Tem tanta coisa acontecendo, que a crise internacional e os sinais de fumaça que o ministro Mantega mandou para a Geral, lá do Planalto, vão se dissipando mais depressa que o enxofre e o CO2 que poluem o nosso ar. Querem ver? – O Pedro acordou. Bom para a família, ótimo para os jovens cantores sertanejos que agradecem às orações de milhares de fãs, todos os dias, pelos telejornais, mas para mim, que nem conheço o rapaz, o que mais significa? Segunda notícia: a rainha da Inglaterra visitou a feira de flores do Chelsea, em Londres, aquele bairro cujo time de futebol acaba de vencer a Liga dos Campeões da Europa. – Ok, mas quem vai comprar todas aquelas flores? – A Grécia?
Clint é um bom cineasta, como Jabor, mas não conseguiu emplacar o seu filme recente, J.Edgar (Hoover), com Leonardo di Caprio. Um produto que o crítico, Luiz Carlos Merten, do Estadão, gostou (“adoro quando diretores machos abordam o universo gay – batem duro, mas há neles uma compaixão pelo sofrimento que os diretores gays, como o Visconti, não conseguem ter, sem cair na autocomiseração”), mas considerou depressivo. “O homem que reformou o FBI, perseguiu obsessivamente o comunismo e chantageou poderosos, era apaixonado pela mãe e, sem sair do armário, destruiu todos a quem amou”. Mais: adorava fofocar e bajular as estrelas, segundo Don de Lillo, em “Submundo”, livro que pode ter inspirado Eastwood.
Mas, voltando às celebridades e às definições de direita e esquerda, das quais tratou o Jabor, em seu artigo de hoje. No ressentimento do cineasta com a malhação de seus antigos parceiros ao filme Toda nudez será castigada (1973), parceiros estes que passaram a elogiar a obra, depois que a ditadura militar a proibiu, cabe um reparo: não é verdade que toda a esquerda da época tenha odiado Nelson Rodrigues, para incensá-lo só depois de sua consagração como artista.
Ainda garoto, tive o privilégio de trabalhar a duas mesas de onde o Nelson costurava suas crônicas, na redação de O Globo. De fato, nunca lhe dirigi uma palavra. Mas tive a decência de me reconciliar com ele e de reconhecer o seu gênio imediatamente depois de começar a ler suas obras, que, até então me haviam sonegado. Quem me conhece de perto sabe a fórmula antipreconceito que usei, ao educar os filhos, mais tarde: “Eu podia ter aprendido muito com o Nelson, mas nunca me atrevi a tentar, por causa de um preconceito idiota”.
Como as bruxas existem, recebi, justamente hoje, uma dessas bobagens da Internet, classificando comportamentos de direita e de esquerda, o que serviu para reviver discussões saudavelmente idiotas de um grupo de amigos, de diferentes culturas, que se reúne de vez em quando, como um filme de Monicelli. Havia, claro, no material, clichês republicanos e esquerdistas, pequenas crueldades e até algum humor , mas o pior é que ele chegou a suscitar uma discussão séria sobre o que é progressismo e conservadorismo, hoje: de um lado, o humanismo carola dos herdeiros de Kant, disfarçado de consciência ambiental, de outro, a ética do indivíduo, baseada no saudável niilismo nietzcheano. Parecia uma preliminar do Cigano contra o Frank Mir. A essa altura, alguém teve o bom senso de propor que a conversa continuasse num bar.
Para mim, a grande criatura era o alfabeto. A mãe até ensinava, desavisada, antes que entrássemos na escola, que "b" e "a" davam "ba", "b" e "e", "bé", "b" e "i", "bi". Mas, e para entender o que era isso? Quando janeiro chegou, e comecei na escola, com meus oito anos recentes, a professora mandou ler em silêncio, e eu nunca pensei que aqueles sinais podiam transmitir coisas tão exatas como aquele texto. O texto dizia que um aluno, colega nosso, tava com um problema em casa, e então pedia licença à professora para ir para casa. Nossa Senhora, era um verdadeiro assombro! Olhei para o lado, sem acreditar que todo mundo estava vendo o aluno pedir à professora para ir pra casa, se levantar, fazer esse gesto que movimenta milhões de músculos. Eu desconfiava que aquilo, aqueles sinais, não eram capazes de transmitir a todo mundo igual ao que eu estava entendendo”.










