terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sandy encontra Eli Pariser




Logo eu, que detesto esses títulos feitos para atrair o leitor


O teaser da entrevista de Sandy à Playboy explodiu como um caixa-eletrônico na reputação de seu irmão, Júnior, como era de se prever, inclusive pelos gênios de marketing da revista, que têm, como requisito obrigatório para o exercício da atividade, um MBA em machismo pré-diuluviano pela universidade livre de Parada de Lucas-RJ. Nem por isso, a revista séria da Casa deixou de exibir, uma semana depois, uma de suas mini-entrevistas com o vereador Carlos Apolinário (DEM-SP), que consumiu parte do nosso tempo e recursos elaborando o projeto de Lei para o Dia do Heterossexual.

Tudo em nome do marketing, ciência que acaba de descobrir uma fórmula capaz de me afastar não apenas das lojas de shoppings, invadidas pelas guloseimas e aromatização de ambientes, como também dos bares, onde os marqueteiros estão lançando a música capaz de induzir o cliente a escolher esta ou aquela marca de bebida. Canoas do Tejo, de Carlos do Carmo, venderá, provavelmente, litros de tinto alentejano; Mud Watters vai incrementar as vendas de bourbon e Waldick Soriano vai expandir o consumo de Amansa Corno. Deve ser conspiração dos AAA, mas em alguns casos, como o do Jaguar, duvido que dê certo.

Para Camila, que reclama das minhas citações: Jaguar, alcoólico notório, é um dos fundadores de O Pasquim, jornal criado por um bando de almas perdidas, nos anos 70, para rir da moral, dos costumes e da ditadura da época, e no qual o seu pai, então jovenzito de 20 anos, experimentou a glória efêmera de publicar uma página de cartuns, apresentado por Henfil, o autor dos Fradinhos, cujos originais você pôde ver, recentemente, numa exposição do CCBB.

Como as coisas mudaram! - O PMDB de Michel Temer, Wagner e Baleia Rossi chamava-se, então, Movimento Democrático Brasileiro e era comandado pelo deputado Ulysses Guimarães, parceiro de Franco Montoro e, mais tarde, de Teotônio Vilela. Progressista, como se convencionou chamar o partido atual de Paulo Maluf, era sinônimo de socialista, expressão que atualmente define a agremiação pela qual candidatou-se a governador de São Paulo, nas últimas eleições, o presidente da Federação das Indústrias, Paulo Skaff. Depois, eu explico melhor.

Com tanto lixo a ser varrido pela imprensa, nos últimos dias, a revista séria que tinha perdido prestígio e leitores por exibir uma cobertura excessivamente enviesada, em oposição aos representantes do povo que assumiram o poder, há cerca de uma década, voltou a despertar interesse, tanto por parte do cidadão comum, como da grande imprensa, pautada, nas últimas semanas, por suas investigações e denúncias, todas concretas e nada surpreendentes.

O Estadão ainda não se pronunciou a respeito, mas eu diria que as instituições correm perigo. Nem tanto pela generosidade do BNDES com os grandes grupos privados, nem pela abertura de novas áreas da Amazônia para a mineração e para as hidrelétricas conforme MP publicada no Diário Oficial de ontem (15), ou por uma eventual redução da taxa de juros para combater a crise internacional de demanda, algo que nunca dantes, nem depois, neste país, se fez acompanhar pelo aperto fiscal recomendado pelos analistas de plantão.

É que as pessoas de bem, às quais referiu-se a presidente Dilma, ao apoiar as investigações de corrupção em seus ministérios (“Queremos uma justiça eficaz e célere, mas sóbria e democrática”), infelizmente, estão desaparecendo.

O assassinato da juíza Patrícia Acioli na última sexta-feira (12), por exemplo, revoltou a sociedade e mobilizou o Tribunal de Justiça e o governo do Estado do RJ em defesa de outros magistrados ameaçados de morte pelas quadrilhas de milicianos que esses juízes estão empenhados em combater. O caso migrou rapidamente do noticiário policial para o político, mas, nos telejornais de sábado (13), ainda se levantavam dúvidas quanto à natureza do crime, porque a juíza registrara, há alguns meses, uma queixa por agressão motivada por ciúme, contra o seu namorado, Marcelo Proubel, que é policial militar.

A falta de segurança para os juízes linha-dura como Patrícia (cerca de 70 estão ameaçados) sepultou um outro assunto que a imprensa levantara, na semana anterior, a partir de uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça, revelando a gravidade e a extensão da corrupção nesse poder que não consegue proteger a sua banda saudável, mas que pressiona o governo, neste exato momento, por reajuste salarial.

A manipulação da informação e as distorções hoje atribuídas à banalização do marketing viral, porém, não se limitam à imprensa séria. Por frequentar vários telejornais simultaneamente, ouvi, num programa de fofocas da TV, na semana passada, a seguinte chamada: “Atriz da Globo reclama de cenas sensuais que foi obrigada a gravar”. Por se tratar de emissora concorrente, prestei atenção: a reportagem falava de Alinne Moraes e, logo depois, fechava com a seguinte frase: “A atriz diz não ter se importado de gravar cenas tórridas para a novela porque isso faz parte da profissão”. Inacreditável.

Mas não é tudo. Um amigo me chamou a atenção para uma rápida palestra do ativista norte-americano Eli Pariser, em maio deste ano, que pode ser acessada no site de conferencias TED (link abaixo) e que começou com a seguinte observação: “Um jornalista perguntou a Mark Zuckerberg (fundador do Facebook) porque as atualizações de notícias na web são tão importantes, ao que ele respondeu que um esquilo morto no jardim de sua casa provavelmente atrairá mais o seu interesse do que milhares de pessoas morrendo, nesse mesmo instante, na África”.

Parêntesis: o nosso maior portal de notícias passou a maior parte do dia de hoje (16) exibindo, em sua página de frente, fotos dos atletas Lucas, comemorando o aniversário diante do próprio pôster de três metros de altura e Neymar, vendendo cosméticos. Fechando os parêntesis: a frase de Pariser introduziu o seu alerta para os filtros da Internet que ele, na infância, julgava ser a sua grande janela para o mundo.

O ativista explicou que gostava de conhecer as opiniões dos conservadores, embora tivesse mais amigos progressistas e que, depois de algum tempo, os seus acessos a esses conservadores, via Facebook, foram banidos de sua página. Esse dirigismo, conforme revelou, foi, mais uma vez, constatado quando dois de seus amigos com repertórios (backgrounds) distintos buscaram, no Google, a palavra Egito: um recebeu links de fatos políticos e rebeliões e o outro, de destinos turísticos.

Pariser é bem intencionado e tem razão, mas atuou nos bastidores da campanha que levou Barak Obama a diferenciar-se dos oponentes e ganhar as eleições norte-americanas em 2008 usando, entre outros recursos, a vinculação dos eleitores à sua candidatura via pequenas doações (que tornaram esses contribuintes uma espécie de consumidores de sua candidatura) e usando o Twitter para transmitir os fatos mais importantes da campanha a seus seguidores, entre eles, subrepticiamente, os jornalistas da media mainstream, como eles a chamam.

Em tempo: Eli Pariser nunca se encontrou com a cantora Sandy, assim como Alinne Moraes nunca reclamou da TV Globo. http://www.ted.com/talks/eng/eli_pariser_online_filter_bubbles.html

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O inferno não faz mal








Duas modalidades da minha própria ignorância sempre me incomodaram: a astrológica e a noveleira. Sobre esta última, aprendi com Patrícia Belfort, nossa Danusa Leão da Granja Viana (SP), que é deselegante não saber absolutamente nada desse ramo do conhecimento. Não se pode ignorar, por exemplo, que a primeira versão de O Astro, de Janete Clair, foi estrelada pelo bonitão Francisco Cuoco e pela maravilhosa Dina Sfat (foto), que vale uma busca na rede (aos nascidos depois de 1980).

A falta de intimidade com a Astronomia também me incomodava, mas, de tanto levar as crianças aos planetários, acabei aprendendo a localizar algumas constelações, o que, na praia, revelou-se uma ótima cantada. Mas o meu maior problema era a Astrologia. Virou lugar comum, mas desde a minha primeira infância (profissional) fui levado a duvidar da influência das estrelas na vida do andar de baixo: Zarcilio Barbosa, ex-Última Hora, redator-chefe do Diário de Bauru, nos anos 60, um belo dia, ordenou-me que escrevesse um horóscopo de domingo.

Foi um castigo. Eu tinha 15 anos e vivia infernizando a vida dos outros, depois de terminar minhas tarefas do dia. Principalmente o Souza Freitas e o Nicoliélo, que já eram seniors naquela época. Aquilo me trouxe um prazer inenarrável, como diria Nelson Rodrigues. Comparável, talvez, ao primeiro êxtase sexual: se escrever para uma cidade inteira, naquela idade, era bom, imaginem ludibriar a crendice alheia, consentidamente. Em seguida, fui beber umas caipirinhas no Frutiflores, lanchonete drive-in que freqüentávamos à época, inspirada nos filmes de Elvis Presley da sessão das seis.

Parêntesis: na missa das onze, mirávamos o(s) alvo(s) e íamos fumar lá fora. Na sessão das seis, soavam as trombetas e disparávamos nossas flexas, envenenadas pelos hormônios da idade.

Aquele desvio educacional me fez perder, logo de cara, um pouco da fé na profissão. Outra parte se foi quando eu e o Carlos Marchi nos encontramos na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio: ele, com uma pauta de pau nas mazelas do bairro, eu, com outra, falando de natureza, boa vizinhança e diversão. A minha foi editada e, dias depois, o jornal começou a veicular uma grande campanha da incorporadora Sérgio Dourado, no local.

Fui um bom repórter, mas inventava um pouco, quando tinha que substituir um par de entrevistas idiotas por uma boa sessão de cinema. Lembro-me quando a família de um tio distante comemorou a entrevista dele sobre os fantasmas do Joelma, matéria que fui obrigado a fazer, anos depois do incêndio de 1974. Na Economia, recém-chegado de uma temporada na Europa, aprendi com meu chefe da época, Moura Reis, que as informações auspiciosas do então ministro das Minas e Energia sobre as nossas reservas de petróleo exigiam uma vírgula e uma explicação: “diz Ueki”. (Shigeaki Ueki foi ministro, e genro, do general Ernesto Geisel, de 1974 a 1979).

Nunca me ocorreu, no entanto, grampear os telefones do ministro, como a turma do News of the World, na austera Grã Bretanha.

Quanto aos astros, tema que deve estar de volta às rodas sociais, ao lado do atraso nas obras da Copa, da expansão do mercado nordestino, do carro chinês, do fitness, da experiência de quase-morte e do Afeganistão, tentei assistir ao Globo Repórter da última sexta-feira, teaser da nova novela das onze. Não funcionou, apesar da participação de Edney Silvestre, que parecia tão deslocado na matéria quanto eu, na cobertura dos fantasmas do Joelma, há 30 anos.

Mas o meu maior interesse neste campo era entender como funciona essa coisa de inferno astral, o que, no momento, atravesso. Diz a enciclopédia astrológica que, pela técnica da revolução solar, cada mês do ano, a partir da data do aniversário, corresponde a uma casa astrológica ou setor da vida de uma pessoa. No primeiro mês a partir do aniversário, vive-se de forma enfática a casa 1: a pessoa fica mais centrada em si mesma. O último mês do ano corresponde à casa 12, trecho do mapa que analisa (sic) os sacrifícios e doações que uma pessoa deve fazer aos outros, sem esperar recompensas.

Segundo o astrólogo Eduardo Maia, "é um período de ser instrumento para o bem dos outros e não estar tão preocupado com causas próprias". Boa definição, mas como eu me preocupo sempre, comigo e com os outros (nesta ordem), a explicação não me serve.

No portal Astrológica, encontrei esta outra descrição:

É um período de transformações e de conscientização dos próprios limites, que pode ser confundido com um agravamento de condições difíceis. Um dos vários exemplos é o trânsito de Saturno pelo Sol de nascimento. Por outro lado, ciclos considerados favoráveis podem estar ocorrendo e contrariando o que se diz sobre o inferno astral. Durante o mês anterior ao aniversário, Júpiter em trânsito pode estar em conjunção com Vênus do mapa natal, o que corresponde, em tese, a uma fase afortunada nos afetos e nas finanças.

Era o que estava buscando. Porque, no meu inferno astral, a minha pressão sanguínea chegou a 20 x 10, mas só descobri isso porque fui fazer um check up; terminei um quadro, depois de passar anos longe dos pincéis; a parceira passou por uma cirurgia na mão direita, mas curou-se de uma Rizartrose dolorida; voltei a cozinhar, o que me diverte sempre; o meu próprio braço direito tirou férias, mas gerenciei sem problemas a mudança (física) da empresa. Trabalhei como um mouro, mas fui bem remunerado.

Portanto, como indicam os fatos da (minha) vida nesse período, o inferno astral tem seu lado negativo, mas também tem seu lado positivo. Exatamente como explicou o astrólogo. Isso me permitiu saciar esta minha sede de saber. Tudo muito razoável, até que, por uma informação equivocada, no último sábado, depois de fazer compras no Ceagesp, fui parar num outro mundo paralelo, chamado Cobasi, que, mais tarde, vim a saber tratar-se de um pet-shop/atacadão.

Um galpão com mais de 20 metros de altura abriga sacos de 60 e 100 quilos de ração para poodles, schnauzers e malteses que, nos braços de seus donos, parecem não pesar mais de 100 gramas. Homens conversavam numa espécie de praça central, enquanto as mulheres se perdem em corredores escuros, formadas por gaiolas e aquários exóticos, cercados por pilhas de estofados caninos. Passei por uma seção com mais de cinqüenta tipos de ossos sintéticos, enquanto uma senhora portando um enorme arranjo de ferro e flores de plástico me fisgou pelo casaco e me arrastou por alguns metros, sem perceber. Só consegui sair do lugar escoltado por um vendedor que parecia conhecer aqueles labirintos e portas.

Para um petless como eu, a experiência pode ser atribuída ao lado negro do inferno astral. Mas aprendi que a minha ignorância não é assim tão estreita: ao narrar a minha aventura a alguns amigos, descobri que a cachorrinha de um deles só faz as suas necessidades, quando chove, na garagem da Cobasi.







sexta-feira, 17 de junho de 2011

Jorges







Nunca esperei muito das pessoas, embora dificilmente consiga permanecer calado num táxi e aprecie aquela cena do Al Pacino em Donnie Brasco, na qual ele assiste à caçada de uma gazela por um guepardo, num canal de tv a cabo. Lembra a fuga do tigre de Bertolucci, em A Estratégia da Aranha. A namorada confessa ao amigo que aquele prefere os animais, mas a intenção do diretor, Mike Newell, não é discutir a solidão, mas introduzir o tema da caça e do predador, embora ele não seja um Borges, nem tenha sido inventado pelo genial autor da História Universal da Infâmia.

Mais adiante, Newell vai mostrar o guepardo sendo acossado por um bando de hienas. É quando Donnie Brasco (Johnny Deep) humanizado por um súbito arrependimento católico (que dura pouco) resolve entregar o parceiro, Lefty Ruggiero (Pacino), ao FBI. Lefty é um mafioso de subúrbio que jamais conseguiu alcançar o poder, e parece compreender e perdoar a traição do amigo ao qual se havia afeiçoado.

O chefe de Donnie Brasco é um mórmon facista que zomba do dilema moral de seu subordinado (para sublinhar a angústia do traidor). Mais Borges: “A hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude”. O filme tem outra boa cena, quando Brasco ensina a seus colegas de FBI os inúmeros significados de “forget about” no jargão da máfia: não tem como; soa bom demais; certamente; de jeito nenhum e outros, além do literal “esqueça”. E tem Michael Madsen, em sua única performance fora da pele de Elvis Aaron Presley. Mas tanto Deep quanto Pacino abusam dos longos interstícios a la De Niro.

De volta ao tema da solidão, confesso que sentia algum desconforto em relação à figura pública do diretor de TV, Jorge Fernando, que eu não conseguia encaixar na imagem que eu tinha dele na minha infância, em Del Castilho (RJ) quando sua mãe vivia gritando, da janela do primeiro andar, : “Jooorge!”. Nunca soube se era para o almoço ou por alguma estrepolia: na rua, ele era um diabo.

O garoto já exibia um pouco do que viria a se tornar, essa mistura de facínora com Shirley Temple. Eu sempre o considerei exagerado demais, talvez arrogante: era instigante e, portanto, ameaçador. Mas isso é passado remoto. No outro dia, assisti, quase por acaso, a um episódio da série Macho Man, na qual Jorge Fernando se dirige (e se interpreta?) como um gay que tenta equilibrar-se entre os estereótipos da masculinidade recém-adquirida e as deliciosas tiradas de sua antiga condição.

Para subir e descer da corda bamba, o autor-ator elegeu ninguém menos que Marisa Orth. O cenário (a ambiance) lembra A Gaiola das Loucas, de Jean Poiret. E o autor-ator é uma combinação pouco provável de Mell Brooks com Mauro Rasi (aiê, Bauru!). O resultado, para mim, foi uma epifânia. Comecei a achar que a TV aberta tem chances de sobreviver a Faustão e Luciano Huck.

O auge do episódio ocorre quando o protagonista explica, com sua visão privilegiada de homem (gênero) porque o masculino consegue transitar sem problemas, de uma acalorada discussão para uma tórrida relação carnal com a parceira: rápido e rasteiro, sucessão que sempre me rendeu a pecha de canalha. Para as mulheres, obviamente, isso escapa a qualquer nível de compreensão.

A cena termina com a personagem de Marisa Orth (mulher e heterossexual) explicando que o fenômeno deve derivar do fato de serem, as relações heterossexuais, fruto de uma atração de opostos. Segue-se o pastelão no qual os convidados para o suposto bota dentro do ex-namorado gay de Jorge Fernando – que agora mora com a personagem de Marisa – descobrem, horrorizados, que o anfitrião não apenas tornou-se hetero, como acaba de papar sua amiga, atrás do sofá. Tudo muito divertido.

Provavelmente eu era o único vivente deste lado do rio que desconhecia o talento do Jorge Fernando. A minha impaciência com a TV, em relação ao teatro e ao cinema, lembrou-me uma das pequenas histórias resgatadas pelo Clarin da última terça-feira (14/6) sobre outro Jorge, o Borges, que nos deixou há 25 anos. Convidado a subir ao segundo andar da Biblioteca de Buenos Aires pelo elevador, depois de um longo instante de espera, ele pergunta à pessoa que o acompanhava: “Não prefere ir pela escada, que já está totalmente inventada?”.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Saudades de Aguinaldo Silva





- No fish, no fisherman – diz o homem africano ao repórter da CNN, diante do estaleiro artesanal da família, que produz barcos de pesca há mais de um século em Nungwi, no oceano índico. Zanzibar pode ter perdido o seu apeal, mas o repórter, indiano, claramente, a ama. - So, you have trouble – diz ele, dirigindo-se ao artesão. Volta-se para a câmera e explica a função do mangue, onde os peixes vêm desovar e criar seus filhotes, antes de voltar para o fundo do mar. Aperto o controle remoto: – Nós pega os peixe? – pergunta Willam Waak ao filósofo, Roberto Romano.

Insisto no controle remoto e vejo cenas da destruição em Joplin (Janis, sinto sua falta), no Missouri, EUA, um desastre natural. Outro clic, e aparece uma fazenda, em Mato Grosso:

– Eu recebi a terra do jeito que ela está – diz o sujeito de chapéu panamá e óculos de grife, olhando para a câmera com firmeza. – Ele (o vendedor, certamente) prometeu me entregar a área já queimada, prontinha pra plantar. Em off, o repórter explica que o cidadão arrendou a terra antes de examiná-la. A devastação é mostrada de um helicóptero que, segundo o repórter, busca um local seguro para pousar, enquanto madeireiros clandestinos saltam de cinco carretas carregadas de toras e correm para o mato. Irônico? – Vejam o que a senadora, Kátia Abreu disse ontem (23/5) da exigência de reposição de mata nativa pelos produtores rurais: “É coisa de burocrata”.

Mais um clic, e Bob Dylan (70!) aparece numa velha tomada em branco e preto, convidando mister Tambourine a cantar uma canção enquanto ele não está dormindo como, certamente, estará agora o seu fã número um no Brasil, o senador Eduardo Suplicy, longe da polêmica sobre o ministro Palocci, do metrô de Higienópolis, da PM na USP –Sim ou não, do mensalinho de Campinas-SP e do naufrágio no lago Paranoá-DF. Dylan resmunga “like a rolling stone” e, como tudo acontece comigo, mudo de canal em tempo de ver a suíte da morte de um sem-teto na boca do túnel do Rio Comprido, no último domingo. Mais polêmica.

Mais fácil assistir ao noticiário da Record, no qual uma briga de um vira-lata com dois pitbull, na periferia de São Paulo, leva famílias às vias de fato. Heródoto Barbeiro aparece em outra notícia, depois de estrear no Jornal da Record News, vamos ver se você melhora esse índice de audiência, meu caro.

Volto às polêmicas midiáticas recentes: a imprensa quase passou ao largo da questão da amamentação em público, que a Folha de S.Paulo, esse grande jornal da gente brasileira, não deixou escapar, tendo publicado uma grande mesa redonda a respeito, em sua edição do último domingo. Com tanto assunto, penso, por que ler, no Economist, a matéria sobre a força do nordeste brazuquês, que cresceu 4,1% enquanto o resto do país evoluía apenas 3,6%?

A mídia precisa mesmo reencontrar o seu rumo, mas a (ótima) cobertura de Luiz Carlos Merten sobre Cannes não consegue comover o tal de público, nem a exegese da Psicanálise do último domingo (22/5), nem a notícia da construção de uma base chinesa no Paquistão, na página de Internacional de hoje (24/5), ou as conseqüências da pressão de Obama sobre Netanyahu depois da morte de Bin Laden, vis a vis a nova geopolítica no Oriente Médio.

Em Nova York, o Amazon já vende mais e-books do que livros impressos, mas o suporte, no caso, é o que menos importa. A gente quer ver o dedo na ferida, mas, para isso, é preciso buscar a ferida, e tratá-la. Passei metade da vida construindo notícias e a outra metade, virando-as do avesso, ou lendo notícia velha, como explicava minha mãe às amigas, sobre o que eu faço.

Portanto, sinto-me bem quando, no meio de um longo mergulho, como o que fiz, recentemente, em notícias sobre uma grande empresa do setor de turismo, encontro o depoimento do proprietário de um grande hotel carioca, sócio do governo, (antigas ações) no qual um funcionário público participa, periodicamente, da reunião do conselho administrativo, em Copacabana.

“Ele é uma boa pessoa”, diz o empresário sobre o seu colega de conselho. “Mesmo quando vem ao Rio às sextas-feiras, volta no mesmo dia para Brasília, sem ficar para o fim de semana”. O repórter transcreveu a frase sem alterá-la, embora o sentido de “boa pessoa” tenha sido, claramente, o de “pessoa de bem”. Não importa, estamos discutindo se nós pega os peixe ou se o Código Florestal vai ou não ser votado.

Aquilo me deixou com saudade do meu bom e velho (sorry) copydesk, Aguinaldo Silva, em O Globo, nos anos 70, nosso Honoré de Balzac dos dias atuais. Dêem uma olhada no que ele poderia fazer com esse texto, caso viesse a misturar as suas duas funções, a antiga e a atual:

O tal funcionário pode ser um canalha que morou no Rio e agora aproveita as reuniões do conselho no hotel para bancar suas visitas à família, na cidade maravilhosa (ninguém vê quando ele chega). Pode ser um pervertido, que apanha da mulher e não consegue ficar uma noite sequer longe dela. Pode estar recebendo favores de alguma senhora irresistível, na mesma Copacabana, em conluio com o taxista que costuma pegá-lo na porta do hotel. Pode, enfim, tratar-se de um orgulhoso incorrigível, arrogante, incapaz de qualquer ato de degradação moral, por mínima que seja. Ou ser um personagem de Pushkin, daqueles que tremem de medo só de pensar em cometer algum desvio.

Do lado do proprietário do hotel, há outras possibilidades. Hipótese um: estamos tão habituados às mazelas da máquina pública que qualquer atitude republicana é, para nós, motivo de júbilo. Hipótese dois: secretamente, achamos que o cidadão não fica no hotel nos fins de semana porque tem uma amante nas Laranjeiras. Mas não verbalizamos a suspeita (E se Deus existe?). Hipótese três: melhor elogiar publicamente o safardana, antes que ele resolva aproveitar a mordomia.

Pois é, Aguinaldo, afinal, você tinha razão: novela rende muito mais do que jornal. A foto do mergulho é do genial Jonne Roriz, do nosso velho O Globo, enviada pelo Xando Pereira, do A Tarde.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Reeding





A Folha de S.Paulo publicou hoje (28/4) uma entrevista com o diretor do Financial Times, John Ridding, que decretou o fim da cauda longa. Não, ele não falava do vestido de Kate Middleton. Segundo Ridding, o jornal, que já teve 70% de sua receita proveniente de anúncios, há quatro anos, foi um dos primeiros a migrar, de forma bem sucedida, para o modelo de cobrança por notícias on line. “Temos 207 mil assinantes em nosso website”, orgulhou-se o executivo, informando que, ainda este ano, a receita do jornal on line deve igualar-se ao faturamento publicitário da versão impressa.

“Anúncios são voláteis e sensíveis a ciclos econômicos”, arriscou, com a autoridade de quem lucrou 60 milhões de libras, em 2010 (R$ 156 milhões). Nesse período, a maioria dos jornais sofria para adaptar-se à nova realidade digital. A FSP tem mesmo que comemorar o sucesso do colega britânico, que também controla 50% do Economist. Mas acho prematuro endossar as afirmações de Mr Ridding, sem ponderar:

1. A demanda pelas informações de FT e The Economist (inclusive por parte do nosso principal jornal de negócios, o Valor Econômico, controlado pela Folha e pela Globo, não pode se comparar à dos jornais brasileiros, por razões que vão além da credibilidade dessas marcas, seu alcance e influência;

2. A idéia de que a informação de graça está morrendo e que jornalismo de qualidade precisa ser pago tem a consistência de um torrão de açúcar, longe da umidade e do calor. Insisto que o hardnews virou commodity, razão pela qual os jornais regionais se fortaleceram e os noticiosos da TV inseriram, rapidamente, em suas edições, reportagens especiais seriadas, como forma de distinguir-se da concorrência;

3. O impacto da mídia digital na mídia tradicional ainda não completou o seu ciclo. Infelizmente, digo, como ex-diretor do Sindicato dos Jornalistas de SP (não acredito mais no modelo clássico de relações de trabalho). Gostaria de poder comemorar a premissa de John Ridding com meus antigos patrões, mas não estaria sendo coerente: os jornalões só resistem por serem lojas-âncoras em seus respectivos shoppings, mas precisam fortalecer a sua credibilidade, em vez de diversificar sua oferta e multiplicar as suas promoções;

4. A revista Veja tem me enviado um e-mail a cada cinco minutos. Ainda não recebi um telefonema do Dr. Roberto, insistindo para que eu volte a assinar a revista, mas não estamos longe disso. Já o Mino não me liga porque fala com gente mais importante. Neste momento, a Folha me brinda com uma degustação de 20 dias, O Globo, de dez e o Valor oferece 30 dias grátis por uma assinatura anual.

Também penso que a informação de qualidade, com credibilidade isenção, utilidade e diversão deveria ser bem remunerada. Mas também acho que em vez de trabalhar uma pauta sobre a capacidade que a Meteorologia terá de detectar uma enchente, com algumas horas de antecedência – o que só interessa ao poder – a grande emissora nacional devia questionar a incapacidade da autoridade pública de escoar a Praça da Bandeira (Rio de Janeiro-RJ), por exemplo, que sofre com as inundações desde antes de eu nascer, como revela meu velho pai, de 86 anos.

Penso, ainda, que o segundo maior banco brasileiro não deveria permitir que seus gerentes vendessem seguros enganosos a seus clientes, só para bater as metas de faturamento de suas agências, como acabo de descobrir, depois que a minha casa de praia, no sertão de Cambury-SP, foi invadida pela água, num desses temporais recentes. Nem a limpeza paliativa que a apólice prometia, em letras miúdas, foi feita.

Gostaria, ainda, como todos os que aqui me lêem, que as revistas semanais brasileiras continuassem publicando escândalos, mas que as nossas altas cortes não poupassem esforços para puní-los, em vez de se ater a princípios de uma pureza inadequada a uma sociedade tão flexível como a nossa, conforme vimos no julgamento da Ficha Limpa pelo STF. E, claro, que a Comissão de Ética do Senado fosse merecedora de alguma fé, considerando a truculência e a ignorância de alguns de seus pares.

E, também, que o combate à miséria se fizesse acompanhar pela Educação formal, presidenta. Bem, esta não é uma lista para o Papai Noel, e sim uma discussão sobre a vitalidade dos jornais e seus stakeholders. Nesse caso, como ex-operador da área, me arriscaria a dizer que o principal não é o querer, nem o fazer, nem o sentir, nem o vender. É o perceber e o transmitir. Talvez por causa dessa receita, tão simples, a empresa do senhor Ridding vá tão bem, num meio tão conturbado.

terça-feira, 29 de março de 2011

A valsa do gato




Hoje (29/3), que notícia contabilizará mais acessos em nossos portais (G1, Uol, IG e Terra)? – A morte de José de Alencar ou a censura à revista Caras, proibida de publicar a carta de Cibele Dorsa, ex-do cavaleiro Doda Onassis, ela que decidiu abandonar a vida no último sábado, 27? Respeito a dor das pessoas que ficaram, mas o contraste entre os personagens e as características das duas notícias é flagrante.


Em segundo plano, temos a contenção da fúria de Kadafi, assumida pela Otan e a reta final do Big Brother, cuja última edição parece não ter agradado nem o seu grande público, formado pelo noveleiro, Walcyr Carrasco, e pelo metteur em scène, Jorge Fernando. Inevitável a comparação entre essas notícias e a rabugice de um amigo não-identificável com a escalada do SBT, no dia do alerta nuclear no Japão, que coincidiu com a visita de Barak Obama ao Brasil e com o início do bombardeiro à Líbia. A primeira notícia do SBT foi: como contratar pela Internet; a segunda, a volta das perucas aos salões de beleza. Ok, o hard news virou commodity, mas vai gostar de especialização assim lá em Madureira... - Ei! Adoro o lugar. Fui o primeiro a entrevistar Silas de Oliveira para O Globo, nos idos 70 (Heróis da Liberdade).


Não visito este blog desde a publicação do último post, aí abaixo, homenageando meu parceiro que se tornou cunhado, Luís Augusto Corá, e que deixou este mundo há pouco mais de um mês, usando a mesma plataforma de embarque na qual nos despedimos, hoje, do vice-presidente José Alencar e, na semana passada, do amigo, Sidney Basile, jornalista da velha cepa, homenageado, sexta-feira (25), por um belo artigo de Eugenio Bucci, no Estadão. Basile freqüentava a mesma banca de peixe que eu, aos sábados, no Ceagesp.


Não gosto do Big Brother e só me lembro de relance dos pregões da minha infância, mas o Ceagesp está, para mim, assim como os letreiros e pára-choques de caminhão devem ter estado para o Marcelo Duarte, do Guia dos Curiosos, que está fazendo 10 anos: fatias de bom humor, entremeadas de saberes, afastando-se, cuidadosamente, os preconceitos: “O amor é cego, o casamento abre os olhos”, “Para olho gordo, colírio diet”, “Quem dá aos pobres, paga o motel”.


Bons tempos, aqueles, em que apenas alguns caminheiros tomavam rebite e que o Fantástico não precisava derrubar o chefe da Polícia para chamar a atenção para o perigo que ronda as estradas: - Você fica com os buracos e falta de sinalização ou prefere a venda de crack nos postos das rodovias federais, pagando com o cartão de crédito? - Ainda acho melhor a edição estratégica da TV Record, que arranjou uma reportagem um parto apoiado por PMs para exibir logo após a gravação da tentativa de assassinato de um menor por PMs de Manaus-AM.


Afinal, o nosso principal conflito deixou de ser de classes, já que, desde Lula, somos todos de classe média. E também de gerações, uma vez que nós, velhos, podemos usar roupas de bebês e os bebês, roupas de velho (perguntem à Gloria Kalil). E mais: se o Arthur Xexéo, ex-editor de Cultura do saudoso Jornal do Brasil, em sua participação na rádio CBN, no dia da visita de Obama, pode afirmar não saber o que diabos o presidente dos EUA veio fazer no Brasil, por que cargas d’água, os jovens editores do SBT deveriam sabê-lo? – Na dúvida, falemos de perucas.


E, pensando em cabelos, procuro uma composição de Wilde para refletir sobre as nuances que governam o nosso mundo, mas a única coisa que me vem à mente é uma velha frase de pára-choque de caminhão: “Não sou o dono do mundo, mas sou filho do dono”. Arrogante, mas cheia de sutilezas. E típica do nosso tempo.


Foi assim que um de meus filhos considerou apenas natural que sua jovem prima, que fará 15 anos este ano, e que, felizmente, ainda não tem compromisso, o convidasse para a dançar a valsa principal de seu aniversário, no fim deste ano: “Claro”, comentou. “sou o primo mais gato que ela tem”. Deve ser compensação: eu costumava dizer a ele que o D. Pedro, nosso primeiro imperador, foi bem melhor do que o segundo. Hoje, não tenho tanta certeza.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Depois daqui




Se eu chegar primeiro, prometo não contar como é

Também estou de partida. Talvez tome mais uma ou duas, mas estou tratando de fazer as malas, assim como você, conforme deixou escapar no outro dia, em conversa com uma desconhecida, lá nos seus domínios. Com o silêncio ensurdecedor que temos feito à sua volta, com nosso medo da morte (e de todo tipo de perda), a quem você iria confessar o seu desânimo?


- Ei, amigo, eu tenho câncer. Não tenho a fibra, nem a fé do ex-vice-presidente. Só o câncer. Ainda não sei quem vai primeiro, mas esse seu cansaço, eu conheço. Passamos juntos juntos por Nietzche, Kafka, Bukowski, Dostoievski. Entendo essa angústia, os longos vôos solitários: você puxa conversa com o passageiro ao lado, e logo se arrepende. Decepções, impotência, vasos partidos. Aquelas duas crianças do Natal do Presente: a ignorância e a miséria. Por toda a parte.


Acabo de rever o velho Dickens numa gravura, servindo de escada para o Johnny Deep, num comentário sobre a larga preferência das pessoas por Sheakespeare, dentro de um filme bobo. Como se multidões lessem Sheakespeare, pobre roteirista. Tão solitário quanto nós, em seu balde de martini do Ritual Bar, no Cahuenga Boulevard, LA, CA.


Pelo menos, eles fazem roteiros. Botam Satisfaction no fundo de uma cena de novela, chamam a coisa toda de Insensato Coração. Toda a gente conhece a batida de Charlie Watts, todo mundo ouviu falar de Caymi, muita gente suspira pelos anos 60. Falando em outro filme bobo, Piratas do Caribe, em quem mais o Johny Deep e o Gore Verbinski iam se inspirar, além do Keith Richards? – No Keith Jarret? – Quem ouve a Rádio Cultura, segunda-feira à tarde, além dos maestros da Sinfônica e suas tias elegantes? – Eu ouço, mas eu não faço nenhuma diferença. Ouço porque não consigo mais suportar o barulho das notícias, more and more of useless information. Essa é uma das trouxas que não faço nenhuma questão de levar, para onde vamos.


Num dos meus delírios desses dias, pensei em ver Hereafter com você (foto acima), depois bebericar no Riviera, olhar as meninas da Paulista (é o que podemos fazer com elas). No dia seguinte, você estava na UTI.


É fácil, para mim? Não tem sido fácil, para mim. Quanto mais você acha que conseguimos suportar? Hoje mesmo, saí por uma hora em São Paulo, vi duas Ferraris nessas ruas esburacadas, e pensei: eu nunca soube o que é sair gastando por aí, comprando coisas inúteis, nem naquela fase de Paris pós-conexão Ultrecht/Bruxelas. – Você se lembra? – As coisas que já fizemos... isso, nem o Alzeimer vai me tirar. Einen Augenblick, im Paradies lebte ist nicht teuer im Tod bezahlt (A morte não é pagamento muito caro para um momento no paraíso - eu, copidescando Schiller).


Também não gosto de funk, acho a maioria das letras de rap idiotas. Respeito a periferia, mas sobre a Cláudia Leite, por exemplo, eu teria um outro posicionamento de marketing para ela. Se bem que, no mundo em que vivemos, presidentes lêem Coelho (não o Amstrong, de Updike, mas o Paulo Coelho) e Ivete faz sucesso no Carneggie Hall.


Bach é o meu segundo compositor favorito, mas não, não leio partitura, sou semi-analfabeto em Excell, nunca saltei de Asa Delta e não aprendi cantonês. Não resisto a um carinho de mulher, não tenho tablet PC e nem pratico Kitesurf. O meu swot tem mais weekness do que strenghts, dezenas de threats e talvez esta última oportunidade de nos falarmos mais uma vez.


Ronaldinho Gaúcho foi apresentado à nova torcida, depois de uma pequena frustração de seus conterrâneos. Algumas moedas a mais, uma com duas faces: - Cara ou coroa? -E a nação desabrida celebra, em plena cobertura da tragédia na serra fluminense, boa sorte, Flamengo.


A tragédia na serra: mais uma cobertura patética, tão histérica quanto impotente, que me perdoem os que para lá foram levados pelo senso de honestidade que o instinto costuma converter em compromisso com a profissão.


Assassinos de vinte reais carregando água mineral compungidos, diante das câmeras. “Todas as tragédias que cobrimos me voltam como pesadelos, nessas horas”, confidenciou-me um velho repórter fotográfico”, naquela ocasião.


Quase 900 mortos, de Friburgo a Teresópolis. Um punhado de histórias comoventes, algumas barrigas e a tautologia de sempre: “Essa gente mora nas encostas porque não tem mais onde morar”, ou “A responsabilidade é dos municípios”. Passo por Juquehi, no Litoral Norte de São Paulo, e vejo seis bangalôs de alto padrão sendo construídos na encosta do morro, de cara para a Rio Santos, exatamente agora. Mas o momento já pertence à fuga de Mubarak e ao conselho feminino do Mercosul. Tiririca toma posse e Borat promete raspar o bigode: isso é notícia.


Pensando no que vamos encontrar no outro lado, andei inventariando o que vamos deixar por aqui, meu amigo, você, claro, muito mais do que eu. Você tirou daquela terra braba bem mais que automóveis e caminhões atolados: o coco, a pimenta, os carneiros, o caju, as duas casas, o mar da Bahia para deleitar os amigos, o sonho do resort, alguns alqueires que engordaram a propriedade, o peixe, a casa da antiga mina de areia monazítica e as fotos, a barraca na praia e a mineirada viciada em sua boa música, batidas e a casquinha de siri da patroa.

Tem ainda, as filhas muito bem criadas na Antropologia e na Oceanografia, a casa nas Perdizes, (sua última obra) e uma reputação invejável junto aos parceiros da sua geração, enquanto eu continuo afastando as pessoas com minhas frases infelizes como: Gente não tem edição.


Penso no que eu poderia levar: queria ver o novo filme do Carlos Saldanha, que entrevistei depois do primeiro A Era do Gelo. É sobre o Rio: tem duas ararinhas azuis e eu sou do tempo do Zé Carioca. Queria ver os filhos felizes, uma vez, nos braços de outros filhos e filhas felizes; queria me comover novamente, tomar um café na praça em Aiuruoca, MG, navegar pelo Grand Canal, bebericar mais um Chablis nos jardins da Fundação Rotschild, em Paris, olhar paredes do museu Gulbenkian de NY, assistir a mais um espetáculo do Corpo, talvez me casar com uma daquelas bailarinas. No fim, uma sonata de Beethoven, numa sala sombria, com uma taça de Borgonha. Ou um striptease numa boate do Oklahoma. A gente se vê.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Colômbia


Elizabeth, a I, tornou-se A Rainha Virgem, mas era apaixonada por Felipe II e deu a Drake o título de sir.

No Brasil, chamaríamos aquilo de lojinha de doces. Uma cubo forrado de prateleiras com embalagens coloridas, na esquina de um dos shoppings mais caros da cidade, o Avenida Chile. O balcão frigorífico forma um ângulo reto com seu vizinho, seco e mais antigo; em cima deste, dois mostruários com arepas (massa de milho) e buñuelos (bolinhos de queijo); em seguida uma vitrine e um guichê servindo de caixa. Todo o conjunto não ocupa mais de 15 metros quadrados. Lanches prontos saem mais. Um sujeito de meia idade, com cara de gerente, faz o troco. Outro, atarracado e feliz, corre de um lado para o outro. Uma bela jovem nativa enfeita a face externa dos balcões.

Pensei que fosse freqüentadora. Resistiu, quando pedi para fotografá-la em primeiro plano. Lembrei-me do daguerreótipo de Melquíades, nos 100 anos de Solidão. Na Colômbia, as diferenças de classe não saltam aos olhos, como no Chile ou no Peru. O povo lembra vagamente o argentino, com aquela dignidade indecifrável que invejamos em segredo. A cultura é espanhola. Os cafés Juan Valdéz (rede colombiana) substituem os Starbucks que se vê no Chile. Fuma-se, ainda, e joga-se muito na loteria, mas os cassinos parecem navios-fantasmas.

Bogotá se divide em duas, ao longo da cordilheira, que fica a leste da cidade: o norte rico e o centro degradado, cercado, ao sul, por um cinturão de pobreza que se distingue facilmente, nos dias claros, do alto do funicular que leva ao cerro Monserrate, uma espécie de Penha carioca, com sua igreja do senhor caído.

A polícia está em toda parte e se confunde com o exército em seus macacões de camuflagem. O crime é menos evidente, mas os resquícios autoritários do último governo, sucedido por um militar liberal, me transmitiram uma nostalgia incômoda, com suas notícias de “subversivos” versus “autoridades”.

As feridas ainda estão abertas: a morte de 40 frequentadores do Club El Nogal, em 2003, chocou muita gente, assim com outros ataques das FARC, nos últimos anos. Mas o contraste entre as zonas G (gourmet) e T (calçadão vizinho ao shopping Andino) e os casebres e galpões abandonados da zona sul, assim como aqui, parecem não incomodar ninguém. Já os colombianos ricos não têm receio de ostentar o seu poder.

Mono Jojoy, um dos últimos chefes das FARC, foi morto três meses antes da minha passagem por Bogotá. Ele se tornou mais conhecido no fim dos anos 90, ao participar das negociações de paz no governo Andrés Pastrana (1998-2002). No último Natal, foi a vez de Pedro Guerrero, El Cuchillo, chefe do Eparc (Ejército Revolucionário Popular Antiterrorista Colombiano), extrema direita que já foi ligada ao governo mas que, ultimamente, aliou-se às FARC, em busca de uma saída para a fronteira com o Brasil.

Nenhuma dessas facções tem o apoio da população. Apesar da corrupção não poupar nenhum dos três poderes (afirma a imprensa local), o governo de Manuel Santos tem a chance inédita de pacificar o país e de promover a redução de suas desigualdades, se agir com a prudência que marcou seus primeiros movimentos na sucessão de Álvaro Uribe. Ele também vai precisar de muita cautela com seus dois vizinhos de muro, conhecidos populistas de esquerda, para não falar da colega mais poderosa da região, vejam só, uma ex-guerrilheira.

A frequência, na tal bodega, é feita de bancários e assistentes das clínicas vizinhas, além dos empregados do shopping. Como no Brasil, há uma espécie de comércio vicinal dos grandes centros comerciais, como eles os chamam (em vez de shopping centers). Essas biroscas atendem às necessidades dos que servem os poderosos. Nenhuma relação com os ambulantes do centro, com seus tentáculos de aparelhos celulares algemados à roupa, como polvos, para evitar os furtos, e que vendem ligações locais, nacionais e internacionais nas barbas das grandes operadoras.

Na zona norte ou no centro, o que mais me fascinou, em Bogotá, foram as busetas, que se pronunciam buzetas (pequenos buzes). Deixam a cidade mais alegre, com suas cores e decoração naíf. Por dentro, revelam-se incrivelmente zen, apesar da barulheira da rumba que envolve corpos cansados demais para bailar. Elas surgem do nada e páram em qualquer lugar. São o meio de transporte mais eficiente da cidade, cujas ruas secundárias estão sempre engasgadas, como as daqui.

Tudo o que para nós é Rumba, para eles é Porro, Salsa ou Bambuco. Eu também não sei distinguir o sertanejo raiz do romântico ou do universitário. As casas noturnas ou baladas, como se diz, ficam nas cercanias da zona T, entre as ruas 79 e 85. Vale a pena conhecer a zona T, assim como o Parque 93, ambos repleto de bares e restaurantes animados. Como turista acidental, eu sugeriria, antes de tudo, um passeio a pé pelo centro (Candelária), onde ficam o Museo del Oro e o de Botero.

Vi missas lotadas, mas a fé católica parece esgarçada, flutuando nas abóbodas de velhas igrejas. Nem sinal da febre pentecostal que assola o Brasil. Em compensação, a praça Bolívar é uma viagem arquitetônica. Ao lado, o palácio do governo, com sua imensa bandeira e sentinelas que parecem soldadinhos de chumbo, são bem divertidos.

Também fui a Cartagena, cujo centro amurallado é imperdível, assim como o Museo Naval del Caribe, que me inspirou um reveillon de penetra no Café del Mar (não havia mais ingressos), na muralha mais atacada pelos piratas. No século XVI, eles obrigaram a coroa espanhola a construir 14 fortes na cidade para defender o ouro roubado dos inca, dos tairona e dos zenu. Foi minha singela homenagem a Francis Drake. Fiz um ar de pânico ao perguntar ao Felipe Andreoli se o CQC estaria gravando na festa. A contragosto, ele entendeu a piada. Não é má pessoa, mas a companhia dele era muito melhor.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Graduação


Esta deve ter sido difícil

No dia 14/12, às 17h10, fui informado de que a graduação do meu filho marqueteiro e propagandista, Ricardo, pela ESPM, ocorreria naquela mesma data, às 20 horas, no colégio salesiano de Santana, São Paulo, capital. O céu armava uma daquelas tempestades que fazem o pessoal da Eletropaulo estremecer; meu carro tinha ido para a revisão. Eu estava no Brooklin, mas tinha que passar por Santo Amaro, onde mantenho um terno para essas ocasiões. Todos aqueles lugares-comuns dos discursos de paraninfos e formandos me serviam: “Por que fui avisado em cima da hora?”, “Até ele conseguiu!”, “Não havia um lugar mais longe para essa festa?”.

O périplo foi um pouco além do lugar-comum, com direito a mapa do Google, taxi modelo VW Santana e um motorista cheio de boa vontade, mas cego como um morcego, munido de um GPS fabricado na China e vendido no Paraguai. Depois de alguns banhos de chuva em busca de informações, chegamos a uma ladeira de Santana onde o tráfego parou completamente. Levei quase um minuto para perceber o que estava acontecendo, embora 50 metros antes, tivesse visto uma estátua de Domenico Sávio, principal discípulo João Bosco, fundador dos salesianos: um gigante do espírito, segundo a igreja católica: estávamos a poucos passos do nosso alvo.

O evento – totalmente terceirizado – manteve com todos nós, seus patrocinadores, uma relação tão breve e impessoal quanto possível. A beca, bem como aqueles chapeuzinhos quadrados que os nossos garotos o jogam para o alto, imitando os do cinema americano, eram fornecidos por meio de um depósito-caução, para serem devolvidos imediatamente após a foto do bem-aventurado com a respectiva família. Pergunte sobre os colegas do seu filho: os créditos e as opções/especialidades são cruzados: eles mal se conhecem de algumas ficadas nas Economíadas.

No pátio do colégio salesiano, onde uma tiazinha (a sobrinha era formanda) acabara de estacionar o seu veículo, perguntei, quase ao mesmo tempo em que ela, a um cidadão que passava, se estávamos, de fato, no local indicado. – Qual é a formatura? – ele respondeu, perguntando. – A da ESPM, respondi contrariado. – Ah, tá – ele acenou, alegremente – é subindo essas escadas. A da União Cultural é naquele outro pavimento à direita. Legumes, na terceira prateleira, carnes, na gaveta de baixo.

Já tínhamos subido uns cinco degraus. Nos cinqüenta que faltavam, não resisti a contar à tiazinha o que me aconteceu, trinta anos antes, quando fui ao casamento do João de Barros, ao qual ele jura que eu jamais compareci. O João era um foca brilhante que apareceu na sucursal de OG, no final dos anos 70, como alguns amigos que ainda estão por aí devem se lembrar: Otávio, Marco Antonio Antunes, Enéas, Fideo, Di Nardo, Joao Teixeira. Pouco depois de conquistar nossa simpatia, missão difícil, na época, ele resolveu se casar. Não com a gente, claro.

A recepção, como se dizia naquele tempo, seria no Morumbi, por conta da família da moça, abastada, segundo a lenda: imperdível. No entanto, depois de faltar à cerimônia religiosa por causa de trabalho ou de algumas baforadas – não me lembro bem – fui sozinho para o local da festa, atrasado, com um endereço na mão e uma vaga idéia de onde ir. Depois de muito circular, cheguei à rua indicada e comecei a procurar pelo número: não estava longe. De repente, um grande jardim iluminado, pessoas estacionando os carros, garçons com bandejas. Na porta, como no pátio dos salesianos, não deixei de perguntar:

- O casamento do João? – É aqui mesmo, me foi confirmado. Logo em seguida, uma rodinha, um chope. Outra rodinha, um uísque, salgadinhos, boas piadas sobre o João, enforcado assim tão cedo, o pobre. Mais piadas contra o noivo, mais intimidade, novos amigos, o tempo passando,e nada do João aparecer. Será que ele aguenta? – ríamos: a noiva era estupenda e acabava de passar por nós, cheia de energia. Lá pelas tantas, comecei a dar por falta dos amigos. Nenhum de nós era normal, mas havia algo estranho no ar.

Finalmente, alguém anunciou: - Lá vem o João. Passava das duas da manhã. Embora eu estivesse ligeiramente alterado, enxergava muito mais do que hoje: aquele, definitivamente, não era o nosso João. Nunca mais eu soube se houve duas festas na mesma quadra, se o número ou o nome da rua estavam errados, se o outro noivo era um joão simples, como o nosso, ou um desses joões que também são pedros, paulos ou antonios, como o escritor. Enfim, o João de Barros ficou muito irritado quando eu lhe disse, e passei a repetir, nos últimos anos, que, sim, estive em seu casamento, embora ele não nunca tenha me visto por lá.

No meio da formatura (chegamos em tempo) fomos informados de que o paraninfo de uma das turmas tinha acabado de chegar, depois de ter ido parar numa das três ruas Henrique Mourão existentes na capital paulista, esta no bairro do Butantã, que fica do outro lado da cidade. Durante a comemoração, um bom discurso de aluno e muitos discursos chatos de professores. Num deles, descobri um excelente boteco, nas costas dos salesianos, o Bar do Luiz, onde fizemos o nossa própria graduação depois da solenidade oficial. Vencedor de varios concursos, como o de melhor petisco do Boteco Bohemia 2006, o bar fica na rua Augusto Tolle, 610. Isso não é merchand, embora o nosso formando tenha estudado na ESPM.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Lazer, esporte e cultura



Papar garotas suecas com 20 anos ou mais foi sempre objetivo de todo brasileiro da minha geração, desde quando Garrincha marcou presença naquela área com seu passo torto. Julian Assange não era sequer um pingo a caminho do útero materno. Não digo isso em desagravo ao herói do momento, mas em homenagem a meu velho amigo, Otávio Bueno da Fonseca, o Sarrafo, irritado com a hipocrisia da cobertura que começou com o William Bonner chamando o site do cara de uaiqueliques, em vez de uiqueliques. Falha irrelevante, penso, se comparada às lágrimas derramadas sobre a notícia da morte do nosso companheiro, Roberto Marinho, em 2003, devidamente registradas no Youtube. Afinal, um âncora (sobretudo da Rede Globo) tem que manter a emoção sob controle.

Otávio foi meu chefe de reportagem em O Globo, esse grande jornal brasileiro que tenta desaparecer nas trevas da contemporaneidade, seguindo o saudoso Jornal do Brasil. Para o chefe das Américas da MSLGroup/Publicis, Jim Tsokanos, com quem tive o prazer de trocar duas palavras, na última sexta-feira (17/12), a imprensa brasileira está em ascensão, enquanto a norte-americana despenca ladeira abaixo. Não sei se ele estava tentando ser agradável ou falava da consolidação de capital na mídia regional e do interesse dos investidores externos nas empresas locais de comunicação, de olho na mobilidade e na tevê digital. No segmento da mídia impressa, o efeito Internet, por aqui, tem sido igualmente devastador.

É verdade que, no Brasil, os bloggers mais conhecidos estão muito ligados às empresas comunicação. A Míriam Leitão, por exemplo, é o trade marketing da Rede Globo. Está no Bom dia Brasil, em O Globo, na CBN, na Globonews, no G1 e em seu próprio blog: dificilmente você escapa da Míriam Leitão. Também é verdade que a nossa integração digital ainda está em andamento, mas não se pode ignorar a pressão que circula nos subterrâneos da mídia convencional, como os túneis que deram passagem ao comando do tráfico no Alemão, provando que, afinal, o conjunto de favelas merecia a definição de complexo.

O comentarista/blogueiro Juca Kfouri é outro exemplo: seu esforço para dar alguma importância à derrota do Internacional para o Mazembe, do Congo, no último dia 14/12, ajudado pela presidente eleita, Dilma Roussef, na melhor tradição seca-pimenteira do Planalto, rendeu uma enxurrada de protestos na web, provando que o futebol brasileiro, apesar da mediocridade e do mercantilismo, ainda reina soberano como o esporte bretão de maior prestígio nessas terras de Santa Cruz. Reserva moral do jornalismo esportivo, Kfouri meteu o pé na lama ao lembrar o sofrimento dos cerca de 10 mil gaúchos que ainda teriam que pagar as prestações da CVC. Preconceitos à parte, na luta insana para preservar o próprio emprego, o vizinho do Washington Olivetto não se distingue de seus colegas.

Enquanto os jornalistas esportivos lutam pela sobrevivência, na ampla entressafra do futebol, na qual Cléber Machado tem que narrar corrida de bicicleta e kart beneficente (19/12), nossos representantes, em Brasília, tratavam de melhorar os próprios salários, elevados para R$ 26 mil mensais, fora as verbas de gabinete, extras e emendas orçamentárias eventualmente desviadas para entidades fantasmas, como as que o Estadão denunciou, na semana passada, e que custaram a relatoria da Comissão do Orçamento ao senador Gim Argello, do PTB do DF.

Para quem não se lembra, o DF também é o domicílio eleitoral dos ex-governadores José Roberto Arruda e Joaquim Roriz, da esposa-candidata, Leslian e do governador eleito, Agnelo Queiroz, do PT, protagonista da Operação Shaolin, que apurou, no ano passado, um rombo de R$ 3 milhões do programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte, quando ele estava ministro. Melhor o Agnelo da novela das oito, sobrinho da Gemma e filho do Totó. Nessuno parla italiano, ma nessuno ha aiutato, o incoragiatto Berlusconi a mantenerse premier.

Enquanto Lula corria ao cartório para registrar as realizações de seu governo (just in case), e José Dirceu declarava nunca ter saído do Planalto, as administradoras norte-americanas de cartões cancelavam o serviço que garantia alguma renda ao Wikileaks, mas o socialista Barak Obama anunciava um corte de impostos de US$ 800 bilhões, a continuidade da guerra cambial contra a China (o FED vai emitir US$ 600 bilhões no primeiro semestre de 2011), medidas que devem fortalecer a indústria e o emprego de seu povo. Com 46% de aprovação em dezembro (abaixo da popularidade de Bush), Obama conseguiu aprovar, este ano, a reforma do sistema de saúde e a Lei Dodd-Frank, que restringiu a especulação dos bancos com os derivativos que causaram a crise econômica de 2008.

Por aqui, a popularidade do Nosso Guia alcançava 87% de ótimo ou bom, neste mês, enquanto o impostômetro, da Associação Comercial, ultrapassava a marca de R$ 1,2 bilhão, 20% acima do arrecadado em igual período do ano passado, fazendo o país voltar a ser um grande exportador de primários e a indústria local vergar sob o peso de uma infra-estrutura deficiente e uma das matrizes energéticas mais caras do planeta, questões agravadas por uma carga fiscal que inviabiliza qualquer chance de competição com os chineses ou com os norte-americanos em manufaturados.

Assange, que não chega a ser uma nova forma de fazer jornalismo, como arriscou um comentarista da CBN, neste sábado (18/12), revelou a tacanhice da política externa norte-americana. Uma área na qual o presidente Lula – apesar da falta de tato, em alguns momentos – lembrou Garrincha. Obama pode não ser exatamente socialista, mas entre os nossos, temos o Paulinho da Força (PDT), o Netinho de Paula (PC do B), o Paulo Skaf e Gabriel Chalita (PSB): - Que tal?

Mas o Socialismo nos legou as secretarias de Cultura (a primeira do Brasil foi criada pelo governo do Ceará, em 3/10/1966, em plena ditadura). Mais adiante, esses organismos passaram a responder, também, pela gestão do turismo, do esporte e do lazer. Vem aí a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Quanto à cultura, mesmo corroídos pela Internet, os jornalões me trouxeram, neste fim de semana: As artérias da pedra e outros veios, de Mário Chamie (secretário de Cultura na cidade de SP durante a gestão de Reynaldo de Barros, de 1979 a 1983), vejam vocês; uma releitura de O Nariz, de Gogol, uma resenha que me convenceu a comprar o livro de Ediney Silvestre e um texto brilhante do padre Carlos Moraes, O Ateísmo toma o ônibus (pág. J8 do caderno Alias, OESP, 19/12).

Moraes lembra os séculos de asfixia social da igreja e que, nos EUA, o filósofo Daniel Dennet, autor de A Perigosa Idéia de Darwin, todos os anos organiza e dirige corais de Natal com seus vizinhos, mesmo sendo ateu convicto.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Feiras


Na correria que dois jobs inadiáveis e irrecusáveis me impuseram, não tenho conseguido alimentar o blog com os nutrientes aqui servidos de praxe. Pensei em republicar o texto abaixo desafiando os amigos que me seguem a descobrir quem seria o autor: Rabelais ou dona Maria Stella Libânio Christo, a mãe do Frei Beto? - O primeiro que adivinhasse ganharia uma coleção de inéditos do Julio Cortazar, fresquinhos, segundo a banca mais próxima, que não me cabe indicar. Depois, lembrei-me que nesta janela, não cabem segredos.

Deixo o presente, portanto, para o amigo secreto, inevitável como a morte, e brindo os frequentadores de feiras, como eu, com esta receita do Eduardo Galeano (As veias abertas da América Latina), da qual morri de inveja até morder a primeira jabuticaba, no último domingo (21/11). O texto cabe num livrinho de bolso, Mulheres, desses que as livrarias de aeroportos deveriam vender, em vez de best sellers de baciada. Pela qualidade, não pelo fato de as mulheres estarem tão em voga e nós, homens, neste fim de feira que inspira o desânimo.
A Feira
A ameixa gorda, de puro caldo que te inunda de doçura, deve ser comida, como você me ensinou, com olhos fechados. A vermelhona, de polpa apertada e vermelha, deve ser comida sendo olhada.
Você gosta de acariciar pêssegos e despi-los a faca, e prefere que as maçãs venham opacas para que cada um possa fazê-las brilhar com as mãos.

O limão inspira em você respeito, e as laranjas, riso. Não há nada mais simpático que as montanhas de rabanete e nada mais ridículo que o abacaxi, com sua couraça de guerreiro medieval.

Os tomates e os pimentões parecem nascidos para se exibirem de pança para o sol nas cestas, sensuais de brilhos e preguiças, mas na realidade os tomates começam a viver a sua vida quando se misturam com orégano, ao sal e ao azeite, e os pimentões não encontram seu destino até que o calor do forno os deixa em carne viva e nossas bocas os mordem com desejo.

As especiarias formam, na feira, um mundo à parte. São minúsculas e poderosas. Não há carne que não se excite e jorre caldos, carne de vaca ou de peixe, de porco ou de cordeiro, quando penetrada pelas especiarias. Nós temos sempre presente que se não fosse pelos temperos não teríamos nascido na América, e nos teria faltado magia na mesa e nos sonhos. Ao fim e ao cabo, foram os temperos que empurraram Cristóvão Colombo e Simbad, o Marujo.

As folhinhas de louro têm uma linda maneira de se quebrarem em sua mão antes de cair suavemente sobre a carne assada ou os ravioles. Você gosta muito do romeiro e da verbena, da noz-moscada, da alfavaca e da canela, mas nunca saberá se é por causa dos sabores ou dos nomes. A salsinha, tempero dos pobres, leva uma vantagem sobre todos os outros: é o único que chega aos pratos verde e vivo e úmido de gotinhas frescas.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Esquerda e Direita


Olha aí, Azenha, que fim levou a sua Perestroika
Eu e o Ramón, meu amigo de Bauru-SP, estamos perdendo uma boa parte da Mostra Internacional de Cinema de SP, quer dizer: eu consegui ver, no domingo 26/10, Uma Casa para o Natal, do norueguês Bent Hamer (ótimo); no sábado, 31/10, o maluco Tio Boonmee, do tailandês Joe Weerasethakul (Palma de Ouro de Cannes deste ano), além das quase seis horas de Carlos, de Oliver Assayas, cujo ator principal, Edgar Ramirez, causou frisson na platéia do shopping Frei Caneca. Pretendo assistir ainda, pelo menos: Vênus Negra, Aprendiz de Alfaiate e Rosas a Crédito, de Amos Gitai, que a monitora do festival com quem conversei achou “parado”.

Um lugar qualquer, de Sofia Coppola, Você vai conhecer o homem de seus sonhos, de Woody Allen e Bróder, de Jéferson De, vão chegar ao circuito comercial. Mas perdemos: Turnê, de Mathieu Amairic e Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami. No meu caso, por culpa da correria da metrópole; no do Ramón, por desfrutar da relativa tranqüilidade da cidade sem limites (no bounderies), que nos deu Pelé e um belo sanduíche, mas fica longe da capital. Eu e ele gostamos de cinema. Somos amigos há mais de cinco décadas, apesar dos intervalos impostos pela vida e pela morte. Mas eu, dificilmente seria rotulado como um sujeito de direita e ele, de esquerda.

Se algum desses rótulos nos coubesse, talvez tenhamos sido um pouco beats, no início da estrada, por conta do Kerouak que um amigo levou da capital (eu também morava em Bauru); três ou quatro poemas de Guinsberg e umas crônicas de Burroughs, além, é claro, do som dos Stones de Brian Jones x Mick Jagger, numa época em que julgávamos os Beatles meio caretas, exceto, talvez, pelo John. Passar uma noite na fila para ouvir o Paul McCartney era algo impensável, assim como imaginar o Keith Jarret estrelando Piratas do Caribe, seja no mundo macarthista de Walter Elias Disney, seja no pós-moderno de Justin Beaver.

Isso, para mim, é muito mais relevante do que pensar que o primeiro repórter a entrevistar o Michail Gorbatchev, da Perestroyka (pela Rede Globo) foi o Luiz Carlos Azenha, nosso foca no Diário de Bauru e hoje um dos principais jornalistas engajados no PT, ou que o jornalista brasileiro que cobriu a queda do Muro de Berlim foi o Pedro Bial, apresentador do Big Brother e ex da Renée Castelo Branco, musa das assembléias comandadas pelo Fernando Pacheco Jordão, no Sindicato dos Jornalistas, logo depois do assassinato do Vladimir Herzog.

Essa questão, de direita ou esquerda, me foi trazida, aliás, por um outro amigo, num desabafo sobre o novo sócio: “Eu sou de esquerda, ele, de direita, não concordamos em nada”. Eles podem divergir em tudo, mas não sei se cabe essa diferenciação. Há um terceiro amigo que pertenceu ao mesmo grupo dos que odiavam os Beatles e amavam os Rolling Stones. Ele é pecuarista e produtor de cana e laranja, atualmente. Considera o novo Código Florestal, do Aldo Rebelo (PCdoB) como um avanço e votou no PT. Já eu, vejo o novo Código como um perigo e não declaro o meu voto.
“É a realidade”, ele argumenta, “só vamos legalizar o que já está feito”. Mas, nos anos 60, 90% das araucárias do Paraná foram arrastadas pelas correntes da soja: você tinha que preservar 20% da sua área, mas só precisava vender esse pedaço a um cunhado para desmatar 80% daqueles 20%. Brigamos, bebemos e mudamos de assunto. Não sei mais quem é de direita ou de esquerda.
Na véspera do segundo turno, aliás, as perspectivas eram tão óbvias que até os institutos de pesquisa acertaram o resultado. O curioso é que tanto Dilma, quanto Serra tiveram a mesma formação de esquerda (marxista-leninista). Para um lado, os vícios do sindicalismo de Vargas (de origem facista), os escândalos de corrupção, a gestão neoliberal da economia e o desenvolvimentismo desautorizavam a bandeira da revolução social. Para o outro, Serra, além ser palmeirense, traria a elite de volta ao poder, apesar de sua origem e realizações, como o genérico, as vacinas para os idosos e a luta contra o cigarro.

No sentido original do termo, no parlamento francês, ambos pertenceriam à ala da esquerda, que defendia os pobres, hoje chamados de nova classe média. Enquanto isso, os novos ricos tornaram-se ídolos da classe média: Cláudia Leite, Ronaldinho Gaúcho, Felipe Massa, Abílio Diniz; dos aristocratas com algum espírito, só restaram os que estão no filme do Jabor; conservadores e liberais praticamente caíram na clandestinidade. Nem a religiosidade serve mais como parâmetro: ateus ou agnósticos, estão (estamos) completamente fora de moda, tanto à esquerda, como à direita.

Falemos então sobre o tea party, que, no bom programa da Maria Cristina Poli, o novo Jornal da Cultura, um comentarista associou erradamente à Guerra da Secessão, em vez da Guerra da Independência, onde tudo começou por causa dos impostos que os ingleses cobravam sobre o chá, entre outros produtos. Liderados pela Sarah Palin, aquela pantera, eles continuam contra os impostos, mas também não gostam de homossexuais, imigrantes e pobres em geral. Defendem a supremacia dos EUA, Deus, a família e a propriedade. E acabam de chegar ao Congresso. Mais uma vez, portanto, os norte-americanos estão à nossa frente: lá, pelo menos, eu teria inimigos que valeria a pena combater.