágios pela passagem dos 20 anos da queda do muro de Berlim, essa arenga insuportável à qual só o Estadão (além da minha antiga casa acima citada, as Organizações Globo) continuou se dedicando, nesta terça-feira ensolarada de supermercados lotados (dia 10), em que o perdão a Geyse Arruda foi anunciado pelo Uniban Victoria Institute: sim, a moça de minissaia apedrejada por um bando de jovens mal orientados sexualmente.

Como todas as efemérides, na sociedade da informação, o assunto do muro tornou-se banal e cansativo, além do óbvio chute no cachorro morto do stalinismo, quando o socialismo, de fato (de Allende a Bachelet, por exemplo), já se transformou tantas vezes, como, aliás, o próprio capitalismo, nisso incluídas todas as versões anteriores ao Windows 7, entre elas, a rapinagem dos súditos de Sua Majestade nos quatro continentes – sobretudo na Índia e na África – e o genocídio indígena que fundou a nação mais poderosa do universo.

E por falar em pedágio e em nação poderosa, o grande irmão foi saudado, na semana passada, com mais esta pérola do comediante mal-humorado, Arnaldo Al Jabor, segundo o qual, em terra de macho, até os crimes são pra valer, coisa de cowboy, nada de pouca porcaria. Ele se referia à chacina praticada pelo major palestino Malik Nadal Hassan, às claras, de peito aberto, em pleno Fort Hood, Texas (EUA), sem tergiversação ou rebolados, como Jabor referiu-se, creio, à criminalidade local, que segundo ele, só se manifesta por baixo dos panos, coisa de corte portuguesa, merecedora de nojo e desdém.

No caso do comentarista, aliás, o pedágio é recíproco: do enteado virtual de Nelson Rodrigues à Casa que serviu de abrigo ao original, e desta mesma casa ao referido enteado, que precisa depositar a sua frustração (de não ser o original), diariamente, no mesmo vaso. Que Alá dê vida longa ao velho garoto de Copacabana, mas, como entertainment, eu prefiro o brother judaico-brazuca Luciano Hulk, que no dia seguinte à descarga do jornalista-cineasta no Jornal da Globo (sexta à noite, 06/10), trouxe de volta ao seu programa, no sábado, o impagável Seu Bené do Laranjão cantando Only You e fazendo coro com Martinho da Vila em Deixa a Tristeza pra lá. Benedito Vitor Junior, 51 anos, fretista em Barra Mansa-RJ, não tem nada de cowboy, mas cantou Only You como um dos Platters (http://www.youtube.com/watch?v=qivEZLjeAlg&feature=related)

Ainda sobre pedágios, achei bacana a entrevista do Caetano ao Estadão, por acaso, na véspera de seu show em São Paulo, tirando o fato de que o abre da capa o deixou parecido com o Dr. Júlio Mesquita. E por falar em Estado de São Paulo, aqui vai um pedido ao governador José Serra: no ano passado e este ano, tive que ir várias vezes a Bauru, perto de Botucatu, onde, nesta semana, começa a funcionar um novo posto de pedágio, alí explorado pela Rodovias Tietê, controlada pela Caio, do Felipe Massa, que já tem uma Ferrari. O valor dos pedágios dessa viagem (São Paulo-Bauru) é R$ 42,10. A passagem de ônibus custa R$ 60,65.

Fora isso, a F. de São Paulo publicou, no dia 19/08/2009, a seguinte notícia: Rota do Litoral Paulista deve ganhar ao menos 10 pedágios
(
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u611763.shtml).
Pergunto: - Governador, como é que o senhor pretende chegar a Presidente, com todos esses pedágios? – Pense nos fretes do Seu Bené.

Foto de Seu Bené: Felipe Vieira, Diário do Vale, 31/10.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Violência e Democracia


Se você visita este blog de vez em quando, tem razão de reclamar da escassez de posts neste mês de outubro. Mas em vez de comentar táticas de guerra como o corte da água dos palestinos ou a morte de inocentes no Paquistão, prefiro me indignar e chamar atenção para a importância política da morte violenta de Evandro João da Silva, do Afroreggae, ONG que tem feito diferença em Vigário Geral, RJ, desde 1993. Os matadores chegaram a comprar dois PM com um par de tênis e um blusão, num escambo de embrulhar o estômago de quem viu as imagens captadas por uma câmera de vigilância.
Essa é a nossa guerra: - Quem tem a coragem de encarar a realidade para tentar mudá-la, leva esse tipo de troco. Vamos continuar gramisciando.
E para amenizar a batalha, recomendo a leitura da Folha de S.Paulo de hoje, embora a de ontem tenha apanhado tanto da Record e seus bispos, na última sexta-feira, 23. Como o Edir Macedo não foi nenhum guerrilheiro, na ditadura, recomendo a leitura de artigo do mestre Gaspari, na Folha de hoje (28), sobre Dilma, que o foi. É a democracia, moçada. Também da edição de hoje, a charge de Jean, lenitivo para a violência. É por isso que ainda vale a pena ler jornal.

Élio Gaspari
De Frances.Perkins@org para D.Rousseff@gov
Não vacile, ministra, comecei minha militância com os larápios e eles nunca me decepcionaram
PREZADA MINISTRA Dilma Rousseff,
Quase certamente a senhora nunca ouviu falar de mim. Chamei-me Frances Perkins e fui a primeira mulher a ocupar um ministério no governo americano. Fui secretária do Trabalho de 1933 a 1945, entrei com Franklin Roosevelt e saí quando ele morreu.
Escrevo-lhe porque meu chefe pediu. Ele tem muito interesse pelo trabalho do seu presidente e soube que vocês trabalham numa Consolidação das Leis Sociais. Também acredito que posso lhe dar algumas sugestões.
Vá fundo ministra. Faça logo tudo o que se quer fazer. Quando eu cheguei à Casa Branca, as vendedoras do Bloomingdale's cumpriam jornadas de 14 a 16 horas. Os Estados Unidos não tinham salário mínimo, Previdência pública, seguro-desemprego nem plano de saúde universal. Quando saí, a jornada era de oito horas, os trabalhadores tinham aposentadoria e proteção no desemprego. Deixamos o plano de saúde para depois e deu no que deu.
Essas coisas não saíram a preço de custo. A Corte Suprema se tornara um estábulo do patronato. A Previdência era coisa de socialista e o vice-presidente quis mandar o Exército acabar com uma greve a bala. Diziam que não era Frances Perkins, mas Mathilda Watsky, nem seria americana e protestante, mas judia e russa.
Dona Dilma, minha militância social começou na tarde de 25 de março de 1911. Eu estava tomando chá no palacete de uma amiga e ouvimos a sirene dos bombeiros. Fomos ver incêndio e presenciamos a tragédia da Fábrica Triângulo. Morreram 146 operárias, quase todas italianas ou judias. As moças se atiravam do nono andar. Eu vi.
Passei a vida negociando com empresários e líderes sindicais. Sempre tive um fraco por gente rica. Minhas amigas progressistas eram chamadas de "Brigada do Vison". Nesse sentido, acho que a senhora circula pouco na área atapetada. Erro. Eu consegui que o empresariado aceitasse a sindicalização dos trabalhadores e quem me ajudou foi o presidente da US Steel. Depois ele foi nomeado embaixador no Vaticano. Quero lhe confessar que nunca gostei de sindicalistas, mas negociei umas 200 greves, algumas das quais com mortos, e uma delas com dinamite.
Sei que acusam a senhora de mal-humorada. É coisa de homem. Pegue mais pesado. Quando fui assumir a secretaria, o meu antecessor disse que eu deveria esperar, pois ele tinha um compromisso para o almoço. Respondi que estava muito bem, pois assim teríamos tempo para tirar as coisas dele da sala. Tenho horror a jornalistas e acho que vivi melhor assim. Eu adorava mentir para eles. (Aliás, meu nome não era Frances, mas Fannie.)
Faça a Consolidação das Leis Sociais ampliando os programas que já existem e crie outros. O Getúlio Vargas, que é amigo do meu chefe e detesta o seu, diz que o Bolsa Família é demagogia, mas gosta do ProUni. Eu gosto de todos.
Sei que a senhora é candidata a presidente da República e que está sendo acusada de buscar alianças com larápios. Faz muito bem. Quando o corrupto vem para o nosso lado, podemos confiar na sua lealdade. Eles nunca me decepcionaram.
Finalmente, um conselho: procure economizar. Eu conheço o seu patrimônio. É menor que o meu quando fui para o governo. Pois até vir para cá, em 1965, aos 85 anos, eu morava de favor na Universidade de Cornell. Muito cordialmente, Frances Perkins.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mídia Impressa

Nesta semana de Futurecom, o Estadão publicou matéria de capa sobre a Feira do Livro de Frankfurt e sobre o e-book, que chegou rasgando no Brasil, como diria o Galvão Bueno. Mais de 5 mil títulos e preços que, nos EUA, variam de US$ 1,50 a US$ 10, em média. Você pode consultar o dicionário e assinalar frases sem deixar a sua marca indelével na história, como diria Fiori Giglioti. Infelizmente, não vi o produto nos varejões dos jornais desta sexta-feira, como não os verei neste fim de semana. A minha fantasia sempre foi abrir jornal e achar encartes vendendo motor de barco, rolex e champagne francês, em vez de liquidificadores. Não vai rolar.

Também não vou entrar naquela discussão antiquada (mesmo para o Roberto Faith) de quem veio depois e irá antes, o “suporte” papel ou o “meio” eletrônico, pergunta com a qual os jornalistas de vídeo sempre se deparam, ao serem entrevistados por seus colegas dos canais universitários: “O rádio não acabou com a televisão”, eles respondem, complacentes. Mas uma dúvida permanece: o jornal impresso está perdendo o seu poder de influência?

Há poucas semanas, coordenei uma pesquisa junto a um grupo de gestores de Comunicação para aprimorar o monitoramento de imagem que fazemos para empresas e instituições com presença constante na mídia. Algumas opiniões surpreenderam. Em relação ao último termômetro que acompanhei de perto, o rádio, nos grandes centros – onde o trânsito é sempre difícil – subiu de patamar (de 2 pontos para 2,5, numa escala de 0 a 10), assim como a TV (de 3,5 para 4), e a Internet (de 1 para 1,5), enquanto que a mídia impressa, com toda a consideração dos jornais gratuitos ou semigratuitos, caiu de 6 para 5.

Sempre lemos muito menos que os vizinhos argentinos, por exemplo – e não por acaso, apesar da relação complicada dos jornais de lá com o(s) governo(s), que não vem de hoje – mas estaríamos lendo menos ainda? – Parece que sim, Infelizmente. Mas, então, por que o jornal impresso influi mais, na formação da opinião pública, do que os outros meios? – Certamente, a credibilidade (que as empresas deveriam fortalecer, fugindo dos partidarismos); sem dúvida, a durabilidade (apesar da ilustração acima, uma brincadeira minha com o José Paulo Kupffer); a qualidade, muito fácil de se aferir, até numa simples comparação de edições concorrentes, mas, acima de tudo, a capacidade de pautar a sociedade, influenciando a cabeça dos fazedores do jornalismo, que, felizmente (ainda) estão por aí e (ainda) pensam.

Todo esse arrazoado aí acima, na verdade, não tem outro propósito senão saudar os ventos de Lisboa e dos grotões do Interior que vêm inflar a imprensa diária dos grandes centros, trazendo novo ânimo ao nosso sovado pensar: o Brasil Econômico (força, Costábile, força, Ricardo) e o Diário de São Paulo, no qual o Jota Ávido (salve, companheiro) deve preservar, não apenas o enfoque, mas uma redação de 380 pessoas. Benvindos! – E se você preferir uma análise mais séria e otimista (!) do fenômeno, é só ler o artigo do meu concorrente Matias Molina (ex-Gazeta Mercantil) no Estadão de hoje. Molina, desculpe a pretensão.

sábado, 3 de outubro de 2009

Aproveita, Rio

Deu Rio. Vamos torcer para que também ganhem: a infra-estrutura de transportes da cidade, a lisura nas obras, licenças e fiscalizações (com celeridade e sem ingerências políticas), eficiência na execução desses trabalhos, projetos para o uso - eficaz e efetivo - do equipamento a ser criado ou aperfeiçoado para os jogos, a injeção dos recursos na redução das desigualdades e da violência via Educação e cultura e tudo o mais que me faz sentir-me como um personagem de cartum do Jaguar. Este aí acima foi extraído do site colunistas.com.br.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Rio ou Chicago?

Joana Calmon, da Globonews (sem preconceito contra o sobrenome associado) foi a primeira repórter que vi transmitir uma notícia dando risada, como se fosse do CQC - hoje, 30/09/2009. Era sobre a chegada dos lobistas das cidades candidatas às Olimpíadas 2016 a Copenhagen, na Dinamarca, onde o Comitê Olímpico escolheria a cidade-sede dos jogos. Às gargalhadas, ela disse que Michelle Obama acabava de chegar, para antecipar o lobby que o marido faria pela eleição de Chicago no dia seguinte (a mulher do presidente norte-americano NÃO tropeçou na escada do avião) e que o Lula (provavelmente amigo de infância do avô da repórter, dada a intimidade) chegaria em seguida, com o mesmo objetivo, não de antecipar o lobby de Obama, claro, mas o de fortalecer a candidatura do Rio, ao lado de Pelé - que confundiria Michael Jordan com Michael Jackson, logo depois (isso ela não sabia).

Repórteres mal humorados são mais comuns, assim como as notícias pesadas sobre governantes como Lula e Obama ao lado de seus colegas Ahmadinejad, Micheletti, Kadafi, Bibi Netanyahu etc. Talvez isso desculpe a bela e jovem repórter. Afinal, aquela era a notícia descontraída (hoje obrigatória) do dia.

Mas o que me preocupou nessa história foi o silêncio sepulcral (é o termo) sobre o assassinato de golfinhos por jovens dinamarqueses das ilhas Feroe, numa espécie de bar-mitzvah macabro que tem sido tão divulgado nas redes sociais, nas últimas semanas, quanto ignorado pela mídia formal. Talvez por isso, a velha senhora venha perdendo tanto espaço e respeito, dos grandes salões às lanhouses da periferia, ultimamente.

Pode ser que o assassinato de jovens golfinhos por jovens dinamarqueses (que não têm mais nada de esquimós) não passe de uma grande conspiração do Greenpeace ou do WWF na Internet, mas não custava à mídia investigar. Afinal, o país Dinamarca vai abrigar, em dois meses, a Cop 15 - Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima - conferência histórica que deve definir o futuro da humanidade baseada ética da nossa convivência com os recursos naturais. Se as correntes marinhas do deputado Gabeira chegarem a Ipanema manchadas de sangue, vai ser um deus-nos-acuda.

A imagem acima foi extraída do site http://www.do1thing.org/tag/homeless ,para você adivinhar se a foto foi feita no porão da Igreja da Candelária ou num home shelter da sweet home Chicago.

Pano rápido: Hugo, meu caro. Não pretendo me deslocar até Las Vegas para ver o espetáculo sensorial não-itinerante do Cirque du Soleil onde as poltronas conversam com você e tudo o mais. Não é assim que eu vejo circo. Mas o palhaço sideral que acaba de chegar aos telejornais me chamou a atenção. Cabe a você me convencer de que palhaço não merece respeito (não vale os doutores da alegria).

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Política da Empresa

A segunda dos computadores nos EUA apoiou Bush e o supermercado onde se começa o dia cantando recomendou Obama

Não tenho conseguido sair do tema da reforma política por achar que ele está na raiz de muitos de nossos males, contrariando avaliação do bel-letrista José Sarney, em cuja opinião, o demônio mora na mídia, que não respeita as instituições. Ocorre que, da reforminha eleitoral aprovada no Congresso, a única informação que chegou ao grande público, foi de que a propaganda política pela internet está liberada (ninguém sabe quem ou como alguém controlaria o mundo virtual). Ouvi o Boris Kasoy, pela Band News, inquirir a estimada colega, Dora Kramer, acerca de um pequeno detalhe da mini-reforma: - Por que os congressistas não mudaram um milímetro da regra das doações de campanha, por exemplo?

- Constrangimento, disse Dora, certamente enrubescida. – Eles dizem que a identificação poderia constranger os doadores. Tem razão: - Já pensou, se alguém descobre que eu doei dinheiro ao deputado João Paulo ou à senadora Roseana, uma passagem de avião para a sobrinha do Gabeira ou querosene para abastecer o jatinho de algum senador? – No mínimo, me chamariam para depor numa comissão de ética. Mas, vira e mexe - hoje mesmo (18), na FSP - alguém “denúncia” que tal empresa doou tanto ou quanto a este ou aquele parlamentar.

Segundo Dora Kramer, somente o Senado poderia alterar essa regra, porque, na Câmara, o número dos que estão se lixando para a opinião pública é maior. O voto no senador é individual, o que permite ao eleitor cobrá-lo por suas atitudes, ao passo que, para deputado federal, se vota no partido: ninguém se lembra em quem votou porque, muitas vezes, o voto em beltrano elegeu cicrano.

Quando eu sugeri uma campanha atrelando o voto ao compromisso do candidato com uma reforma política maiúscula, me chamaram de ingênuo. Em seguida, a campanha da ficha limpa subiu os degraus da mansão habitada pela grande senhora (a mídia). São boas discussões, se me permite a modéstia. - Por que não levá-las aos auditórios das grandes empresas e instituições, sempre antenadas com o desenvolvimento social de seus colaboradores?

A preocupação com a Internet na reforminha, por outro lado, mostrou que a sociedade (ou os seus representantes) começa a perceber a transição da mídia, influenciada pelas redes sociais, ou a mudança da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, como prefere um amigo meu. A proibição aos blogs e twitters de jornalistas da Globo e da FSP não-associados a essas empresas é outro sintoma. Mais um: há três dias, recebi um e-mail com fotos do assassinato de baleias num ritual de passagem macabro de jovens da Dinamarca de Kierkegaard. Ontem, a TV mostrou a matança de focas no civilizado Canadá.

Mas não é só a Internet na política, a campanha da ficha limpa, ou da moral ilibada do senador Pedro Simon, o voto distrital ou a caixa preta das doações de campanha que merecem uma boa conversa nas empresas, derrubando o tabu de que negócios e política não se misturam. Esse mesmo tabu já caberia num debate. E por que não se promoverem fóruns com funcionários representando candidatos ou partidos, como nos julgamentos simulados que as faculdades de Direito promovem ou promoviam, buscando esclarecer as pessoas quanto às propostas e compromissos de seus representantes nas instituições que o ex-presidente Sarney quer ver respeitadas?

Pelo menos um grande grupo empresarial brasileiro orienta seus diretores e média gerência a apoiar abertamente os seus candidatos nas eleições municipais, estaduais e federais, por considerar-se parte de uma sociedade que tem o direito e o dever de influir nas decisões que também lhe dizem respeito. Vários executivos de Comunicação que conheço mostraram simpatia pela idéia dos debates políticos nas organizações, mas não se arriscaram (ainda) a fazê-lo abertamente. Quem sabe este post lhes sirva como um ponto de partida.

Ilustração: houseodudes.blogspot, reproduzindo Scott Adams (www.dilbert.com) em entrevista à CNN explicando apoio ao candidato John McCain.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Só um pouquinho

Antes que me espremam no próprio gol, como o Maradona disse que faria com o Brasil, no último sábado, devo esclarecer que a ética profissional me impede de comentar o tema do momento, exceto que o pré-sal conseguiu unir governo e PSDB, coisa rara, naquilo que ambos julgam essencial: o conceito. Dito isso, passemos ao próximo tema: se para alguns, a Lei de Gerson é um fantasma Moral que vem assombrar até inocentes costumes – como o de passar pela padaria com os filhos que acabamos de pegar no colégio, consumindo cinco minutos do lazer dos coitados – para outros, já complica condescender só um pouquinho.

Tem até uma entidade com o nome dessa bolinha que o Hegel, sobrinho desnaturado do Kant e tio igualmente do Marx, bateu no paredão durante anos, para depois nos rebater direitinho. Gente séria, esse pessoal do instituto de ética. Concordo com boa parte do que eles pregam, embora eles tenham lá seus interesses. Velhos combatentes da gloriosa armada britânica, em luta contra a pirataria que se espalhou por aí, como cães e produtos chineses, para muito além do Caribe.

Antes que me venham com o Buarque de Hollanda, o Sérgio, Mário de Andrade e Darcy Ribeiro, previno: não sou daqueles que desce a lenha no jeitinho e na malemolência daqui, como um estóico qualquer. Afinal, nem a dona Susane, da BMW, resistiu à baba do lobo mais mediterrâneo que a mão dela conseguia alcançar, ali nos Alpes suíços. Mas, no outro dia, me puseram numa mesa bem em frente à entrada do único café lisboeta que eu conheço em São Paulo, a Bella Paulista (você paga pelo tempo que ocupa a mesa, ou quase isso): um ponto de observação privilegiado.

Está bem, eu tinha bebido um porto, mas vi pelo menos dois casais entrando com crianças, cada casal com a sua: um ruivo e uma bela morena com uma garota lourinha, e um tipo moreno com uma loura e um garotinho de traços orientais. Pareciam recém-saídos de uma loja de brinquedos, os pais. Maravilha, pensei: a adoção está bombando, e não é o marketing da Firma, aquela pizzaria de Maresias que defende a adoção de cães abandonados, igualmente louvável. Fui dormir feliz. Mas hoje, saiu o laudo do Conselho Regional de Medicina sobre as práticas do Dr. Abdelmassih, aquele que botava só um pouquinho de citoplasma de mulher mais jovem em seus programas de fertilização. A confirmação das suspeitas de Eugenia (além das outras, é claro), me deu calafrios.

Não sou nenhuma vestal. Já me curvei às circunstâncias e guardei, no bolso do colete, certos princípios dos quais jurara não me afastar, fosse por causa nobre ou pequeno vício. E entendo a ansiedade das pessoas que não podem, mas sonham, ter filhos. Ocorre que a prisão desse médico e a proposta de outras boutiques de fertilização de lá e daqui (veja abaixo) sugerem um joguinho de tênis, urgente, entre a Ética e o Direito, uma vez que o da Biociência com a Religião deu empate. Afinal, se o Dr. Roger, chegou, de fato, a propor a algumas esposas que não se incomodassem em contar para o marido que óvulos de mulheres mais jovens tinham sido usados em sua gestação, onde, de pouquinho em pouquinho, vamos chegar?

Repare nos argumentos do médico italiano Severino Altinori para justificar a linha de montagem em que sua clínica se transformou, reproduzidos no artigo da pesquisadora e professora Débora Diniz, da UnB (OESP, 31/08), que você encontra no http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup427389,0.htm

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Voto atrelado à Reforma Política

A mídia é uma senhora interessante, mas orgulhosa. Portanto, ao difundir esta idéia – caso vocês concordem com ela – tenham cuidado: embora o apoio das filhas adolescentes dessa dama seja indispensável (as Redes Sociais), o dela é essencial. Mesmo que não seja, como diria Torquato Neto, bem antes de Caetano. Que me perdoem Bobbio, Blondel, Giusti Tavares, Reali, Santos, Lamounier e todos os demais estudiosos do tema, mas a idéia é simples: votamos nos candidatos que se comprometerem publicamente a aprovar uma reforma política cuja proporcionalidade nos represente, de fato, no Congresso Nacional.

Uma semana abençoada de trabalho impediu-me de colher depoimentos de especialistas – o que ainda pretendo fazer – em busca dos fundamentos de um projeto básico de reforma política e eleitoral que substituísse seus desfigurados antecessores, resultando numa fórmula facilmente compreensível por qualquer eleitor. Prometo trabalhar nisso, apesar da complexidade do tema, que não se esgota na sub-representação federativa de São Paulo, nem no debate sobre um parlamento unicameral, como pensa a maioria. Esta seria a pedra de toque capaz de vencer a enorme resistência que essa proposta irá enfrentar.

Além desse desafio, temos a pequena tarefa de mobilizar as pessoas num movimento semelhante ao das Diretas Já, que abreviaram a morte lenta da Redentora, nos anos 80 e o impeachment de Collor, nos 90. A quem esteve fora do país, durante a crise no Senado, ou quiser nos acusar de estar promovendo uma chantagem com a classe política, mostraremos alguns números levantados pelo amigo José Roberto Caetano e publicados na edição 949 da revista Exame (página 20) , que ainda está circulando, e que traz como destaque depoimentos de presidentes de empresas que ficaram sem bônus este ano. Os parlamentare brasileiros recebem cerca de US$ 125 mil de remuneração média anual, produziram 7.574 matérias com alguma relevância social no período de 2003 a 2009, 262 das quais foram aprovadas.


Obviamente, o jornalista não contabilizou os montantes envolvidos nos atos secretos (empregos, contratos etc), nem nas verbas indenizatórias, mansões no Lago Sul, apartamentos ocupados por serviçais dos parlamentares, combustível dos jatinhos, remuneração de parentes empregados nos gabinetes de parlamentares amigos, ou comissões pagas a intermediários na concessão de crédito consignado.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Salvar o Jornalismo


No Roda-Viva de ontem (17/08) com Demi Gestchko, presidente do Nic.br (Núcleo de Informação do Comitê Gestor da Internet no Brasil), o professor Sílvio Meira, da UFPE, que também é cientista-chefe do CESAR (Centro de Estudos de Sistemas Avançados do Recife) ajeitou, com uma freada brusca, os passageiros do bonde que discutia o futuro dos jornais atropelados pela Internet: “Não se trata de salvar os jornais, mas o Jornalismo”, assinalou.

Jornalismo x conteúdo grátis, essa briga que o Chris Anderson encontrou para vender os seus livros Free-Grátis (R$ 59,90) e A Cauda Longa (R$ 65,00) não resiste à mera reflexão de quem faz o quê, como lembrou a amiga Lúcia Guimarães, em artigo publicado há dias no Estadão. Também não se trata simplesmente de hierarquizar as informações, como ouvi, pela primeira vez, de Roberto Civita, numa conversa em Buenos Aires, há dois anos. A sacada de Gay Talese (O Reino e o Poder), em visita recente ao Brasil, também foi relevante, ao lembrar que o Jornalismo requer o que chamávamos (no tempo do Nelson Motta) de esforço de reportagem.

Nem o marketing dos papas-defunto, nem o impacto da tecnologia e da mobilidade, nem a preguiça pura e simples que grassa na sociedade contemporânea (não se preocupem, não está no Google) vão acabar com o Jornalismo, essa combinação irresistível de realidade, argúcia, perspicácia, determinação e talento, sobre uma fina massa (crocante) de conhecimento, como ilustram as campanhas recentes da mosca da Folha e do Estadão de hoje (página A22).

Mas não é o Marketing, nem o desespero das tiragens estagnadas – enquanto o papel e o diesel não param de subir – que vão salvar o Jornalismo. Além da qualidade da produção (vide reportagens do médico, do bispo e da família do coronel), é preciso ter cuidado com a customização excessiva, as pesquisas, a partidarização. Podem me chamar de Poliana, mas, na minha opinião, a única forma de fortalecer a velha instituição – que vai continuar permeando as redes sociais, os celulares, os kindles e as lousas eletrônicas – é a recuperação do seu velho espírito: isenção, criticismo e análise.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Antifumo esbarra na Lei Psiu

A lei antifumo entrou em vigor no dia 7 de agosto em todo o Estado de SP. Nesta sexta-feira, dia 14 de agosto, sete dias após o início, as determinações da lei antifumo começam a bater de encontro com uma outra lei da capital paulista, a lei Psiu. (Daniela Paixão, UOL Notícias, 14/08).

Márcia, Daniela, Janaína (donas de bar, livraria e restaurante na região da Praça Roosevelt, com as quais conversei, ontem à noite): como vocês vêem, estou ficando lento – a imprensa chegou na frente. Mas a minha intenção, neste post, não era discutir o conflito entre as duas Leis, o seu mérito, as distorções (os bares não podem colocar cinzeiros na calçada) ou o acúmulo de restrições e a dificuldade de acesso à diversão e à cultura nas grandes cidades.

Afinal, com a lei Antifumo, ganharam: a saúde dos garçons, a gastronomia, os não-fumantes que bebem; perderam: os bares em geral, os fumantes e a autonomia dos proprietários desses estabelecimentos. Com a lei Psiu, foram beneficiados os moradores da Vila Madalena e do Leblon (principalmente); perderam os boêmios, os baladeiros, os piratas, os marinheiros, os artistas, as dançarinas, os cabarés e tudo o mais que canta o fado. Dá para harmonizar essa paisagem? – As pessoas dizem que sim. Que os fumantes farão silêncio, que os bares poderão colocar cinzeiros nas calçadas, que os fumódromos se integrarão às casas noturnas e bares para fumantes serão permitidos, como os de Holanda.

Mas o que me intriga nessa questão é o desvio, o excesso, a unilateralidade, a presunção, toda essa parentada do autoritarismo. Não é conversa de hippie. Quem enfrentou uma ditadura e foi obrigado e cruzar o oceano, em busca de outro horizonte, sabe disso. Muitos de nós, aliás, ainda estão por aí, em barcos separados – é a vida – mas meio esquecidos do que representa uma tempestade em alto mar. Sim, governar a sociedade atual é mais difícil. Não se navega sem piloto, de acordo. Mas, convenhamos: o assessor da subprefeitura que comandou as pesadas multas aplicadas aos bares, teatros, livraria e restaurantes da Praça Roosevelt, no último final de semana, e depois comandou o pânico, na festa Gambiarra, do Hotel Cambridge (onde a classe teatral costuma se divertir), exagerou.

Assim como as mudanças do trânsito no meu bairro, o Brooklin, há duas semanas, pela CET, as novas regras não foram precedidas por uma pesquisa das necessidades, características e condições de funcionamento dos estabelecimentos acima citados – e isso também me preocupa. Não dá para impor regras traçadas num gabinete sem considerar as variáveis citadas, a experiência local, sem consultar os interessados, enfim, sem participação. A não ser no caso do reizinho que ilustra este post, cujo pai, Otto Soglow, morto em 1975, observou com fina ironia, no traço fácil que ilustrou jornais de todo o mundo, da década de 1940 até sua morte.


Ilustração retirada do site www.meguimaraes.com/subrosa/arquivo/cat_blog.html

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Conteúdo

Depois da badalada estréia dos Parlapatões na última sexta (7/08) e mesmo correndo o risco de ser chamado de Senador por favorecer os amigos neste blog – mais concorrido que o do Abílio Diniz, que começou hoje – ouso comemorar o aniversário de um outro escritor, o Jorge Amado (10/08) indicando o novo álbum do Spacca, Jubiabá, que a Cia das Letras lança nesta quinta-feira, às sete da noite, na livraria HQMIX , justamente ao lado dos Satyros e dos Parlapatões, na Praça Roosevelt. - Quem sabe o livro não vai parar no supermercado? - Mudando de tema, bons tempos aqueles, em que artistas como Jorge podiam ter esperança, mesmo traçando o perfil de uma sociedade injusta e desigual. Hoje, tenho que fazer força para vencer o cinismo, o que só agravaria a barbárie. Tento compensar cenas como as que foram mostradas no Repórter Record ontem (9) – nada parecidas com o argumento de Jubiabá e semelhantes só na forma ao Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles – com a peça dos parlapas, o álbum do Spacca, o filme da Taciana e do Arnaldo Antunes ( http://www.youtube.com/watch?v=1bklffwG1MQ) e o sonho de Marina Silva candidata, inspirado pelo bom programa de Cristiana Lobo deste último sábado (8) na Globonews. Além, é claro, do novo espetáculo da trupe dos Pederneiras, um patrocínio à prova de CPI. Tudo gente de verdade, que tive o privilégio de ver e ouvir, em conversa ou entrevista, em tempos recentes.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Hoje não tem Senado

Sem o Senado (você sabe que o fim de semana, em Brasília, tem quatro dias), a sugestão de hoje – para quem está ou vem a São Paulo – é ver a estréia dos Parlapatões (os autênticos) que, pelo menos, são profissionais. O Papa e a Bruxa, com direção de Hugo Possolo, promete, embora o autor garanta que não se discute a fé de ninguém, mas sim o que se faz com ela. Esteban Hernandez e a bispa Sônia - de volta ao país - não deixam dúvidas a respeito. A comédia é de Dario Fo, traduzida por Luca Baldovino e começa às 21 horas, no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, 158. No elenco, a antiga trupe dos parlapas (Henrique Stroeter, Raul Barreto), mais:Carmo Murano, Fabek Capreri, Alexandre Bamba, Fernanda Cunha, Hélio Pottes, Guilherme Tomé e Rodrigo Bella Dona, que não se parece com o que o nome indica, mas lembra o cura de aldeia que acredita em Hugo Tognazzi no Amici Miei-1, de Mauro Monicelli, quando os amigos convencem fiéis de que a igreja local será demolida para dar lugar a uma nova carretera.

Obs. Espero que os parlapas não se ofendam comigo, como os pizzaiolos naquele episódio em que o presidente Lula os comparou aos congressistas.