sexta-feira, 18 de julho de 2014

Orientação


José Raimundo de Souza*, o Zé, nasceu em Campina Grande, na Paraíba, há 48 anos. Veio para São Paulo aos 16 e se empregou como auxiliar na construção civil, como tantos outros parceiros de viagem. Manteve um restaurante de comida mineira por oito anos sem nunca ter visitado uma cidadezinha sequer de Minas Gerais. Fica perto do Morumbi Shopping, “um dos mais prestigiados de São Paulo”, como informa o folheto de vendas do condomínio Rochaverá Corporate Towers, também vizinho do centro de compras, do lado oposto, sede das tetracampeãs Basf e SAP e do laboratório Fleury, tão prestigiado que está sendo comprado pelo Fundo Gávea, de Armínio Fraga, ex-funcionário de George Soros.

Atualmente, o Zé toca uma borracharia de reparos sofisticados chamada Kauê Boutique dos Pneus, em frente ao prédio de seu antigo restaurante. A cem metros, num espaço situado entre a sede da Oracle Corp e um prédio de advogados de alto coturno (em frente ao hotel Blue Tree, do grupo Accor), ele opera, das cinco da tarde às onze da noite, uma barraca  de churrasco de gato. Tem uma lona "profissional" para os dias de chuva – hoje tão raros – e uma outra, que ele costuma estender no chão, antes de montar  as suas cinco mesinhas, sem magoar o triângulo de grama de 120 metros quadrados que nós, do bairro, resolvemos chamar de pracinha.

Conselho do Zé, escaldado em várias ações trabalhistas que lhe tiraram tudo, menos a vontade de viver: “Não tenha nada em seu nome”. Entre a borracharia e o churrasco de gato encontra-se, por enquanto, a sede da Honda. Dizem que vai mudar. A cinquenta metros, um novo empreendimento da Odebrecht, que vai combinar edifícios comerciais inteligentes e prédios residenciais.  A obra ainda está no chão, exatamente como aquele viaduto que caiu em Belo Horizonte, mas isso é maldade minha. A área da construtora termina na famosa rua Henry Dunant, do consulado norte-americano. Por ali convivem cerca de 10 taxistas que pegam o rabo da fila do shopping. Foram expulsos da ruazinha da praça por urinar na calçada, à vista dos moradores dos edifícios erguidos no local.

Além de uma confecção de artigos de couro e algumas casas hoje habitadas por ambulantes, aposentados e trabalhadores da construção civil, sobrevivem, nas ruas próximas, dois prédios de três e quatro andares: um, ocupado por uma empresa importadora de cristais; outro, por uma fábrica de biscoitos. Entre as residências que sobraram nessa antiga zona fabril de Santo Amaro, cercadas por altos empreendimentos imobiliários, encontram-se: um consultório médico de aparência duvidosa, uma casa abandonada, um salão de beleza e uma pet shop, como se chamam atualmente esses banhos públicos de cachorros que também oferecem consultas veterinárias e bugigangas voltadas a esse mercado.

O perímetro é completado pela sugestiva rua do Cancioneiro Popular, ao sul, e pelas quadras do Rivelino Sport Center, ao norte. O shopping center fica a oeste. O meu escritório, ao lado da antiga fábrica da Kibon, a leste.

Andei por essa área durante duas ou três horas, ontem (17/7), seguindo as coordenadas de duas colegas que monitoravam, direto do escritório, um rastreador de um aparelho celular que, eu, na véspera, deixei cair em algum lugar, depois de sair de casa atrasado para uma reunião, com ele no teto do carro.  O GPS começou indicando um ponto perto de onde eu moro, na esquina ocupada pela tal importadora de cristais.

Identifiquei a empresa e telefonei imediatamente. A moça que me atendeu, muito simpática, não sabia ser possível rastrear aquele tipo de celular por satélite: "Já perdi três", informou. Fiquei feliz em transmitir o pouco que sei a respeito. E contei minha história. Ninguém tinha achado um telefone, assim, assado. O ponto indicado pelo rastreador mudou de direção, aparecendo no meio de uma das quadras de society do Rivelino. Corro para lá. Ao chegar, sou informado de que o ponto já mudou novanente de lugar: agora, está no fosso que separa as quadras da rua dos fundos. Um instrutor cujos alunos estão atrasados me segue. Procuramos no mato em redor, em vão.

Nova mudança de rumo: segundo o satélite, o aparelho, agora, está na rua que passa ao lado de onde eu moro. Indago a um desabrigado que ataca a sua quentinha, sentado na sarjeta, com promessa de recompensa, caso ele, por acaso, tenha encontrado o meu telefone. Nisso, a indicação passa para a obra de reforma de uma churrascaria South Place, ao lado do Rivelino Sports Center. O meu bairro é praticamente uma Flórida, em termos de estabelecimentos comerciais. Peço licença ao gaúcho para falar com os seus operários. Nada foi encontrado. Falo com os taxistas, com a dona do salão de beleza que fuma na calçada, com o segurança do prédio ao lado. Desisto.

Volto para o escritório, frustrado, pensando no Mário Sérgio Cortella, que gosta de lembrar, em suas palestras, o momento em que as pessoas deixaram de se nortear, no fim da Idade Média, e passaram a se orientar, na era das grandes navegações. Hoje, a gente se localiza por satélites. De vez em quando, eles se desmancham lá na estratosfera e caem na cabeça da gente. 

Ao observar com calma a tela do notebook que orientou a minha busca, percebo que o software de localização conectado ao aplicativo do(s) aparelho(s) via  nuvem me remete ao rastreamento de “todos os aparelhos” do mesmo fabricante, embora essa aba não seja visível, numa primeira operação: o “caminho” para se chegar até essa tela indica “busca do celular xyz”. Só então percebo que o aparelho localizado pelo rastreador, no meu caso, pode ser o primo do meu telefone, um tablet que permaneceu em meu apartamento, o tempo todo, e que, provavelmente, foi movimentado pela auxiliar que fazia a limpeza do recinto.

Posso não ser um Amyr Klink mas, pela origem que o nome denuncia, bem que eu poderia ser um navegador melhor: saber, pelo menos, que a rotação da terra e a posição dos satélites se alteram, eventualmente, além de estudar um pouco mais o sistema de rastreamento desses devices, antes de sair por aí, feito louco, indagando pelas ruas sobre um telefone perdido.

Apesar de tudo, não posso reclamar: descobri quem é o sacana que toca forró no volume mais alto, na hora da minha siesta de domingo; que atrás do Rivelino existe uma bananeira passível de fornecer folhas para um peixe assado; que o Ângelo Máximo (ex-Jovem Guarda) agora tem dois restaurantes por quilo nas costas do shopping; que o vendedor de DVDs pirata da pracinha também opera com blue-ray; que os meus vizinhos ambulantes não são receptadores de aparelhos roubados, mas oferecem capinhas de celular a um preço bem melhor que os dos quiosques especializados e que o intelectual do momento, segundo a Caros Amigos pendurada na banca da esquina, é o Guilherme Boulos, líder dos Trabalhadores Sem Teto, a quem pretendo sugerir a criação de um braço para os sem-escritórios, já que os aluguéis, por aqui, andam pela hora da morte.

(*) Nome fictício

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ministério do Pensamento (Argentino)

O frio me deu preguiça. Mas tenho que catar uns cavacos para o fogo, e subo o morro, onde ventos da Patagônia me trazem a última invenção de dona Cristina Kirchner, que não tem 78 ministérios, como sua vizinha, mas acaba de inventar um que, solito, vale por todos, sendo merecedor do nosso Prêmio George Orwell 2014: o Ministério do Pensamento. Tem a tarefa inefável de “estimular a percepção do ser nacional”, exaltando os “valores patrióticos” e criticando a subversão. Além, é claro, de patrocinar uns copos, pelos próximos meses.  

Eu queria estar na pele do Ricardo Forster, escolhido para o cargo. Diversão prá valer. Bem melhor do que a missão de Manuel Dorrego, que foi designado pela presidenta (Kirchner) para dirigir o recém-criado Instituto Nacional do Revisionismo Histórico Argentino e Ibero-americano. Só de photoshop para corrigir o estrabismo e as poses desengonçadas do marido, Néstor – que Deus o tenha – serão dias, talvez, anos.

O tal instituto também deve ser encarregado de revisar os títulos das obras do inspirador do casal, Juan Domingo Perón: “Moral Militar”, “Higiene Militar”, “Campanha do Alto Peru” e “Estudos Estratégicos da Frente Leste da Segunda Guerra Mundial” – todos do tempo em que ele tinha apenas uma patente de capitão. E de providenciar uma vitória na Guerra das Malvinas.

Também pode arranjar uma origem campesina para o Che, já que a versão corrente, de médico e banqueiro bem nascido, não pega  bem. Carlos Gardel vai obter uma nova certidão de nascimento, num cartório da Boca. E, claro, o Instituto vai obter provas contundentes de que o gol de Maradona contra a Inglaterra, na Copa de 86, foi de cabeça.

Já o ministro do Pensamento pode se divertir montando um interessante organograma: Secretaria do Raciocínio Lógico; Gabinete de Inspirações Utópicas; Divisão de Abstrações Transcedentais, Departamento da LateralidadeAssessoria de Funções Corticais. A Delegacia dos Insights constituiria uma rede de postos de criação coletiva, inspirados no decreto da presidente Dilma Rousseff, que instituiu, no Brasil, os Conselhos de Consulta Popular: tudo para alimentar a pipe line da imagética nacional.

Eu convidaria o ex-papa Bento XVI a indicar um inquisidor – durão – para comandar a Procuradoria dos Pensamentos Impuros. Ainda por parte da Igreja, o Padre Quevedo, da Parapsicologia, seria o Diretor de Telecinesia, aquele tipo de pensamento que move objetos e espeta agulhas no corpo de videntes, e que inspirou filmes famosos como Carrie, a Estranha, O Exorcista e O Bebê de Rosemary. O Paulo Coelho seria o publisher da Editora Nacional do Pensamento Positivo, responsável pela impressão e distribuição de livros de autoajuda por todo o território argentino.

A gestão do espaço físico do Ministério do Pensamento não pode ser desprezada: sala das tempestades cerebrais, pérgola das elucubrações sedimentares, escritório da eloquência verbal, cabine de flashes cognitivoslaboratório de questionamentos incidentais, sala de introspecção exploratória, jardim do ócio criativo (inspirado nos quintais da Microsoft e do Google), espaço (wide open) do livre pensar , além, é claro, do  salão das Verdades Absolutas. Nem o grande Timoneiro (Mao), com a revolução que levou ao Massacre da Paz Celestial,  25 anos, teria denominações tão sugestivas.

Ao definir os processos de trabalho da instituição,  eu levaria mais tempo:- Idealismo Transcendental e Dúvida Metódica: Pragmatismo? – O fluxo operacional seguiria uma estrutura linear, partindo de um Romantismo Aplicado, com Goethe, passando rapidamente pelo Iluminismo, com Molière, e pelo Niilismo, com Dostoievski, para chegar a um  Existencialismo sartriano,  mais conveniente à estruturação do pensamento argentino de hoje, convenhamos. 

Alguns expedientes poderiam incluir métodos de Hegel e Kierkgaard, para adotar, em seguida, uma filosofia religiosa inspirada na teologia da libertação, no zen-budismo ou na Cabala.  – Fossem quais fossem as diretrizes do órgão, as escolas teriam que oferecer disciplinas instigantes, como Física Quântica, Cientologia e Estudos Avançados no Preparo de PoçõesMas o papel de impressão teria que continuar sob controle do Estado.

Os adolescentes passariam por espécie de Enen do Pensamento,  onde teriam que ficar comprovados conhecimentos dos gregos antigos (Heráclito, Zenon), além de Platão e Aristóteles; Locke, Newton, Darwin, Montesquieu, Hobbes, Rosseau, Hegel, Nietzche, Kierkgaard, Shopenhauer, Adorno e Benjamin. 

Também não saberia dizer se, nos processos de criação, o método adotado como padrão pelo ministério seria artístico ou científico. Sei que, na Música,  não valeriam gêneros exóticos, como o funk e a lambada, mas o jazz clássico e o erudito seriam tolerados, além do tango, claro. O problema seria como classificar Gato Barbieri e Piazzola? – Mas essa transversalidade ficaria a cargo do Instituto do Revisionismo Histórico.

O ministério teria que definir um método transparente de aprovação e subsídio às artes teatrais e produções cinematográficas. O conteúdo teria que ser, necessariamente,  mais denso do que das peças atuais, exceto nas criações ligeiras tipicamente argentinas, como o CQC. Não sabemos se Miguel Puig, Babenco e o Fernando Meligeni seriam tolerados como parte da cultura nacional, depois de terem virado a casaca.

De uma coisa, estou certo: piadas de argentino – como a do sujeito que ficou milionário comprando um hermano pelo preço de sua autoavaliação e vendendo depois, por seu valor real, – estarão terminantemente proibidas.

Imagino com que ânimo Don Jorge Luis Borges encararia o tal Ministério do Pensamento, ou  Julio Cortazar, que, por muito menos, foi viver em Paris. Ou morrer por lá, como ele próprio teria dito. Ao saber da novidade Ernesto Sábato, certamente, assoviaria um tango e se meteria no primeiro bordel que achasse, onde estivesse. Mas e os outros? – San Martin, o herói da independência, Martin Fierro, a base de tudo, Mercedes Sosa, a cantante, o campeão mundial de box, Carlos Monzon, o pessoal do tênis – Vilas, Gabriela Sabatini -  e os cineastas, Campanella, Bemberg, Burman (O Segredo de Seus Olhos, Camila, Abraço Partido).- Como essa gente encararia o seu novo arcabouço institucional?

Nada fácil. E você, que andava resmungando diante do besteirol de praxe, agravado pelo súbito bom humor da sua presidenta, que resolveu citar Nelson Rodrigues fora de contexto, como numa entrevista para a Contigo (“a pátria de calção e chuteiras”) deve estar comemorando a notícia. Mesmo depois de ter visto, pela TV, as palmadinhas carinhosas do Renan Calheiros em nossa ídola Xuxa, de ter  sofrido com a falta de água, de luz e de sinal, com a greve de metrô, e com os protestos dos sem teto contra a prática do aluguel (eu apóio).

Mesmo que o Brasil não ganhe a Copa, agora, você tem um consolo: na Argentina, tudo pode ser muito pior.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Gaviões e passarinhos*


Se a vida fosse um jogo – War ou O Pequeno Arquiteto – tenho uma idéia do que faria para resolver alguns dos nossos problemas: em vez de cumprir pena de trabalho comunitário no asilo para pacientes de Alzheimer do Instituto Sagrada Família, no pequeno município de Cesano Boscone, perto de Milão, na Itália, o ex-primeiro ministro, Sílvio Berlusconi, que entende de jovens adolescentes do sexo feminino, seria encarregado de libertar as 200 garotas sequestradas, no dia 14 de abril, pelos militantes nigerianos do Boko Haram, parlamentando com o simpático Abubakar Shekau, líder do grupo.
 
A medida liberaria a missão canadense e os aviões enviados pela França, Estados Unidos e Reino Unido à Nigéria, para atuar, em vez disso, na crise da Ucrânia, sob comando dos judeus ortodoxos ultrarradicais que são contra a visita do papa Francisco à Terra Santa (Jerusalem). Eu não comprei ingressos para a Copa, mas daria um bom trocado para ver um daqueles barbudos enfrentando o Vladimir Putin no octógono do Dana White.

Com essa providência, talvez o Hamas e o Fatah pudessem fazer avançar as negociações de paz visando libertar a faixa de Gaza da severa vigilância israelense. Lembrando que, se Berlusconi encontrasse, no tal asilo, uma personagem como a Maria Agnesi – homenageada, hoje pelo Google (16/5), e que morreu num asilo semelhante, o Albergo Trivulzio, em 1799, o papo entre eles não teria a menor chance: Agnesi (cuja única curva era aquela que recebeu o seu nome, a Curva de Agnesi), não entendia nada de futebol, embora tenha estudado equações diferenciais e produzido o primeiro trabalho reunindo as teorias de Newton e de Leibniz (Instituizone Analitiche). Ela também publicou suas Proposiones Philosophicae, assim mesmo, em latim.
O presidente Lula, eu botaria para enfrentar as manifestações de rua que antecedem a Copa, incluindo a greve dos PMs em Pernambuco: ele é bom de palanque. Teríamos mais chances de atender ao apelo do empresário Abílio Diniz, que pede calma à moçada, já que a Copa é inevitável, sugerindo que mostremos, ao mundo, a nossa face mais nobre. Segundo o empresário, os protestos contra os estádios de dois bilhões de reais, construídos em praças com pouca tradição no futebol, como o DF do Agnelo Queiroz – mais ligado às Artes Marciais (vide Operação Shaolin) – são justos, uma vez que a nossa Saúde, enquanto isso, lembra os farrapos humanos que perambulam pelas avenidas Brasil, no Rio, e rua Helvécia, em São Paulo. Mas não é hora de reclamar,  pensa o empresário.

O conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de S. Paulo, Robson Marinho, eu chamaria para explicar, às famílias dos 300 mineiros mortos na mina de carvão de Soma, na Turquia, as causas do acidente. Ele substituiria o primeiro ministro turco, Tayyp Erdogan, que, decididamente, mostrou-se incapaz de desempenhar a tarefa a contento. Se fosse bem sucedido na missão, Marinho poderia manter a sua cadeira no TCE, embora tivesse que devolver, do mesmo jeito, os US$ 2,7 milhões das contas na Suiça. Esse dinheiro daria para se construir uns 20 Machados de Assis, novinhos em folha, inclusive em estilo rapper, se fosse o caso, e reformar umas 30 Anas Marias Bragas.
No lugar dos judeus ortodoxos que eu mandaria para a Ucrânia, o Faustão e a sua provável sucessora, Regina Casé (ex-Asdrúbal), seriam incumbidos de fazer alguns programas de auditório no local mais próximo permitido do Muro das Lamentações, em Jerusalem. Para contribuir na tarefa, destacaria o Arlindo Cruz, o Almir Guineto e o MC, Nego do Borel. Como artistas convidados, a Cláudia Leite e um trio formado por Supla, Márcio Victor Lepo Lepo e Latino. Isso emprestaria  brasilidade ao conjunto.

Na Virada Cultural, eu colocaria aquele pastor que aluga horário na Band, o Romildo Ribeiro Soares (RR Soares), junto com o Edir Macedo e com o Valdemiro Santiago num debate sobre as raízes do funk nacional, moderado pelo jornalista e apresentador, José Luís Datena. Este, certamente, falaria da influência desse mal afamado gênero nos recentes atos de violência que vitimaram inocentes em confrontos inusitados com a polícia, com bandidos (balas perdidas) e com populares inflamados por falsas denúncias publicadas nas redes sociais.
Aliás, se o Renan Calheiros e o Romero Jucá estivessem em Morrinhos 1, no Guarujá-SP, no dia 3/5, a multidão enfurecida não teria atacado a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, que morreu em consequência de ferimentos recebidos durante a bárbara agressão de uma pequena multidão histérica e ignorante. Da mesma forma, se os ilustres senadores tivessem sido convidados a dar o pontapé inicial do 1ª. Copa de Futebol da Vila Aliança, em Bangu, no dia seguinte (4/5), certamente a foto de traficantes celebrando um gol com tiros de AK-47, vestidos com a camisa da Seleção Brasileira, não teriam percorrido o mundo.

No meu jogo, a atriz, Isis Valverde, seria encarregada de escrever um livro de memórias em Aiuruoca-MG e depois, teria que desfilar nua, pelas ruas de Paraty, durante a Flip, recitando poemas de Mallarmé, ao som do Prélude à l'après-midi d'un Faune, de Claude Debussy. Nesse momento, o Cauã Reymond e o novo namorado de sua ex-mulher, Grazi Massafera - o lutador Erik Silva -, estariam acomodados em poltronas separadas, para ouvir uma leitura de poemas do nosso grande Ferreira Gullar.
O jovem negro que finalmente surpreendi espetando propaganda de encanador, chaveiro e eletricista nas caixas de correio da vizinhança – intrigante sobrevivente das epidemias de dengue, carnaval, futebol e cerveja – que, provavelmente, ainda acredita em trabalhar, estudar nas faculdades Cacique Cobra Coral e subir na vida, eu mandaria para o Canadá, com uma bolsa de estudos bancada pelos fundos partidários que pagaram os advogados de defesa dos condenados do Mensalão. 
E a bailarina, belíssima, que vi enjaulada num box de lotérica da avenida Adolfo Pinheiro (Santo Amaro-SP), anteontem, ouvindo gracejos de um velho babão, seria teletransportada para uma aula da Royal Academy of Dance, em Londres, onde moraria num pensionato, com direito a visitar a família, no Brasil, uma vez por ano, mediante verba igualmente cedida pelos fundos partidários que, no meu jogo, já teriam deixado de consumir recursos das construtoras extraídos de obras superfaturadas, financiadas com os nossos impostos que, de 1/1/2014 até o momento em que escrevi esta crônica (16/5, 16h31), somavam R$ 644,7 bilhões.

Qualquer reclamação de eventuais indigitados ou excluídos, estarei assistindo ao show da Vanusa ou a banda São José das Piranhas, na 10ª Virada Cultural, que, este ano, tem a curadoria do competente Hugo Possollo.  
(*) Título provisório, roubado do filme  Uccelatti e Uccellini, de Pier Paolo Pasolini.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Trabalhadores do Brasil

A primeira lição que o filme Getúlio, de Carla Camurati (produção), João Jardim (direção) e George Moura (roteiro), me ensinou, foi a de que não se pode percorrer os 7,1 km que separam a minha casa, perto do Morumbi Shopping, na Chácara Santo Antonio (São Paulo), e o Shopping Iguatemi, no Jardim Paulistano, no final de uma segunda-feira, de carro, em menos duas horas. Até o Tony Ramos, ator da Globo que mora no Rio de Janeiro, sabe disso. Ele mencionou o trânsito, ao falar, na abertura da seção de pré-estreia do filme:

- Estreia atrasa mesmo, é um fato – afirmou, sem rodeios. Nem parecia o sujeito atormentado que dentro de alguns minutos viria a se matar, com um tiro no coração. Uma segunda coisa me passou pela cabeça, logo de cara: a coragem dessa mulher, artista brasileira, Carla Camurati, que já nos havia legado uma Carlota Joaquina e um Dom João VI deslumbrantes, com Marieta Severo e Marco Nanini. – Quem mais – pensei – poderia remexer nesse baú sem causar rebuliço?

Como um velhote que viveu aqueles anos, ainda moleque, embora de ouvido (nossa família só tinha um rádio), posso achar que o Lacerda do Alexandre Borges merecia um espaço maior na fita; que Darcy Vargas (Clarisse Abujamra) poderia ter sido vista dançando num cabaré ou surpreendendo um vulto sinuoso nos corredores do palácio (Virginia Lane), e que a truculência de Gregório Fortunato (Thiago Justino) merecia mais fotogramas do que o seu enriquecimento ilícito. Alzirinha (Drica Lopes) está impecável.
Nos créditos, o filme propõe uma extensão de Getúlio em Juscelino Kubitscheck (presidente da República de 1956 a 1961), e uma relação direta entre a conspiração dos militares de 1954 contra Vargas e o golpe de 1964 contra João Goulart, este sim, seu herdeiro político. Faz isso sem dissecar as entranhas do conservadorismo das elites e dos quartéis, de antes e de depois, que tinham a mesma sanha que consumiu o velho presidente, mas que mudou de perfil, desde aquela época: além da aliança entre o poder econômico, a igreja e os militares, o golpe de 64 contou com o apoio de uma classe média conservadora e assustada, trunfo que a UDN de Lacerda não possuía, em 1955.

Mas se a tentação de atacar o pragmatismo dos audazes que voltaram seus refletores às paredes do Catete usando o “fácil” conteúdo dramático dos últimos dias de Vargas é quase irresistível, o impulso de valorizar a competência deles é mais forte: a descontaminação política do enredo tornou-se, a meu ver, um de seus principais atrativos. Embora desvinculado de ideologias, o filme lembra “Z”, de Costa Gravas. É tenso e vertiginoso, mas não chega a ser um thriller. No entanto, propõe uma consulta à Internet sobre a História de um Brasil que essa moçada não viveu, e desconhece.
Embora pessoalmente não tenha afinidade com nenhuma forma de populismo, penso que talvez falte, ao filme de João Jardim, um registro mais vigoroso das realizações de Vargas, no período de sua ditadura. Além de estatizar o petróleo e de fundar a base da indústria nacional, com a CSN, ele nos legou duas ou três décadas de um desenvolvimento econômico que sustentou o país até a crise do petróleo, em 1973. Aos interessados, recomendo a leitura da edição histórica da revista Exame de 2004, “A força do líder”, à venda no Mercado Livre.

O Alexandre Borges foi tão bacana comigo, anteontem (14/4), indicando o caminho mais fácil até sala de projeção, no meio da muvuca formada em torno do elenco, que eu nem deveria dizer isso, mas o Lacerda visto por você, Alexandre, um paladino da justiça, não era nada simpático, observado de perto: ex-comunista (como seu pai, Maurício), Carlos (Marx) Frederico (Engels) Lacerda foi um jornalista brilhante, um grande tribuno e, no início de sua carreira política, combateu, de fato, a corrupção.
Lacerda fez um bom governo, no Estado da Guanabara, de 1960 a 1965. Mas nunca foi o democrata que dizia haver se tornado. Entre os tons da direita que vão do autoritarismo (agudos) à hidrofobia (graves), o carioca era um barítono. Tentou derrubar Juscelino e, para muitos historiadores, foi o responsável pela renúncia de Jânio. Isso tudo, sem mencionar as articulações para o Golpe de 64.
O Alexandre Borges, bom ator, ficou bem no papel, mas o Cláudio Tovar, que fez o deputado governista, é a cara do Lacerda.  Todo o elenco do filme, aliás, foi bem escolhido, incluindo o Marcelo Médici, no papel (dramático) de Luthero Vargas. Em nenhum momento, o vi repetir, diante do pai, a frase que tornou célebre: “Cada um com seus pobrema”. A trilha original, do argentino Federico Jusid, é excepcional, assim como o figurino, de Marcelo Pires e Valéria Stefani. Gostei do “personagem” Palácio do Catete, mas eliminaria alguns fotogramas que mostram a cama do velho presidente, embora isso tenha contribuído para destacar o seu cansaço, naqueles dias. Não me cabe comentar a performance de Tony Ramos, outro bom ator.

Enfim, ver o Getúlio de João Jardim, a partir de 1º de maio, será um bom programa para todos nós, trabalhadores do Brasil, penso eu. Bem melhor que ver o Big Brother do Pedro Bial, mesmo assessorado pela gracinha da Monica Iozzi.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Eu também não mereço

Jornalista Nana Queiroz, protestando na Internet contra o resultado de pesquisa do IPEA

Concordo com o protesto das mulheres na Internet contra a premissa absurda de que pouca roupa significa um apelo ao estupro. Estou de acordo com as sociólogas que vieram juntar-se às manifestantes para sustentar que, mesmo o novo percentual de respostas apuradas pelo IPEA (26%, contra 65% divulgados anteriormente), é escandaloso. O próprio desvio do órgão – sem trocadilhos – não passa de um gesto obsceno.  Apóio e me solidarizo com essas mulheres por me sentir, eu próprio, vítima de estupro, quase que diário, enquanto cidadão. 

Ouvir o relator da Comissão de Constituição e Justiça do Congresso Nacional, Romero Jucá, dizer que a CPI da Petrobras “Combo” (ampliada para apurar irregularidades de antigos governos de São Paulo e de Pernambuco) representa um confronto político me assusta. A premissa ignora o conhecimento da sociedade de que a base do governo nunca se dispôs a investigar as irregularidades de antigos governos do PSDB em São Paulo (caso Alstom) e do PSB, em Pernambuco (porto de Suape), justamente por ter o seu rabo preso.

Vladimir Nabukov tem um conto prodigioso, La Veneziana, que surge de um súbito rompimento de uma rotina modorrenta que se sucede a cada dia, na qual, após o café da manhã vem sempre o almoço e depois deste, o jantar. Justamente depois de um desses jantares prolongados, um personagem com espírito em formação descobre, ao ouvir um velho marchand e restaurador de arte, ser possível viajar para dentro de uma pintura, tomando-se o cuidado de nela não se permanecer retido para sempre.

Mas eu vivo o oposto de um tempo que se arrasta, viscoso e pachorrento: a morte violenta faz parte do meu dia a dia, assim como os trens entupidos, os ônibus incendiados, o trânsito caótico, os efeitos simultâneos de secas e enchentes, os call centers que não funcionam, assaltos ao vivo e on line, entrega de produtos que eu não pedi, defeitos nos que pedi, prefeitos que obrigam alunos a ir para a escola envergando fardas com a sua propaganda política, outros que submetem as crianças a um rodízio de aulas por falta de carteiras e outros, ainda, que forçam os pais dos estudantes a comprar kits de material escolar mais caros que os da papelaria (e com a foto dele, prefeito). 

Queria voltar a viver daqui a cinco séculos, para ver o que historiadores como o francês Jacques Le Goff, que reescreveu a Idade Média a partir dos non-evenements (não-acontecimentos) em vez de analisar fatos como batalhas e coroações, como esses historiadores fariam para dar suporte lógico à evolução das mentalidades no Brasil de hoje, neste continente esquecido. Seria engraçado ver tudo isso pelo avesso de novo, ou seja: uma História construída por um cotidiano grotesco, sem nenhuma interrupção ou mudança causada por fato relevante (como as Diretas Já). 

Qual a relação, voltando a Romero Jucá, entre as suspeitas de propina da construtora Camargo Correa a políticos, via doleiro Yousseff – no caso dessa suspeita, uma obra orçada em R$ 2 bilhões vai custar R$ 20 bilhões – ou das relações deste mesmo doleiro com o vice-presidente da Câmara dos Deputados, André Vargas, do PT – também investigado por suspeita de favorecimento ao laboratório Labogen, junto ao Ministério da Saúde – com o que ele, Jucá, chama de “disputa política”?

As pessoas morrem por falta de atendimento médico e hospitalar e, enquanto o Conselho de Medicina denuncia o estado catastrófico dos hospitais brasileiros, o meu prefeito recomenda, pelo rádio, que, em caso de suspeita de dengue, eu procure um posto de Saúde. Trata-se, por sinal, do mesmo moço que mandou pintar umas faixas na cidade, para resolver o problema do trânsito, há cerca de um ano. No Rio, aquele outro, que instituiu multa por se jogar lixo no chão, acaba sendo filmado atirando no ar o seu próprio resíduo sólido de consumo.

O  jornal que hoje deveria trazer, como brinde, um álbum de figurinhas da Copa, não chegou. Óbvio. Reclamei por dois dias seguidos. A edição acabou sendo entregue, mas sem as figurinhas (!). O endereço fica numa rua onde funcionou, por mais de um ano, um ponto de táxi que não tinha licença para tal. Eu e meus vizinhos nos cansamos de reclamar das condições de higiene no local, onde pelo menos dois taxistas foram flagrados urinando na calçada, à luz do dia. O lugar continua sendo ponto de descarte de entulho, em frente a um shopping de classe média (daquela antiga) e a uma agência do Banco do Brasil.

Sobre a Copa, o Itaquerão vai consumindo vidas, como um videogame, embora ainda longe de sua conclusão, às vésperas do jogo que deve abrir a competição. As “arenas” Pantanal (MS), da Baixada (PR) e  Amazonia  (Manaus) foram inauguradas com problemas. As pessoas também acreditavam que os aeroportos estariam reformados, sem “tapeação”. No front das Olimpíadas de 2016, somos obrigados a conviver com as reclamações das federações olímpicas do mundo todo contra o atraso nas obras da Rio 2016.

"Como integrante da comissão de coordenação, tenho que compartilhar com vocês muitas preocupações", disse Francesco Ricci Bitti, presidente da ASOIF, aos membros do organismo durante conferência em Belek, na Turquia (Reuters, 8/4). "Estamos satisfeitos com nosso relacionamento com o comitê organizador da Olimpíada, mas o apoio do governo é tardio e insuficiente”, declarou. “O fluxo de caixa não é positivo, e o apoio está atrasado e não chega. Eles têm muito discurso, mas não dinheiro, e palavras não bastam", completou. Deixa o Lula ouvir você, Francesco Bitti: todo mundo vai saber que você não passa de um agente infiltrado do PSDB.

O ex-presidente, aliás, depois dos últimos escândalos, conclamou o PT a somar forças para combater a “massa de informações deturpadas que vem sendo divulgada pela imprensa, para prejudicar o partido nas próximas eleições”. Disse que “o governo tem que ir para cima” e “reagir com unhas e dentes” às acusações que pesam contra o ele e que podem prejudicar o seu projeto de reeleição. Sobre a ética, combate à corrupção, realizações, melhoria nas condições de vida das pessoas – no transporte, na saúde, na educação e na segurança – sobre reforma tributária, gargalos na infraestrutura ou controle de gastos públicos – nem uma palavra.

Lula referiu-se à CPI dos Correios (que gerou o Mensalão) como exemplo de ameaças que devem ser combatidas pelo partido, e eu me lembrei que, há poucos dias, tive dois  exemplos  seguidos de ser esta mais uma instituição brasileira que, a exemplo de outras, parou de funcionar (adequadamente). No entanto, os Correios estão montando, em conjunto com a Receita Federal, um sistema para fiscalizar as importações por meio de encomendas,  que saltaram de 1,2 milhão de pacotes, em janeiro e fevereiro de 2013, para 1,7 milhão, nos dois primeiros meses deste ano. Estupro só é refresco nos olhos dos outros.


Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a inflação recorde dos últimos 11 anos é apenas consequência da falta de chuvas que afetou a produção de hortifrutigranjeiros. Enquanto isso, o senador Gim Argello (PTB-DF), suspeito de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, falsidade ideológica e peculato (conforme inquéritos do STF), foi indicado pelo governo para uma vaga no Tribunal de Contas da União. Ok, isso pode não ser um estupro propriamente dito, mas que tal, atentado ao pudor? 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Tudo Verdade


No país dos encoxadores e dos coxinhas, apresentadores de TV carregam vasos de cemitérios e anônimos surrupiam placas de bronze que ornam jazigos dos arquitetos da cultura nacional. Salve Monteiro Lobato. Do lado de fora, assassinos em série depositam pedaços de suas vítimas em sacos de lixo (Narizinho, Rabicó, Pica-pau) enquanto as masmorras dos castelos do reino seguem incapazes de deter os saqueadores do tesouro nacional. Neste mundo, não há humanos, mas, sim, monstros, que são absolutamente normais. O homem do tempo é um guarda-chuva e a moça do telejornal tem um olho só.
O sujeito das laqueaduras pagas pelo SUS (Asdrúbal Bentes, PMDB-PA) aparece ao lado da Rainha, antes de deixar o Castelo para cuidar da própria beleza, como pintar o cabelo da cor das asas da graúna, a la Iracema. A louraça de Jandira (Anabel Sabatini, prefeita) se alimenta da merenda das crianças e o alcaide da aldeia vizinha (Gil Arantes, Barueri) confisca as sementes dos pais, que trabalham duro no campo (kits de material escolar custam o dobro do preço na papelaria). Na floresta, soam as trombetas, raposas e javalis correm para seus esconderijos. Que monstro me mordeu? – Como é que o Cao Hamburger e seus convidados vão encarar o roteiro de sua nova série educativa? – Tenho um amigo de três anos que usa o tablet do pai, enquanto o meu, passa a maior parte do tempo desligado.
Edílson não paga a pensão e é preso, o Capetinha. Ganham tão pouco, os nossos bobos, que seus parentes mais próximos precisam enganar os coletores de tributos e, de sobra, as camareiras que rondam os jardins de seus palácios. Miss Brasil World Cities (Michele Martins), tem fuzil, carabina ponto 30 e bala de metralhadora. Mas a piada do dia é o retiro espiritual do Arauto do Rei em terras longínquas, além da cordilheira. Lá não tem rinha de galo, mas os cartéis vivem se engalfinhando: cuidado, amigo.
Na brisa do outono, as árvores se aquietam, já não andam mais, nem voam pela cidade, fustigadas pelo tempo. O ar nos transformou em pequenos deuses, seguidos por nossas sombras azuis. Mas não há mais trapezistas, nem vendedores de sorvete em lata, quebra-queixo ou amoladores de facas assobiando pelas ruas. Nem alpinistas escalando edifícios, nem caravanas do circo, com tigres enjaulados e mocinhas indianas sobre elefantes enormes, e palhaços montando camelos, altivos e modorrentos. Já não existe esse tipo de notícia, que costumava encerrar os telejornais da noite.

Os malucos que pintavam listras de camisa sobre o próprio corpo e usavam meio melão na cabeça, para viajar até Venus em sua ilusão super-sport (e que inventaram o amor) foram substituídos por outros, que saem nús, para matar, a tesouradas, os namorados de suas mães (Avenida Alessandro Marchió, Mineiros-GO). Não há mais procissões, nem enterros. Talvez por isso, os túmulos estejam abandonados. Nossos mortos, que costumavam assustar e criar causos para o Rolando Boldrin contar às crianças, já se foram, desta para outra melhor: estão mortos, mas não são estúpidos.
O Mágico de Oz promete iluminar e aquecer a Europa, ouço dizer. Parte do Acre (trocado por um cavalo) e de Rondônia foram entregues à Bolívia, também escuto. Coisa do rio Madeira e seus igarapés, que resolveram se rebelar, como aquelas rãzinhas que atrasaram a construção de Santo Antonio e Jirau. De seu Lugar Incomum, a ex-vj Didi Wagner mostra a Vitória da Samotrácia, no alto de uma escadaria no Louvre, mas as notícias dizem que, em Vitória da Conquista, foi inventado o rodízio do ensino, por falta de carteiras na escola Fidelcina Carvalho Santos. Uma coisa é uma coisa, mas não é bem assim.

Na luz da manhã, parte da boa gente da vila se reúne em torno da pista do aeroclube para ver o Padre Mutante voar. Ele ajeita seu engenho na cabeceira da estrada, suando – passou ali toda a noite – e saúda o sacristão, que chega puxando uma bezerrinha malhada, que Seu Francisco acaba de doar ao experimento: dois homens ajudam a ajeitá-la na gaiola de madeira colocada entre as traves da passarola, um tanto incrédulos. A bichinha não geme, mas seus olhos arregalados denotam medo, e surpresa.
As pessoas não têm medo, ao contrário: algumas levam balões de borracha, reco-reco e cataventos em varetas de bambú, apropriados à ocasião, além de garrafas de soda e pedaços de serpentina: querem que a coisa vá bem. O padre experimenta os varões das duas grandes asas de pano, testando sua força, e mexe no assento do eixo que se ergue sobre o triângulo das rodas de bicicleta. Examina a tensão da corrente, esfrega as mãos nas calças manchadas de graxa e se afasta alguns passos, admirando a própria obra: tudo pronto.
A pequena multidão sacoleja e logo silencia. O padre ajeita a passarola na cabeceira da pista, mira o horizonte e monta no selim. Começa a pedalar com esforço, e se precipita na média distância, ajudado pelo vento de popa; pedala mais rápido e se afasta. A uns cem metros dali, a geringonça levita um instante, e se alça no ar, como se tivesse perdido todo o peso, as grandes asas brilhando no sol, as pernas finas da bezerra penduradas no ar. O povo hurra, feliz, como se cada um tivesse criado um pedaço da engenhoca.

Lá longe, um vulto escuro despenca do pássaro de madeira: uma cesta virada ao contrário, com alguma coisa pendurada. O padre se precipita na mata, mais rápido do que se poderia esperar, visto àquela distância. As pessoas se mexem, desajeitadas, esticando o pescoço. Depois de algum tempo, ele aparece pequenino, na outra extremidade da pista, acenando com o que sobrou da camisa que usava quando subiu pelos ares. Da passarola, nem sinal.
Algumas milhas dali (quilômetros não funcionam nesse tipo de história), um moço que voltava da roça – porque tinha esquecido de levar a cabaça de água – ouve um mugido solene, vindo de uma moita de capim. Afasta o mato, e vê a bezerra malhada, uma das patas presa nos restos da gaiola de madeira. Quase sem acreditar, ele afasta as ripas que impedem o bicho de se por de pé, e percebe que ela está bem. Olha e agradece ao céu.
Pouco depois, o moço marcha feliz, puxando a vaquinha pela corda, pensando no leite e nas compras que fará com o produto da venda, dias à frente. Inflação, nunca mais. Ele vai juntar dinheiro, e comprar uma pick-up tracionada, não vai mais andar a pé. Na pick-up, vai poder levar o seu milho e a sua cana até o celeiro do Seu Asdrúbal, chefe da cooperativa local. Vendo o seu progresso, o homem vai tratá-lo com respeito, e talvez até lhe empreste o trombone que jaz abandonado no canto de sua sala. Com esse instrumento, o moço poderá ganhar mais alguns trocados, tocando nas festas das fazendas vizinhas.
E foi pensando nisso que o moço veio parar na feira da vila, levado por seus passos e sonhos, até encontrar o sujeito que acaba de lhe oferecer, pela bezerra, uma nota de cem e mais um punhado de feijões mágicos, vindos do TCU, que, segundo o cidadão, ele deve plantar perto da cerca, para, dentro de mais alguns meses, poder subir, pela árvore mágica que terá brotado alí, até a terra dos gigantes, onde vai encontrar uma galinha mágica, capaz de botar ovos de ouro e resolver todos os seus problemas para sempre.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Entre a dor e o nada

Bruna Linzemayer, protagonista da nova novela das seis (Foto Divulgação)
 
Enquanto o Ruy Castro escrevia a sua crônica desta segunda-feira, (FSP,17/3), falando do homicida exibicionista que matou a namorada de 14 anos e postou foto do rosto desfigurado da moça numa rede social, o Wladimir Putin se preparava para "anexar a Criméia", apoiado por milícias locais enfurecidas, envergando um nacionalismo com cheiro de naftalina. Horas depois, três PM cariocas – dois com patente de suboficial – matariam a tiros uma pobre senhora da favela da Congonha, no Rio, Cláudia Ferreira, arrastada pela viatura ocupada por eles, como num filme de Ridley Scott sobre traficantes mexicanos.

Um cinegrafista amador gravou as imagens sem as quais, os nossos trogloditas jamais se dariam conta da desumanidade de sua própria violência.

Estive com meu pai de quase 90 anos, no último fim de semana. Em sua cabeceira, além daquele volumão do Fernando Morais, “Chatô” e do último livro do Mário Prata (saudades de você, Ruth), “James Lins” (abandonado), encontrei “Os Sermões”, de Vieira, e sua leitura mais recente, “Uma Prova do Céu”, de Eben Alexander III, o neurologista harvardiano que, durante um coma, afirma ter batido às portas do paraíso, assim como o Bob Dylan, o Axl Rose e o Zé Ramalho (Knocking on havens door). Na música, Dylan pede à mãe que lhe tire o distintivo (badge) - ele não pode mais usar - assim como as armas, com as quais ele nunca mais vai conseguir atirar.
No Rio, o advogado Marcos Espínola, que defende um dos PM acusados pelo homicídio e maus tratos à auxiliar de Serviços Gerais Cláudia Ferreira, sargento Alex Sandro da Silva Alves, ajuizou ontem (18/3) um pedido de liberdade provisória para seu cliente. "A pena prevista no crime militar pelo qual os policiais são acusados vai de 3 meses a um ano de detenção”, argumentou. “Ou seja, mesmo que ele seja condenado, não ficará na cadeia. Por isso não há motivo para mantê-lo preso preventivamente."

Enquanto o meu velho calcula suas chances (boas) de alcançar o paradesha, também conhecido como Jardim do Éden, decidi voltar a Cormac McCarthy, The Road (“A Estrada”- Prêmio Pullitzer de 2006), por ter lido, há pouco tempo, a novela mais badalada do autor, Blood Meridian (“Meridiano de Sangue”-1985): “A Estrada” tem sido o meu breviário, nos últimos dias. Em adição a isso, nos finais de tarde, em vez de dar uma volta pelo pátio do mosteiro, tenho assistido de três a cinco minutos de Datena (não dá para suportar mais que isso), tudo visando enfrentar a realidade do mundo que nos cerca.
Antes de dormir, cinzas, frio, fome. Mergulho nas paisagens desoladoras de McCarthy, onde pai e filho, sobreviventes de uma guerra nuclear, arrastam um carrinho de supermercado, com suas parcas provisões, perseguidos por um bando de canibais: “Vultos enlameados de cidades inundadas até a linha d’água”. “Luz de cor de água suja se petrificando nos vidros imundos da janela”.

McCarthy tornou-se mais conhecido, no Brasil, depois que seu No Country for Old Man (“Onde os Fracos Não Têm Vez”) chegou à telona, mas o texto impecável do artesão, bem como a sua estética apocalíptica são reconhecidos, nos Estados Unidos, desde quando “O Meridiano” entrou na lista dos então 100 melhores romances de língua inglesa da Time e do New York Times de 2003. Harold Bloom referiu-se a esse livro como o maior romance norte-americano depois de As I Lay Dying (“Enquanto Agonizo”), de William Faulkner, pai dessa geração que sucedeu o Newjornalism (Norman Mailler, Truman Capote), também formada por Phillip Roth, Don De Lillo e Thomas Pynchon. Desculpem o tom de resenha.
O meu primeiro Faulkner foi The Wild Palms, (“Palmeiras Selvagens”-1939), história entremeada por outra, The Old, “O Velho”, que tem, como pano de fundo, uma enchente do Mississipi: durante um traslado de caminhão, numa fazenda penal, um detento é arrastado pelas águas. Depois, tenta, desesperadamente, voltar ao presídio, único espaço que lhe dá sentido. Sempre que consegue chegar perto de algum lugar, na tentativa de ajudar uma mulher grávida que encontrou no rio, é afastado a tiros, por causa do uniforme da colônia penal. Aqui, em São Paulo, minha rua, a Roque Petroni Júnior, enche quase todo dia. “A mãe natureza, diante da qual o homem se move incerto sobre uma casca de noz”.

A personagem do livro (ou o personagem, como preferirem) consegue, por fim, fazer o parto da mulher grávida numa ilhota onde os dois tentam se proteger da enchente. Quando, finalmente, o homem consegue se entregar à polícia, celebra os 10 anos adicionais de pena recebidos por “tentativa de fuga” e um charuto que ganhou de presente do diretor da prisão. Alguma semelhança com a nossa realidade?
Estou sendo muito americano, na minha amargura? – Pode ser. Tentei a moça de “De Gados e Homens” e “Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos”, mas encontrei Tarantino e Sérgio Leone. Procurei o Dostoievsky que alguns críticos afirmam ter visto passeando por esses textos, mas a minha bateia deve ser muito rasa. Foi divertido, Ana, mas eu passei pelo Tropicalismo quando  jovem. Um pré pós-modernismo. Ouvir Caetano, aliás, me faz bem, e Chico. Contudo, o segundo movimento do Concerto em Fá Maior do Bach, em alguns momentos, pode ser melhor. Ou, na definição do filósofo Nelson Rubens, “diferente”, pensamento sujeito à ressalva de outro filósofo nacional, o Juarez Soares: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.

Como não possuo (mais) nenhuma motocicleta de 500 cilindradas para cruzar as avenidas desertas do planalto central, à noite, disfarçado de mandatário(a) da República, só assim tenho conseguido alguma paz.
Da produção brasileira voltada ao nosso tema, a solidão, aguardo a estréia de “Um Homem Só”, produzido pela bela Mariana Ximenes, que faz o papel de uma gerente de cemitério de cachorro. Cheguei a pensar que essas obras  – “O Cheiro do Ralo” (romance de Lourenço Mutarelli), “Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas” (filmes de Cláudio Assis) – há muitas outras – me cansariam, pela insistência do tema. Devem ter estimulado a criação de “Meu Pedacinho de Céu” (de Benedito Ruy Barbosa), nova novela da Vênus Platinada, mas não, não me cansaram. A nossa verdade tem cara de jornal Extra, foto de caixão e contraste em branco e preto.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Caio no Fórum de Tecnologia


Acordo às cinco da manhã, numa quitinete do bairro de Olinda, em Nilópolis (RJ), passo uma água na cara e penso em correr para a estação da Supervia (Japeri-Santa Cruz), a fim chegar antes das sete ao hospital, em Campo Grande, onde trabalho como auxiliar de limpeza. Esfrego os olhos e vejo que estive sonhando. Tenho 23 anos e me chamo Caio Silva de Souza. Estou numa cela de Bangu 1 (já tinha ouvido falar disso aqui) e sou o assassino do cinegrafista Santiago Andrade, como dizem os noticiários da TV e as manchetes dos jornais, em todo o Brasil. Ele não merecia esse destino, e acho que nem eu.

A Folha de S. Paulo tenta investigar as ligações do garoto cujo gesto impensado tirou a vida de Santiago Andrade, um profissional dedicado e talentoso, homem de família. Caio, por sua vez, pretendia “melhorar o país”; queria “mais saúde, mais educação”. Cresceu numa casa de taipa, feita de alvenaria, num subúrbio de Nilópolis, baixada fluminense. Um rapaz tranquilo: quase ninguém ouvia a sua voz. Nos protestos, virava um leão. Alguns de nós éramos assim. Eu fui assim. Alguns anos depois, frequentei um curso de direção defensiva, na multinacional Nestlé, onde fui trabalhar, depois da greve dos jornalistas, em 1979.
Dizem que o Caio Silva de Souza era patrocinado por partidos de extrema esquerda. Participam dessa investigação, além da polícia do Rio, subordinada ao governo Sérgio Cabral, mentor do alcaide Eduardo Paes, antípoda de Marcelo Freixo, do PSOL, os solertes repórteres da Folha de S. Paulo e seu portal de noticias, o Uol. Caio teve medo de ser linchado, e a ideia de tirar um pouco do peso da responsabilidade pela morte do jornalista de suas costas já faz parte da estratégia de defesa do advogado, Jonas Tadeu Nunes. A suspeita pode vir a ser comprovada, mas isso vem ao caso?

No meu edifício de classe média alta, todo mundo acha que o garoto é bandido, mensagem transmitida, com toda a competência, pelos telejornais de ontem (12/2). Não vou dizer que Caio não teve escolha, que é fruto do meio. Não apoio a violência, nem a irresponsabilidade, nem a imprudência. E, como todo mundo, lamento a morte de um profissional talentoso, no exercício de sua função, e o fato de o ministro que um dia recebeu o meu voto para um mandato de vereador, não ter dado atenção ao projeto do secretário da Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, que poderia ter evitado a tragédia.
Acho até engraçada a proposta de proibição de porretes, facas e explosivos nas manifestações. Imaginei que isso estivesse claro para toda a gente. Afinal, a desordem pública não é mais punida com a roda alta há muitos anos.

Roda Alta: o réu era colocado nu, com os pés e as mãos fixados numa roda de carroça. Em seguida, o carrasco, com um enorme martelo, esmagava os ossos dos braços e pernas do condenado, com o especial cuidado de não desferir golpes mortais. Se os golpes quebrassem os ossos e não rompessem a pele, o verdugo era aplaudido pela multidão. Quando os ossos estavam totalmente quebrados, os membros eram enrolados na roda e esta era suspendida numa estaca, onde o réu era deixado por vários dias, até morrer. 
Somos civilizados. Na programação de hoje (13/2/2014) do SAP Fórum (empresa de TI), o presidente executivo  do Grupo Abril, Fábio Barbosa, disse que nossos filhos já são melhores do que nós. E mais críticos. Lembrou que seu pai jogava papel no chão, que ele aprendeu a não fazer isso e que sua filha, hoje, briga com quem ainda tem essa atitude. “Tem gente lavando calçada com a mangueira, em pleno racionamento de água aqui na Capital” observou Fábio, com razão.  A proposta do palestrante: deixar filhos melhores para o mundo, em vez de apenas dotá-los de um mundo melhor.

Pouco depois, no mesmo Fórum, participei de uma entrevista coletiva sobre o projeto SAP Expoentes, com cinco jovens proprietários de startups promissoras: a primeira, voltada à melhoria da produção rural; a segunda, à rastreabilidade de alimentos (saudáveis); a terceira, criada para dar suporte comercial a artesãos brasileiros; a quarta, para combater doenças endêmicas, e a quinta, focada na empregabilidade de jovens de classes C e D, via mobilidade.
O garoto Caio Silva de Souza, ex-auxiliar de limpeza do hospital Rocha Faria, em Campo Grande-RJ, desempregado e cuja imprudência (burrice) matou o cinegrafista, identificava ou era recrutado para as manifestações de rua por meio de seu celular. Segundo sua mãe, Marilene Mendonça, ele não tinha computador, mas vivia conectado às redes sociais, por meio de seu smartphone.

Tenho a certeza de que meus filhos, a filha do Santiago (vale a pena ler sua carta de despedida) e esses meninos premiados pelo projeto SAP Endeavor – e que, talvez sejam instrumentos de uma futura melhoria social do país – tiveram mais computadores, mais celulares e boas chances de ser pessoas mais críticas,  e melhores do que nós, seus pais.
Talvez o sacrifício de Santiago Andrade e de seus executores (equivocados quanto ao método, mas não quanto aos objetivos), afinal, nos sirva de alguma coisa. Talvez a alternância no poder seja capaz de melhorar nossas chances de uma vida mais civilizada. Talvez não. Pode ser que outros meninos, revolucionários, reformistas ou pequeno-burgueses, aprendam com esse trágico episódio, pode ser que não.

Os fatos recentes – inclusive a morte de Santiago Andrade – serão suficientes para mudar a mentalidade dos nossos representantes no Congresso, ou de encorajar as reformas das quais necessitamos? - Política, previdenciária, trabalhista, jurídica? – Ou, pelo menos, serão capazes de mudar a nossa atitude, a partir do nosso próprio entorno, como sugeriu o Fábio Barbosa, hoje, recuperando Gramsci?  No mínimo, e, nisso, concordo com ele, seremos muito mais felizes se adotarmos uma nova atitude, já que a felicidade, como ele também disse, roubando Garcia Lorca, está no caminho, e não no destino.

E já que o Fábio Barbosa pode se inspirar nas ideias de outros pensadores, vou roubar uma nota da Mônica Bérgamo, da FSP que acabo de criticar (referindo-me ao grosso da imprensa brasileira, na cobertura da prisão do principal acusado pela morte de Santiago Andrade), em sua coluna de hoje, falando da festa dos 83 anos do Cauby Peixoto, cujo microfone falhou duas vezes, durante a interpretação de “New York, New York”, ontem (12/2), em Mauá-SP:
Ângela Maria fez a alegria dos fotógrafos que lamentavam a falta de celebridades. Questionada sobre o que acha da funkeira Anitta, a artista respondeu: "Quem é essa? Não gosto de funk. Das novas, que conheço pelo programa do Faustão, só gosto da Paula Fernandes".

Fevereiro curto, crônica curta, com uma observação: citei uma empresa à qual deixei de prestar serviços em dezembro do ano passado.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Ano Passado

Finalmente, paro de ouvir aquela cantoria de “feliz ano novo!” ao entrar nos lugares, um negócio quase tão enjoado quanto aquele bonjour madame, bonjour monsieur dos franceses, espécie de salvo conduto de boas maneiras herdado da Revolução de 1789.

Ano novo? - A bagunça nos aeroportos continua a mesma. Faltou água no litoral (SP), energia na Capital (chuva no lugar errado) e vergonha na classe política, comme d’habitude. O Renan Calheiros, agora, quer que a gente pague o transplante capilar dele, além das contas da amante. Os seus mentores, do clã Sarney, continuam se alimentando de lagosta harmonizada com tonéis de Sancèrre, enquanto no próprio quintal, jacobinos de chinelo havaiana decepam cabeças de seus desafetos: “Cuidado com o foco”, alerta o carrasco de Pedrinhas ao câmera que filma a cena com o smartphone.

As contas públicas continuam se deteriorando (a inflação, subindo), a matriz energética do país permanece intocada – diferentemente na norte-americana, agora movida a xisto, e a alemã, que, em seis anos, trocou as usinas nucleares por moinhos de vento – e o Fernando Haddad continua ouvindo do Lula que o dinheiro não traz a felicidade, e sim medidas populares, como um exército de viciados fumando crack com uniforme de gari.  

Os estádios da Copa ainda estão atrasados, os hospitais, precários e as chuvas, matando gente; as tertúlias do Jèrome Valcker, que deve frequentar os bistrôs de Saint German des Près, contra Aldo Rebelo, que dava expediente na Major Diogo (saudoso Bixiga), foram substituídas por tapas e beijos do presidente da Fifa, Joseph Blatter (cria do João Havelange) com a presidente Dilma Rousseff, discípula de Lula (filho do Brasil), mas isso não trouxe uma grande mudança. Tudo bem: o Domenico De Masi, o intelectual (italiano) do lazer criativo, acha que chegou a nossa vez.

No mapa mundi, Obama segue tentando avisar os indígenas indômitos (tipo BRICs) que o avanço da civilização pode render alguns cassinos na Califórnia (vide rede Hard rock); os presidentes franceses se mantêm lépidos como coelhos (quanto mais socialista, mais coelho) e o Woody Allen continua a fazer filmes universais e a colecionar escândalos domésticos. No outro lado da esfera, o Papa Francisco vai mostrando alguma habilidade em colar cacos deixados por seus antecessores: a gente católica já se cansou daquela turma que só varria onde passa o padre.
Alguma novidade? – Bem, no lugar dos antigos blackblocs, os sociólogos e os suplementos de domingo já podem analisar os rolezinhos, outro movimento emanado das redes sociais que não vai a lugar algum.

Um ciclista morreu esmagado e um garoto gay jogou-se ou foi jogado de um viaduto. Lembro-me dos caras pintadas, das diretas já, dos direitos civis e da primeira parada gay, em Nova York (1969) em protesto à porradaria no bar Stonewall. Gays ilustres só da minha cidade, Bauru (onde passei a adolescência), fizeram mais pela sociedade, individualmente, com sua coragem, do que todas essas mobilizações atuais: Mauro Rasi, o rei do besteirol, Eloy Chaves, o Dzycroquete, Jurandyr Bueno, o Niemeyer bauruense e Paulo Keller, o Joãosinho Trinta da Cidade Sem Limites.

Não sou nenhum Einstein (capa da revista Mundo Estranho desta semana), mas acho que já entendi a relatividade do tempo na proporção do espaço das coisas todas que giram com gente, neste carrossel. Não sei namorar (continuo tentando), mas já sei distinguir o que é novo do que é antigo. Homofobia, por exemplo, não dá mais: as novelas da Globo vão acabar sendo feitas só para as manicures (nenhum problema com elas). Moto barulhenta, que eu mesmo curti, na juventude: não tem nada mais antigo. – Dá vontade de dizer ao cidadão: - Trabalhe um pouco mais e faça como o Gamberini (ou é o Tramontina?), compre uma BMW.

Outro exemplo de velharia acaba sendo a revista Veja: traz boas dicas de vida saudável, de novos medicamentos e técnicas terapêuticas (bem antes do Fantástico), mas já cansou, pelo viés excessivo, assim como aquele alterego do Mino Carta, a Carta Capital, que deve dar um trabalho danado ao psicanalista dele.

A relação dos bancos com as pessoas também promete mudar (que assim seja): na semana passada, um amigo me convidou para comemorar o encerramento de sua conta num dos bancões que havia aumentado o preço de sua cesta de tarifas e os juros do cheque especial, sem aviso ou consentimento prévio. Ele mudou-se para um dos bancos estatais, que estão praticando taxas mais acessíveis. Eu sei o que você está pensando, mas o Pizzolatto fugiu para a Itália e a Caixa já decidiu rever o seu balanço de 2013. Taí uma coisa que muda, todo ano (de valor): Imposto de Renda, IPTU, IPVA, os livros das crianças.

A minha preocupação maior, nesta virada de ano, foi quanto às operadoras de telefonia: quando é que o Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) vai impedí-las de dizer que pegam, quando todo mundo sabe que não pegam? E quando será que o comitê de controle da mídia, do camarada Rui Falcão, vai obrigar as emissoras de TV aberta a juntar, num único canal: o Faustão, os pastores evangélicos, o Big Brother, o Pânico, a Luciana Gimenez, o Rodrigo Faro, o Gugu e a Xuxa? – Isto sim, seria um sinal de que os tempos estão mudando.

Dentro da Literatura Brazuca (lembram-se de Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva?), no segundo pavimento do bloco do novo realismo, porém à beira do abismo, a moça continua escrevendo sobre o universo masculino, violento e rural, com pitadas de apocalipse (o nosso desleixo com os bichos e todo o resto da natureza tem sido, de fato, alarmante), mas não pode insistir naquele personagem, filho-de-uma-índia-com-fazendeiro, que usa um olho de vidro porque o de carne foi comido por um abutre. Não dá, moça, eu ví todos os filmes do Sérgio Leone quando era garoto. E um tal Quentin Tarantino fez mais ou menos esse caminho, no cinema. A gente precisa de sangue, ok, mas tem que ser novo. 

Bem, e como estamos praticamente no Carnaval, em pleno Campeonato Paulista (vale a pena conferir a foto de Evelson de Freitas, na capa do Estadão de hoje, 20/1), e às vésperas da Copa do Mundo (depois vêm eleições), acho que esse ano vai passar bem depressa. Quem sabe 2015 nos traga alguma novidade. Por enquanto, continuo no ano passado. Sobre a foto lá em cima: não recomendo, nem Alain Resnais, nem Marcel Proust. Para tentar entender essas dobras do tempo, melhor aprender tricô.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Quebra tudo, Obama!

Cruxifixação, de Pablo Picasso

“Quebra tudo, lá!” é o que o Barak Obama deve ter ouvido dos amigos dele, em Washington, antes de embarcar no Airforce One para participar dos funerais de Nelson Madiba Mandela. O mesmo conselho deve ter chegado aos “nóias” da região central de São Paulo que, não contentes em transformar as ruas Helvétia e Dino Bueno numa favela e produzir blecautes privados nos edifícios daquela zona, como o Miri (praça Júlio Prestes), estão arrebentando bueiros e caixas de luz da zona sul, em busca de fios e placas que vão virar pedras de dois reais, como ocorreu na madrugada de hoje (11/12), na avenida Roque Petroni, interrompendo o trânsito, a 100 metros do Shopping Morumbi (semáforos apagados). Quero ver o Chico Buarque fazer disso uma canção.

Como acordei às seis, animado pelos apitos dos CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), peguei o livro do Cláudio Santos, “Macho do Século 21”, que estava na cabeceira, para reler a definição de democracia que ele tentou inventar, depois de viver quase dois anos na supercivilizada Cingapura, onde você pode levar uma chibatada por pichar um muro, ser preso por estar nú dentro de casa ou ser multado por mascar  chicletes.  Não vou estragar a sua leitura, mas vale a pena entender o que está por trás desse folclore e o que essa semidemocracia, um dos 10 países menos corruptos do mundo, devolve aos cidadãos que pagam seus impostos.
Além do ciúme de Michelle Obama, as redes sociais, ontem (10/12) estavam lotadas das tradicionais manifestações de desprezo da “esquerda”, desta vez, em relação aos sinais de pesar exibidos pelo “stablishment” pela morte do líder sul-africano, cuja luta contra o apartheid não mereceu, de parte desse mesmo “stablishment”, à época, a mesma admiração manifestada agora. Correto. Mas toda essa festa em torno do grande lider deve-se, justamente, ao seu pragmatismo, simbolizado na célebre frase de que é preciso libertar não apenas o prisioneiro, mas também o carcereiro. Pragmatismo este, aliás, derivado do socialismo no qual acreditamos – e de alguma forma, conseguimos – mudar, senão o mundo, a nossa compreensão dele.

De outro lado, além do não racismo (ou cultura multirracial) o CNA (Conselho Nacional Africano) de Mandela nos ajuda a compreender o que se passa aqui, em certa medida, pelo olhar do jornalista Bill Keller, do NYT (New York Times), que o Estadão de hoje (11/12) traduziu: “O que incapacita o CNA não é a doutrina. É alguma coisa da natureza dos movimentos de libertação. Unidos pelo que são contra, eles tendem a ser conspirativos, a dissimular o dissenso, a privilegiar os fins aos meios”. Que tal, Ruy Falcão?.
Vivam os grandes jornais – ainda circulando ou já transformados em centros de produção de notícias para meios diversos. Não fosse por eles, não saberíamos que os funerais de Mandela, além de provocar uma fofoca na corte e um novo Fla-Flu nas redes sociais, ensejaram um longo convívio de oito horas entre alguns dos nossos líderes - antigos e atuais - a bordo do avião que os levou à África do Sul, livrando-os de opinar sobre o grande debate nacional da véspera (10/12), que não era, nem o pibinho do  Mantega, nem a corrupção na prefeitura ou no governo estadual de São Paulo, nem a “tempestade perfeita” do William Waack e do Luiz Gonzaga Belluzzo, e nem a lista dos “micos do ano” do Fim de Expediente, programa da rádio CBN, mas, sim, o MMA (Mixed Marcial Arts) dos “torcedores” do Atlético Paranaense contra os do Vasco.

E já que este post virou propaganda de personalidades públicas e coleguinhas, vou aproveitar para votar num dos tais “micos do ano” relacionados pelo Dan Stubach, Luis Medina e José Godoy, com as minhas devidas explicações, entre parêntesis: Eike Batista (ex-marido da Luma), José Dirceu (ex-futuro gerente de hotel), Nicolas Maduro (como Papai Noel), Obama (com Helle –AlgonãovaibemnoreinodaDinamarca – Thorne Schmidt), Roberto Carlos (o biografado), Feliciano (o bispo da cura gay), Pato (batendo pênalti), Dilma (vaiada na Copa das Confederações), Mantega (pibinho) e o Rei do Camarote (continuo sem saber quem é). E o meu voto vai... para... Nicolas Maduro! – que conseguiu piorar o que já era tão ruim.

O trio da CBN também relaciona personagens do ano, mas nesta escolha, não tive dificuldade. Mandela é hors concours, como se diz: já tinha passado para a História antes mesmo de embarcar em sua última viagem. O homem do ano é, fácil, o papa Francisco. Não entendo nada de Teologia e até hoje tenho dúvidas se o sacrifício de Cristo – sem dúvida, um grande cara – cujo nascimento se comemora no mesmo dia em que os persas, depois os gregos e, em seguida, os romanos, celebravam a Mitra (25 de dezembro), está ou não relacionado a este último culto, como Picasso insinuou, na pintura acima.

Não sei se a base do cristianismo vem de nossa tradição ancestral de sacrifícios aos deuses antigos. Também ignoro se toda essa história de vida após a morte e oposição do bem ao mal do cristianismo veio no mesmo pacote. Mas que esse papa mudou a relação da Igreja com a sua própria doutrina, disso, não tenho dúvida.
Então, vamos encerrar por aqui: tranquilidade e paz para quem precisa, agitação para quem prefere, mobilidade para quem ainda mora aqui e mais juízo para todos nós; atenção a quem nos frequenta ou habita, e respeito às tradições de quem crê, da Mitra ao Cristo, da Cabala ao Buda.  Em tempo: minha opção foi feita muito antes da divulgação da escolha do personagem do ano pela Time.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Consciência negra

Eu devia ter uns 10 anos de idade quando isso aconteceu, mas a minha principal referência dessa época já era gastronômica: a Casa Brito, um armazém à antiga, tão grande que ficava numa esquina da avenida principal da cidade. Havia grandes barrís de azeitonas e de vinhos, azeites (molhados), latas de pêssego em calda, caixas de goiabada e latas de biscoitos de 12 litros, do tamanho dessas de tinta de parede, atualmente (secos). Guloseimas para muitas bocas e narizes, do bacalhau do Porto, terra do proprietário, àquelas gelatinas de várias cores, que se vendiam no interior.

Cinco quadras abaixo, virando-se à esquerda, ficava a sede do meu martírio dominical: meu pai (foto) me obrigava a ir à missa, embora eu já tivesse arrebentado a testa, anos antes, enquanto pulava de um banco para o outro, tentando me distrair durante a homilia: seis pontos, dos quais conservo a cicatriz. Não era o mistério da transubstanciação, o que me incomodava: sempre apreciei, tanto o vinho, como a carne, mas aquele ritual pesado, sempre igual, me exasperava. Deve ser por isso que os evangélicos fazem sucesso: no outro dia, vi um desses pastores, do canal 7, se não me engano, saltitando e cantarolando como um periquito – pelo menos, é divertido.
Anos depois, por volta dos quatorze, aprendi a gostar da missa das 11, onde mirávamos – eu e os outros garotos da cidade – os nossos alvos da sessão das seis, no Cine São Paulo. Fumávamos à vontade, durante a celebração, e a entrada era divertida, quando elas passavam com seus pais sisudos, olhando para nós com o rabo do olho. A saída era melhor ainda: às vezes, uma distração da família rendia uma abordagem antecipada. E uma tarde inteira de excitação.

Para mitigar o meu sofrimento, meu pai – que era avançado, para a época – empurrou-me uma cartela da rifa do padre Luís Batistella, para que eu pusesse praticar meus sentimentos cristãos. Comecei timidamente a oferecer aquelas pequenas possibilidades de recompensa em nomes de mulher. Não me lembro mais de qual era o prêmio, exatamente: um prato decorado ou um ventilador. Escalei, como doadores,  primeiro, os meus colegas de quarto ano primário; depois, as empregadas no atelier de costura de minha tia. Em seguida, encorajado pelo sucesso das vendas, os comerciantes das vizinhanças.
Resistí bem à minha primeira grande tentação: o sujeito da ótica não tinha tempo para nada e entregou-me uma nota de dois cruzeiros, laranja, com a cara severa do Duque de Caxias impressa em azul. Não quis assinar o próprio nome na cartela:

- Escolhe aí qualquer um, moleque.
À medida em que eu ia me acostumando à tarefa, as coisas iam ficando mais estimulantes: a nota de cinco, com o Barão do Rio Branco, seduzia mais que a de dois. Os filantropos sem tempo para escolher um quadradinho aumentavam. De um momento para o outro, vários cruzeiros tinham passado para o meu lado da conta. Pedi uma caixa de biscoitos ao dono do armazém e paguei à vista. Meus sinais aparentes de riqueza me comprometeram: levei a maior surra da minha vida e, talvez por isso, não aceite até, hoje, nada parecido, independentemente de ideologia, credo ou cor: de uma tapioca a um Mensalão, de um viadutozinho do Maluf a um trem do metrô. Mas a mancha ficou.

Lá pelos 15 anos de vida – um de ditadura militar – desenhei um “Che” Guevara de três metros de altura na parede dos fundos da sala de aula, em carvão. Perto dos vulcões de São João que soltei in house, nas aulas de Desenho do professor Eloy, aquela era só mais uma pequena aventura, mas que, aos olhos da Diretoria do Instituto de Educação, o golpe militar amplificava. Rendeu-me um tète a tète com a sobrinha do professor Aníbal Campi (a fera do Latim): uma estrangeira de Londrina-PR que nós acolheramos com prazer, depois de um fim de noivado tortuoso. O encontro foi breve, mas me lembro até hoje da sombra do buganville, na beira da piscina da Sociedade Hípica. Tarde charmosa, gazeta coletiva, encontro  pessoal.
O Guevara ficou porreta, embora não se comparasse às obras de gênios contemporâneos como Alex Hornest (o Ornesto), Alex Vallauri e os Gêmeos Otávio e Gustavo Pandolfo, que inverteram o trajeto e desenharam nas paredes de Cuba. O diretor do Instituto, que chamávamos de Geraldinho, era um caboclo insensível, tanto aos apelos da Arte quanto aos da libertação das massas. Tive que pintar toda aquela parede de branco, no fim de semana mas, como, naquela sala de aula, só eu tinha lido “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain, recebi a ajuda consciente e solidária de todos os colegas. Carrego esse outro peso na alma.

Alguns dos que aqui me lêem haverão de se lembrar de minha modesta vingança: irascível, quase violento, o Geraldinho, sem óculos (de fundo de garrafa) era praticamente indefeso. Alguns acham que tive coragem em me deixar fotografar ao lado de um bando de tigres bem alimentados e sonolentos, num parque da Tailândia, no ano passado. Coragem foi aproveitar um momento em que, chamado à Diretoria para uma nova punição, o Geraldinho tirou os óculos, à minha frente, enquanto esfregava os olhos, sem saber o que mais fazer comigo, e não percebeu que eu aproveitava para transferir as suas lentes para o lado oposto da mesa. A punição ficou para outro dia. Na minha reputação, mais um pontinho negro.  
Também me dói – entre tantos outros descalabros (gostei da palavra, Fernando Haddad) – ter enrolado, placidamente, um joint, na sala dos meus pais, aos 23 anos, durante uma visita ao antigo lar: como se eu ainda morasse na Holanda, como se ainda precisasse chocar os meus velhos, depois da infância e da adolescência que lhes proporcionei: roubar o carro do professor para fazer piquenique na casa da Eny, em Bauru,-SP era rotina. Muito reto, o coitado ainda tinha que suportar ironias sussurradas pelos colegas porque o seu carro tinha sido visto no bordel. Isso ainda me dói.

Caro Contardo Calegaris, este post não tem pretensões psicanalíticas. Meus pais também devem ter aprontado das suas – comigo, inclusive – mas não pude resistir à digressão, neste dia em que a quadrilha do Mensalão vai pra cadeia (dizem), em que o Gilberto Kassab ameaça comprometer a sua aliança com o PT, em plena campanha da reeleição, e em que o irmão do Genoíno diz que ele, Genoíno, foi usado (maldade semântica). Afinal, uma outra mancha, na minha consciência, não vem das ilusões do combate à ditadura – que a idade me permitia - mas do fato de ter ajudado a construir a reputação de um partido que mudaria tanto, depois de aboletar-se no poder.
Só por isso, eu não mereço perdão. Pior que o tal partido não parece disposto a apear de seus mandos e desmandos. Nem sequer, a deixar o cavalo  beber uma aguazinha, em seu transcurso, como aquela que irriga as plantações de maconha de Pernambuco. Ôxe.