quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Miudezas
Descubro, pela Internet, que tem muita gente ganhando dinheiro com isso, enquanto eu me preocupo com essas porcarias quando viajo, sempre a trabalho. Também coleciono artigos de cultura inútil das revistas de empresas aéreas, como “Nosso poder de digestão segue o ciclo do sol”; “Cinco palestras imperdíveis”; “A conferência que quer mudar o mundo” (falando sobre o TED-Technology, Entertainment, Design, de Harvard), e “Insensatez”, sobre a falta que fazem casas de bossa nova no Brasil, como as de tango, na Argentina, ou as de jazz, em Chicago.
O diabo mora mesmo nos detalhes: não consigo pagar R$ 25,00 ou US$ 14 por um drinque nos bares dos hotéis; atravesso a rua para beber mais barato, em vez de procurar a loura misteriosa que distrai a imaginação de executivos de camisa amassada nesses lugares de pouso. Às vezes, compensa: um passeio de algumas quadras no bairro de Palermo, em Buenos Aires, pode revelar letreiros interessantes: Alma Secreta (estética integral), No somos santos (bistrô), Demorate aqui (joias), Atempo-hotel.
Acho engraçado receber um release falando de um novo tira-manchas à base de frutas cítricas – devolvo, sugerindo à remetente enviar ao pessoal que cobre o Mensalão – mas não absorvo premissas óbvias como: não tentar sair de Curitiba de avião, no inverno, antes das dez da manhã. Na semana passada, acordei, mais uma vez, de madrugada, para pegar um vôo às 8h30, que na minha chegada ao aeroporto, às 7h15, tinha sido cancelado.
As empresas aéreas, embora também estejam na mira da Grande Gerente, como as de telefonia e as de saúde, adoram reacomodar seus passageiros de dois ou três vôos cancelados num terceiro, que geralmente sai lotado, muito mais tarde, levando clientes que passaram horas espremidos nas salas horríveis dos aeroportos (o limite de atraso dessas empresas, antes que a brincadeira saia caro, é de quatro horas). A culpa é quase sempre do clima, mas chover no molhado é falar da Infraero, cujo sinal de Internet, no aeroporto de Curitiba (como na maioria dos demais), funciona menos do que a própria Infraero.
Pedi ao pessoal da Transportes Aéreos Marília que me liberasse o sinal de wi-fi da sala vip da empresa (mostrei o meu cartão de embarque, mas não tinha o cartão azul, de quem já aguentou 50 mil milhas, nos últimos meses). O burocrata do check-in me respondeu, feliz: “Não podemos”, no exato momento em que o Marco Bologna disputava uma partida de pólo em Porto Feliz, a convite do famoso champagne francês.
Longe de minha parceira, de cujo modem costumo me aproveitar, nessas ocasiões, fui até a Sala Vip, onde uma funcionária mais adequada ao seu público me concedeu uma hora de sinal grátis, a título de promoção. Passei novamente pelo raio x da PF que, nesse dia, estava trabalhando normalmente, mas, de volta à sala de embarque, o sinal parou de funcionar, afugentado pelo cheiro de manteiga rançosa que tomava conta do ambiente.
O aroma da lanchonete me fez lembrar da história ouvida na véspera de um colega, Humberto Pintado de Souza, que tem uma agência de notícias no Rio, e que foi procurar escola para os filhos, na semana passada, tendo sido convidado por uma das grandes empresas do setor a conhecer as suas instalações, começando pela praça de alimentação que, de acordo com a coordenadora pedagógica, contará, a partir do ano que vem, com restaurantes das bandeiras mais famosas do mundo. Perto de mim, o Humberto é um santo: avisou, educadamente, à moçoila, que entraria em contato, na primeira oportunidade.
Curitiba tem um ar laico, ou menos católico, que me atrai: conheço uma igreja que virou depósito de materiais numa área industrial, depois que a comunidade do entorno foi devidamente compensada pela construção de um novo templo. A mesma empresa mantém uma boa área de mata nativa, onde velhas araucárias resistem à fúria paranaense do soja.
Os traços da imigração européia estão na pele clara, nos cabelos alourados e nos gestos contidos, mas a ilusão de civilização cosmopolita que é vendida aos migrantes de Cascavel, Guarapuava e Cornélio Procópio, cessam aí: Ratinho Júnior, filho do Carlos Massa (aquela mistura de Mazzaropi com o Cão Detetive Rabugento) é o primeiro colocado nas pesquisas para a eleição do novo prefeito. O que posso dizer, como paulistano (adotado), se o Russomano bom para as partes divide, com o Serra e o Fernando Haddad, as preferências do nosso eleitorado? Pelo menos, penso, em São Paulo, casais que frequentam restaurantes não se sentam separados por gênero, como aqui: meninas de um lado, meninos do outro.
Tem mais: no restaurante em que me encontro, a senhora da mesa ao lado (que tem um ar de juíza) paga a conta do casal de namorados, e pergunta ao filho pelo pai dele, seu marido. O garoto explica, com um risinho irônico, que o velho não pôde vir por estar assistindo à novela das nove; essa mesma novela ganhou uma página do segundo caderno do Estadão de ontem (28/8) porque o diretor leu Dostoievsky. Convenhamos: os plágios não são perceptíveis à maioria das pessoas, e ele soube eleger a Débora Falabella, que faz todo mundo em volta brilhar, e José Abreu, egresso do bom teatro curitibano.
Nas ruas dos bairros de classe média de Curitiba por onde passei, nesta visita (Água Verde, Batel, Bigorrilho, Centro Cívico) o tráfego é veloz, sem compaixão para com os pedestres: aproveitem, vocês estão a dois passos de se arrastar pelas ruas, como nós, cariocas e paulistanos. Moto, nem pensar: aqui, quando não morremos atropelados por madames de Land Rover, somos autuados por marronzinhos escondidos nas sombras, com pistolas-radares.
Mas os paranaenses em Curitiba trabalham duro e são bons comerciantes: o atendimento, nas lojas e empresas de serviços, é impecável. Penso nisso quando o mâitre do restaurante onde descanso do dia pesado se aproxima, para anunciar, solícito: “Nós vamos se mudar. O nome do endereço eu esqueci; não, espera: é Teixeira Coelho”. O vinho e a comida estavam ótimos, mas não posso recomendar o local, com medo de apanhar.
domingo, 29 de julho de 2012
Antiturista
Sei que deveria estar escrevendo agora sobre a mudança da estação na Serra da Canastra, refúgio que divido há anos com o lobo guará, o tamanduá-bandeira e gente com sobrenome de gente, como o Eninho da Gasparina, o Antonio do Chico e o Ebenezer Júnior, e onde o João de Barro e o Xexéu vêm rareando desde que o tucano aprendeu a pescar os filhotes deles na casa de um e na bolsa do outro, nesse tempo em que as frutas do mato e das fazendas dão lugar à florada do inverno, sarapintando de cores o mato dourado daquelas montanhas cheias de nascentes, rios e cachoeiras.
Mas o trabalho não me tem dado trégua e eis-me enviado, hora para outra, ao outro lado do mundo, para um lugar que, no tempo do Marco Polo, se chamava Sião, no meu, Indochina (do Vietnã) e hoje abriga o Taciano Dantas, diretor financeiro da Coca-Cola para a Ásia: Prathe Thai, em sânscrito, ou Tailândia, em português, a terra do tsunami de 2004 (na costa de Andaman), da paradisíaca Phang-Nga, ao sul, onde foram filmadas as cenas de 007 contra Goldfinger; das místicas Chiang Mai e Chiang Rai, ao norte, onde repousa o Buda mais perfeito do mundo, e da histórica Kansanaburi, ao centro, que inspirou o filme A Ponte do Rio Kwai. Ko Phi Phi, do filme A Praia, fica no extremo sul e me disseram que hoje, vive lotada de turistas que andam em barcos de sete andares.
O meu primeiro olhar estrangeiro foi para os templos, belíssimos, que se sucedem como as igrejas evangélicas no Brasil, quando a nossa impressão é de que haveriam uns poucos, citados nos catálogos turísticos, como relíquias. Perguntei ao funcionário da ONU em Bangkok onde achar o que comer por ali, sendo sábado, e ele me apontou um templo vizinho, dizendo “lá dentro” com o indicador voltado para um arco feito com o braço esquerdo fechado no tórax. Passei por um ambulante de espetinhos descoloridos e fui seguindo o movimento até despertar num velório, com pessoas vestidas de preto e ar grave, como convém à circunstância.
A última despedida acontece num crematório voltado para um pátio com o aspecto de uma pequena rua, cercado por prédios menores onde se realizam as cerimônias que não tive tempo de entender: comida, sujeitos vestidos de branco e sacerdotes budistas entoando seus mantras. Uma das salas de velório devia ser do falecido que acabava de ser depositado no forno: dezenas de coroas, mas nenhuma pessoa rezando; na outra, jazia um militar, cercado pelo desdém de seus soldados; em outra, uma mulher. Continuei perambulando em busca de uma lanchonete que se tornara uma lembrança da minha primeira intenção, e no alto de uma escada, encontrei uma sala de vidro cheia de caixões em cima de mesas, cada um identificado pela foto do seu conteúdo.
Resolvi me retirar ao ser convidado a participar de uma das cerimônias, não sem antes conhecer o templo principal, à direita do crematório, e que, naquele momento, estava fechado, como tentou me explicar um guarda sonolento com cara de criança. Um outro surgiu de dentro uma casinha de apoio para me dizer, numa espécie de inglês, que a igreja abriria às quatro e fecharia às seis. Eu tinha perdido a fome, mas expliquei que buscava um lugar para comer e o sujeito praticamente me pegou pela mão e me levou por uma ruela que não se vê do pátio do templo, até me depositar numa rua transversal com muito movimento, em frente a uma lanchonete onde, por deferência, pedi um prato do dia, que se compunha de uma tigela de arroz com pedaços de galinha, um camarão praticamente vivo e alguns anéis de lula com restos de suas entranhas. Acompanhava o prato um caldo com alguma coisa boiando que engoli depressa, me sentindo um voluntário de guerra.
Mais tarde, escapei do happy hour na ONU para conhecer o interior do templo, ornado por paredes de pano bordado e presidido por um Buda dourado, tranquilo e deslumbrante.
O Buda está em toda parte, na Tailândia, do cumprimento usual das mãos juntas sobre o peito, dos locais aos estrangeiros, às incontáveis miniaturas, inclusive uma de se pendurar no berço de recém-nascidos, estátuas e palanquins-altares que se vendem na beira das estradas, como nossas panelas de barro, bananas ouro e casinhas de cachorro.
O que não está, nem nos folhetos, nem das reportagens de turismo, é a informação de que os taxistas, inclusive em Bangkok, não falam qualquer língua ocidental, exceto, alguns, umas poucas palavras de inglês, embora sejam muito prestativos, como todos os tailandeses, o que, às vezes, chega a exasperar almas atormentadas como a minha. Eles fingem entender o que você quer, ou fazem você acreditar que o seu pedido foi atendido, mas algum tempo depois, admitem que nada do que você disse ou pretendeu foi percebido. Preciso dizer isso à Marisa Monte: gentileza demais, atrapalha.
Depois de visitar o Grande Palace, um conjunto arquitetônico de templos e palácio erguido no século 18 inspirado e em substituição a uma vila semelhante, destruída pelos birmaneses na então capital Ayuthaia, descobre-se que tanto os taxistas quanto os pilotos de tuc-tucs (versão moderna dos riquixás) devem ter feito estágio no Carnaval carioca, uma vez que se recusam a atender os turistas pelo preço indicado pelo taxímetro: depois de andar e falar muito, saquei o meu PhD em Brasil e convenci um motorista a me levar até uma estação de trem, ali perto, que também abriga uma parada da única linha de metrô da cidade, mas que passa pela região central, dos grandes hotéis.
Dois outros passeios são ensinados pelos hotéis. No que eu fiquei, aliás, havia um festival brasileiro que durou toda a semana, com gritos de Ivete Sangalo ecoando pelos quartos até tarde da noite. Um dos passeios é, justamente, à antiga capital, Ayuthaia, que fica a 90 km da capital e oferece as ruínas da invasão birmanesa e elefantes que carregam turistas nas costas por cerca de 300 metros, como pôneis na praça central de Atibaia-SP ou em Poços de Caldas-MG. O outro é ao Templo do Tigre, em Kanchanaburi, a 184 km, onde se pode posar ao lado de alguns tigres cansados dos exercícios matinais e de barriga cheia: funciona das 12 às 15 horas. Nada é perto, na Tailândia: o trânsito é infernal, e leva-se no mínimo duas horas para ir a qualquer lugar fora de Bangkok.
A grande diversão, além da comunicação difícil, é o floating market de Ratchaburi, que eu e meus parceiros de viagem já tínhamos intenção de visitar: assim como a moeda, que você só consegue enxergar acima de 30 unidades (um dólar), os preços flutuam mais que os barcos, em canais que se parecem com ruas e avenidas coalhadas de canoas a motor levando turistas do mundo todo, mas, principalmente, asiáticos. As lojas são administradas por famílias da comunidade local. Se alguém se interessa pela mercadoria, o lojista puxa o barco da pessoa para si e começa a negociar. Comprei um par de apitos de imitar passarinhos por 400 bath, dos quais, um parceiro de viagem, mais adiante, comprou três por apenas 100 bath. Mas consegui um conjunto de velas por 300 bath, idêntico ao que a minha colega havia comprado por 500 bath. Aleguei que não tinha mais dinheiro, o que era verdade.
A cultura local tem muitas curiosidades: a adoração do povo pelo rei (existem outdoors de Bhumibol Aduliadej por todo o país), os prostíbulos exclusivos de japoneses e os ladyboys (garotos mulheres), travestis que foram criados para agir como mulheres, geralmente os terceiros filhos de famílias que já possuiam dois meninos, para ajudar no equilíbrio emocional da casa. Há, também, os escorpiões, lavas e gafanhotos no palito, que, em Bangkok, já foram mais populares. Bons restaurantes servem uma comida assemelhada à que se encontra por aqui, mas nada parecido com as iguarias de uma Carla Pernambuco, por exemplo.
Se você diz que é do Brasil, a primeira palavra que vem é “football” (não soccer), seguida por um torto “Ronaldo”. Nosso piloteiro do floating market foi o único a dizer “Neymar”. Mas o mais me chamou a atenção foi um aviso pregado nos táxis, mostrando um circulo com uma transversal sobre um traseiro que expele uma nuvem de gás, o que quer dizer, sem meias palavras: proibido peidar.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Conselho de Mãe
D. Eugênio Salles apoiou abertamente a ditadura e rezava missas encomendadas pelo Dr. Roberto, meu xará, sempre que um incêndio destruía um lote de equipamentos da TV Globo, inicialmente bancados pela associada Time-Life, mas assegurados em nome dos proprietários locais. Por trabalhar no jornal da Casa, tive que “cobrir” pelo menos uma dessas celebrações. Segundo a lenda, foi assim que a família consolidou a sua participação majoritária no império em que se transformou a Venus Platinada. Eu não teria me lembrado disso, se o caixão do velho sacerdote não tivesse sido adornado por uma pombinha branca, nas fotos das primeiras páginas dos nossos jornais de anteontem (11/7), anunciando o seu velório.
Se a pombinha fosse Espírito Santo, certamente teria escapado para a foto ao lado, do maranhense, Rejaniel de Jesus Silva Santos, que encontrou R$ 20 mil roubados de um restaurante japonês, na fria madrugada de segunda-feira, 9/7, e os devolveu à polícia, tendo merecido, por isso, o reconhecimento e uma nova chance de se readaptar à sociedade (se o restaurante fosse brasileiro, ele teria recebido um vaucher para 30 refeições gratuitas): acordar cedo, lavar o rosto, pegar o caminhão, limpar peixe, jogar água, comer, dormir e acordar de novo para, quem sabe, um dia, poder voltar a ser vagabundo, como na história do meu sábio amigo napolitano, Elio Cepollina, com suas sete décadas de trabalho duro, nas costas e no olhar, sempre benfazejo.
Ainda nas noticias de anteontem, inspiradas em Voltaire, tivemos a frase do prefeito de Palmas, Raul Filho, na CPI do Cachoeira: “Tive a infelicidade de ser filmado”. Lembro: estamos às vésperas das eleições. Nesse mesmo dia, o presidente do PT, jornalista Rui Falcão, deu a entender que a proximidade das eleições pode privar, momentaneamente, o egrégio STF de sua capacidade de discernimento. Enquanto folheio o jornal, recebo a mensagem de um vereador que me pede votos, a partir do Litoral. Não ouvia falar do sujeito há exatos quatro anos. Devolvo com fotos da minha rua alagada, sem iluminação pública até hoje, e logo me chega uma resposta padrão, agradecendo o meu apoio.
Estamos purgando os anos de ditadura, me diz um amigo. Será? Será que o ex-futuro procurador do Estado, Demóstenes Torres, não teria acordado, nesse sagrado dia 11/7, acreditando que podia escapar da cassação? – Terminou o dia, vejo depois, dizendo que mentir não fere o decoro.
Ainda sobre a ditadura, achei forçada a comparação entre a presidente Dilma Rousseff e o general Ernesto Geisel, quanto ao estilo de governar (firmeza, tecnocracia, nacionalismo) mas, certamente, a insolência do presidente eleito da CUT, Vagner Freitas, contra o STF (9/11, dia da Revolução Constitucionalista de 32) tem raízes na imaturidade jurássica do nosso Golbery de Cruzeiro do Oeste. Ambos ameaçaram mobilizar as massas em defesa dos acusados do Mensalão. Seria de que jeito, meus bons amigos? - Com uma Festa da Achiropita ou com show de Zezé di Camargo, incluindo o sorteio de um Volkswagen zerinho, na porta da Ford?
Em matéria de sindicalismo tupiniquim new order, sou mais o Paulinho da Força, que não engana ninguém. Aliás, o Paulinho já merecia uma ponta em show da Chayenne (grande Cláudia Abreu) na novela das sete. Vou dar a ideia ao Jorge Fernando. Falta ousadia às novelas da Globo. Afinal, se os sindicatos podem organizar atos públicos montados em torno de uma leitura de poemas de Drummond, por que a novela não pode ser ambientada num evento sindical? – Passei por um desses protestos, ontem (12/7), em frente à sede do IBGE, na rua Santa Luzia, no Rio, e não resisti. Perguntei, numa rodinha de gresvistas: - Vocês são quantos? Minha vontade era perguntar: - Têm certeza de que não preferem trabalhar na iniciativa privada? (ninguém mais pode chamar ninguém de malufista).
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Toca Legião Urbana
Na manhã de ontem, depois de uma corridinha de domingo no parque, tive que virar a cabeça para ter certeza do que via e ouvia: um pai de classe média alta, presumo, acompanhado por um amigo, ensinava o filho, que aparentava uns sete anos, a ter atitude:
- É fácil fazer a bicicleta durar. Basta aprender a dizer não. Se você der alguma coisa, eles sempre vão pedir mais. São uns arrombados, uns fdap, têm que se f..., manda eles à pqp. O único jeito de as suas coisas durarem – repetiu - é nunca emprestar nem dar nada a ninguém.
Na mesma noite desse episódio, do outro lado da cidade, eu e Jack Daniels seguíamos a guitarra incandescente de Joe Bonamassa, que não conseguiu lotar nem a metade da casa em que encerrava uma turnê, iniciada há quatro meses, em Lisboa, Portugal. Bonamassa não fabrica fetuccine, como o nome sugere, mas já foi considerado, pela Classic Rock Magazine, “a melhor definição do Blues-Rock contemporâneo”. Circulam, sobre ele, baboseiras como “melhor guitarrista do mundo” ou “o novo Eric Clapton”. A caminho do meu show, que, aliás, estava repleto de pais quarentões e seus filhos adolescentes amantes de boa música, passei por um congestionamento-monstro, formado na porta de outro show, este do Fábio Júnior.
Tinha coisas piores acontecendo na cidade: fiquei com medo de ser confundido com material reciclável por algum voluntário da Virada Sustentável; pavor de encontrar alguém que quisesse comentar comigo a estreia de A Fazenda, de encontrar o Paulo Maluf no meio de um filme na TV, ou de dormir depois do almoço e sonhar com o Faustão, de cuecas, brigando com a Giselle Bundchen num Tribunal de Justiça. Na semana passada, tinha sonhado com um roda-viva formado pela Hebe, o Amaury Jr, o Jô, a Marília Gabriela e o Da Tena, todos entrevistando o Zé Sarney.
Mas o mundo continuou girando como uma bola de espelhos, e refletindo: o garoto branco da costa leste cantando voz rouca do Mississipi; o bêbado que atravessou a Cerro Corá na frente do Júlio Medaglia; os bispos evangélicos marchando contra o fim do aluguel na TV aberta; a dúvida da Carol Portaluppi entre posar nua ou receber uma verba equivalente do papai Renato Gaúcho; os cascudos do MMA chorando feito criança; o Brasil perdendo mais uma para o México; o pibinho do Mantega; o naufrágio de mais uma CPI e a seca do Nordeste (138 municípios), chegando às manchetes, mas sem conversar com a Rio + 20, que começa na semana que vem.
Sunday, bloody sunday. Pelo menos, o autor da canção, embora ajude muita gente, está cada vez mais milionário, e na condição de irlandês, não precisa participar das homenagens à Rainha. Quanto a mim, resta o consolo de saber que os meus filhos me entendem (um pouco), talvez por terem ouvido, na marra, Crosby, Stills Nash & Young, (Ensine bem as crianças, o inferno dos pais vai logo desaparecer), muito antes da MPB da segunda geração. Mesmo assim, precisei do tributo ao Legião Urbana para resolver o meu domingo. Ave Renato Russo.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Português e Matemática
Tem tanta coisa acontecendo, que a crise internacional e os sinais de fumaça que o ministro Mantega mandou para a Geral, lá do Planalto, vão se dissipando mais depressa que o enxofre e o CO2 que poluem o nosso ar. Querem ver? – O Pedro acordou. Bom para a família, ótimo para os jovens cantores sertanejos que agradecem às orações de milhares de fãs, todos os dias, pelos telejornais, mas para mim, que nem conheço o rapaz, o que mais significa? Segunda notícia: a rainha da Inglaterra visitou a feira de flores do Chelsea, em Londres, aquele bairro cujo time de futebol acaba de vencer a Liga dos Campeões da Europa. – Ok, mas quem vai comprar todas aquelas flores? – A Grécia?
Clint é um bom cineasta, como Jabor, mas não conseguiu emplacar o seu filme recente, J.Edgar (Hoover), com Leonardo di Caprio. Um produto que o crítico, Luiz Carlos Merten, do Estadão, gostou (“adoro quando diretores machos abordam o universo gay – batem duro, mas há neles uma compaixão pelo sofrimento que os diretores gays, como o Visconti, não conseguem ter, sem cair na autocomiseração”), mas considerou depressivo. “O homem que reformou o FBI, perseguiu obsessivamente o comunismo e chantageou poderosos, era apaixonado pela mãe e, sem sair do armário, destruiu todos a quem amou”. Mais: adorava fofocar e bajular as estrelas, segundo Don de Lillo, em “Submundo”, livro que pode ter inspirado Eastwood.
Mas, voltando às celebridades e às definições de direita e esquerda, das quais tratou o Jabor, em seu artigo de hoje. No ressentimento do cineasta com a malhação de seus antigos parceiros ao filme Toda nudez será castigada (1973), parceiros estes que passaram a elogiar a obra, depois que a ditadura militar a proibiu, cabe um reparo: não é verdade que toda a esquerda da época tenha odiado Nelson Rodrigues, para incensá-lo só depois de sua consagração como artista.
Ainda garoto, tive o privilégio de trabalhar a duas mesas de onde o Nelson costurava suas crônicas, na redação de O Globo. De fato, nunca lhe dirigi uma palavra. Mas tive a decência de me reconciliar com ele e de reconhecer o seu gênio imediatamente depois de começar a ler suas obras, que, até então me haviam sonegado. Quem me conhece de perto sabe a fórmula antipreconceito que usei, ao educar os filhos, mais tarde: “Eu podia ter aprendido muito com o Nelson, mas nunca me atrevi a tentar, por causa de um preconceito idiota”.
Como as bruxas existem, recebi, justamente hoje, uma dessas bobagens da Internet, classificando comportamentos de direita e de esquerda, o que serviu para reviver discussões saudavelmente idiotas de um grupo de amigos, de diferentes culturas, que se reúne de vez em quando, como um filme de Monicelli. Havia, claro, no material, clichês republicanos e esquerdistas, pequenas crueldades e até algum humor , mas o pior é que ele chegou a suscitar uma discussão séria sobre o que é progressismo e conservadorismo, hoje: de um lado, o humanismo carola dos herdeiros de Kant, disfarçado de consciência ambiental, de outro, a ética do indivíduo, baseada no saudável niilismo nietzcheano. Parecia uma preliminar do Cigano contra o Frank Mir. A essa altura, alguém teve o bom senso de propor que a conversa continuasse num bar.
Para mim, a grande criatura era o alfabeto. A mãe até ensinava, desavisada, antes que entrássemos na escola, que "b" e "a" davam "ba", "b" e "e", "bé", "b" e "i", "bi". Mas, e para entender o que era isso? Quando janeiro chegou, e comecei na escola, com meus oito anos recentes, a professora mandou ler em silêncio, e eu nunca pensei que aqueles sinais podiam transmitir coisas tão exatas como aquele texto. O texto dizia que um aluno, colega nosso, tava com um problema em casa, e então pedia licença à professora para ir para casa. Nossa Senhora, era um verdadeiro assombro! Olhei para o lado, sem acreditar que todo mundo estava vendo o aluno pedir à professora para ir pra casa, se levantar, fazer esse gesto que movimenta milhões de músculos. Eu desconfiava que aquilo, aqueles sinais, não eram capazes de transmitir a todo mundo igual ao que eu estava entendendo”.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Fale com ela
Ninguém, claro, nem a repórter da Folha (Cátia Seabra), que fez a entrevista com a face suave de Cachoeira, teria coragem (não é bem o termo) de confrontá-lo via essa porta-voz, questionando seus métodos, contatos, esquemas, falcatruas, desvios e fraudes, entre outras acusações que lhe pesam. O núcleo da entrevista, voltado ao ciclone inquisitorial que, como outras vezes, assola a capital da república, na maioria delas, sem outras consequências, além do alarido da imprensa, foi o potencial destrutivo do depoimento que o empresário, com base em seus arquivos dos porões da República, deve fornecer à CPI, dentro de alguns dias ou semanas.
Afora as consequências que a construtora Delta vem enfrentando, assumidas pelo Palácio do Planalto no início do escândalo (a família Cavendish não pode mais desfilar de Ferrari na Barra da Tijuca), e da lama respingada em políticos, tanto da situação, como o governador do DF, Agnelo Queiroz, como da oposição, como o senador goiano Marcone Perillo (Demóstenes Torres voltou a circular com desenvoltura pelo Congresso, nesta semana), dificilmente todo esse vendaval vai provocar grandes abalos na estrutura do poder, ou ameaçar a governabilidade, embora tenha se tornado mais um incômodo para a presidente Dilma que, para alívio de seus eleitores, tem pouca afinidade com o trato da coisa política, esse animal pegajoso, que se mexe lentamente, tem longos tentáculos e fortes anéis para asfixiar as mais nobres pretensões.
Às vésperas da Rio+20 e nas barbas do relatório da respeitada associação científica Royal Society, informando que o consumo excessivo em países ricos e o rápido crescimento populacional nos países mais pobres precisam ser controlados para que a humanidade possa viver de forma sustentável, fomos todos derrotados na votação do Código Floresta desta quarta-feira (25/4), todos, inclusive, e talvez principalmente, os ruralistas. A presidente Dilma anunciou ontem (26/4) sua intenção de vetar a anistia aos desmatadores das áreas de preservação permanente, reservas legais e matas ciliares. Se a ex-ministra Marina Silva conseguir falar com ela, talvez o projeto seja integralmente vetado.
O relatório da Royal Society será um dos referenciais para as discussões da Rio+20, cúpula que acontecerá na capital fluminense em junho próximo."Este é um período de extrema importância para a população e para o planeta, com mudanças profundas na saúde humana e na natureza", disse John Sulston, presidente do grupo responsável pelo trabalho. "Para onde vamos depende da vontade humana - não é algo predestinado, fora do controle da humanidade”, assinalou. “Nosso destino está em nossas mãos". John Sulston ganhou renome internacional ao liderar a equipe britânica que participou do Human Genome Project, projeto responsável pelo mapeamento do genoma humano.
Em 2002, ele foi ganhador, junto com outro cientista, de um prêmio Nobel de Medicina, e hoje é diretor do Institute for Science Ethics and Innovation, na Manchester University, em Manchester, na Inglaterra.
O conselho da ex-ministra Marina Silva (20% dos votos do primeiro turno das eleições de 2010, traduzidos em quase 20 milhões de brasileiros) em seu artigo de hoje (FSP, 27/4) começa afirmando que algo está muito errado quando a maioria dos parlamentares, na contramão da vontade da maioria da sociedade, prefere um modelo de desenvolvimento que, em razão do lucro rápido, compromete o futuro do próprio país. Marina afirma que o texto do projeto tido como consenso já ignorava o parecer dos cientistas sobre o tema e que, em nome desse consenso, as lideranças dos diferentes partidos classificaram como “radicais” as críticas que defendiam salvaguardas capazes de garantir a qualidade de vida das gerações presentes e futuras.
Termina propondo que o Brasil seja, para o século 21, o que os Estados Unidos foram para o mundo no século 20. “São necessárias visão antecipatória e determinação de perseguir nosso destino de grande potência socioambiental”, ela diz, lembrando não ser fácil fazer a melhor escolha e que é na pressão dos grandes dilemas que se forja a têmpera dos que fazem a história avançar. Esquece-se, porém, a cara Marina Silva, em que país estamos e até que ponto avançamos, na história: não é por acaso que os nossos principais acidentes geográficos, hoje, são uma delta e um cachoeira. Foto: Lula Marques (Folha press)
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Erudito popular

Marie Rucki, do Studio Berçot -Paris, ajudou a formar a rapaziada que hoje faz sucesso nas passarelas: Regina Dabdab (acessórios), Alexandre Herchcovitch, Orcimar Versolato, Glória Coelho, Reinaldo Lourenço, Marcia Gimenez. Francesíssima, gostava de chocar a burguesia com suas incursões ao Mappin, depois 25 de março, que sempre rendiam: informação, critério, estilo. Ela podia. Ela fazia.
Ontem (18/4), o Globonews em Pauta, que é um bom programa, recebeu o cantor sertanejo João Paulo e Daniel, sem o João Paulo, evidentemente, que já faleceu, mas que passeou pelos bastidores o tempo todo, como um Hamlet (pai). O tema central foi a tautologia de sempre, em forma de dicotomia entre erudito e popular, a elite e o povo, com seus falsos axiomas, ilustrados pelos clássicos questionamentos: Por que Era uma brincadeira, do Peninha, teria ficado de outro jeito, na voz de Caetano, sendo a mesma canção?
of March, no qual, o personagem acaba papando a estagiária, e descendo a cachoeira numa aliança pragmática que lhe trará o delta necessário à vitória nas eleições.
Mas a TV poderia patrocinar uma discussão menos desinteressante sobre esses temas de cultura. É o mínimo que se poderia esperar do canal que nunca dorme, como o Fantasma, de Lee Falk, que ajudou os avós da emissora a se tornar a Vênus Platinada (O Globo e RGE), como O Espírito que Anda, às vezes Mr. Walker, amigo dos pigmeus Bandar, do lobo Diabo e do cavalo Herói.
O Globonews Em Pauta é uma boa idéia, mas, como tudo, na TV, fica sempre devendo ao espectador (influência pavloviana do Boni), porque é impossível combinar uma entrevista leve com o noticiário pesado que se comunica com o JN (no mesmo horário), mais os pitacos dos correspondentes. Na entrevista de ontem (18), o moço da cueca, que já gravou álbum só de moda de viola, teve o bom senso de destacar: “Música (leia-se Arte), independentemente de gênero, merece ser ouvida, desde que bem feita”. Estão aí o Nelson Mota, o Fernando Faro, o Zuza Homem de Mello, que não nos desmentem. Eles e os pesquisadores das dinastias Boscoli & Mariano, além do Tim Maia, vendido até julho deste ano.
No outro dia, um sábado, quando eu chegava ao Ceasa, o Milton Parron (rádio USP) colocou no ar uma reprodução feita por um fã durante um show de Nelson Gonçalves, em Natal-RN (não me lembro em que ano) no qual os músicos tinham dado um bolo. Ele cantou, sem usar sequer uma caixa de fósforos para marcar o ritmo: A volta do boêmio (Adelino Moreira), De quem eu gosto (Maximiano de Souza) e Naquela mesa, do Sérginho Bittencourt, que me deu saudade do filho que se foi para o Rio de Janeiro. Não arredei pé enquanto a música não acabou.
Não existe pecado. Tenho um CD dos tempos de Rhodia, gravado sob a marca de um defensivo chamado agrotóxico, que ainda me emociona: Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Milionário e José Rico, Tião Carreiro e Pardinho. Tem deliciosas interpretações de O Rei do Gado e de O Rei do Café. Isso não quer dizer que eu seja obrigado a curtir Vitor e Léo e Paula Fernandes. São artistas, que o deus Pan os proteja sempre, assim como a Ivete Sangalo e a Claudia Leite, a Gretchen e a Chico Buarque. Mas eu quero poder ouvir o Tannhäuser und der Sängerkrieg aus Wartburgs sem ser chamado de elitista. Afinal, até o céu perdoou o menestrel em questão.
Só acho que, enquanto Millor e Chico Anísio não viram uma dupla de comediantes que viveu há alguns anos, fazendo shows na boate Sucata e trocando de namorada enquanto moravam no mesmo apartamento do Leme, a gente, da indústria cultural, podia dar uma carona de elevador, de vez em quando, ao pessoal do Edifício Master, tentando, digamos assim, aumentar a diversidade do país. À geral seria franqueada a faculdade (entre tantas, que ainda funcionam por aí) de pinçar, aqui e ali, uma cor, uma frase ou uma bolsa, como as de Marie Rucki, para enriquecer as nossas tramas e texturas, a cada dia mais cinzentas.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Pescaria

Piau, homônimo do novo relator do Código Florestal (foto: www.lucianocandisani.com.br)
A votação do Código Florestal me trouxe memórias da infância: tira, põe, deixa ficar. Enquanto eles jogam caxangá, o produtor cabeçudo mete a corrente na mata ou destrói os manguezais, e os que têm consciência pagam, com os efeitos do clima. Acampei na Vargem Limpa, em Bauru-SP, quando era garoto. Hoje só resta, no local, a sede de um zoológico que lembra um circo falido; acompanhei, como repórter, a fundação de Terra Nova (MT) por posseiros expulsos de terras guarani, em Nonoai (RS) e Chapecó (SC); entrevistei, várias vezes, os irmãos Villas Boas, em aldeias indígenas; casei-me com a filha de um ex-fazendeiro, tenho amigos produtores e vejo o Globo Rural todos os domingos (um dos poucos programas jornalísticos que resistem, na TV aberta). Mas me dói ver a ganância avançar, inapelavelmente, sobre o que nos resta de recursos naturais, diante de um governo que se mostra, ora complacente, ora incapaz.
“Vamos nos falando”, diz a namorada ao garoto que não pretende ver nunca mais. A hipocrisia dos ruralistas em relação ao projeto do Código é mais ou menos a mesma. O projeto aprovado em novembro, com várias concessões da base de apoio do governo (na época, liderada pelo atual ministro do Esporte, Aldo Rabelo) foram muitas. De nada valeu o capital político acumulado pela ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, nas eleições presidenciais, na resistência a esse modelo. O projeto foi engolido, com todas aquelas mudanças, tanto por ambientalistas, como pelas “pessoas normais”. Com as reformas que o atual relator, deputado Paulo Piau (PMDB-MG), apresenta agora, o novo Código não tem chance de ser aprovado, e o governo, com toda a sua visão desenvolvimentista, sabe disso.
No último Globo Rural (o programa), a matéria central falou do tambaqui, cujas costelas eu e o Corá costumávamos assar na brasa, antes que o peixe desaparecesse do seu habitat natural (o Corá também se foi, infelizmente, há um ano); e do pirarucu, que fornecia o melhor filé de peixe de água doce que se podia encontrar, antes da espécie estar ameaçada de virar mais um zumbi, como a repórter explicou (em outras palavras, é claro). Piscicultores e zootécnicos já estão conseguindo “enganar” o pirarucu, a fim de promover a sua reprodução em tanques artificiais, o que deve gerar alguma coisa que poderíamos situar entre o chester e o kiwi. Ração gorda e águas tranqüilas: quem pode resistir?
Quanto ao piau, gosta de queijo, milho e salsicha, segundo os especialistas. Trata-se de um peixe muito arisco e difícil de ser fisgado.Mas já pode ser encontrado em alguns pesqueiros, de acordo com os sites de pesca. Não se sabe por quanto tempo vai resistir, em seu ambiente natural. Poderíamos perguntar ao ministro da Pesca, Marcelo Crivella, do PRB, o sobrinho-herdeiro do bispo Edir Macedo, mas ele já disse que não sabe nem botar a minhoca no anzol. Não se sabe que tipo de isca teria convencido o relator do Código Florestal, Paulo Piau, a endossar as novas demandas dos ruralistas, mas se ele for arisco como a espécie da qual leva o nome, bastará uma lente de aumento sob o sol para fazê-lo mudar de idéia.
Nos últimos dois dias, contudo, a grande preocupação nacional tem sido a falta de combustíveis na cidade de São Paulo, palco de uma outra disputa, que não esconde o embate entre o projeto de poder do governo petista e uma oposição que não pode abrir mão do seu principal núcleo de resistência, o Estado mais poderoso do país.
Nos telejornais de hoje (7/3), além da falta de gasolina, o fato do dia foi a briga do Beto Barbosa com suas duas acompanhantes, que foi parar numa delegacia do Campo Belo, bairro nobre da Capital. Nos sites de conteúdo, a cobertura do esporte e do Big Brother deu espaço ao Dia Internacional da Mulher. Nos jornais, uma outra disputa, entre a Fifa e o governo brasileiro, continuou repercutindo, embora o principal assunto fosse, mais uma vez, o PIB e a guerra cambial.
O Banco Popular da China prometeu ampliar seus investimentos em euros para ajudar os países da Europa a sair da crise. Como é que eu, na minha juventude maoísta, poderia pensar nisso? – O meu vizinho chinês, a propósito, trouxe os pais para morar com ele. Com o casal, um novo chow-chow que, em companhia do primeiro, interdita o elevador de serviço sempre que os dois têm que sair para fazer xixi. No elevador do escritório, fico sabendo que o produtor francês de beterraba decidiu investir na cana brasileira, outro aparente contrasenso.
No Manhattan Conection, Diogo Mainardi qualifica de perfeitos imbecís os blogueiros que, segundo ele “estão pautando a imprensa”. - Será que ele se refere ao bate boca entre o Paulo Henrique Amorim e o Heraldo Pereira? - Bem, polêmicas e convicções à parte, para o Diogo, perfeito imbecil é todo aquele que não pensa exatamente como ele. Rapaz solitário? –Vocês não conheceram o pai do moço, o publicitário Enio Mainardi. Para o crente, a propaganda religiosa é profissão de fé. Para o louco de amor, rejeição é perfídia. Para o militante político, loucura é paixão. Jerome Valcker ou Aldo Rebelo? - Borges ou Cortazar, pode ser? – A propósito dos argentinos, será que a presidente Cristina Kirchner vai mesmo proibir a importação de consolos masculinos?
Voltamos ao câmbio valorizado: ele vai promover, afinal, a desindustrialização de países emergentes, como o nosso, uma transição de nossa economia para o setor de serviços, ou apenas um impacto que,a longo prazo, que precisa ser analisado? – Perguntas dizem mais do que respostas, como assevera a Globonews? – Ei, Guto Abranches (apresentador do programa Conta-Corrente), que tal trabalhar com a Denise Barbosa (ex-Bloomberg), ela no estúdio da BM&F Bovespa e você, no Jardim Botânico? – Difícil?
Pergunta mais fácil: - Afinal, o crescimento do PIB brasileiro, de apenas 2,7% da meta de 4,5% deve ser considerado como um bom resultado, em vista dos 7,5% de 2010? – O carro brasileiro é melhor que o sapato chinês? – Bem, para a CNN, o efeito da crise na Europa (lá, não se fala em crise nos EUA) e a queda da demanda chinesa respondem pela menor expansão do nosso GDP (Gross Domestic Product). Nenhuma palavra sobre a competência da indústria local, nem sobre o peso de nossos impostos. Eles têm mais o que fazer, não vão ficar discutindo ninharias.
Sempre que assisto à CNN, sofro um choque cultural: mudo de canal no intervalo das notícias, no meio de um anúncio de diamantes azuis, e caio no programa político obrigatório do PRB. Mudo de novo, e lá está o Nelson Rubens, do TV Fama, anunciando pomada contra a micose. Outra vez, e caio no Jornal da Record. Ok, pode ser que a Ana Paula Padrão, entre um editorial sobre o MMA e uma reportagem sobre as futuras Olimpíadas de Londres, fale do Código Florestal.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Apocalipse bonsai

Mais adiante, a âncora esportiva que gosta de carnaval teve dificuldades em reconhecer as personagens de O Mágico de Oz: chamou o Leão Covarde de leão (simplesmente) e ficou em dúvida se a bruxa era do Norte ou do Centro-Oeste. Melhor chamá-la de bruxa. Ok, a gente entende que a analogia mais fácil do Carnaval, para os diretores da Globo, leva ao Esporte (pessoas se mexendo), o que requer narradores capazes de “levantar a audiência”. Fiquei com saudade do Caio Blinder, que costuma estudar todas as suas pautas, como um asiático em Harvard. Nada contra Harvard, muito menos contra os asiáticos, embora a China esteja esmagando a nossa indústria.
Para mim, ficou a impressão de que os veteranos, tanto os ex, como os atuais da velha senhora, que eram capazes de segurar 10 horas de cobertura, não agüentam mais essas pedreiras. Azar o nosso. Não é pecado pretender que o desfile do ano que vem seja transmitido pela dupla Maria Beltrão e Flávia Oliveira, que também são da Casa. Mesmo que as duas estejam de ressaca, como se apresentaram, na última terça-feira (21/2), falando e dando conselhos sobre a própria rebordosa.
Uma das poucas coisas que me fazem falta, dos meus tempos de Rio de Janeiro, aliás, são as discussões de rua sobre a disputa entre as escolas, no dia seguinte ao desfile, como a que foi protagonizada pelas duas moças acima citadas, no Estúdio i de 21/2. Principalmente quando a conversa persegue detalhes como o casal de mestre-sala e porta-bandeira realmente casado ou a cadência de cada bateria, a Vila Isabel mais andante,a Mocidade, vivace.Também se comenta o coreógrafo romeno fantasiado de alma de sanfona,o carnaval espetáculo de Paulo Barros e a fantasia de medos infantis da Grande Rio, expressões intraduzíveis para os gringos que se aventuram na Sapucaí.
Os estrangeiros também não entenderiam o assalto de traficantes do morro de São Carlos a componentes da Beija Flor durante o desfile da Vila Isabel, mas eu, mesmo sendo brasileiro, também não consegui absorver o atropelamento de uma criança de 3 anos por outra, de 14, numa praia de Bertioga-SP. E nem as cenas da apuração do carnaval paulista, no Anhembi. São Paulo não pode não ser o cúmulo do samba, como disse o Tuty Vasques, mas precisa cuidar de sua imagem. Há um contraste evidente entre a natureza do show, no compasso da mulata, e o espírito de guerra das torcidas.
Por se falar em guerra, lamento a morte dos jornalistas Marie Kolvin e Remi Ochlik, na Síria, que vem se tornando uma Sarajevo, principalmente pelo que essas mortes representam: vitória da selvageria sobre a tosca, parca vigilância da civilização sobre a barbárie. Você pode torcer pelo Vasco, aceitar a dominação colonialista como um pedaço da História ocidental, acender uma alma pelas velas, pagar o dízimo aos bispos Estavam Fernandes ou Edir Macedo e até votar no PT acreditando estar contribuindo para reduzir a distância entre a classe trabalhadora e a elite dominante.
Imitando Eugenio Bucci, no Estadão de ontem, aproveito este espaço para cumprimentar Alberto Dines, um de meus mentores, por seus 80 anos, e por conservar , em seu espírito, as flores frescas da ética, da dignidade e do respeito, tão raras, atualmente, talvez porque a minha geração não as tenha protegido devidamente, ao lutar contra o fanatismo, o preconceito e as falsas morais, em nome da liberdade. Talvez isso explique tantos bêbados no trânsito, o descuidado com a infância, a corrupção dos costumes e a decadência da justiça, arautos do nosso apocalipse bonsai. (imagem: adobonsai.com)
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Sacola na mão

Quando eu era garoto (claro, às vezes, ainda sou), uma das minhas principais crueldades era amarrar uma linha de náilon entre o arbusto da nossa calçada e o muro, com uma lata cheia d’água, e esperar as pessoas que voltavam da venda, à noitinha, com as sacolas carregadas de compras. Nem tudo era embalado em filme poliéster, como hoje. Causávamos muito desconforto e prejuízo, eu e os outros garotos da rua. De vez em quando, levávamos uma carreira de alguma vítima mal humorada, mas até essa adrenalina fazia bem: ninguém tinha skate ou esqui. Nosso rafting era um carrinho de rolimã, e o nosso rapel, as árvores dos vizinhos. Não havia videogame, nem palestras sobre A Família e a Contemporaneidade, do doutor José Ottoni Outeiral, para discutir a desinvenção do brincar.
Numa comedia recente do Adam Sandler, Grown Ups, falando de um reencontro de velhos amigos, um dos filhos do personagem chama a babá, que está na cozinha, por SMS; quando ela chega, reclama que o chocolate quente não é Godiva: “Você quer me matar?”, diz. O filme expõe o seqüestro da molecagem pelo consumismo exacerbado e pela inflação da tecnologia, tendo, como pano de fundo, a fixação dos adultos na adolescência. Mas é só um caça-níqueis, e logo se despede das discussões desagradáveis, ao exibir crianças momentaneamente esquecidas de seus tablets e smartphones, descobrindo como pode ser divertido jogar pedras no lago onde foram obrigadas a passar aquele 4 de julho (Lago Winnipesauke, New Hampshire –EUA).
No meu carrinho de rolimã, a melhor parte vinha antes: percorrer as oficinas do bairro; convencer o mecânico brucutu a entregar um bom rolamento a um moleque metido a besta; encontrar a peça num monte de porcarias cheirando a ferrugem, limpá-la com querosene preto de graxa, lubrificá-la com óleo de cozinha e depois, fazê-la girar até zumbir, num toco de pau. A segunda melhor parte era conseguir o caixote, desmontá-lo, ganhar ou roubar um eixo de madeira do tamanho de um punho cerrado, serrá-lo, furá-lo no meio, arranjar um parafuso de cama com, no mínimo, doze centímetros de comprimento e, finalmente, montar o modelo, com um pedaço de pneu na ponta do freio. Eu não gostava de fazer pipas, mas fabriquei alguns desses carrinhos; vendi jabuticaba e fiz estilingues/atiradeiras, além de ter pintado camisetas de protesto, nos anos 60. Os americanos vendiam refresco na calçada. Lucy, dos Peanuts, tinha uma banca de Psicanálise da qual saíram alguns dos melhores conselhos que já li ou ouvi.
Nem tudo era paz e amor, naqueles anos: quando Guevara virou bandeira, eu o desenhei com carvão na parede da sala de aula, que fui obrigado a pintar, no fim de semana, em troca de não ser expulso da escola.Não apareceu nenhum otário para cair no conto da cerca do Tom Sawyer. Anos depois, quando o meu filho quebrou todas as lâmpadas do corredor de uma escola particular, foi suspenso por três dias, sem nenhuma atividade pedagógica.
Na minha adolescência, além dos atos de vandalismo, montei socos ingleses na oficina de cadeiras de cano e plástico do pai de um amigo. As gangs sempre existiram, mas os nossos confrontos nos bailinhos da época só viraram moda depois de Rebelde sem Causa, de 1955, também conhecido como Juventude Transviada. Brigávamos entre nós (melhor que bater em mendigos), mas o meu soco inglês já nasceu relíquia -nunca foi usado. Alguns de nós usavam canivetes, mas só me lembro de uma vítima, em toda a nossa West Side Story.
Além do conflito de gerações, a guerra-fria, o marketing e a cultura pop, o pós-guerra nos trouxe a capacidade de unir, quimicamente, partículas de alto peso molecular, denominadas monômeros, formando os famosos polímeros, nos quais a humanidade encontrou uma fonte inesgotável de utensílios: de parafusos a painéis de construção, tubos, tecidos e carcaças automotivas, brinquedos de gente pequena e de gente grande, entre eles, as conhecidas sacolas de supermercado que, depois de meia noite, se transformam em lixinhos de banheiro.
Quando se fala em scolas de plástico, essa pauta que não sai da mídia (observação de Hélio Schwartzman, na FSP), penso nas armadilhas da minha infância, mas também nos chapeuzinhos de jornal que um senhor ensinou a fazer, no jornal Hoje da TV Globo, para abastecer os tais lixinhos de banheiro.
– Quem é que vai colocar jornal no lixo do banheiro? – perguntou uma senhora, na fila do caixa do mercado. – Depois que uma dessas especialistas aconselhou as pessoas a trocar os saquinhos de lixo da pia por caixinhas de tetrapack – acrescentou (textualmente) - eu perdi as minhas ilusões. – Que especialista é essa, que não sabe que tetrapack é pior que plástico? De fato, pensei com meus botões. Até as pedras sabem disso, como diria o ministro do STF, Gilmar Mendes, falando das corregedorias de Justiça.
- A gente se habituou à sacola da feira, - disse uma outra, em tom conciliador. – Vamos acabar nos acostumando de novo à sacola do mercado. Concordo com ela. Também me considero um sem-sacola, porque, embora reaproveitasse caixas de papelão descartadas pelos próprios supermercados para trazer as compras, tive que deixar de usá-las por causa da súbita explosão da demanda.
A propósito disso, as animadoras de programas femininos e as produtoras do GNT estão todas de acordo: a sacola retornável voltou à moda. Ok, mas de que tipo? – Eis aí, uma pauta para o Fantástico. Será que a Veja falou a respeito? (há tempos não leio Veja). E as revistas femininas, que nunca vejo? – Já compararam estilos e preços? – Vamos de bolsas adornadas de franjas e fios de ouro, como as da Antiguidade, ou de mochilas indígenas, como aquela moda dos anos setenta, de carregar os filhos nas costas? – Alforjes, cestas de vime ou sacolas de lona verde, com um look militar?
Ensina o nosso oráculo contemporâneo, lá pela quarta ou quinta página de consulta, que os grupos pré-históricos eram nômades e se deslocavam, conforme a necessidade de obter alimentos. Como já haviam descoberto que a pele dos animais servia para proteger o corpo, podem ter desenvolvido também um sistema de receptáculos para carregar e proteger suas caças. Daí a presença de bolsas a tiracolo em desenhos rupestres que datam da pedra lascada (40 milhões anos A.C.).
Nesse aspecto, portanto, estamos voltando à pré-história. Mas, se não há outra solução, porque não mudar? Já nos acostumamos às bicicletas de Moema, no fim de semana. Podemos aproveitar essa onda para transformar outras atitudes e hábitos urbanos que nos incomodam.
Podemos, por exemplo, boicotar os comentários do Neto nas televisões dos restaurantes do bairro, na hora do almoço; obrigar os âncoras do telejornalismo, em geral, a serem menos enfezados (começando pelo Bonner e pelo Boechat; o Celso Freitas só faria algumas seções de fonoaudiologia com o Anderson Silva); executivos que trabalham de gravata não poderiam mais usar cabelo de moicano; parar em fila dupla reduziria as notas dos alunos das escolas particulares; transportadores de valores não poderiam almoçar dentro de seus veículos parados com o motor funcionando, ou o diesel teria que ser mais limpo; cada música romântica e popular que tocasse no rádio (incluindo as do Wando e das afilhadas do Caetano) obrigaria a emissora a compensar o público com uma ária de Puccini ou uma sonata de Bethoven. Quando tudo isso for providenciado, prometo comprar, na segunda-feira seguinte, uma sacola retornável de algodão cru, com uma estampa bem ecológica em silkscreen do lado de fora.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Casa Vogue contra TV Brasil e Veja
A semana na TV começou com uma boa entrevista de Júlio Medaglia, na Cultura. Ele gravou a data, 5 de março de 1956, em que decidiu comunicar ao pai que seria músico: esse foi o desfecho do programa, chamado Ponto de Virada, depois de ter marcado o início de uma bela carreira. O maestro recomendou aos jovens com talento que se aferrem às suas metas profissionais como fanáticos, porque a felicidade, ou boa parte dela, se esconde no fazer aquilo que se gosta. Foi bom lembrar como se davam as relações entre pais e filhos, na época, o dele querendo vê-lo como herdeiro da Comercial Peças Automotivas, que ficava na Pompéia, engenheiro ou dentista.
Medaglia ensinou aos técnicos das Secretarias de Cultura como programar concertos públicos usando peças mais curtas, já que as sinfonias, por demorarem a desenvolver uma idéia, não combinam com o ambiente caótico das cidades; arrasou, numa frase, o hip hop que eu sempre temi criticar, com meu esquerdismo, lembrando a vasta e profunda cultura musical do negro brasileiro (desde Carlos Gomes), que está sendo jogada no lixo em troca de uma cultura importada de um negro “perdedor” norte-americano (em detrimento do jazz). Constatou, como aqui tenho feito, timidamente, a decadência da cultura “ocidental”, na ponta oposta do avanço tecnológico: ipods não tocam Keith Jarret.
Agradeço a entrevista de Medaglia aos dias de amenidades no primeiro mundo, como as eleições norte-americanas e a crise na Europa, que me permitiram assistir, sem problemas, aos noticiários da BBC e da CNN, com seus divertidos comentaristas ingleses tentando falar como norte-americanos (na CNN) e norte-americanos com sotaque de Boston (na BBC). As notícias de esporte não são como as daqui: existem, é claro, as transferências milionárias de jogadores de futebol, e a cobertura do campeonato inglês (como aqui), mas também se ouve falar do aberto de tênis na Austrália. Nos últimos dias, eu não podia mais com a linguagem paroquial do JN e sua cobertura emocionada das enchentes. A Globo podia contratar o Gugu.
Na semana anterior, o que mais me chamou a atenção não foi o desmoronamento da fachada da Justiça, liderada pelo augusto ministro do STJ, Marco Aurélio Mello, nem a empáfia daquele outro cidadão que atravessou a cidade tomado por um surto e depois jogou suas tentativas de homicídio nas costas das vítimas; nem as implosões frustradas da Favela do Moinho e da Cracolândia, ou a história da mulher que dizem ter matado 39 animais domésticos, entre cães e gatos. O que mais me impressionou, na semana passada, na TV brasileira, foi uma reportagem sobre a casa da Malu Mader e do Tony Bellotto.
Não era um desses programas de celebridades ofertados à nova classe média, nas tardes de domingo. Era uma produção voltada à nova classe alta: refinada, com belas imagens, sequências e planos, travelings perfeitos e entrevistas inteligentes, tudo costurado pelo trabalho de dois arquitetos talentosos: um escritório, uma casa na montanha, um apartamentão na cidade; depois, a casa de um deles, num pequeno e velho edifício de três andares, no Rio, cuja intimidade foi protegida por uma parede de orquídeas, na varanda, e a luz, roubada do céu por meio de um teto de vidro, num trecho do living. Deve ter dado uma boa briga com o condomínio.
Programas de arquitetura e decoração estão em voga, como os cadernos de culinária e os espaços gourmet, as novas pragas modernas. Com mais alguns naufrágios de transatlânticos conduzidos por italianos amigos e caos aeroportuários, temo que as pessoas nunca mais saiam de suas tocas e carros blindados.
Malu Mader confessou, na entrevista, que não gosta de apartamentos e sonhava reconstruir o paraíso perdido de sua infância: a casa de avó, no interior, onde sempre havia alguma coisa cheirosa saindo do forno (madeleines inesquecíveis, diria George Pérec), árvores para se brincar, vizinhos e uma parentada saudável reunida para as refeições.
Tirando o excesso de prateleiras, carregadas de livros, arquivos sonoros e uma pretensão sentimental da proprietária acerca de suas próprias referências – sempre disponíveis à sobrinhada, filhos de amigos e agregados (Malú, você já é um ícone) – o lugar é quase um casarão de interior com um daqueles amplos quintais. Os filhos cresceram. Enquanto o casal pensava na mudança, e no transtorno adicional nos deslocamentos diários, a cobertura vizinha foi posta à venda. O velho titã e sua metade ideal (culta e bela) somaram dois mais dois e mais um filho veio ao mundo, em forma de apartamentão.
Além de proteger a intimidade da família com plantas, como fez em sua própria casa, o arquiteto dispôs os espaços usando o bom senso em lugar de paredes; exceto, talvez, pelo escritório do patrão, que ficou situado em frente à mesa de pingue-pongue da molecada: imagino Belini, concentrado antes de um crime, tendo que ouvir o barulhinho irritante daquela bolinha de celulose entre raquetes. A mesa de jantar, como se diz, tem 14 lugares; a segunda mesa, na varanda, mais uma dúzia: almoço dos adultos longe da algazarra das crianças?
O que me veio à mente, refletindo naquela invejável rusticidade doméstica, foi o que nenhum de nós ignora, nem o meu síndico, que acaba de me mandar um e-mail informando que, graças aos nossos recentes investimentos em infra-estrutura de segurança, o roubo de uma câmera externa ao nosso edifício pôde ser evitado: por não abrirem mão de suas escassas conquistas, as pessoas tentam protegê-las, a qualquer custo, do caos ambiente, tendo desistido das tentativas concretas de solução, como fazíamos, na década de sessenta, da qual eu me sinto um sobrevivente meio ridículo, e da qual emergiram as malús maders e os tonys bellottos. Que são gente respeitável, como todos nós.
Não há uma crítica nessas caraminholas, minha cara senhora, meu caro senhor. Nem mesmo ao meu prezado síndico, trazido a esta crônica sem consentimento prévio, e que comentou, provavelmente inspirado na análise antropológica do PM que atendeu à ocorrência do nosso prédio: com a possível migração de satélites da Cracolândia para a Zona Sul (uma espécie de centrifugação da problemática social), temos que ficar mais atentos, redobrar nosssos cuidados.
Eu entendo tudo isso: o recolhimento, a conveniência, o distúrbio, o cuidado, o medo. O que não me impede de lamentar a completa evanescência dos nossos sonhos de juventude, dispersos numa desordem de pedras que rolam até chegar à beira de algum mar ou rio, polidas e inertes, como um poema de João Cabral: "inenfáticas, com sua resistência fria ao que flui e a fluir".
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Dia do Palhaço

Ela quer trabalhar no Brasil
Despido, há algum tempo, da jornalista Lúcia Guimarães e desprovido, momentaneamente, da diligência obssessiva de Caio Blinder, que costuma estudar todas as possibilidades do programa, o melhor time de Economia e Política da tevê brasileira, como se autodefine o Manhattan Conection, da Globonews, perdeu, anteontem (11/12), um pouco do seu brilho.
Nem a caricatura beligerante do Gingrich ítalo-tupiniquim, Diego Mainardi, serviu para cobrir as falhas do produto e a confusão dos membros da bancada diante de uma pauta anacrônica, somada à evidente desmotivação para temas espinhosos como a agonia do Tratado de Maastrich e a negativa populista dos conservadores ingleses em assumir parte do ajuste proposto por França e Alemanha para salvar o que resta da União Européia.
O racha no núcleo de poder britânico era tão evidente que virou manchete da Folha de S.Paulo de segunda-feira, 12 (um jornal de informação geral), bem acima da notícia da derrota dos grandes fazendeiros de Carajás pelo resto do Pará (não-separatista). O desfecho foi prontamente atribuído, pelos analistas, à campanha equivocada de Duda Mendonça, o marqueteiro dos presidentes, também proprietário de terras na região.
O detalhe – fundamental na disputa, para o nosso jornalismo político – passou despercebido na série de reportagens pilotadas por Cristina Serra, no aviãozinho do Jornal Nacional, na última semana. Serra bem que mostrou alguns instantâneos dos males ancestrais que afligem aquela gente, do Tapajós a Belém, passando por Carajás, obviamente: fome, esgoto a céu aberto, doença, ignorância e uma natureza devastada. Nada que dois novos governos estaduais, alguns milhares de funcionários públicos, e duas novas assembléias legislativas não pudessem resolver, com a urgência desejável.
A madrugada do dia 11 também não sorriu para o melhor time do valetudo, mais recente mania nacional, na opinião do narrador da TV Globo, Galvão Bueno, que, em duas semanas, tornou-se um grande amigo dos nossos principais lutadores. No UFC 140, o mais bem treinado dos gêmeos, Rodrigo e Rogério Nogueira, o Minotauro (Rodrigo) vacilou depois de quase derrubar o norte-americano Frank Mir e perdeu no chão, sua principal especialidade; antes, porém, Rogério, o Minotouro, que vinha desacreditado, derrotou, com sobra, o latino Tito Ortiz. Mas a maior esperança dos fãs do UFC estava nos punhos do paraense (não-separatista), Lyoto Machida, que sucumbiu diante do bem treinado novaiorquino, Jon Jones, que vem segurando o cinturão dos meio-pesados, com 15 vitórias e uma única derrota na carreira.
A semana anterior até que começara bem, para o outro time do valetudo, com a aprovação do novo Código Florestal, mesmo sem a brilhante defesa do deputado Aldo Rebelo, do PC do B, hoje militando no Ministério do Esporte. Fernando Pimentel escapou da degola e Cid Gomes continuou governador do Ceará, mesmo depois de ter sua proposta indecente, a empresários da construção civil de seu Estado, gravada pela câmera indiscreta de um repórter do Estadão. No dia 11, o mesmo Estadão denunciou que os tribunais de justiça vêm ignorando o teto salarial de R$ 26,7 mil do STJ, e pagando mais de R$ 41 mil mensais aos juízes. Isso, afinal, não chega nem perto do salário dos treinadores de futebol, que se contam em milhões por ano.
Já a Câmara Federal esbarrou na incompreensão da imprensa burguesa quanto às necessidades dos funcionários permanentes e comissionados da Casa, que lá estão por indicação política: seriam R$ 386 milhões por ano, o que, segundo o primeiro-secretário da Câmara, Eduardo Gomes, do PT-TO, acabaria por reduzir despesas do Legislativo, uma vez que os funcionários deixariam de receber os mesmos reajustes dos deputados. Toda vez que cito o PT, tenho que lembrar, a amigos que militam ou simpatizantes dessa agremiação, que o mundo contemporâneo já não se divide mais entre PT e PSDB. Principalmente agora, que os cientistas descobriram a partícula de Deus e que um cidadão, chamado Inri Cristo, anda chamando as pessoas que têm fé de evanjegues. Barbas de molho, concidadãos.
Voltando à imprensa, não é de hoje que as pautas, em geral, vêm perdendo a sua força. Na semana passada, li mais uma interessante reflexão do meu colega famoso, Eugenio Bucci, que discutiu a mídia, do ponto de vista do público/produto: se você colhe sua informação num site de busca, vira produto (as primeiras indicações são pagas); na mídia formal, isso não ocorre. Na qualidade de público, você, assim como eu, tem direito a uma informação qualificada. Paga, mas produzida por profissionais competentes. E independente. Ou, no mínimo, isenta. É aí, meu caro Eugenio, que a coisa, às vezes, embaça. Mesmo um cidadão que consuma NYTimes, The Economist ou El Pais, jamais obterá o distanciamento por ele sonhado. Tome, por exemplo, a questão palestina. Ou a Portuguesa, do Joaquim Castanheira, que subiu para a primeira divisão.
Concordo que a informação grátis não pode chegar nem perto desse compromisso. A questão é saber se a outra, a paga, está constantemente em busca de uma escala que nós, críticos, consideraríamos ideal (matematicamente falando). É a esse gabarito que o amigo leitor teria que aproximar a sua própria grade, a fim de extrair, do confronto entre os dois, a sua tomada de posição. Os jornais-âncoras, que carregam nas costas o peso da credibilidade de suas respectivas empresas (para que o produto dos ipads sejam ligeiros), podem não ser o tenebroso antro de facistas e imperialistas que os movimentos populares neles enxergam, mas estão longe do ideal de democracia que eles próprios se atribuem.
Também sei que o encaixe dinâmico entre a linha editorial dos veículos que batalham por uma eqüidistância razoável (ou possível) e o instrumento de aferição de seu público é apenas uma hipótese, mas o esforço pela qualidade não pode ser negligenciado.
Evidentemente, as pautas de Luciana Gimenez, que ontem entrevistou Inri Cristo e a do CQC, de Marcelo Tas, jamais se encontrarão, embora uma esteja a dois canais de distância da outra. Mas ontem (12), a boa pauta sobre as previsões de astrólogos, numerólogos e afins, do CQC, deixou de comparar o vaticínio traçado pelas runas de que o Corínthians não será campeão das Libertadores (vamos cobrar, dona Bruxa), com a opinião de um especialista como Lédio Carmona, por exemplo, do SporTV. O cidadão que previu a morte de três políticos, em 2012, podia ser confrontado com uma lista que incluísse José Sarney, aquele ex-ministro do Turismo, Pedro Novais, e o Vicente Arruda, do PR-CE, deputado mais velho do Congresso, hoje com 81 anos. Mais atenção, Marcelo Tas.
Hoje, vou preferir a pauta do caderno Aliás, do Estadão, no último domingo (11/12), que não foi das melhores, mas tratou dos limites da faxina presidencial, da blindagem de Fernando Pimentel, do Código Florestal , da prisão do chefe da Camorra, na Itália, do bichinho enterrado vivo e do MMA, com ótima entrevista de Christian Carvalho Cruz, que eu não conheço, com o amazonense Wallid Ismail, lutador e dono do Jungle Fight no Brasil. Imperdível.
Lucas Mendes, você só está perdoado por ter me apresentado a jovem atriz brasileira, Morena Baccarin, no programa. Isso deixou o Diego Mainardi ainda mais confuso (ok, sabemos que ele grava num prédio flutuante do Grand Canal). Mas até o Correio de Lins (SP) do dia 11 lembrou-se de produzir uma grande matéria sobre o Dia do Palhaço, comemorado na véspera, e que você poderia explorar amplamente, tanto aí, quanto aqui.



