terça-feira, 8 de setembro de 2009

Só um pouquinho

Antes que me espremam no próprio gol, como o Maradona disse que faria com o Brasil, no último sábado, devo esclarecer que a ética profissional me impede de comentar o tema do momento, exceto que o pré-sal conseguiu unir governo e PSDB, coisa rara, naquilo que ambos julgam essencial: o conceito. Dito isso, passemos ao próximo tema: se para alguns, a Lei de Gerson é um fantasma Moral que vem assombrar até inocentes costumes – como o de passar pela padaria com os filhos que acabamos de pegar no colégio, consumindo cinco minutos do lazer dos coitados – para outros, já complica condescender só um pouquinho.

Tem até uma entidade com o nome dessa bolinha que o Hegel, sobrinho desnaturado do Kant e tio igualmente do Marx, bateu no paredão durante anos, para depois nos rebater direitinho. Gente séria, esse pessoal do instituto de ética. Concordo com boa parte do que eles pregam, embora eles tenham lá seus interesses. Velhos combatentes da gloriosa armada britânica, em luta contra a pirataria que se espalhou por aí, como cães e produtos chineses, para muito além do Caribe.

Antes que me venham com o Buarque de Hollanda, o Sérgio, Mário de Andrade e Darcy Ribeiro, previno: não sou daqueles que desce a lenha no jeitinho e na malemolência daqui, como um estóico qualquer. Afinal, nem a dona Susane, da BMW, resistiu à baba do lobo mais mediterrâneo que a mão dela conseguia alcançar, ali nos Alpes suíços. Mas, no outro dia, me puseram numa mesa bem em frente à entrada do único café lisboeta que eu conheço em São Paulo, a Bella Paulista (você paga pelo tempo que ocupa a mesa, ou quase isso): um ponto de observação privilegiado.

Está bem, eu tinha bebido um porto, mas vi pelo menos dois casais entrando com crianças, cada casal com a sua: um ruivo e uma bela morena com uma garota lourinha, e um tipo moreno com uma loura e um garotinho de traços orientais. Pareciam recém-saídos de uma loja de brinquedos, os pais. Maravilha, pensei: a adoção está bombando, e não é o marketing da Firma, aquela pizzaria de Maresias que defende a adoção de cães abandonados, igualmente louvável. Fui dormir feliz. Mas hoje, saiu o laudo do Conselho Regional de Medicina sobre as práticas do Dr. Abdelmassih, aquele que botava só um pouquinho de citoplasma de mulher mais jovem em seus programas de fertilização. A confirmação das suspeitas de Eugenia (além das outras, é claro), me deu calafrios.

Não sou nenhuma vestal. Já me curvei às circunstâncias e guardei, no bolso do colete, certos princípios dos quais jurara não me afastar, fosse por causa nobre ou pequeno vício. E entendo a ansiedade das pessoas que não podem, mas sonham, ter filhos. Ocorre que a prisão desse médico e a proposta de outras boutiques de fertilização de lá e daqui (veja abaixo) sugerem um joguinho de tênis, urgente, entre a Ética e o Direito, uma vez que o da Biociência com a Religião deu empate. Afinal, se o Dr. Roger, chegou, de fato, a propor a algumas esposas que não se incomodassem em contar para o marido que óvulos de mulheres mais jovens tinham sido usados em sua gestação, onde, de pouquinho em pouquinho, vamos chegar?

Repare nos argumentos do médico italiano Severino Altinori para justificar a linha de montagem em que sua clínica se transformou, reproduzidos no artigo da pesquisadora e professora Débora Diniz, da UnB (OESP, 31/08), que você encontra no http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup427389,0.htm

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Voto atrelado à Reforma Política

A mídia é uma senhora interessante, mas orgulhosa. Portanto, ao difundir esta idéia – caso vocês concordem com ela – tenham cuidado: embora o apoio das filhas adolescentes dessa dama seja indispensável (as Redes Sociais), o dela é essencial. Mesmo que não seja, como diria Torquato Neto, bem antes de Caetano. Que me perdoem Bobbio, Blondel, Giusti Tavares, Reali, Santos, Lamounier e todos os demais estudiosos do tema, mas a idéia é simples: votamos nos candidatos que se comprometerem publicamente a aprovar uma reforma política cuja proporcionalidade nos represente, de fato, no Congresso Nacional.

Uma semana abençoada de trabalho impediu-me de colher depoimentos de especialistas – o que ainda pretendo fazer – em busca dos fundamentos de um projeto básico de reforma política e eleitoral que substituísse seus desfigurados antecessores, resultando numa fórmula facilmente compreensível por qualquer eleitor. Prometo trabalhar nisso, apesar da complexidade do tema, que não se esgota na sub-representação federativa de São Paulo, nem no debate sobre um parlamento unicameral, como pensa a maioria. Esta seria a pedra de toque capaz de vencer a enorme resistência que essa proposta irá enfrentar.

Além desse desafio, temos a pequena tarefa de mobilizar as pessoas num movimento semelhante ao das Diretas Já, que abreviaram a morte lenta da Redentora, nos anos 80 e o impeachment de Collor, nos 90. A quem esteve fora do país, durante a crise no Senado, ou quiser nos acusar de estar promovendo uma chantagem com a classe política, mostraremos alguns números levantados pelo amigo José Roberto Caetano e publicados na edição 949 da revista Exame (página 20) , que ainda está circulando, e que traz como destaque depoimentos de presidentes de empresas que ficaram sem bônus este ano. Os parlamentare brasileiros recebem cerca de US$ 125 mil de remuneração média anual, produziram 7.574 matérias com alguma relevância social no período de 2003 a 2009, 262 das quais foram aprovadas.


Obviamente, o jornalista não contabilizou os montantes envolvidos nos atos secretos (empregos, contratos etc), nem nas verbas indenizatórias, mansões no Lago Sul, apartamentos ocupados por serviçais dos parlamentares, combustível dos jatinhos, remuneração de parentes empregados nos gabinetes de parlamentares amigos, ou comissões pagas a intermediários na concessão de crédito consignado.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Salvar o Jornalismo


No Roda-Viva de ontem (17/08) com Demi Gestchko, presidente do Nic.br (Núcleo de Informação do Comitê Gestor da Internet no Brasil), o professor Sílvio Meira, da UFPE, que também é cientista-chefe do CESAR (Centro de Estudos de Sistemas Avançados do Recife) ajeitou, com uma freada brusca, os passageiros do bonde que discutia o futuro dos jornais atropelados pela Internet: “Não se trata de salvar os jornais, mas o Jornalismo”, assinalou.

Jornalismo x conteúdo grátis, essa briga que o Chris Anderson encontrou para vender os seus livros Free-Grátis (R$ 59,90) e A Cauda Longa (R$ 65,00) não resiste à mera reflexão de quem faz o quê, como lembrou a amiga Lúcia Guimarães, em artigo publicado há dias no Estadão. Também não se trata simplesmente de hierarquizar as informações, como ouvi, pela primeira vez, de Roberto Civita, numa conversa em Buenos Aires, há dois anos. A sacada de Gay Talese (O Reino e o Poder), em visita recente ao Brasil, também foi relevante, ao lembrar que o Jornalismo requer o que chamávamos (no tempo do Nelson Motta) de esforço de reportagem.

Nem o marketing dos papas-defunto, nem o impacto da tecnologia e da mobilidade, nem a preguiça pura e simples que grassa na sociedade contemporânea (não se preocupem, não está no Google) vão acabar com o Jornalismo, essa combinação irresistível de realidade, argúcia, perspicácia, determinação e talento, sobre uma fina massa (crocante) de conhecimento, como ilustram as campanhas recentes da mosca da Folha e do Estadão de hoje (página A22).

Mas não é o Marketing, nem o desespero das tiragens estagnadas – enquanto o papel e o diesel não param de subir – que vão salvar o Jornalismo. Além da qualidade da produção (vide reportagens do médico, do bispo e da família do coronel), é preciso ter cuidado com a customização excessiva, as pesquisas, a partidarização. Podem me chamar de Poliana, mas, na minha opinião, a única forma de fortalecer a velha instituição – que vai continuar permeando as redes sociais, os celulares, os kindles e as lousas eletrônicas – é a recuperação do seu velho espírito: isenção, criticismo e análise.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Antifumo esbarra na Lei Psiu

A lei antifumo entrou em vigor no dia 7 de agosto em todo o Estado de SP. Nesta sexta-feira, dia 14 de agosto, sete dias após o início, as determinações da lei antifumo começam a bater de encontro com uma outra lei da capital paulista, a lei Psiu. (Daniela Paixão, UOL Notícias, 14/08).

Márcia, Daniela, Janaína (donas de bar, livraria e restaurante na região da Praça Roosevelt, com as quais conversei, ontem à noite): como vocês vêem, estou ficando lento – a imprensa chegou na frente. Mas a minha intenção, neste post, não era discutir o conflito entre as duas Leis, o seu mérito, as distorções (os bares não podem colocar cinzeiros na calçada) ou o acúmulo de restrições e a dificuldade de acesso à diversão e à cultura nas grandes cidades.

Afinal, com a lei Antifumo, ganharam: a saúde dos garçons, a gastronomia, os não-fumantes que bebem; perderam: os bares em geral, os fumantes e a autonomia dos proprietários desses estabelecimentos. Com a lei Psiu, foram beneficiados os moradores da Vila Madalena e do Leblon (principalmente); perderam os boêmios, os baladeiros, os piratas, os marinheiros, os artistas, as dançarinas, os cabarés e tudo o mais que canta o fado. Dá para harmonizar essa paisagem? – As pessoas dizem que sim. Que os fumantes farão silêncio, que os bares poderão colocar cinzeiros nas calçadas, que os fumódromos se integrarão às casas noturnas e bares para fumantes serão permitidos, como os de Holanda.

Mas o que me intriga nessa questão é o desvio, o excesso, a unilateralidade, a presunção, toda essa parentada do autoritarismo. Não é conversa de hippie. Quem enfrentou uma ditadura e foi obrigado e cruzar o oceano, em busca de outro horizonte, sabe disso. Muitos de nós, aliás, ainda estão por aí, em barcos separados – é a vida – mas meio esquecidos do que representa uma tempestade em alto mar. Sim, governar a sociedade atual é mais difícil. Não se navega sem piloto, de acordo. Mas, convenhamos: o assessor da subprefeitura que comandou as pesadas multas aplicadas aos bares, teatros, livraria e restaurantes da Praça Roosevelt, no último final de semana, e depois comandou o pânico, na festa Gambiarra, do Hotel Cambridge (onde a classe teatral costuma se divertir), exagerou.

Assim como as mudanças do trânsito no meu bairro, o Brooklin, há duas semanas, pela CET, as novas regras não foram precedidas por uma pesquisa das necessidades, características e condições de funcionamento dos estabelecimentos acima citados – e isso também me preocupa. Não dá para impor regras traçadas num gabinete sem considerar as variáveis citadas, a experiência local, sem consultar os interessados, enfim, sem participação. A não ser no caso do reizinho que ilustra este post, cujo pai, Otto Soglow, morto em 1975, observou com fina ironia, no traço fácil que ilustrou jornais de todo o mundo, da década de 1940 até sua morte.


Ilustração retirada do site www.meguimaraes.com/subrosa/arquivo/cat_blog.html

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Conteúdo

Depois da badalada estréia dos Parlapatões na última sexta (7/08) e mesmo correndo o risco de ser chamado de Senador por favorecer os amigos neste blog – mais concorrido que o do Abílio Diniz, que começou hoje – ouso comemorar o aniversário de um outro escritor, o Jorge Amado (10/08) indicando o novo álbum do Spacca, Jubiabá, que a Cia das Letras lança nesta quinta-feira, às sete da noite, na livraria HQMIX , justamente ao lado dos Satyros e dos Parlapatões, na Praça Roosevelt. - Quem sabe o livro não vai parar no supermercado? - Mudando de tema, bons tempos aqueles, em que artistas como Jorge podiam ter esperança, mesmo traçando o perfil de uma sociedade injusta e desigual. Hoje, tenho que fazer força para vencer o cinismo, o que só agravaria a barbárie. Tento compensar cenas como as que foram mostradas no Repórter Record ontem (9) – nada parecidas com o argumento de Jubiabá e semelhantes só na forma ao Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles – com a peça dos parlapas, o álbum do Spacca, o filme da Taciana e do Arnaldo Antunes ( http://www.youtube.com/watch?v=1bklffwG1MQ) e o sonho de Marina Silva candidata, inspirado pelo bom programa de Cristiana Lobo deste último sábado (8) na Globonews. Além, é claro, do novo espetáculo da trupe dos Pederneiras, um patrocínio à prova de CPI. Tudo gente de verdade, que tive o privilégio de ver e ouvir, em conversa ou entrevista, em tempos recentes.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Hoje não tem Senado

Sem o Senado (você sabe que o fim de semana, em Brasília, tem quatro dias), a sugestão de hoje – para quem está ou vem a São Paulo – é ver a estréia dos Parlapatões (os autênticos) que, pelo menos, são profissionais. O Papa e a Bruxa, com direção de Hugo Possolo, promete, embora o autor garanta que não se discute a fé de ninguém, mas sim o que se faz com ela. Esteban Hernandez e a bispa Sônia - de volta ao país - não deixam dúvidas a respeito. A comédia é de Dario Fo, traduzida por Luca Baldovino e começa às 21 horas, no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, 158. No elenco, a antiga trupe dos parlapas (Henrique Stroeter, Raul Barreto), mais:Carmo Murano, Fabek Capreri, Alexandre Bamba, Fernanda Cunha, Hélio Pottes, Guilherme Tomé e Rodrigo Bella Dona, que não se parece com o que o nome indica, mas lembra o cura de aldeia que acredita em Hugo Tognazzi no Amici Miei-1, de Mauro Monicelli, quando os amigos convencem fiéis de que a igreja local será demolida para dar lugar a uma nova carretera.

Obs. Espero que os parlapas não se ofendam comigo, como os pizzaiolos naquele episódio em que o presidente Lula os comparou aos congressistas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Folha do Estadão

A foto de Celso Jr, da Agência Estado, na capa do Estadão de ontem, faria Roland Barthes (1915-1980) cantarolar no chuveiro: Sarney e um de seus atuais acólitos e ex-inimigos mortais, Fernando Collor, falam mais do que nós profissionais do texto, conseguiríamos, sobre a nuvem negra que paira sobre nossas cabeças há várias semanas. Não podemos nos esquecer desses fatos nas eleições de 2010. Na reputação do PT, coitado, o rombo pode ser pior que o do Mensalão. Por enquanto, a nossa vingança dessa crise é que nos kindles de História do futuro próximo, Sarney e Roberto Jefferson, farão companhia um ao outro, na mesma linha (como aqui). Já a foto do Estadão de ontem (04) e o artigo de Clovis Rossi na Folha de hoje (05) merecem andar juntos. Como esse casamento era impossível, o faço aqui, para ver como um ficaria ao lado do outro. E para não ficar só no elogio à nobre senhora, por que a Globo não revelou, em seu noticiário de hoje (05) a marca da “indústria automotiva” invadida há pouco por uma tropa de choque, na Coréia do Sul, para acabar com uma ocupação dos operários que já durava 40 dias, decorrente de um protesto contra demissões? – Teria alguma coisa a ver com a campanha do Kia-Soul veiculada no horário nobre da emissora há alguns dias? – Não creio. Departamentos comercial e redação, nos grandes veículos, funcionam separadamente, justamente para evitar esse tipo de confusão.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Resiliência

Vinte empresas foram multadas pelo PROCON-SP ontem (30) por descumprir as novas regras do telemarketing que exigem o atendimento do cliente em menos de um minuto (Decreto 6.523). Três sofreram as maiores punições e tiveram suas marcas reveladas pela grande imprensa (FSP, OG, OESP, Joven Pan-SP). As verificações do Procon ocorreram nos meses de dezembro de 2008 – quando as novas normas entraram em vigor – e em março deste ano. Uma das três empresas disse que vai recorrer da punição, a outra estuda fazê-lo.

Minha primeira reação foi comemorar em silêncio: há dois dias, liguei para um fabricante de eletrodomésticos (minha TV, recém-adquirida, apresentou defeito) e fui atendido em menos de 10 segundos: a resposta da opção 4, Reclamações, foi de que eu acionara um número inválido. Ontem, liguei para uma companhia aérea, para trocar milhas por uma passagem. Fui atendido em menos de 20 segundos, mas passei por seis instâncias e esperei sete minutos para falar com a operadora. Infelizmente, ser atendido em menos de um minuto não garante um bom atendimento.

Teoricamente, a punição às empresas apontadas pela mídia representa um dano de imagem a marcas que, em face desse desgaste, se esforçariam para melhorar a sua conduta. Teoricamente. Das três empresas que receberam as maiores punições do PROCON, uma é líder no ranking de qualidade no atendimento da agência reguladora de sua atividade, que considera, além do tempo de resposta, indicadores mais precisos e mais abrangentes. A outra – que não está mal posicionada nesse mesmo ranking – veicula, neste momento, por meio de campanha de massa, uma das promoções mais atrativas que se tem notícia, nesse mercado. A terceira é tida como a melhor (ou a menos ruim) no seu setor de atividade e patrocina - como gente grande - a modalidade esportiva da qual o país mais necessita de apoio e investimento, o Atletismo.

Nos três casos, a forte resiliência das marcas apontadas como as vilãs de uma regulamentação pouco efetiva e nada eficaz se não anulou, pelo menos atenuou significativamente o impacto das punições. Prova de que, no choque do investimento sustentado na imagem de marca com uma ação apoiada no marketing da denúncia pela denúncia (sem um exame mais criterioso de seus motivos), esta segunda força se destrói.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Mais lenha para a discussão (vide post 01/07 Quem Patrocina a Seleção?)

Folha de S.Paulo, 30 de julho de 2009 - página D5
JUCA KFOURI
Deixem Jesus em paz

Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro


MEU PAI , na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: "Você não tem cultura para se dizer ateu", sentenciou. Confesso que fiquei meio sem entender. Até que, nem faz muito tempo, pude ler "Em que Creem os que Não Creem", uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.


De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu. Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso. Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.

Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo. Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.

E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito. Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.

E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.

Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes, como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial.

Ora, há limites para tudo.

É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos...

Ora bolas! Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante. Não mesmo é à toa que Deus prefere os ateus...

domingo, 26 de julho de 2009

Teorema de Waack


O médico do piloto Felipe Massa, Dino Altmann, afirmou, na manhã deste domingo (26), que segundo o neurologista que trata do caso do brasileiro, houve uma melhora no quadro de saúde do piloto. "Ele tem um pouco de afundamento do osso, mas não tem lesão no tecido nervoso do cérebro. O olho não foi afetado. O osso que envolve o olho, que a gente chama de órbita ocular, teve uma fratura. Isso faz parte da lesão que ele teve, mas isso não deve trazer nenhum problema para a visão. É uma situação grave, mas risco iminente de morte, na minha opinião, não existe", disse (Uol, 26/07, 9h01). Uma vez que o moço está fora de perigo, podemos conversar sobre a cobertura da TV Globo, neste fim de semana de poucas notícias nas redações.

O tom dramático da matéria de abertura do Jornal Nacional de ontem (25) sedimentou a chamada no estilo Aqui, Agora do melhor âncora da TV brasileira, William Waack (prêmio Comunique-se 2009), por volta das 19h30 daquela mesma data: o jornalista escondeu o adjetivo induzido por trás do coma do piloto. Foi para garantir mais alguns pontos de Ibope ao maior jornal da tevê brasileira ou por alguma outra razão? - O que deu em você, Waack? perguntei-me, na mesma hora.

Na abertura do JN, Carla Vilhena pareceu tentar compensar a derrapagem: ela destacou a palavra induzido ao falar do coma de Massa, ao contrário do parceiro, momentos antes. Já a matéria da repórter Mariana Becker foi para o ar do jeito que deu: “Felipe Massa sai reto da curva, bate na barreira de pneus e não mexe mais a cabeça. Desacordado, não muda de direção. A pista é rastreada pelos fiscais. A espera por notícias de um dos pilotos mais populares da fórmula um pára o treino, cala o autódromo. A busca de informações começa entre as equipes. Os companheiros dele, o irmão, Edu, estão suspensos numa expectativa assustadora. Ele é atendido na pista, coberto por lençóis e levado ao Centro Médico”. Praticamente um enterro, ironizou um sobrinho (engenheiro) que assistia ao noticiário ao meu lado, certo de que a situação não era tão dramática.

Coube a Galvão Bueno, tão criticado, o solo da gafieira, na terceira reportagem da edição sobre o assunto (a segunda foi A Viagem da Família para a Hungria, que terminou com um close da esposa do piloto, Rafaela, pedindo orações às pessoas que tem fé). Na qualidade de uma das sete pessoas que tiveram acesso centro cirúrgico, Galvão falou: “É bom que se explique isso, que o coma induzido não tem nada a ver com estado de coma. É muito sedativo para que ele descanse ao máximo”.

Eu me recuso a discutir, neste espaço, o entusiasmo da repórter (ela fazia uma cobertura esportiva), mas o Teorema de Waack me chamou a atenção: - Afinal, foi um deslize do profissional de alta envergadura (com fama de elitista) que trabalha num veículo de massa, ou uma falha da emissora, cada vez mais ameaçada pela concorrência, nessa arena em que o Pedro Bial é disputado a peso de ouro com a TV do Sílvio Santos? A explicação de William, na passagem para Galvão, não me ajudou a elucidar o enigma: "Fiquei gelado ao saber da notícia, lembrando a morte de Aírton, mas agora, graças a Deus, uma coisa parece não ter nada a ver com a outra", explicou o âncora.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

De Zelaya a Caetano



O que a imprensa nos trouxe de mais importante nesta semana? – As falcatruas da família Sarney? – A luta de Zelaya para voltar ao poder? – As novas explicações de Temporão para o descontrole da Gripe Suína? – O risco eleitoral que o Celso Ming queria ver na ata do Copom, ou o menor nível de desemprego do ano? – Para alguns, a troca de farpas entre Hillary Clinton e Pyongyong foi mais instrutiva, em outros corações, a desmontagem do Corinthians calou fundo.

Na minha opinião, porém, se as faculdades de Jornalismo ainda existissem, a peça de estudo da semana seria a entrevista de Caetano Veloso à Folha de S. Paulo, na Ilustrada desta quarta-feira (22), exemplo do que o jornalismo ainda pode produzir. Um amigo (jornalista) comentou: “Guardei para ler à noite por saber que quando ele fala, sempre se aproveita alguma coisa”.

Por ter envelhecido junto (bem), a nossa geração se reconhece no artista: “Tenho saudade da alegria física da juventude, da elasticidade do corpo, do jato forte da urina, das ereções firmes” (leituras de Phillip Roth); “Passei a ser programaticamente antirreligioso porque ser antirreligioso me parecia uma repressão da religiosidade”; “Disse a Gil que ele seria no máximo um Lula do Lula” – Onde mais se leria essas frases?

Seguem trechos de notícias de guerra, para forçar a comparação: “Micheletti é um gorila que cometeu assassinatos, violação de direitos humanos e traição”; “O toque de recolher não provocou danos porque a atividade produtiva funciona de dia”. Ou: “Só podemos considerar a sra. Clinton como uma dama engraçada que às vezes parece uma aluna no ensino básico, outras, uma aposentada indo às compras”. Ou, ainda: “Alguns dos presos confessaram trabalhar para inimigos estrangeiros com o objetivo de desestabilizar o Irã”.

A cuidadosa edição da entrevista de Caetano Veloso, no fio da navalha, e detalhes como o precioso título, “Caetano estrila” (estrela?) sobre o rosto congestionado do artista, ou o registro discreto “nesta entrevista que ele preferiu fazer por e-mail” não esconderam a origem do evento, no jornal que não resiste à polêmica. Além do marketing da mosca que nasceu pra lhe abusar, transpareceu a gostosa nostalgia dos Comentários da Semana, de Machadão, no Diário do Rio de Janeiro (1861), das polêmicas de Pessoa e Sá Carneiro na Lisboa do começo do século e das crônicas de Carlinhos Oliveira no Diário Carioca e JB dos 60 a 80.

Pouco importam a Lei Rouanet , as rabugices do artista ou a independência eventualmente demagógica da Folha: o conteúdo, como se diz hoje em dia, vale o seu tempo.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O risco eleitoral e o deus Mercado



Se o Celso Ming não fosse competente, não resistiria a tantos anos na vitrine do colunismo econômico brasileiro. No entanto, permito-me fazer algumas observações sobre o seu artigo de hoje (22) no Estadão, Risco Eleitoral, sobre a precificação, pelo deus Mercado, da eleição de qualquer um dos dois principais candidatos à presidência da República em 2010, a ministra Dilma ou o governador Serra tidos, ambos, como antípodas da política econômica conduzida pelo atual presidente do BC, Henrique Meirelles: afinal, os juros futuros estão subindo!.

A duas páginas de distância do artigo de Ming – e é isso o que me dá saudades do jornalismo impresso – o mesmo Estadão informou a queda de R$ 56,4 bi na arrecadação do governo, sem a devida contrapartida em cortes no orçamento deste ano, ao contrário do que imaginava o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, recheado de boas intenções. Afinal, estamos às vésperas da eleição, a inflação está sob controle, os juros estão caindo, o real se apreciando e até os Estados Unidos – a maior economia do mundo – opõe, com discreto recato, o velho Keynes ao velho Adam Smith.

Significa que não se pode atribuir unicamente ao desenvolvimentismo de Dilma ou à independência de Serra – e muito menos, à saída de Meirelles do BC (prevista para daqui a alguns meses) – a expectativa de juros futuros elevados. Isso é uma aposta dos operadores que pode incluir, entre outras variáveis, uma avaliação excessivamente otimista do mercado interno ou uma análise muito pessimista do mercado externo. Além, é claro, do principal ingrediente de sua atividade, que é a especulação pura e simples. Afinal, todo mundo acredita (até os bancos) que a SELIC vai se manter em torno de 8,5% até o fim do ano, podendo voltar aos dois dígitos somente lá pelo segundo semestre do próximo ano.

Mas o que mais me chamou atenção no artigo do Ming não foi a tese e sim o corolário, no qual o articulista, meio bravo,recomendou aos dois pré-candidatos que exponham, desde já, seus planos (teses econômicas), para evitar que as expectativas se deteriorem no curto prazo. Pôxa, Celso, será que o Deus Mercado é assim tão poderoso?