segunda-feira, 4 de junho de 2012

Toca Legião Urbana


É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã: nunca fui tiete do Legião Urbana (sou do tempo da Dolores Duran), mas achei o bárbaro o tributo que os remanescentes do grupo, Marcelo Bonfá e Dado Vila Lobos, acompanhados pelo Wagner Moura e pela imensa plateia de adoradores da banda prestaram a Renato Russo, nos dois shows promovidos no Espaço das Américas, em São Paulo, nos dias 29 e 30/5. Vi a gravação pela MTV, ontem, 3/5, no aquecimento ao MTV Awards, que é a praia do Charlie Sheen e do ex da Katy Parry (Russel Brand). Além de tudo, o tributo ao Legião trouxe a emissora de volta à vitrine da mídia, sob a batuta do mestre Zico Góes.  
Um tititi mal humorado circulou na rede com piadinhas do gênero “Wagner, como Renato Russo é um ótimo Capitão Nascimento”, mas ninguém de bom senso esperava um cantor afinado. O cara foi às alturas, como qualquer fã, e não comprometeu a usinagem do ator. Talvez tenha se emocionado um pouco além da conta, ao cantar a sua preferida Andrea Doria, mas no conjunto da obra, esteve impecável. Muito bom que as pessoas se lembrem de canções como Índios, Que país é este, Monte Castelo, Faroeste Caboclo, Eu sei.

Na manhã de ontem, depois de uma corridinha de domingo no parque, tive que virar a cabeça para ter certeza do que via e ouvia: um pai de classe média alta, presumo, acompanhado por um amigo, ensinava o filho, que aparentava uns sete anos, a ter atitude:

- É fácil fazer a bicicleta durar. Basta aprender a dizer não. Se você der alguma coisa, eles sempre vão pedir mais. São uns arrombados, uns fdap, têm que se f..., manda eles à pqp. O único jeito de as suas coisas durarem – repetiu - é nunca emprestar nem dar nada a ninguém.

Fiquei assistindo àquela cena, perplexo – eu, que não sou nenhum gentleman – e, enquanto os três se afastavam, notei uma grande estrela de David tatuada nas costas do suposto pai (ele estava sem camisa), o que me fez refletir sobre a ignorância e o ódio.
Pouco depois do parque, na domingueira lá de casa, minha filha e o namorado me contaram a seguinte história: na fila da reinauguração do Teatro São Pedro, com Eudóxia de Barros e Julio Medaglia, um desvalido lhes pediu um ingresso, depois de um breve relato de como a bebida lhe estragara a carreira na Música. Nesta, ele buscaria algum alento. Chorava, mas parecia sóbrio. Recebeu o ingresso. No meio da peça, levantou-se da poltrona e começou a gesticular e a esbravejar com algum inimigo imaginário, em altos brados. Foi retirado à força. A beleza tragada pelo vício.

Na mesma noite desse episódio, do outro lado da cidade, eu e Jack Daniels seguíamos a guitarra incandescente de Joe Bonamassa, que não conseguiu lotar nem a metade da casa em que encerrava uma turnê, iniciada há quatro meses, em Lisboa, Portugal. Bonamassa não fabrica fetuccine, como o nome sugere, mas já foi considerado, pela Classic Rock Magazine, “a melhor definição do Blues-Rock contemporâneo”. Circulam, sobre ele, baboseiras como “melhor guitarrista do mundo” ou “o novo Eric Clapton”. A caminho do meu show, que, aliás, estava repleto de pais quarentões e seus filhos adolescentes amantes de boa música, passei por um congestionamento-monstro, formado na porta de outro show, este do Fábio Júnior.

Tinha coisas piores acontecendo na cidade: fiquei com medo de ser confundido com material reciclável por algum voluntário da Virada Sustentável; pavor de encontrar alguém que quisesse comentar comigo a estreia de A Fazenda, de encontrar o Paulo Maluf no meio de um filme na TV, ou de dormir depois do almoço e sonhar com o Faustão, de cuecas, brigando com a Giselle Bundchen num Tribunal de Justiça. Na semana passada, tinha sonhado com um roda-viva formado pela Hebe, o Amaury Jr, o , a Marília Gabriela e o Da Tena, todos entrevistando o Zé Sarney.

Mas o mundo continuou girando como uma bola de espelhos, e refletindo: o garoto branco da costa leste cantando voz rouca do Mississipi; o bêbado que atravessou a Cerro Corá na frente do Júlio Medaglia; os bispos evangélicos marchando contra o fim do aluguel na TV aberta; a dúvida da Carol Portaluppi entre posar nua ou receber uma verba equivalente do papai Renato Gaúcho; os cascudos do MMA chorando feito criança; o Brasil perdendo mais uma para o México; o pibinho do Mantega; o naufrágio de mais uma CPI e a seca do Nordeste (138 municípios), chegando às manchetes, mas sem conversar com a Rio + 20, que começa na semana que vem.

Sunday, bloody sunday. Pelo menos, o autor da canção, embora ajude muita gente, está cada vez mais milionário, e na condição de irlandês, não precisa participar das homenagens à Rainha. Quanto a mim, resta o consolo de saber que os meus filhos me entendem (um pouco), talvez por terem ouvido, na marra, Crosby, Stills Nash & Young, (Ensine bem as crianças, o inferno dos pais vai logo desaparecer), muito antes da MPB da segunda geração. Mesmo assim, precisei do tributo ao Legião Urbana para resolver o meu domingo. Ave Renato Russo.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Português e Matemática

Carnaval x Quaresma, de Pietr Bruegel

Tem tanta coisa acontecendo, que a crise internacional e os sinais de fumaça que o ministro Mantega mandou para a Geral, lá do Planalto, vão se dissipando mais depressa que o enxofre e o CO2 que poluem o nosso ar. Querem ver? – O Pedro acordou. Bom para a família, ótimo para os jovens cantores sertanejos que agradecem às orações de milhares de fãs, todos os dias, pelos telejornais, mas para mim, que nem conheço o rapaz, o que mais significa? Segunda notícia: a rainha da Inglaterra visitou a feira de flores do Chelsea, em Londres, aquele bairro cujo time de futebol acaba de vencer a Liga dos Campeões da Europa. – Ok, mas quem vai comprar todas aquelas flores? – A Grécia?

Carlinhos Cachoeira não falou na CPI, outra informação do dia. Honrou o nosso acordo secreto de manter o meu post aí abaixo, “Fale com ela”, atual. Crônica que eu, erroneamente, havia datado. Ele não disse nada, mas a Xuxa foi convidada para depor numa outra CPI, depois de revelar, no último domingo, em cadeia nacional, ter sofrido abuso sexual na infância. Livrou-nos, com a sua coragem, de um grande mal: achar que havia alguma coisa errada no fato de ela não gostar tanto assim de companhia masculina, exceto a dos campeões nacionais, Ayrton Sena e Pelé. Não consultei a minha terapeuta para saber se esse reconhecimento me obriga a ver o programa da moça, nas tardes de sábado. 

Os 100 anos que Nelson Rodrigues faria, em agosto, ensejaram, com o perdão da palavra, uma boa crônica do chato do Arnaldo Jabor, um de seus melhores discípulos (OESP, 22/5/2012). Mais: a filha do Datena posou para uma grife de maiôs e o Paulo Coelho deixou-se fotografar ao lado da modelo tcheca Karolina Kurkova, em Cannes. Karolina, quando jovem, teve problemas com a própria altura, como Clint Eastwood, que resolvia o bulling da infância e da pré-adolescência (era magro e desengonçado) na base porrada.  “As coisas eram mais simples”, disse à revista Piauí deste singelo mês de maio. “Vivemos uma geração meio mariquinhas”.

Clint é um bom cineasta, como Jabor, mas não conseguiu emplacar o seu filme recente, J.Edgar (Hoover), com Leonardo di Caprio. Um produto que o crítico, Luiz Carlos Merten, do Estadão, gostou (“adoro quando diretores machos abordam o universo gay – batem duro, mas há neles uma compaixão pelo sofrimento que os diretores gays, como o Visconti, não conseguem ter, sem cair na autocomiseração”), mas considerou depressivo. “O homem que reformou o FBI, perseguiu obsessivamente o comunismo e chantageou poderosos, era apaixonado pela mãe e, sem sair do armário, destruiu todos a quem amou”. Mais: adorava fofocar e bajular as estrelas, segundo Don de Lillo, em “Submundo”,  livro que pode ter inspirado Eastwood.

Por falar em submundo, eu, que vejo o Datena, na Bandeirantes, no fim do dia, para renovar minha fé na Justiça, o vi recusar, no outro dia, uma reportagem que a Produção preparou com carinho, por considerá-la de muito baixo nível: “Homem decepa a orelha da mulher durante uma briga”, anunciou, constrangido, tendo desabafado, em seguida: “Eu me recuso a dar essa matéria”. Raramente se vê essa coragem, no jornalismo. Provavelmente, o Johnny Saad não assiste ao Datena. Está vendo, Edir Macedo, do que você se livrou?

Mas, voltando às celebridades e às definições de direita e esquerda, das quais tratou o Jabor, em seu artigo de hoje. No ressentimento do cineasta com a malhação de seus antigos parceiros ao filme Toda nudez será castigada (1973), parceiros estes que passaram a elogiar a obra, depois que a ditadura militar a proibiu, cabe um reparo: não é verdade que toda a esquerda da época tenha odiado Nelson Rodrigues, para incensá-lo só depois de sua consagração como artista.

Ainda garoto, tive o privilégio de trabalhar a duas mesas de onde o Nelson costurava suas crônicas, na redação de O Globo. De fato, nunca lhe dirigi uma palavra. Mas tive a decência de me reconciliar com ele e de reconhecer o seu gênio imediatamente depois de começar a ler suas obras, que, até então me haviam sonegado. Quem me conhece de perto sabe a fórmula antipreconceito que usei, ao educar os filhos, mais tarde: “Eu podia ter aprendido muito com o Nelson, mas nunca me atrevi a tentar, por causa de um preconceito idiota”. 

Como as bruxas existem, recebi, justamente hoje, uma dessas bobagens da Internet, classificando comportamentos de direita e de esquerda, o que serviu para reviver discussões saudavelmente idiotas de um grupo de amigos, de diferentes culturas, que se reúne de vez em quando, como um filme de Monicelli. Havia, claro, no material, clichês republicanos e esquerdistas, pequenas crueldades e até algum humor , mas o pior é que ele chegou a suscitar uma discussão séria sobre o que é progressismo e conservadorismo, hoje: de um lado, o humanismo carola dos herdeiros de Kant,  disfarçado de consciência ambiental, de outro, a ética do indivíduo, baseada no saudável niilismo nietzcheano. Parecia uma preliminar do Cigano contra o Frank Mir. A essa altura, alguém teve o bom senso de propor que a conversa continuasse num bar.

Enquanto isso, resolvi mandar, ao grupo, os seguintes trechos de um artigo do Tomzé com a melhor definição de direita e esquerda que li ou ouvi, recentemente:
“Em Irará aprendia-se também a tabuada. A tabuada era mais misteriosa do que aqueles navios que não tínhamos onde atracar, mais enigmática do que os infiéis que precisávamos expulsar. Era uma experiência dolorida. Oito vezes sete, 56. Eu me perguntava: "Quem pode, de sã consciência, provar que oito vezes sete é 56?" Oito vezes cinco, 40, oito vezes seis, 48. Um dia, me perguntei, com medo da resposta, quanto era dez vezes dez. Dizia para mim mesmo: "Ai, minha Nossa Senhora, aí vai ser um inferno completo". Quando a professora respondeu "cem", tive um grande prazer. Pensei: Deus está bem intencionado com a humanidade, Deus está olhando pelos seus filhos, pelas suas criaturas.

Para mim, a grande criatura era o alfabeto. A mãe até ensinava, desavisada, antes que entrássemos na escola, que "b" e "a" davam "ba", "b" e "e", "bé", "b" e "i", "bi". Mas, e para entender o que era isso? Quando janeiro chegou, e comecei na escola, com meus oito anos recentes, a professora mandou ler em silêncio, e eu nunca pensei que aqueles sinais podiam transmitir coisas tão exatas como aquele texto. O texto dizia que um aluno, colega nosso, tava com um problema em casa, e então pedia licença à professora para ir para casa. Nossa Senhora, era um verdadeiro assombro! Olhei para o lado, sem acreditar que todo mundo estava vendo o aluno pedir à professora para ir pra casa, se levantar, fazer esse gesto que movimenta milhões de músculos. Eu desconfiava que aquilo, aqueles sinais, não eram capazes de transmitir a todo mundo igual ao que eu estava entendendo”.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Fale com ela

Possivelmente, os solertes assessores de Carlinhos Cachoeira lhe tenham sugerido, neste momento, comunicar-se com a sociedade – à qual ele, ultimamente, tem se furtado – por meio de sua face mais sensível, a noiva Alessandra Mendonça, que enfeita a edição de hoje (27/4/2012) da Folha de S.Paulo (foto). Por meio dela, ele manda dizer ter operado legalmente seus caça-níqueis durante dez anos, sendo visto “lá fora” como um empresário da indústria de entertainment, e não como bicheiro, além de “estar batalhando” para legalizar a sua atividade no país, “em tempo de as pessoas que virão para a Copa e para as Olimpíadas terem algo para fazer no Brasil”.

Ninguém, claro, nem a repórter da Folha (Cátia Seabra), que fez a entrevista com a face suave de Cachoeira, teria coragem (não é bem o termo) de confrontá-lo via essa porta-voz, questionando seus métodos, contatos, esquemas, falcatruas, desvios e fraudes, entre outras acusações que lhe pesam. O núcleo da entrevista, voltado ao ciclone inquisitorial que, como outras vezes, assola a capital da república, na maioria delas, sem outras consequências, além do alarido da imprensa, foi o potencial destrutivo do depoimento que o empresário, com base em seus arquivos dos porões da República, deve fornecer à CPI, dentro de alguns dias ou semanas.
Afora as consequências que a construtora Delta vem enfrentando, assumidas pelo Palácio do Planalto no início do escândalo (a família Cavendish não pode mais desfilar de Ferrari na Barra da Tijuca), e da lama respingada em políticos, tanto da situação, como o governador do DF, Agnelo Queiroz, como da oposição, como o senador goiano Marcone Perillo (Demóstenes Torres voltou a circular com desenvoltura pelo Congresso, nesta semana), dificilmente todo esse vendaval vai provocar grandes abalos na estrutura do poder, ou ameaçar a governabilidade, embora tenha se tornado mais um incômodo para a presidente Dilma que, para alívio de seus eleitores, tem pouca afinidade com o trato da coisa política, esse animal pegajoso, que se mexe lentamente, tem longos tentáculos e fortes anéis para asfixiar as mais nobres pretensões.

Às vésperas da Rio+20 e nas barbas do relatório da respeitada associação científica Royal Society, informando que o consumo excessivo em países ricos e o rápido crescimento populacional nos países mais pobres precisam ser controlados para que a humanidade possa viver de forma sustentável, fomos todos derrotados na votação do Código Floresta desta quarta-feira (25/4), todos, inclusive, e talvez principalmente, os ruralistas. A presidente Dilma anunciou ontem (26/4) sua intenção de vetar a anistia aos desmatadores das áreas de preservação permanente, reservas legais e matas ciliares. Se a ex-ministra Marina Silva conseguir falar com ela, talvez o projeto seja integralmente vetado.

O relatório da Royal Society será um dos referenciais para as discussões da Rio+20, cúpula que acontecerá na capital fluminense em junho próximo."Este é um período de extrema importância para a população e para o planeta, com mudanças profundas na saúde humana e na natureza", disse John Sulston, presidente do grupo responsável pelo trabalho. "Para onde vamos depende da vontade humana - não é algo predestinado, fora do controle da humanidade”, assinalou. “Nosso destino está em nossas mãos". John Sulston ganhou renome internacional ao liderar a equipe britânica que participou do Human Genome Project, projeto responsável pelo mapeamento do genoma humano.
Em 2002, ele foi ganhador, junto com outro cientista, de um prêmio Nobel de Medicina, e hoje é diretor do Institute for Science Ethics and Innovation, na Manchester University, em Manchester, na Inglaterra.

O conselho da ex-ministra Marina Silva (20% dos votos do primeiro turno das eleições de 2010, traduzidos em quase 20 milhões de brasileiros) em seu artigo de hoje (FSP, 27/4) começa afirmando que algo está muito errado quando a maioria dos parlamentares, na contramão da vontade da maioria da sociedade, prefere um modelo de desenvolvimento que, em razão do lucro rápido, compromete o futuro do próprio país. Marina afirma que o texto do projeto tido como consenso já ignorava o parecer dos cientistas sobre o tema e que, em nome desse consenso, as lideranças dos diferentes partidos classificaram como “radicais” as críticas que defendiam salvaguardas capazes de garantir a qualidade de vida das gerações presentes e futuras.

Termina propondo que o Brasil seja, para o século 21, o que os Estados Unidos foram para o mundo no século 20. “São necessárias visão antecipatória e determinação de perseguir nosso destino de grande potência socioambiental”, ela diz, lembrando não ser fácil fazer a melhor escolha e que é na pressão dos grandes dilemas que se forja a têmpera dos que fazem a história avançar. Esquece-se, porém, a cara Marina Silva, em que país estamos e até que ponto avançamos, na história: não é por acaso que os nossos principais acidentes geográficos, hoje, são uma delta e um cachoeira. Foto: Lula Marques (Folha press)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Erudito popular



Marie Rucki, do Studio Berçot -Paris, ajudou a formar a rapaziada que hoje faz sucesso nas passarelas: Regina Dabdab (acessórios), Alexandre Herchcovitch, Orcimar Versolato, Glória Coelho, Reinaldo Lourenço, Marcia Gimenez. Francesíssima, gostava de chocar a burguesia com suas incursões ao Mappin, depois 25 de março, que sempre rendiam: informação, critério, estilo. Ela podia. Ela fazia.

De quebra, derrubava tabús, mostrava o que é Arte, e educava para a vida, como uma Nani McPhee daqueles garotos mimados, frágeis e arrogantes como o graveto de Kwai Chang Cane, personagem de David Carradine em Kung Fu, a emblemática série dos anos 70. Rucki mostrava como é enganadora a distância entre o erudito e o popular, independentemente do ângulo do qual se observa: o de Nazareth, Villa Lobos ou Jobim, o de Suassuna ou o de Câmara Cascudo, o de Machado ou o de Millor, no caso, sobre o subúrbio onde um dia vivemos. Uma cor, um acessório, um tecido, um jeito, e lá estava a composição. Somos o vaso que transforma, ela dizia.

Ontem (18/4), o Globonews em Pauta, que é um bom programa, recebeu o cantor sertanejo João Paulo e Daniel, sem o João Paulo, evidentemente, que já faleceu, mas que passeou pelos bastidores o tempo todo, como um Hamlet (pai). O tema central foi a tautologia de sempre, em forma de dicotomia entre erudito e popular, a elite e o povo, com seus falsos axiomas, ilustrados pelos clássicos questionamentos: Por que Era uma brincadeira, do Peninha, teria ficado de outro jeito, na voz de Caetano, sendo a mesma canção?


Tudo bem que a TV não discuta o controle da natalidade (planejamento familiar) em vez do aborto de anencéfalos, e que não relacione isso à oferta do diesel S50, nem à usina de Belo Monte, tudo bem. Ninguém vai falar dessa maneira, num país católico (evangélico?). Político que faça da Constituição a sua Bíblia, aliás, só em filme do George Clooney, como Ides
of March
, no qual, o personagem acaba papando a estagiária, e descendo a cachoeira numa aliança pragmática que lhe trará o delta necessário à vitória nas eleições.

Mas a TV poderia patrocinar uma discussão menos desinteressante sobre esses temas de cultura. É o mínimo que se poderia esperar do canal que nunca dorme, como o Fantasma, de Lee Falk, que ajudou os avós da emissora a se tornar a Vênus Platinada (O Globo e RGE), como O Espírito que Anda, às vezes Mr. Walker, amigo dos pigmeus Bandar, do lobo Diabo e do cavalo Herói.

O Globonews Em Pauta é uma boa idéia, mas, como tudo, na TV, fica sempre devendo ao espectador (influência pavloviana do Boni), porque é impossível combinar uma entrevista leve com o noticiário pesado que se comunica com o JN (no mesmo horário), mais os pitacos dos correspondentes. Na entrevista de ontem (18), o moço da cueca, que já gravou álbum só de moda de viola, teve o bom senso de destacar: “Música (leia-se Arte), independentemente de gênero, merece ser ouvida, desde que bem feita”. Estão aí o Nelson Mota, o Fernando Faro, o Zuza Homem de Mello, que não nos desmentem. Eles e os pesquisadores das dinastias Boscoli & Mariano, além do Tim Maia, vendido até julho deste ano.

No outro dia, um sábado, quando eu chegava ao Ceasa, o Milton Parron (rádio USP) colocou no ar uma reprodução feita por um fã durante um show de Nelson Gonçalves, em Natal-RN (não me lembro em que ano) no qual os músicos tinham dado um bolo. Ele cantou, sem usar sequer uma caixa de fósforos para marcar o ritmo: A volta do boêmio (Adelino Moreira), De quem eu gosto (Maximiano de Souza) e Naquela mesa, do Sérginho Bittencourt, que me deu saudade do filho que se foi para o Rio de Janeiro. Não arredei pé enquanto a música não acabou.

Não existe pecado. Tenho um CD dos tempos de Rhodia, gravado sob a marca de um defensivo chamado agrotóxico, que ainda me emociona: Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Milionário e José Rico, Tião Carreiro e Pardinho. Tem deliciosas interpretações de O Rei do Gado e de O Rei do Café. Isso não quer dizer que eu seja obrigado a curtir Vitor e Léo e Paula Fernandes. São artistas, que o deus Pan os proteja sempre, assim como a Ivete Sangalo e a Claudia Leite, a Gretchen e a Chico Buarque. Mas eu quero poder ouvir o Tannhäuser und der Sängerkrieg aus Wartburgs sem ser chamado de elitista. Afinal, até o céu perdoou o menestrel em questão.

Só acho que, enquanto Millor e Chico Anísio não viram uma dupla de comediantes que viveu há alguns anos, fazendo shows na boate Sucata e trocando de namorada enquanto moravam no mesmo apartamento do Leme, a gente, da indústria cultural, podia dar uma carona de elevador, de vez em quando, ao pessoal do Edifício Master, tentando, digamos assim, aumentar a diversidade do país. À geral seria franqueada a faculdade (entre tantas, que ainda funcionam por aí) de pinçar, aqui e ali, uma cor, uma frase ou uma bolsa, como as de Marie Rucki, para enriquecer as nossas tramas e texturas, a cada dia mais cinzentas.
No próximo episódio, como digerir uma empadinha que pode ter sido um deputado.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pescaria

Piau, homônimo do novo relator do Código Florestal (foto: www.lucianocandisani.com.br)

A votação do Código Florestal me trouxe memórias da infância: tira, põe, deixa ficar. Enquanto eles jogam caxangá, o produtor cabeçudo mete a corrente na mata ou destrói os manguezais, e os que têm consciência pagam, com os efeitos do clima. Acampei na Vargem Limpa, em Bauru-SP, quando era garoto. Hoje só resta, no local, a sede de um zoológico que lembra um circo falido; acompanhei, como repórter, a fundação de Terra Nova (MT) por posseiros expulsos de terras guarani, em Nonoai (RS) e Chapecó (SC); entrevistei, várias vezes, os irmãos Villas Boas, em aldeias indígenas; casei-me com a filha de um ex-fazendeiro, tenho amigos produtores e vejo o Globo Rural todos os domingos (um dos poucos programas jornalísticos que resistem, na TV aberta). Mas me dói ver a ganância avançar, inapelavelmente, sobre o que nos resta de recursos naturais, diante de um governo que se mostra, ora complacente, ora incapaz.

“Vamos nos falando”, diz a namorada ao garoto que não pretende ver nunca mais. A hipocrisia dos ruralistas em relação ao projeto do Código é mais ou menos a mesma. O projeto aprovado em novembro, com várias concessões da base de apoio do governo (na época, liderada pelo atual ministro do Esporte, Aldo Rabelo) foram muitas. De nada valeu o capital político acumulado pela ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, nas eleições presidenciais, na resistência a esse modelo. O projeto foi engolido, com todas aquelas mudanças, tanto por ambientalistas, como pelas “pessoas normais”. Com as reformas que o atual relator, deputado Paulo Piau (PMDB-MG), apresenta agora, o novo Código não tem chance de ser aprovado, e o governo, com toda a sua visão desenvolvimentista, sabe disso.

No último Globo Rural (o programa), a matéria central falou do tambaqui, cujas costelas eu e o Corá costumávamos assar na brasa, antes que o peixe desaparecesse do seu habitat natural (o Corá também se foi, infelizmente, há um ano); e do pirarucu, que fornecia o melhor filé de peixe de água doce que se podia encontrar, antes da espécie estar ameaçada de virar mais um zumbi, como a repórter explicou (em outras palavras, é claro). Piscicultores e zootécnicos já estão conseguindo “enganar” o pirarucu, a fim de promover a sua reprodução em tanques artificiais, o que deve gerar alguma coisa que poderíamos situar entre o chester e o kiwi. Ração gorda e águas tranqüilas: quem pode resistir?

Quanto ao piau, gosta de queijo, milho e salsicha, segundo os especialistas. Trata-se de um peixe muito arisco e difícil de ser fisgado.Mas já pode ser encontrado em alguns pesqueiros, de acordo com os sites de pesca. Não se sabe por quanto tempo vai resistir, em seu ambiente natural. Poderíamos perguntar ao ministro da Pesca, Marcelo Crivella, do PRB, o sobrinho-herdeiro do bispo Edir Macedo, mas ele já disse que não sabe nem botar a minhoca no anzol. Não se sabe que tipo de isca teria convencido o relator do Código Florestal, Paulo Piau, a endossar as novas demandas dos ruralistas, mas se ele for arisco como a espécie da qual leva o nome, bastará uma lente de aumento sob o sol para fazê-lo mudar de idéia.

Nos últimos dois dias, contudo, a grande preocupação nacional tem sido a falta de combustíveis na cidade de São Paulo, palco de uma outra disputa, que não esconde o embate entre o projeto de poder do governo petista e uma oposição que não pode abrir mão do seu principal núcleo de resistência, o Estado mais poderoso do país.

Nos telejornais de hoje (7/3), além da falta de gasolina, o fato do dia foi a briga do Beto Barbosa com suas duas acompanhantes, que foi parar numa delegacia do Campo Belo, bairro nobre da Capital. Nos sites de conteúdo, a cobertura do esporte e do Big Brother deu espaço ao Dia Internacional da Mulher. Nos jornais, uma outra disputa, entre a Fifa e o governo brasileiro, continuou repercutindo, embora o principal assunto fosse, mais uma vez, o PIB e a guerra cambial.

O Banco Popular da China prometeu ampliar seus investimentos em euros para ajudar os países da Europa a sair da crise. Como é que eu, na minha juventude maoísta, poderia pensar nisso? – O meu vizinho chinês, a propósito, trouxe os pais para morar com ele. Com o casal, um novo chow-chow que, em companhia do primeiro, interdita o elevador de serviço sempre que os dois têm que sair para fazer xixi. No elevador do escritório, fico sabendo que o produtor francês de beterraba decidiu investir na cana brasileira, outro aparente contrasenso.

No Manhattan Conection, Diogo Mainardi qualifica de perfeitos imbecís os blogueiros que, segundo ele “estão pautando a imprensa”. - Será que ele se refere ao bate boca entre o Paulo Henrique Amorim e o Heraldo Pereira? - Bem, polêmicas e convicções à parte, para o Diogo, perfeito imbecil é todo aquele que não pensa exatamente como ele. Rapaz solitário? –Vocês não conheceram o pai do moço, o publicitário Enio Mainardi. Para o crente, a propaganda religiosa é profissão de fé. Para o louco de amor, rejeição é perfídia. Para o militante político, loucura é paixão. Jerome Valcker ou Aldo Rebelo? - Borges ou Cortazar, pode ser? – A propósito dos argentinos, será que a presidente Cristina Kirchner vai mesmo proibir a importação de consolos masculinos?

Voltamos ao câmbio valorizado: ele vai promover, afinal, a desindustrialização de países emergentes, como o nosso, uma transição de nossa economia para o setor de serviços, ou apenas um impacto que,a longo prazo, que precisa ser analisado? – Perguntas dizem mais do que respostas, como assevera a Globonews? – Ei, Guto Abranches (apresentador do programa Conta-Corrente), que tal trabalhar com a Denise Barbosa (ex-Bloomberg), ela no estúdio da BM&F Bovespa e você, no Jardim Botânico? – Difícil?

Pergunta mais fácil: - Afinal, o crescimento do PIB brasileiro, de apenas 2,7% da meta de 4,5% deve ser considerado como um bom resultado, em vista dos 7,5% de 2010? – O carro brasileiro é melhor que o sapato chinês? – Bem, para a CNN, o efeito da crise na Europa (lá, não se fala em crise nos EUA) e a queda da demanda chinesa respondem pela menor expansão do nosso GDP (Gross Domestic Product). Nenhuma palavra sobre a competência da indústria local, nem sobre o peso de nossos impostos. Eles têm mais o que fazer, não vão ficar discutindo ninharias.

Sempre que assisto à CNN, sofro um choque cultural: mudo de canal no intervalo das notícias, no meio de um anúncio de diamantes azuis, e caio no programa político obrigatório do PRB. Mudo de novo, e lá está o Nelson Rubens, do TV Fama, anunciando pomada contra a micose. Outra vez, e caio no Jornal da Record. Ok, pode ser que a Ana Paula Padrão, entre um editorial sobre o MMA e uma reportagem sobre as futuras Olimpíadas de Londres, fale do Código Florestal.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Apocalipse bonsai


Agonizar não é morrer; a Mangueira fez o meu sonho acontecer; o povo não perde o prazer de cantar; respeite quem pôde chegar onde a gente chegou. A imagem vem de Chico Buarque, mas na boca do povo, vai além das vaidades e dos cansaços, traz uma emoção genuína. O problema é a cobertura do show, difícil de se engolir, este ano. No desfile das ilhas, por exemplo (a daqui e a de lá), o narrador informou que a tatuagem dos celtas de uma determinada alegoria tinha sido criada pelo carnavalesco da escola(!).Em seguida,explicou que os sujeitos verdes que passavam eram druidas. Nenhuma palavra sobre a relação entre o antigo povo guerreiro e seus sacerdotes. Pergunto: - Na cabine da TV, eles não recebem um papelzinho?
Mais adiante, a âncora esportiva que gosta de carnaval teve dificuldades em reconhecer as personagens de O Mágico de Oz: chamou o Leão Covarde de leão (simplesmente) e ficou em dúvida se a bruxa era do Norte ou do Centro-Oeste. Melhor chamá-la de bruxa. Ok, a gente entende que a analogia mais fácil do Carnaval, para os diretores da Globo, leva ao Esporte (pessoas se mexendo), o que requer narradores capazes de “levantar a audiência”. Fiquei com saudade do Caio Blinder, que costuma estudar todas as suas pautas, como um asiático em Harvard. Nada contra Harvard, muito menos contra os asiáticos, embora a China esteja esmagando a nossa indústria.
Para mim, ficou a impressão de que os veteranos, tanto os ex, como os atuais da velha senhora, que eram capazes de segurar 10 horas de cobertura, não agüentam mais essas pedreiras. Azar o nosso. Não é pecado pretender que o desfile do ano que vem seja transmitido pela dupla Maria Beltrão e Flávia Oliveira, que também são da Casa. Mesmo que as duas estejam de ressaca, como se apresentaram, na última terça-feira (21/2), falando e dando conselhos sobre a própria rebordosa.
Uma das poucas coisas que me fazem falta, dos meus tempos de Rio de Janeiro, aliás, são as discussões de rua sobre a disputa entre as escolas, no dia seguinte ao desfile, como a que foi protagonizada pelas duas moças acima citadas, no Estúdio i de 21/2. Principalmente quando a conversa persegue detalhes como o casal de mestre-sala e porta-bandeira realmente casado ou a cadência de cada bateria, a Vila Isabel mais andante,a Mocidade, vivace.Também se comenta o coreógrafo romeno fantasiado de alma de sanfona,o carnaval espetáculo de Paulo Barros e a fantasia de medos infantis da Grande Rio, expressões intraduzíveis para os gringos que se aventuram na Sapucaí.
Os estrangeiros também não entenderiam o assalto de traficantes do morro de São Carlos a componentes da Beija Flor durante o desfile da Vila Isabel, mas eu, mesmo sendo brasileiro, também não consegui absorver o atropelamento de uma criança de 3 anos por outra, de 14, numa praia de Bertioga-SP. E nem as cenas da apuração do carnaval paulista, no Anhembi. São Paulo não pode não ser o cúmulo do samba, como disse o Tuty Vasques, mas precisa cuidar de sua imagem. Há um contraste evidente entre a natureza do show, no compasso da mulata, e o espírito de guerra das torcidas.
Por se falar em guerra, lamento a morte dos jornalistas Marie Kolvin e Remi Ochlik, na Síria, que vem se tornando uma Sarajevo, principalmente pelo que essas mortes representam: vitória da selvageria sobre a tosca, parca vigilância da civilização sobre a barbárie. Você pode torcer pelo Vasco, aceitar a dominação colonialista como um pedaço da História ocidental, acender uma alma pelas velas, pagar o dízimo aos bispos Estavam Fernandes ou Edir Macedo e até votar no PT acreditando estar contribuindo para reduzir a distância entre a classe trabalhadora e a elite dominante.
Mas não pode dormir tranqüilo sobre o sangue da truculência, dominação e intolerância. Se fizer isso, com certeza, vai ser chamado de covarde ou otário, coisas que o Deividi, do Flamengo, abomina, como declarou, após perder aquele gol na quarta-feira (22), responsável pela classificação do Vasco para a Taça Guanabara. No próximo gol que ele fizer, deve colocar a mãozinha em concha no ouvido, como fez o Jadson, depois de converter um pênalti para o São Paulo, contra o Bragantino, na mesma quarta-feira (22), tendo perdido um outro pênalti contra o Corínthians, no último domingo (19).
Imitando Eugenio Bucci, no Estadão de ontem, aproveito este espaço para cumprimentar Alberto Dines, um de meus mentores, por seus 80 anos, e por conservar , em seu espírito, as flores frescas da ética, da dignidade e do respeito, tão raras, atualmente, talvez porque a minha geração não as tenha protegido devidamente, ao lutar contra o fanatismo, o preconceito e as falsas morais, em nome da liberdade. Talvez isso explique tantos bêbados no trânsito, o descuidado com a infância, a corrupção dos costumes e a decadência da justiça, arautos do nosso apocalipse bonsai. (imagem: adobonsai.com)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sacola na mão




Quando eu era garoto (claro, às vezes, ainda sou), uma das minhas principais crueldades era amarrar uma linha de náilon entre o arbusto da nossa calçada e o muro, com uma lata cheia d’água, e esperar as pessoas que voltavam da venda, à noitinha, com as sacolas carregadas de compras. Nem tudo era embalado em filme poliéster, como hoje. Causávamos muito desconforto e prejuízo, eu e os outros garotos da rua. De vez em quando, levávamos uma carreira de alguma vítima mal humorada, mas até essa adrenalina fazia bem: ninguém tinha skate ou esqui. Nosso rafting era um carrinho de rolimã, e o nosso rapel, as árvores dos vizinhos. Não havia videogame, nem palestras sobre A Família e a Contemporaneidade, do doutor José Ottoni Outeiral, para discutir a desinvenção do brincar.
Numa comedia recente do Adam Sandler, Grown Ups, falando de um reencontro de velhos amigos, um dos filhos do personagem chama a babá, que está na cozinha, por SMS; quando ela chega, reclama que o chocolate quente não é Godiva: “Você quer me matar?”, diz. O filme expõe o seqüestro da molecagem pelo consumismo exacerbado e pela inflação da tecnologia, tendo, como pano de fundo, a fixação dos adultos na adolescência. Mas é só um caça-níqueis, e logo se despede das discussões desagradáveis, ao exibir crianças momentaneamente esquecidas de seus tablets e smartphones, descobrindo como pode ser divertido jogar pedras no lago onde foram obrigadas a passar aquele 4 de julho (Lago Winnipesauke, New Hampshire –EUA).
No meu carrinho de rolimã, a melhor parte vinha antes: percorrer as oficinas do bairro; convencer o mecânico brucutu a entregar um bom rolamento a um moleque metido a besta; encontrar a peça num monte de porcarias cheirando a ferrugem, limpá-la com querosene preto de graxa, lubrificá-la com óleo de cozinha e depois, fazê-la girar até zumbir, num toco de pau. A segunda melhor parte era conseguir o caixote, desmontá-lo, ganhar ou roubar um eixo de madeira do tamanho de um punho cerrado, serrá-lo, furá-lo no meio, arranjar um parafuso de cama com, no mínimo, doze centímetros de comprimento e, finalmente, montar o modelo, com um pedaço de pneu na ponta do freio. Eu não gostava de fazer pipas, mas fabriquei alguns desses carrinhos; vendi jabuticaba e fiz estilingues/atiradeiras, além de ter pintado camisetas de protesto, nos anos 60. Os americanos vendiam refresco na calçada. Lucy, dos Peanuts, tinha uma banca de Psicanálise da qual saíram alguns dos melhores conselhos que já li ou ouvi.
Nem tudo era paz e amor, naqueles anos: quando Guevara virou bandeira, eu o desenhei com carvão na parede da sala de aula, que fui obrigado a pintar, no fim de semana, em troca de não ser expulso da escola.Não apareceu nenhum otário para cair no conto da cerca do Tom Sawyer. Anos depois, quando o meu filho quebrou todas as lâmpadas do corredor de uma escola particular, foi suspenso por três dias, sem nenhuma atividade pedagógica.
Na minha adolescência, além dos atos de vandalismo, montei socos ingleses na oficina de cadeiras de cano e plástico do pai de um amigo. As gangs sempre existiram, mas os nossos confrontos nos bailinhos da época só viraram moda depois de Rebelde sem Causa, de 1955, também conhecido como Juventude Transviada. Brigávamos entre nós (melhor que bater em mendigos), mas o meu soco inglês já nasceu relíquia -nunca foi usado. Alguns de nós usavam canivetes, mas só me lembro de uma vítima, em toda a nossa West Side Story.
Além do conflito de gerações, a guerra-fria, o marketing e a cultura pop, o pós-guerra nos trouxe a capacidade de unir, quimicamente, partículas de alto peso molecular, denominadas monômeros, formando os famosos polímeros, nos quais a humanidade encontrou uma fonte inesgotável de utensílios: de parafusos a painéis de construção, tubos, tecidos e carcaças automotivas, brinquedos de gente pequena e de gente grande, entre eles, as conhecidas sacolas de supermercado que, depois de meia noite, se transformam em lixinhos de banheiro.
Quando se fala em scolas de plástico, essa pauta que não sai da mídia (observação de Hélio Schwartzman, na FSP), penso nas armadilhas da minha infância, mas também nos chapeuzinhos de jornal que um senhor ensinou a fazer, no jornal Hoje da TV Globo, para abastecer os tais lixinhos de banheiro.
– Quem é que vai colocar jornal no lixo do banheiro? – perguntou uma senhora, na fila do caixa do mercado. – Depois que uma dessas especialistas aconselhou as pessoas a trocar os saquinhos de lixo da pia por caixinhas de tetrapack – acrescentou (textualmente) - eu perdi as minhas ilusões. – Que especialista é essa, que não sabe que tetrapack é pior que plástico? De fato, pensei com meus botões. Até as pedras sabem disso, como diria o ministro do STF, Gilmar Mendes, falando das corregedorias de Justiça.
- A gente se habituou à sacola da feira, - disse uma outra, em tom conciliador. – Vamos acabar nos acostumando de novo à sacola do mercado. Concordo com ela. Também me considero um sem-sacola, porque, embora reaproveitasse caixas de papelão descartadas pelos próprios supermercados para trazer as compras, tive que deixar de usá-las por causa da súbita explosão da demanda.
A propósito disso, as animadoras de programas femininos e as produtoras do GNT estão todas de acordo: a sacola retornável voltou à moda. Ok, mas de que tipo? – Eis aí, uma pauta para o Fantástico. Será que a Veja falou a respeito? (há tempos não leio Veja). E as revistas femininas, que nunca vejo? – Já compararam estilos e preços? – Vamos de bolsas adornadas de franjas e fios de ouro, como as da Antiguidade, ou de mochilas indígenas, como aquela moda dos anos setenta, de carregar os filhos nas costas? – Alforjes, cestas de vime ou sacolas de lona verde, com um look militar?
Ensina o nosso oráculo contemporâneo, lá pela quarta ou quinta página de consulta, que os grupos pré-históricos eram nômades e se deslocavam, conforme a necessidade de obter alimentos. Como já haviam descoberto que a pele dos animais servia para proteger o corpo, podem ter desenvolvido também um sistema de receptáculos para carregar e proteger suas caças. Daí a presença de bolsas a tiracolo em desenhos rupestres que datam da pedra lascada (40 milhões anos A.C.).
Nesse aspecto, portanto, estamos voltando à pré-história. Mas, se não há outra solução, porque não mudar? Já nos acostumamos às bicicletas de Moema, no fim de semana. Podemos aproveitar essa onda para transformar outras atitudes e hábitos urbanos que nos incomodam.
Podemos, por exemplo, boicotar os comentários do Neto nas televisões dos restaurantes do bairro, na hora do almoço; obrigar os âncoras do telejornalismo, em geral, a serem menos enfezados (começando pelo Bonner e pelo Boechat; o Celso Freitas só faria algumas seções de fonoaudiologia com o Anderson Silva); executivos que trabalham de gravata não poderiam mais usar cabelo de moicano; parar em fila dupla reduziria as notas dos alunos das escolas particulares; transportadores de valores não poderiam almoçar dentro de seus veículos parados com o motor funcionando, ou o diesel teria que ser mais limpo; cada música romântica e popular que tocasse no rádio (incluindo as do Wando e das afilhadas do Caetano) obrigaria a emissora a compensar o público com uma ária de Puccini ou uma sonata de Bethoven. Quando tudo isso for providenciado, prometo comprar, na segunda-feira seguinte, uma sacola retornável de algodão cru, com uma estampa bem ecológica em silkscreen do lado de fora.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Casa Vogue contra TV Brasil e Veja



A semana na TV começou com uma boa entrevista de Júlio Medaglia, na Cultura. Ele gravou a data, 5 de março de 1956, em que decidiu comunicar ao pai que seria músico: esse foi o desfecho do programa, chamado Ponto de Virada, depois de ter marcado o início de uma bela carreira. O maestro recomendou aos jovens com talento que se aferrem às suas metas profissionais como fanáticos, porque a felicidade, ou boa parte dela, se esconde no fazer aquilo que se gosta. Foi bom lembrar como se davam as relações entre pais e filhos, na época, o dele querendo vê-lo como herdeiro da Comercial Peças Automotivas, que ficava na Pompéia, engenheiro ou dentista.



Medaglia ensinou aos técnicos das Secretarias de Cultura como programar concertos públicos usando peças mais curtas, já que as sinfonias, por demorarem a desenvolver uma idéia, não combinam com o ambiente caótico das cidades; arrasou, numa frase, o hip hop que eu sempre temi criticar, com meu esquerdismo, lembrando a vasta e profunda cultura musical do negro brasileiro (desde Carlos Gomes), que está sendo jogada no lixo em troca de uma cultura importada de um negro “perdedor” norte-americano (em detrimento do jazz). Constatou, como aqui tenho feito, timidamente, a decadência da cultura “ocidental”, na ponta oposta do avanço tecnológico: ipods não tocam Keith Jarret.


Agradeço a entrevista de Medaglia aos dias de amenidades no primeiro mundo, como as eleições norte-americanas e a crise na Europa, que me permitiram assistir, sem problemas, aos noticiários da BBC e da CNN, com seus divertidos comentaristas ingleses tentando falar como norte-americanos (na CNN) e norte-americanos com sotaque de Boston (na BBC). As notícias de esporte não são como as daqui: existem, é claro, as transferências milionárias de jogadores de futebol, e a cobertura do campeonato inglês (como aqui), mas também se ouve falar do aberto de tênis na Austrália. Nos últimos dias, eu não podia mais com a linguagem paroquial do JN e sua cobertura emocionada das enchentes. A Globo podia contratar o Gugu.

Na semana anterior, o que mais me chamou a atenção não foi o desmoronamento da fachada da Justiça, liderada pelo augusto ministro do STJ, Marco Aurélio Mello, nem a empáfia daquele outro cidadão que atravessou a cidade tomado por um surto e depois jogou suas tentativas de homicídio nas costas das vítimas; nem as implosões frustradas da Favela do Moinho e da Cracolândia, ou a história da mulher que dizem ter matado 39 animais domésticos, entre cães e gatos. O que mais me impressionou, na semana passada, na TV brasileira, foi uma reportagem sobre a casa da Malu Mader e do Tony Bellotto.

Não era um desses programas de celebridades ofertados à nova classe média, nas tardes de domingo. Era uma produção voltada à nova classe alta: refinada, com belas imagens, sequências e planos, travelings perfeitos e entrevistas inteligentes, tudo costurado pelo trabalho de dois arquitetos talentosos: um escritório, uma casa na montanha, um apartamentão na cidade; depois, a casa de um deles, num pequeno e velho edifício de três andares, no Rio, cuja intimidade foi protegida por uma parede de orquídeas, na varanda, e a luz, roubada do céu por meio de um teto de vidro, num trecho do living. Deve ter dado uma boa briga com o condomínio.

Programas de arquitetura e decoração estão em voga, como os cadernos de culinária e os espaços gourmet, as novas pragas modernas. Com mais alguns naufrágios de transatlânticos conduzidos por italianos amigos e caos aeroportuários, temo que as pessoas nunca mais saiam de suas tocas e carros blindados.

Malu Mader confessou, na entrevista, que não gosta de apartamentos e sonhava reconstruir o paraíso perdido de sua infância: a casa de avó, no interior, onde sempre havia alguma coisa cheirosa saindo do forno (madeleines inesquecíveis, diria George Pérec), árvores para se brincar, vizinhos e uma parentada saudável reunida para as refeições.

Tirando o excesso de prateleiras, carregadas de livros, arquivos sonoros e uma pretensão sentimental da proprietária acerca de suas próprias referências – sempre disponíveis à sobrinhada, filhos de amigos e agregados (Malú, você já é um ícone) – o lugar é quase um casarão de interior com um daqueles amplos quintais. Os filhos cresceram. Enquanto o casal pensava na mudança, e no transtorno adicional nos deslocamentos diários, a cobertura vizinha foi posta à venda. O velho titã e sua metade ideal (culta e bela) somaram dois mais dois e mais um filho veio ao mundo, em forma de apartamentão.

Além de proteger a intimidade da família com plantas, como fez em sua própria casa, o arquiteto dispôs os espaços usando o bom senso em lugar de paredes; exceto, talvez, pelo escritório do patrão, que ficou situado em frente à mesa de pingue-pongue da molecada: imagino Belini, concentrado antes de um crime, tendo que ouvir o barulhinho irritante daquela bolinha de celulose entre raquetes. A mesa de jantar, como se diz, tem 14 lugares; a segunda mesa, na varanda, mais uma dúzia: almoço dos adultos longe da algazarra das crianças?

O que me veio à mente, refletindo naquela invejável rusticidade doméstica, foi o que nenhum de nós ignora, nem o meu síndico, que acaba de me mandar um e-mail informando que, graças aos nossos recentes investimentos em infra-estrutura de segurança, o roubo de uma câmera externa ao nosso edifício pôde ser evitado: por não abrirem mão de suas escassas conquistas, as pessoas tentam protegê-las, a qualquer custo, do caos ambiente, tendo desistido das tentativas concretas de solução, como fazíamos, na década de sessenta, da qual eu me sinto um sobrevivente meio ridículo, e da qual emergiram as malús maders e os tonys bellottos. Que são gente respeitável, como todos nós.

Não há uma crítica nessas caraminholas, minha cara senhora, meu caro senhor. Nem mesmo ao meu prezado síndico, trazido a esta crônica sem consentimento prévio, e que comentou, provavelmente inspirado na análise antropológica do PM que atendeu à ocorrência do nosso prédio: com a possível migração de satélites da Cracolândia para a Zona Sul (uma espécie de centrifugação da problemática social), temos que ficar mais atentos, redobrar nosssos cuidados.


Eu entendo tudo isso: o recolhimento, a conveniência, o distúrbio, o cuidado, o medo. O que não me impede de lamentar a completa evanescência dos nossos sonhos de juventude, dispersos numa desordem de pedras que rolam até chegar à beira de algum mar ou rio, polidas e inertes, como um poema de João Cabral: "inenfáticas, com sua resistência fria ao que flui e a fluir".

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dia do Palhaço


Ela quer trabalhar no Brasil

Despido, há algum tempo, da jornalista Lúcia Guimarães e desprovido, momentaneamente, da diligência obssessiva de Caio Blinder, que costuma estudar todas as possibilidades do programa, o melhor time de Economia e Política da tevê brasileira, como se autodefine o Manhattan Conection, da Globonews, perdeu, anteontem (11/12), um pouco do seu brilho.

Nem a caricatura beligerante do Gingrich ítalo-tupiniquim, Diego Mainardi, serviu para cobrir as falhas do produto e a confusão dos membros da bancada diante de uma pauta anacrônica, somada à evidente desmotivação para temas espinhosos como a agonia do Tratado de Maastrich e a negativa populista dos conservadores ingleses em assumir parte do ajuste proposto por França e Alemanha para salvar o que resta da União Européia.

O racha no núcleo de poder britânico era tão evidente que virou manchete da Folha de S.Paulo de segunda-feira, 12 (um jornal de informação geral), bem acima da notícia da derrota dos grandes fazendeiros de Carajás pelo resto do Pará (não-separatista). O desfecho foi prontamente atribuído, pelos analistas, à campanha equivocada de Duda Mendonça, o marqueteiro dos presidentes, também proprietário de terras na região.

O detalhe – fundamental na disputa, para o nosso jornalismo político – passou despercebido na série de reportagens pilotadas por Cristina Serra, no aviãozinho do Jornal Nacional, na última semana. Serra bem que mostrou alguns instantâneos dos males ancestrais que afligem aquela gente, do Tapajós a Belém, passando por Carajás, obviamente: fome, esgoto a céu aberto, doença, ignorância e uma natureza devastada. Nada que dois novos governos estaduais, alguns milhares de funcionários públicos, e duas novas assembléias legislativas não pudessem resolver, com a urgência desejável.

A madrugada do dia 11 também não sorriu para o melhor time do valetudo, mais recente mania nacional, na opinião do narrador da TV Globo, Galvão Bueno, que, em duas semanas, tornou-se um grande amigo dos nossos principais lutadores. No UFC 140, o mais bem treinado dos gêmeos, Rodrigo e Rogério Nogueira, o Minotauro (Rodrigo) vacilou depois de quase derrubar o norte-americano Frank Mir e perdeu no chão, sua principal especialidade; antes, porém, Rogério, o Minotouro, que vinha desacreditado, derrotou, com sobra, o latino Tito Ortiz. Mas a maior esperança dos fãs do UFC estava nos punhos do paraense (não-separatista), Lyoto Machida, que sucumbiu diante do bem treinado novaiorquino, Jon Jones, que vem segurando o cinturão dos meio-pesados, com 15 vitórias e uma única derrota na carreira.

A semana anterior até que começara bem, para o outro time do valetudo, com a aprovação do novo Código Florestal, mesmo sem a brilhante defesa do deputado Aldo Rebelo, do PC do B, hoje militando no Ministério do Esporte. Fernando Pimentel escapou da degola e Cid Gomes continuou governador do Ceará, mesmo depois de ter sua proposta indecente, a empresários da construção civil de seu Estado, gravada pela câmera indiscreta de um repórter do Estadão. No dia 11, o mesmo Estadão denunciou que os tribunais de justiça vêm ignorando o teto salarial de R$ 26,7 mil do STJ, e pagando mais de R$ 41 mil mensais aos juízes. Isso, afinal, não chega nem perto do salário dos treinadores de futebol, que se contam em milhões por ano.

Já a Câmara Federal esbarrou na incompreensão da imprensa burguesa quanto às necessidades dos funcionários permanentes e comissionados da Casa, que lá estão por indicação política: seriam R$ 386 milhões por ano, o que, segundo o primeiro-secretário da Câmara, Eduardo Gomes, do PT-TO, acabaria por reduzir despesas do Legislativo, uma vez que os funcionários deixariam de receber os mesmos reajustes dos deputados. Toda vez que cito o PT, tenho que lembrar, a amigos que militam ou simpatizantes dessa agremiação, que o mundo contemporâneo já não se divide mais entre PT e PSDB. Principalmente agora, que os cientistas descobriram a partícula de Deus e que um cidadão, chamado Inri Cristo, anda chamando as pessoas que têm fé de evanjegues. Barbas de molho, concidadãos.

Voltando à imprensa, não é de hoje que as pautas, em geral, vêm perdendo a sua força. Na semana passada, li mais uma interessante reflexão do meu colega famoso, Eugenio Bucci, que discutiu a mídia, do ponto de vista do público/produto: se você colhe sua informação num site de busca, vira produto (as primeiras indicações são pagas); na mídia formal, isso não ocorre. Na qualidade de público, você, assim como eu, tem direito a uma informação qualificada. Paga, mas produzida por profissionais competentes. E independente. Ou, no mínimo, isenta. É aí, meu caro Eugenio, que a coisa, às vezes, embaça. Mesmo um cidadão que consuma NYTimes, The Economist ou El Pais, jamais obterá o distanciamento por ele sonhado. Tome, por exemplo, a questão palestina. Ou a Portuguesa, do Joaquim Castanheira, que subiu para a primeira divisão.

Concordo que a informação grátis não pode chegar nem perto desse compromisso. A questão é saber se a outra, a paga, está constantemente em busca de uma escala que nós, críticos, consideraríamos ideal (matematicamente falando). É a esse gabarito que o amigo leitor teria que aproximar a sua própria grade, a fim de extrair, do confronto entre os dois, a sua tomada de posição. Os jornais-âncoras, que carregam nas costas o peso da credibilidade de suas respectivas empresas (para que o produto dos ipads sejam ligeiros), podem não ser o tenebroso antro de facistas e imperialistas que os movimentos populares neles enxergam, mas estão longe do ideal de democracia que eles próprios se atribuem.

Também sei que o encaixe dinâmico entre a linha editorial dos veículos que batalham por uma eqüidistância razoável (ou possível) e o instrumento de aferição de seu público é apenas uma hipótese, mas o esforço pela qualidade não pode ser negligenciado.

Evidentemente, as pautas de Luciana Gimenez, que ontem entrevistou Inri Cristo e a do CQC, de Marcelo Tas, jamais se encontrarão, embora uma esteja a dois canais de distância da outra. Mas ontem (12), a boa pauta sobre as previsões de astrólogos, numerólogos e afins, do CQC, deixou de comparar o vaticínio traçado pelas runas de que o Corínthians não será campeão das Libertadores (vamos cobrar, dona Bruxa), com a opinião de um especialista como Lédio Carmona, por exemplo, do SporTV. O cidadão que previu a morte de três políticos, em 2012, podia ser confrontado com uma lista que incluísse José Sarney, aquele ex-ministro do Turismo, Pedro Novais, e o Vicente Arruda, do PR-CE, deputado mais velho do Congresso, hoje com 81 anos. Mais atenção, Marcelo Tas.

Hoje, vou preferir a pauta do caderno Aliás, do Estadão, no último domingo (11/12), que não foi das melhores, mas tratou dos limites da faxina presidencial, da blindagem de Fernando Pimentel, do Código Florestal , da prisão do chefe da Camorra, na Itália, do bichinho enterrado vivo e do MMA, com ótima entrevista de Christian Carvalho Cruz, que eu não conheço, com o amazonense Wallid Ismail, lutador e dono do Jungle Fight no Brasil. Imperdível.

Lucas Mendes, você só está perdoado por ter me apresentado a jovem atriz brasileira, Morena Baccarin, no programa. Isso deixou o Diego Mainardi ainda mais confuso (ok, sabemos que ele grava num prédio flutuante do Grand Canal). Mas até o Correio de Lins (SP) do dia 11 lembrou-se de produzir uma grande matéria sobre o Dia do Palhaço, comemorado na véspera, e que você poderia explorar amplamente, tanto aí, quanto aqui.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Bom apetite



Pierre Corneille (1606/1684), um dos bons textos da 35a. Mostra de Cinema (colagem da peça Sertorius no filme A ilusão cômica)

Saio mais leve da exibição de Frango com Ameixas, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, que vejo na repescagem da 35ª. Mostra Internacional de Cinema, depois de ter me privado de um almoço, com enorme sacrifício da vontade. Regozijo-me por ter reconhecido, de imediato, as referências plásticas da autora, que vem dos quadrinhos: tributo mais do que justo ao cinemá que lhe emprestou a técnica narrativa, a decupagem e inúmeros planos, nos primórdios dos cartuns. O filme pareceu-me, primeiro, um conto de Maupassant com perfume de As Mil e Uma Noites; depois, uma viagem de trem fantasma, num excepcional jogo de luz e sombras.

Trata-se daquilo que os engenheiros chamariam de obra de arte. Lírico, divertido, delicado. Um desses filmes que a gente não esquece tão cedo. Prestem atenção, se tiverem a chance, no personagem Azhrael, o anjo da morte, persa. A história é sincopada, como convém aos quadrinhos, mas os demais componentes se encaixam com perfeição: as performances de Mathieu Almaric e Maria de Medeiros, o décor, as deambulações do personagem (o violinista Nasser Ali Khan), a animação do núcleo da história, retirada do roteiro original do gibi e ofertada ao espectador como o recheio de um muffin.

A produção e o elenco me abriram os olhos para um fenômeno que eu julgava ser local: as oligarquias artísticas, que imperam há décadas, na indústria cultural. Um emaranhado de parentescos e mecenatos que eu não consigo mais decifrar, e que me faz confundir a filha do Jair Rodrigues com os sobrinhos do Andrucha Waddington, o neto da Elis Regina com os filhos do Simonal, o casal Vanessa Camargo e Rafinha Bastos, a briga de Sandy com seu irmão e parceiro de dupla, o Zezé de Camargo, se não me falha a memória, moço de boa índole (filho de seu Francisco), e de ótima voz.

Em Poulet au Prunnes, que na Bahia de Gabriela e Mastroianni se chamaria Galinha com Ameixas, Isabela Rossellini, que tem o papel principal em Late Bloomers, outro grande filme da Mostra, dirigido pela filha do Costa Gravas (Julie Gravas) contracena com Chiara Mastroianni, a filha que a Catherine Deneuve queria que fosse arqueóloga (Marcelo queria que fosse professora de italiano), mas que virou atriz, e namorada de Benicio del Toro. Maria Medeiros, que faz a mulher de Mathieu Amalric, em Frango com ameixas (diretor de A Ilusão Cômica, filmado com o texto original de Corneille), também dirigiu um dos melhores curtas da colagem de idealizada por Leon Cakoff e exibida na Mostra, com o título de Mundo Invisível.


Ainda em Poulet , Maria chora ao ouvir música, como Fellini costumava fazer - informa o documentário La Visita Maravigliosa, sobre Nino Rotta, maestro e amigo do realizador de La Dolce Vita, estrelado por Mastroianni, o pai, e também exibido na Mostra. As sessões de A Visita Maravilhosa, aliás, foram complementadas com o curta de Isabela Rossellini, Os animais me Distraem. Percebem o que quero dizer?

De qualquer forma, a Mostra, para mim, foi um sucesso, porque eu comecei tarde demais (estava fora da cidade, na primeira semana) e, depois de ver o meu primeiro filme, La strada verso casa (O Caminho para Casa), suado, depois de uma sexta-feira em São Paulo (28/10) , no shopping Pompéia, pensei que a minha principal aquisição, ao dar esse mergulho, seria ter conhecido o Zaffari, supermercado gaúcho que visitei nos cinco minutos que restavam antes do encerramento das atividades do dia, à meia noite, em busca de uma água mineral. Encontrei a minha cerveja preferida, pivô de uma guerra entre fabricante e grandes redes do varejo, ao preço usual. Excelente alternativa à ditadura dos grandes supermercados e das águas minerais, embora longe do meu roteiro e dos meus hábitos.


No mundo de fato, enquanto isso, a briga dos cantores brothers era substituída pela morte do cinegrafista, o que daria lugar à visita do inimigo público, Nem, ao Pronto Socorro de São Conrado, protegido por cinqüenta de seus guarda-costas, enquanto a polícia anunciava aos quatro ventos a sua intenção de pacificar a Rocinha – sede comercial do traficante. Uma invasão parecida com a que ocorreu no Morro do Alemão, provavelmente, com todas aquelas prisões.
Ao mesmo tempo, o Uol anunciava que o UFC na Globo será narrado por Galvão Bueno, praticamente endeusado pelo público que curte esse esporte. Para evitar acidentes, o lutador, Victor Belfort, foi escalado como comentarista. O portal também informava que o médico de Michael Jackson saiu do tribunal algemado, enquanto que a família comemorava a “justiça” de um provável seguro polpudo, e os fans urravam no quintal.

Mas foi, como eu disse, uma boa Mostra, exceto, claro, pela morte de Cakoff, às vésperas de sua realização (14/10). Leon tinha, claro, suas manias, mas ergueu um edifício que tão cedo não vai ruir, ao contrário de algumas pontes e prédios residenciais de de nossas cidades. Até o Piteco (a vinheta) e a animação de Maurício de Souza se casaram bem com a 35ª. Mostra, que transformou A Caverna dos Sonhos Esquecidos, de Werner Herzog, numa de suas atrações principais, embora eu tenha achado o filme arrastado.

Não consegui ver nenhum dos russos badalados: A cor da romã, de Sayat Nova, Movimento reverso, de Stempkovsky, nenhum Sokurov (queria muito ver O Fausto) ou Paradjanov, nada. Tampouco os brazucas: À margem do Xingu, Eu receberia as piores notícias, Teus olhos meus e Amanhã nunca mais (que devem entrar no circuito comercial, espero). Nem os dois orientais que pretendia assistir, Jiro dreams of sushi e Yellow sea (este, ainda vou tentar); muito menos, os americanos Cut, Detachment, e Tudo pelo poder, outro que deve chegar aos cinemas em breve, assim como o Garoto da bicicleta, do belga Jean Pierre Dardenne. Tinha muita coisa para se ver, além disso: iranianos, islandeses, franceses, alemães, argentinos. No ano que vem, tem mais. Certo, Renata?

Vi, e recomendo: As neves de Kilimanjaro, de Robert Guediguian, A Educação, de Dirk Lutter, Late Bloomers (que tem a minha cara), Irmãs nunca mais, de Marco Bellocchio, e os já citados A estrada para casa, A ilusão cômica e Frango com ameixas, este, sem dúvida, o melhor dos que vi, e que dividiu o prêmio do público com Detachment, de Tony Kaye.


Para compensar o almoço perdido, devo tentar, hoje, a minha receita do frango com ameixas (secas, descaroçadas, em molho que leva uma colher de mel e um punhado de amêndoas em lascas douradas numa pitada de manteiga, pulverizado com gergelim). O frango será temperado com limão e alho, e refogado na cebola, com uma pitada de açafrão, antes de cozinhar numa xícara de vinho branco, outra de água fervente. Tentem e me digam o que acharam.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O Pan e o brasileirinho


O Zé Teodoro não podia ter feito isso com Mick Jagger

A Globo elegeu a boa reportagem de sua afiliada, a TV Nordeste, sobre o empate do Santa Cruz com o Treze, da Paraíba, para fechar a sua edição do JN de ontem (17/10). O resultado garantiu o acesso do cobra coral à terceira divisão do campeonato brasileiro, depois de três anos de sucessivos rebaixamentos que levaram esse time, de larga tradição e grande torcida, à quarta divisão do certame, nos últimos anos. Mais um sinal, dentre múltiplos, da decadência do esporte no país, precipitada pela mercantilização excessiva e pela falência moral de seus dirigentes. Fatos cuidadosamente ignorados, sempre que possível, pela chamada imprensa esportiva, com suas cada vez mais raras exceções.

Antes, a âncora, Fátima Bernardes, leu uma breve nota sobre as vitórias da Natação brasileira no Pan, mas não respondeu à acusação de uso indevido de imagens da Record, pelo JN, no último sábado (15), feita pela emissora de Edir Macedo, momentos antes. A Record mostrou um fac símile de uma circular enviada às demais emissoras, antes do início dos Jogos, autorizando a reprodução de sua cobertura (exclusiva) da competição, desde que acompanhadas pelo respectivo crédito. A Globo não respondeu à cartinha e usou as imagens como se fossem da OTI (Organização da Televisão Ibero-Americana).

Mais patética do que essa polêmica, porém, são as tentativas dos jornalistas esportivos de pintar a melancólica mediocridade do campeonato brasileiro com as cores de uma encarniçada disputa. Se o Santos vier a ganhar a Copa Toyota, em dezembro, a frase de seu hino (campeão absoluto deste ano) não será mais uma rima, apenas uma confirmação (Mundo, mundo, vasto mundo). Esse esforço desmesurado de proteger suas receitas, no caso da Globo, não afeta apenas a credibilidade do seu grande jornal: toda a programação da emissora trabalha por isso, como numa ginástica laboral japonesa.

Em seu programa de relacionamento, o Bem Amigos, de ontem (17), por exemplo, o monagasco Galvão Bueno emprestou o seguinte corolário à estatística de seu colega, Renato Maurício Prado, sobre as 47 derrotas dos clubes mineiros nesta edição do brasileiro:

- Será que o Mineirão faz tanta falta assim? - Como sói acontecer, nessas ocasiões, ninguém concordou, nem discordou.

Claro que hoje, eu preferia analisar a cobertura do programa Segundo Tempo, no Ministério do Esporte, cujo histórico a imprensa parece ignorar, embora o ex-PM João Dias Ferreira, preso em 2010, durante a Operação Shaolin, ao ser acusado de desviar R$ 2 milhões do Ministério para construir a sua mansão, tenha envolvido, tanto o ex-ministro, Agnelo Queiroz, que trocou o PC do B pelo PT para eleger-se governador do DF, quanto o seu ex-secretário geral , o atual ministro, Orlando Silva.

Segundo o ex-PM, os desvios chegaram a R$ 40 milhões, parte dos quais teriam sido doados pelo PC do B ao PT, para cobrir despesas da campanha de reeleição do presidente Lula. Agnelo Queiroz sucede, no governo do DF, não nos esqueçamos, a Joaquim Roriz e José Roberto Arruda.

Também questiono a atitude da mídia em relação aos protestos anti-corrupção, menosprezados pelos analistas políticos, por falta de um comando partidário, embora a tropa de choque do PT tenha se apressado em aplicar, às manifestações, o sempre conveniente rótulo de armação da direita. As passeatas clamavam, justamente, pela indignação pública diante daquilo que de pior representam as agremiações partidárias, entre elas o PT, protegidas no ventre precocemente apodrecido de nossa jovem democracia. O que esses meninos justamente rebelados, em seus computadores, faixas e cartazes, é de quantos Newtons são necessários para se acelerar a massa de um Berlusconi ou de um Ricardo Teixeira.

Os telejornais também não deram importância ao movimento de ocupação de Wall Street, intitulado, inicialmente, de manifestação anti-capitalismo (restrita à elevação da taxa de desemprego dos EUA) e renomeada, depois de uma semana, de protesto contra a ganância das instituições financeiras. Sérgio Augusto (ex-Pasquim) publicou uma boa reportagem sobre o fenômeno, no Estadão de 16/10, incluindo o seu aproveitamento por oportunistas do peso de um Jimmy Hoffa Jr, como reação pró-Obama ao Tea Party. "Sem bridão ideológico, sem líderes, sem violência e sem megafone (por conta da Lei do Silêncio), a o evento obrigou os oradores a desenvolver uma nova forma de interação, na qual grupos mais próximos aprenderam a passar adiante, em coro, as mensagens ouvidas aos grupos subseqüentes".

"Eles não se afligem, embora ainda não saibam até onde irão", relatou Sérgio Augusto. "O processo, não a plataforma, é o que importa", observou Hendrick Hetzberg, da New Yorker. "Mudou o mundo e também a estratégia dos indignados" (volto a Sérgio Augusto). "Eles não pegam mais carona nas grandes reuniões como Davos e o G-8. Agora, o grande evento é a manifestação. O OWS (Occupied Wall Street Journal) já ocupa mais o noticiário do que qualquer outro tema político. Lideranças, se necessárias, surgirão, mas Jimmy Hoffa não será uma delas".

Gozado: nem colando o meu ouvido ao chão consegui captar uma análise semelhante, nem do melhor time de Política e Economia da televisão brasileira, conforme a autoavaliação de Lucas Mendes, que já teve, em seu Manhatan Conection: Lúcia Guimarães, Paulo Francis e Nelson Motta. Antes, claro, de trabalhar com seus atuais colaboradores, Caio Blinder, Ricardo Amorim e Diogo Mainardi. A entrevista de Marília Gabriela com Sabrina Sato, no mesmo horário do último domingo, estava mais interessante.

Mas, em matéria de telecatch intelectual, preferi uma terceira briga, a dos Fernandos mineiros, o Morais versus o Mitre, que esgrimaram sobre o regime cubano: segundo o primeiro, o Cuba exibe o menor índice mundial de mortalidade infantil. Para o antagonista, o país deve ser lembrado como aquele que proibiu a circulação do livro do primeiro, A Ilha, no domicílio que o inspirou. Talvez por considerá-lo excessivamente realista. O último livro de Morais, tema central da entrevista, me pareceu mais interessante: Os últimos soldados da guerra fria.

Mas o melhor da minha Semana na Tevê me foi reservado para o breve trecho do CQC, Top Five, de ontem (17), mostrando um diálogo entre a animadora de auditório, Eliana, e um garoto de aproximadamente seis anos:

- Que parte você prefere, na creche: a professora, os coleguinhas ou as brincadeiras?
- Nenhuma – respondeu o garoto. – Gosto de ficar em casa.
- Eu vou perguntar mais uma vez, insistiu Eliana, do que você gosta mais, da professora, dos amiguinhos ou das brincadeiras?
- Da hora de ir embora, finalizou a criança - dando-me a impressão de ser o único adulto naquela conversação.



sábado, 8 de outubro de 2011

Tenha muitas saudades



Mimulus e opúncias do Novo México, raridades no banho de sangue de McArthy

Arnaldo Jabor, que voltou a escrever com graça, nas últimas semanas, evocando seu mestre, Nelson Rodrigues, trouxe-nos de volta a memória de coisas e maneiras de nossa adolescência, como a caixinha de chicletes com vista de celofane para as balinhas refrescantes (hoje, fabricantes de chicletes têm assessoras que estapeiam celebridades no Rock in Rio); bisnagas de pasta de dente cheias por inteiro e garçons atenciosos que, em vez de oferecer gelo e laranja para o nosso guaraná, perguntavam, simplesmente:


- Da Brahma ou da Antárctica?


Lembranças que afagam a mente, embora quase sempre nos cheguem no tropel de um cotidiano cada vez mais absurdo, trazidas por amigos que habitam pontos remotos do nosso mapa afetivo (os muito geeks ou os aposentados), colhidas no mesmo poço onde fermentam os novos hinos das torcidas de futebol (aqui tem um bando de loucos), as rimas dos feirantes (Na esquina do Rosário, quer de noite, quer de dia, tem sorvete de patente, feito por engenharia) e as piadas que escapam dos botequins, como a última de Dilma Roussef, na Bulgária:


- Traz azeite, Valdeci! – foi a saudação que a presidenta levou duas horas para decorar, a bordo do Dilma One. Ninguém entendeu, mas ela queria dizer, apenas: - Olá, guardas ! (“Zdraveite, gvardeyci”). Melhor foi comparação jogada na Internet, com as fotos da ministra, Iriny Lopes, que censurou a lingerie de Gisele Bundchen e do cartunista Laerte, travestido de Sônia, as duas realmente parecidas, exceto pela feminilidade, esbanjada pela segunda.

Faz-me falta, senhor Jabor, o gosto do guaraná ligeiramente mais ácido que o do concorrente, o sabor dos sorvetes Jajá, Kalu e Chicabon, com sua discreta referência ao remelexo da Pequena Notável. Tenho saudades do Frankenstein de Boris Karloff, que gemia ao expressar seus desejos, mais eficiente que esses pobres garotos de call-center que enriquecem seus chefes espertos enganando, ao mesmo tempo, consumidores e clientes. Quando ele aparecia na tela, rugindo, ela apertava mais a minha mão.


Decalques de banheiro me seduziam mais que figurinhas de jogadores de futebol (desculpe, ministra, sempre foi assim) e o meu carro de sonho era um Symca Chambord, embora eu me contentasse em dirigir o Renault Gordini do meu velho. Também desapareceram: a Crush e o display do Elvis no terno prateado que o Frejat tentou imitar no show do Barão Vermelho; a sessão das seis no Cine São Paulo, em Bauru, o Cine Cachambi e a Embaixada do Sossego, no Rio, as sessões corridas do museu do Cinema de Bruxelas, a fumaça do Vonldel Park, em Amsterdam (onde tudo era possível, na década de 60), as piranhas do rio Iriri, o Amazonas e as margens do Hudson, do Sena e do Tamisa.

Mas também gosto de pensar no meu velho Blackberry, que ficou obsoleto depois do Iphone, quiçá do Ipad. Fantástico era o meu primeiro computador, um MSX (Microsoft Extended?) Gradiente de 8 bits, com processador de 4 MHz. Ganhei numa rifa de assembléia do Sindicato dos Jornalistas, em 1986.


Lembro-me, também, do primeiro balé de minha filha, do carrinho de rolimã construído com o parceirinho, seu irmão, então com seis anos, do concerto de Miles Davis no Rio, em 1974 e do primeiro ato da Crônica de uma Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso, montagem de Gabriel Vilela, que vi na semana passada.

Não consegui me livrar do fim aberto de Don Delillo, em Ponto Ômega, do conto do ladrão honesto de Ian McEwan, em Solar, nem do ataque comanche de Cormac McArthy, em Meridiano de Sangue, que me obrigou a visitar o velho Houaiss por várias vezes, com suas herméticas espécies vegetais do Novo México: mimulus, opúncias e zigodenus. Reminiscências de minha recente mania de ler velhos autores desfolhando a velhice, para remediar a minha própria degenerecência.



Quero mais dessas memórias: pretendo conhecer o médico artificial de Michio Kaku (sou do tempo do Azimov), assim como a telecinesia do doutor Michellis movendo, não apenas pessoas tetraplégicas, mas também móveis e eletrodomésticos com o pensamento, como em O Exorcista, de Willian Friedkin.


Meus médicos em carne e osso já são praticamente digitais, é verdade: pedem e lêem exames clínicos, e raramente usam as próprias mãos em suas intervenções, cada vez menos cirúrgicas. Quanto mais tecnologia, melhor, embora nada substitua a criatividade humana: nosso último especialista ficou de operar uma pessoa da família, no Hospital São Luís, às 19 horas, mas avisou, momentos antes, que não viria porque o procedimento não tinha sido aprovado pelo convênio da paciente.


A internação tinha sido autorizada às 14 horas e a pessoa só não tinha sido transferida, do pronto socorro para um quarto, porque o hospital não tinha leitos disponíveis. Desmascarado, o doutor atribuiu o forfait a um engano de sua secretária. Dias depois desse episódio, o respeitado Incor foi flagrado reservando leitos do SUS para pacientes de convênios particulares: “Erramos de hospital”, pensei comigo. E me recordei de meus tempos de moleque, quando os hospitais eram o único ambiente que me trazia alguma paz.


Não há de ser nada: entre as memórias que pretendo colecionar no futuro, quando voltar a ser garoto, graças à Engenharia Genética, 95% das doenças comuns terão sido varridas da face da terra, assim como os pesadelos, que já não exigirão pastores e bispos para serem dispersos, porque poderão ser gravados e revistos, numa tela de papel digital, a caminho do trabalho, no conforto de um auto-elétrico movido a fotossíntese artificial, sem motorista, é claro, por razões de segurança.